Almanaque Raimundo Floriano
Fundado em 24.09.2016
(Cultural, sem fins comerciais, lucrativos ou financeiros)


Raimundo Floriano de Albuquerque e Silva, Editor deste Almanaque, também conhecido como Velho Fulô, Palhaço Seu Mundinho e Mundico Trazendowski, nascido em Balsas , Maranhão, a 3 de julho de 1936, Católico Apostólico Romano, Contador, Oficial da Reserva do Exército Brasileiro, Funcionário Público aposentado da Câmara dos Deputados, Titular da Cadeira nº 10 da Academia Passa Disco da Música Nordestina, cuja patrona é a cantora Elba Ramalho, Mestre e Fundador da Banda da Capital Federal, Pesquisador da MPB, especializado em Velha Guarda, Música Militar, Carnaval e Forró, Cardeal Fundador da Igreja Sertaneja, Pioneiro de Brasília, Xerife nos Mares do Caribe, Cordelista e Glosador, Amigo do Rio das Balsas, Inventor da Descida de Boia, em julho de 1952, Amigo da Fanfarra do 1° RCG, autor dos livros O Acordo PDS/PTB, coletânea de charges, Sinais de Revisão e Regras de Pontuação, normativo, Do Jumento ao Parlamento, com episódios da vida real, De Balsas para o Mundo, centrado na navegação fluvial Balsas/Oceano Atlântico, Pétalas do Rosa, saga da Família Albuquerque e Silva, Memorial Balsense, dedicado à história de sua terra natal, e Caindo na Gandaia, humorístico apimentado, é casado, tem quatro filhos, uma nora, dois genros e dois netos e reside em Brasília, Distrito Federal, desde dezembro de 1960.

José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo sábado, 07 de janeiro de 2023

A DOR (CRÔNICA DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

A DOR

José de Oliveira Ramos

 

Pessoas não sentem as dores por conta da anestesia do sofrimento

 

A parada, seguida de mais um olhar – sempre na mesma direção: o céu e o seu azul mais azulado, sem nuvens que continuem a acalentar o sonho. O sonho do vento, e mais tarde, o milagre da chuva.

A ausência da chuva doía mais que o sol causticante assando a pele enegrecida, ressequida, elevando-a a uma temperatura, que nem os mais fortes conseguem suportar. Doía. Doía muito mais que um corte sangrando em qualquer local do corpo.

Hoje, mais de sessenta anos depois, ainda que num ambiente climatizado, percebo que aquela dor doía muito. Doía na alma e transcendia para a vida que se pretende eterna. Doía muito. Doía mais que a sede ou o martírio de sonhar com a água.

Eu não sabia que doía tanto.

A seca dói.

Dói mais na alma – e perpetua essa dor – que no corpo. Até as lágrimas ficam escassas, porque são líquidas e o corpo faminto as absorve. Não há força nem sofrimento que as façam sair olhos à fora.

Não há poesia nesse sofrimento.

Só dor.

Dor que dói.

A fome acompanha a dor, mas a dor continua doendo mais. A fome, eventualmente, pode ser saciada, mas, a dor não. A dor dói. A fome desaparece com qualquer coisa que a mão leve à boca – “qualquer coisa” mesmo.

Não há direito de escolher cardápio, porque a fome é analfabeta e não escreve nada. Tampouco consegue ler.

Mas, a dor dói porque está na mente, na alma.

A seca dói.

Pena que os homens ou as mulheres que podem resolver o problema – nunca a tenham sentido.

Só sabe o gosto e o prazer de comer “qualquer coisa”, quem um dia já comeu barro ou folha seca. E quando tem isso para comer sem que esteja posto à mesa.

Hoje percebemos o quanto as pessoas trocam essa dor que dói por aleivosias, futilidades, mi-mi-mis ou os idiotas “je suis”.

Coisa de gente que nunca sentiu dor.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo sábado, 31 de dezembro de 2022

O POÉTICO CIO DA CHUVA (CRÔNICA DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO

 

O POÉTICO CIO DA CHUVA

José de Oliveira Ramos

 

O cio dos pingos e a explosão do orgasmo da Natureza

A cadeira “espreguiçadeira” de madeira, com assento e forro de lona antiga, como ainda há em muitos lugares que preservam as coisas antigas e confortáveis, estava colocada próximo da janela, para aproveitar a claridade da luz do dia e facilitar a leitura do livro MALCOLM X.

A magia da Natureza chamou a atenção com a claridade intempestiva provocada pelos raios que, trazendo recados divinos, pareciam dizer:

– “Preste atenção na poesia que vou escrever para leitura e compreensão dos sensíveis”!

Fechei o livro, arrumando bem o marcador de leitura, e atendi à ordem recebida emanada dos raios e, agora, dos trovões. Não. Não era uma tempestade. Era tão somente a declamação de um poema da Natureza. Na linguagem de libras.

Olhei para a parte superior da janela protegida com vidro, onde os pingos e respingos dançavam um balé mágico ao som do “barulho silencioso” e acariciante que o cair da chuva produzia ao cair no chão.

Fixei o olhar num pingo diante da insistência dele em chamar atenção. Caindo, arrastava para si pingos e provavelmente “pingas”, até formar uma gota com ares de “gota rainha”, ou “pingo rei”.

Acompanhei com os olhos a descida, para ver o que aconteceria ao final daquela procura insaciável da existência e da transformação – ou, quem sabe, da criação de pontes e laços que gerassem uma reprodução.

E, lá vinha ele, o pingo, que fora pinguinho segundos antes, e agora já era um pingão. Continuava escrevendo os versos de uma poesia no percurso da formatação.

E lá vem ele!

Descendo.

Crescendo!

Naquela descida, um desvio para a esquerda, que mostrava que a mudança do percurso não seria em vão. E continuou descendo e desviando para a esquerda para se aproximar do que entendera ser a sua parceira.

Os dois pingos se absorveram, se entrelaçaram ao mesmo tempo que um trovão ainda mais sonoro parecia dar vivas e agradecer aos céus aquilo que, com certeza, era uma cena de amor.

Um relâmpago iluminou o encontro e deu vivas.

Aquele encontro aumentou o tamanho do pingo que, por segundos que pareciam minutos, numa velocidade de milhares de anos-luz, parecendo atingir o orgasmo agora em dois, caíram no chão e se dividiram em incontáveis partes, saciando o cio de ambos para garantir a ordem reprodutiva da Natureza.

Satisfeito, e ao mesmo tempo embevecido, voltei ao marcador de páginas e retomei a leitura, enquanto centenas de milhares de pingos escreviam nas janelas a poesia da reprodução.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo sábado, 24 de dezembro de 2022

A BIFURCAÇÃO DA VIDA (CRÔNICA DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

A BIFURCAÇÃO DA VIDA

José de Oliveira Ramos

 

Por onde vou?

Diz, por onde vou?

Diz, onde estão as tormentas e as ondas que poderão me ceifar a vida.

Me diz os caminhos possíveis – sem que sejam os mais fáceis.

És a minha bússola e o meu caminho.

És o sol, e a luz da minha escuridão.

Orienta-me!

Ilumina-me, e aponta a direção mais possível – sem que seja a mais fácil.

És a minha bússola e o meu caminho.

És o oásis no deserto que me consome.

Dirige-me, como se eu estivesse num balão na Capadócia.

Sopra forte, e leva-me pelos caminhos mais possíveis – sem que sejam os mais fáceis.

Leva-me, sem precisar trazer-me.

Mas aponta os melhores caminhos – sem que sejam os mais fáceis.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo quinta, 15 de dezembro de 2022

A ÚLTIMA CHANCE (CRÔNICA DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

A ÚLTIMA CHANCE

José de Oliveira Ramos

1

Sempre gostei de “suspense”. Li não sei quantos livros de Agatha Christie, e fiz do detetive Hércule Poirot um dos meus ídolos em quase todos os romances da escritora. Por gostar da forma como ele investiga as ações e as suspeições, sem correr riscos e sem desconfiar de ninguém, mas, suspeitando de todos ao mesmo tempo. Claro que o mérito é da criação da Agatha.

Nos anos 60/70 eu trocava qualquer ocupação para ver um filme de Alfred Hitchcock – para mim, o mestre do suspense. Vi várias vezes o filme “Cortina Rasgada”, dirigido pelo Hitchcock, e pouco me importo se alguns especialistas tecem críticas à fita. À mim, me bastava o suspense que provocava.

A cena da fuga num ônibus eu acho genial, pelo suspense que causa a cada momento que o veículo se aproxima de “uma barreira policial”.

Protagonistas do filme Cortina Rasgada

 

2

Um jogo de futebol entre dois clubes considerados grandes (da elite), foi realizado numa tarde de domingo. Digamos, um Fluminense x Flamengo. Apelidado popularmente de Fla x Flu.

Durante uma semana inteira, os dois elencos treinaram em preparativos finais para a programada decisão da tarde dominical. Lances de real perigo para ambos os lados, mas a má pontaria dos jogadores na hora das conclusões em gol, nunca tiveram êxito. O jogo terminou sem gols. 0 a 0.

A decisão vai acontecer na tarde do próximo domingo, podendo acontecer até depois da cobranças de cinco penalidades máximas para cada equipe, caso o jogo termine sem vencedor no tempo normal.

Os elencos folgaram na segunda-feira. Se reapresentaram na manhã da terça-feira, para o reinício dos treinamentos com vistas à decisão. Treinos em dois expedientes. Repetem na quarta-feira, novamente em dois períodos. Na quinta-feira, apenas no período da tarde e, na sexta-feira, novamente em dois períodos, sendo que, na parte da tarde, o “treino apronto” para o jogo da tarde de domingo.

Concentração em hotéis de luxo a partir da noite de sexta-feira e descanso total durante o dia de sábado. Na manhã de domingo, após o café da manhã, a preleção do Técnico e a preparação psicológica. Revisão médica. Todos estão aptos para entrar em campo em busca do resultado que lhes garanta a vitória e o título. Mais uma chance para o título – que pode ser a “última chance” para alguns veteranos que já pensam em aposentadoria.

Lances de perigo para as duas defesas. Ninguém marca gol, graças aos bons desempenhos dos goleiros. Tempo normal esgotado. Mais 30 minutos de prorrogação. Mais 3 minutos de acréscimo. O placar não é movimentado e a decisão será através da cobrança de penalidades máximas. Cinco cobranças para cada time.

O time de uniforme branco converteu quatro cobranças e desperdiçou uma. O time de uniforme vermelho desperdiçou a primeira cobrança e o capitão vai cobrar a quinta e última penalidade. Se converter, garante o empate e a continuação das cobranças.

Jogador se prepara para cobrar a quinta penalidade

Tudo pronto. Estádio em silêncio e os torcedores do time de vermelho, contritos, rogam à Deus pelo acerto do batedor. É a última chance depois de dois jogos difíceis, muito disputados e duas semanas de treinamentos intensivos.

O árbitro autoriza a cobrança. O goleiro adversário “catimba” e se movimenta de um lado para outro. O capitão toma distância. Parte para a bola e desfere um verdadeiro petardo. A bola vai de encontro ao travessão vertical e se oferece para a defesa do goleiro. Era a última chance. Foi desperdiçada e o título fica para o time de uniforme branco.

Às vezes, aquela que parece ser apenas a primeira chance, poderá ter sido a última. A tensão vivida durante as duas semanas de preparativos não poderia ter sido desconsiderada.

Era aquela a última chance.

 

3

A tensão se torna cada vez maior. A deflagração da guerra pode acontecer a qualquer minuto, até com um sorriso. Desde que seja entendido como irônico.

Os homens nunca se entendem, por um único motivo. Eles decidem pela guerra, mas não vão ao “front” nem pegam em armas. São medrosos e muito inteligentes para isso – decidem a guerra mas não guerreiam.

As embaixadas representativas recebem orientação para que todos os cidadãos civis que vivem na cidade motivo da “briga” deixem tudo que lhe pertence por conquista e saiam dali sem demora. A tensão cresce mais ainda. A Embaixada não tem condições de atender a todos. Não há transporte aéreo. Foi tudo embargado pela possibilidade de bombardeio aéreo. Melhor não arriscar.

Naquele dia, só o transporte ferroviário será possível. O comboio único tem saída marcada para as 13 horas. Seis vagões e pelo menos 30 mil fugitivos que, em poucos minutos serão refugiados – vão para outra cidade, provavelmente onde será possível embarcar em voo aéreo.

Como transportar 30 mil fugitivos em seis vagões?

Trem descarrilhado no transporte de fugitivos

 

Para muitos entre os 30 mil, aquela será a “última chance”. Não há como correr o risco de desperdiçá-la. Todos se dirigem à gare e a algazarra entre mulheres e crianças é muito grande.

O trem está chegando. Empurrões. Pisoteamento. Choro de crianças e lamento de idosos. As portas dos vagões se abrem e, por onde entram apenas duas pessoas, duzentos lutam para entrar. Alguns esquecem que conduzem crianças e, quando lembram, voltam para apanhá-las. Em fração de segundos os vagões estão superlotados.

Ninguém quer perder aquela que pode ser a “última chance”.

O trem dá sinal de partida. Não há tempo a perder, pois a viagem até a fronteira será longa e perigosa por conta da possibilidade de bombas.

As portas se fecham e, com certeza, dos mais de 30 mil que se aglomeravam, pouco mais de 3 mil conseguiram embarcar, aproveitando aquela que, com certeza será a última chance de sair daquele inferno.

A noite chega. Tudo escuro e a via férrea iluminada apenas pelo farol do trem. A linha férrea fora atingida por uma bomba e o comboio com seis vagões sofre um pavoroso acidente. Incontáveis os óbitos.

Seria aquela fuga, a “última chance”?

 

 


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo domingo, 11 de dezembro de 2022

O BALÉ NO NOSSO PEQUENO MUNDO IMAGINÁRIO (CRÔNICA DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

O BALÉ NO NOSSO PEQUENO MUNDO IMAGINÁRIO

José de Oliveira Ramos

 

O balé do Louva-Deus

As estradas da vida já nos mostraram tantas coisas, mas tantas coisas que, uma única culminância não serviria de somatório.

Vimos, outrora, o poético sopro do vento desenhando ondas imaginárias nas águas paradas do açude; vimos o nascimento da rosa que há segundos, minutos, horas e dias era um botão; e, parafraseando o sertanejo, vimos até o casamento da raposa quando chovia e fazia sol ao mesmo tempo.

Vimos, a vida humana desabrochando em ser, transformando uma vagina num buquê de rosas que sangrava e mostrava ao mesmo tempo, o quão bela e ao mesmo tempo perfeita a Natureza divina. Vimos, também, a morte num adeus solene de quem parte – e tendo consciência disso! – acenando com as mãos como a dizer: nos encontraremos brevemente!

Vimos o semear do milho e do feijão – e isso dá um sabor diferente na hora da mastigação. É, com certeza, o ciclo da vida e de tudo.

Pois, certa noite, mal chegada, tivemos a feliz premiação de ver, também, uma fina neblina tangida pelo fraco vento que, pela nossa posição, transformava um grosso galho de acácia num palco natural da vida.

Um desenho que não foi feito por nós: ao fundo, a lua de agosto, redonda e límpida, nos trazia a silhueta de um provável casal de Louva-Deus em cópula, garantindo a preservação da espécie.

Mas, aos olhos curiosos e profanos do amor em transe, e na retina da nossa experiência, o que vimos (ou o que queríamos ver mesmo) foi um verdadeiro balé transformado num autêntico, perfeito, PAS DE DEUX.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo domingo, 04 de dezembro de 2022

O CIRCO – A VIDA NO PICADEIRO (CRÔNICA DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

O CIRCO – A VIDA NO PICADEIRO

José de Oliveira Ramos

 

Circo Garcia e o picadeiro vazio

“Vejam só
Que história boba eu tenho p’ra contar
Quem é que vai querer me acreditar
Eu sou palhaço sem querer

Vejam só
Que coisa incrível o meu coração
Todo pintado e nessa solidão
Espera a hora de sonhar

Ah, o mundo sempre foi
Um circo sem igual
Onde todos representam bem ou mal
Onde a farsa de um palhaço é natural

Ah, no palco da ilusão
Pintei meu coração
Entreguei, entreguei amor e sonhos sem saber
Que o palhaço pinta o rosto p’ra viver

Vejam só e há quem diga que o palhaço é
No grande circo apenas o ladrão
Do coração de uma mulher

Ah, o mundo sempre foi
Um circo sem igual
Onde todos, todos representam bem ou mal
Onde a farsa de um palhaço é natural”

(Letra de música cantada por Antônio Marcos)

No princípio, tudo não passava apenas de uma diversão imaginada para o entretenimento de pessoas, e o melhor caminho para mostrar aos outros, o que o cinema e o teatro não queriam ou não tinham espaço e condição para mostrar.

Alguém teve a sorte de “inventar” o circo.

Provavelmente, diferente de como tantos outros inventaram (ou descobriram) o avião, a lâmpada – e foi a partir da invenção dessa tal lâmpada, que começaram a criar a “Lâmpada de Aladim”. Por que “acendia” e chamava a atenção de outrem. Coisas de gênios atendendo desejos mil de quantos quisessem.

Inventaram o Circo. E um dos primeiros sinônimos do circo, não poderia deixar de ser: algo hilário, que diverte e onde todos, com exceção da plateia, se transformam em palhaços.

Verdade pura!

Mas, não é menos verdade que, no Brasil, algumas instituições estão tergiversando, deixando de ser apenas “instituições sociais com o mister da institucionalidade a serviço do objetivismo legal”, e estão totalmente empenhadas em “roubar” (também), a designação oficial de circo.

Um verdadeiro e assumido processo de transformação – uma apropriação indevida.

Nessas, tal qual o Tihany ou o Garcia, circos que, no Brasil, poderiam ser considerados células-troncos do trapézio, do malabarismo e da palhaçada, os componentes estão ocupando os espaços dos elefantes, dos leões e até mesmo dos trapezistas.

E, por que não dizer também, dos palhaços?

O espetáculo circense em evolução

Faz tempo que a meninada se divertia até mesmo com os nomes dos palhaços: Carequinha, Trepinha, Risadinha, Rei do Trapézio, Homem Voador, Mágico Canadense e até o melhor e maior domador de leões ou de elefantes. Todos esses nomes, verdadeiros ou não, eram escolhidos e tornados celebridades pela criançada que, ávida, fazia de tudo para merecer ganhar um par de ingressos ou “passe-livre” para os espetáculos.

Diferente de hoje, que apenas uma pessoa “indica” e um contingente de xis eleitos escolhe aquele que vai fazer palhaçadas e provocar a hilariedade a partir de absurdos cometidos ou determinados, dando-lhes o aval em troca sabe Deus do que – alguns, inconstitucionais.

Que falta nos fazem o Garcia e o Tihany!

O palhaço decepcionado

Ria-se, antes, com as palhaçadas nos picadeiros do Tihany ou do Garcia. Por muito tempo.

Ria-se!

Nos dobrávamos de tanto rir. Ríamos às escâncaras.

Depois, com o desaparecimento tanto do Garcia quanto do Tihany, passamos a nos deliciar com o aparecimento do Cirque du Soleil, mostrando seus espetáculos pela televisão.

O mundo se modernizou, os políticos se aparelharam e ficaram modernos, usufruindo de todos os direitos possíveis e se escudaram com uma ou duas ou até três instituições e se transformaram no Cirque du Freak.

Não há mais risos.

Ninguém mais ri às escâncaras!

Trapézios, elefantes sentando em cubos em obediência aos domadores, desapareceram. Ou, quem sabe, se transformaram em verdadeiros “deuses da prepotência”, olvidando até a onipotência divina.

O mundo mudou. A gente não ri mais.

Tampouco as crianças encontram motivos para rir. Vivem entretidas em descobrir à qual gênero sexual pertencem.

Até os palhaços mudaram de indumentária. Continuam com os narizes vermelhos, mas vestem uma soberba capa protetora, que os protegem apenas de nós. Mas, estarão algum dia frente a frente com Deus e serão julgados pelas suas ações, inclusive por nos roubarem o direito de rir.

Ninguém ri.

Mas, quem rir por último, terá o direito de rir melhor.

Que saudade e que falta nos fazem os circos Tihany e Garcia.

A decepção atingiu os palhaços mirins


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo domingo, 27 de novembro de 2022

QUEM TEM MEDO DA VELHICE? (CRÔNICA DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

QUEM TEM MEDO DA VELHICE?

José de Oliveira Ramos

 

O que é mesmo, ser “velho”?

 

Por que as pessoas envelhecem, e acabam morrendo?

Por que uma pessoa “velha” não se eterniza?

Quantos “velhos” temos no Brasil?

Ora, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), temos hoje, no Brasil, alguns poucos mais de 213.267.000 habitantes. Desses, garante também o IBGE, 14,8% são de idosos acima dos 60 (sessenta) anos.

Desses, existem afirmativas, são aproximadamente 15 milhões de idosos, sendo que mais de 7,5 milhões ainda trabalham, produzindo algo que tem relevada importância na carga tributária.

Mas, o Brasil sempre foi “irresponsável” no registro de informações que, de uma forma ou de outra possam contribuir para o necessário conhecimento do quantos são e o que fazem. Brasil à fora, existe um considerável número de brasileiros que sequer possuem Registro Civil (Certidão de Nascimento), ficando, assim, fora da contabilidade demográfica.

Tabu – Ser velho ainda é tabu no Brasil. “Ser velho” ainda funciona com ares e tons de ofensas, e numa grande maioria de interpretações, como se “imprestáveis” fossem todos os que, enfrentando dificuldades imensas na vida, conseguiram passar dos 60 anos. São consideradas “raridades” os que ultrapassam as barreiras dos 70, 80 ou 90 anos de idade.

“Faça da passagem do tempo uma conquista, e não uma perda.”

“Velho” tem vários adjetivos no Brasil. Alguns, pejorativos e ofensivos: “velho”, idoso, “coroa”, demente, ancião e outros. Mas, também há os que chamam esse período da vida de “terceira idade” – da mesma forma que poderia ser, também, “última idade”.

O Brasil é um país diferenciado no tocante às conquistas desta parcela da população. Direitos Sociais tem uma dificuldade enorme de sair do papel para a prática – o que acaba por ridicularizar mais ainda quem ultrapassa essas barreiras da vida.

Passagem gratuita nos coletivos?

As vagas estão sempre preenchidas, esgotadas, já foram disponibilizadas. Tudo porque ninguém se dá ao trabalho de verificar se, realmente, a informação é verdadeira. E na maioria das vezes, quando constatado que a informação é mentirosa, fica por isso mesmo e o feito por não feito. Não existe nenhum respeito pela conquista social.

Atendimento preferencial nas filas?

Os atendentes atendem mais vagarosamente que o funcionamento da mente idosa. Nos caixas de bancos, são sempre as filas que “menos andam”.

“A velhice nos traz direitos maravilhosos! Enquanto a juventude é cheia de obrigações, a velhice é o tempo em que vivemos a doce inutilidade.”

Pelo sim ou pelo não, a velhice é o estágio da vida que todos que conseguem chegar, tem consciência de que o fim se aproxima. Já dobrou a esquina e se encaminha célere para o consumatum est.

Finalmente, o que você faz durante a vida, antes da velhice chegar, para estar preparado para o inevitável?

Como a frase grifada acima, você considera a “velhice” uma conquista, ou apenas uma tarefa a mais para os que chegaram depois de você?

Você se preparou para ser “velho”, ou apenas amealhou uma conta bancária e uma gorda poupança para deixar para aqueles que estão ansiosos para você partir imediatamente?

Você é um velho? Pretende sê-lo?

Infelizmente, a “velhice” ainda não te dá o direito dessa escolha.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo domingo, 20 de novembro de 2022

O JACARÉ DA RUA DA PAZ (CONTO DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

O JACARÉ DA RUA DA PAZ

José de Oliveira Ramos

 

 

Eram três jacarés – mas todos preferiam o da casa de dona Nenê

 

Num passado não tão distante, chamávamos o local de “vila”. Vila isso ou vila aquilo. Nos atuais e pretensos tempos modernos, chamamos de “condomínio” – apenas por ter um portão e um vigia dorminhoco, que vive sentado, e nunca sabe de nada. Aliás, ele é pago para não ver nada.

Entenda-se “pago para não ver nada”, apenas, nada da vida particular dos moradores. Ele estende essa “recomendação” aos visitantes, proporcionando roubos mil e assaltos inúmeros. Mas, esse é outro assunto, que não vem ao caso, agora.

Antes, aquela “vila” nada mais era que um trecho da Rua da Paz, no bairro Misericórdia, município de Beberibe, hoje RMF (Região Metropolitana de Fortaleza).

Rua limpa, calçada com paralelepípedos, esgotamento sanitário deficiente que sempre recebia promessas de melhoria por partes dos candidatos a Prefeito.

Nunca cumpriram as promessas, mas isso não era tão importante para os cerca de 40 moradores daquele trecho bucólico que valorizava toda a rua.

Durante o raro período chuvoso, aquele trecho da Rua da Paz virava quase que uma praia de Copacabana, tamanha era a quantidade de “banhistas” que até sorteavam alguns minutos de banho debaixo dos jacarés. Faziam fila, cada um esperando sua vez.

As casas, construídas no estilo porta e janela, possuíam na parte frontal do telhado, a queda da água das chuvas através de uma canaleta que a maioria chamava de “jacaré”. Quando chovia, era comum muitos fazerem uso do jacaré para o banho gostoso e reconfortante.

Algumas mães até levavam sabão para banhar e “esfregar” os filhos, e uma toalha para secar, além, claro, de uma roupa limpa para a troca. Essas coisas viraram atração, ao mesmo tempo que respeito na Rua da Paz. A rua dos jacarés.

Cenas comuns de uma comunidade simples, onde todos se conheciam pelo nome, e muitos conviviam desde a infância. Ali, todos se respeitavam. Mas, alguns olheiros aproveitavam para “limpar as vistas” embaçadas pelo dia a dia doméstico.

Poucos entendiam, ou se faziam de desentendidos, mas a casa de Dona Nenê tinha o jacaré mais visto e desejado – e não era por conta do maior volume d´água que descia dele.

Era pela frequência dos banhistas. Dos banhistas, vírgula. Das banhistas.

Luíza – uma das filhas de dona Nenê

Dona Nenê enviuvara há pouco mais de cinco anos. Seu Horácio, homem honesto e trabalhador, sofreu um infarto fulminante aos quarenta e poucos anos. Na flor da juventude, como costumamos dizer. Deixou viúva Dona Nenê, com quarenta e poucos anos também.

O casal teve duas filhas. Luíza e Clarice que, quando Seu Horácio mudou de plano, já tinham 18 e 16 anos respectivamente. Ambas estudantes, criadas sob a rigidez paterna da época. Viviam para os estudos e para a construção do futuro, quando os pais faltassem.

Desde crianças, Luíza e Clarice usavam também o jacaré para banhar na época das chuvas. Eram conhecidas e amigas dos meninos. Cresceram, viraram adolescentes e mantiveram as amizades e o respeito mútuo.

Clarice – a filha adolescente de dona Nenê

Clarice, a mais jovem – uma menina se formando moça, deixando antever que em breve se transformaria numa mulher linda – ainda tinha alguns trejeitos infantis. Sem maldades, amiga dos meninos, banhava no jacaré usando apenas a calcinha minúscula e um vestido que, ao ficar molhado, se transformava em “transparente” enlevando a bela nudez da jovem. Um verdadeiro pecado.

Clarice e Luíza viraram as atrações do jacaré da Rua da Paz, mas em tempos diferentes, os homens mais maduros preferiam “apreciar a chuva” postados nas janelas.

Ingênuos sem pares!

Dona Nenê, a mãe das meninas, ficava entre um pé e outro para ir também ao jacaré na frente da casa – mas, sem roupa, escolhia mesmo era o banho no quintal da casa. Com certeza, ainda em luto pela morte do marido, precisava manter o respeito em orientação às duas filhas.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo domingo, 13 de novembro de 2022

O MUNDO VISTO DA MINHA JANELA (CRÔNICA DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

O MUNDO VISTO DA MINHA JANELA

José de Oliveira Ramos

 

 

Minha janela aberta para o meu mundo

 

Manhã de qualquer dia.

Em qualquer lugar, tão logo a vida se dana a tocar mais alto que todos os badalos de todos os sinos rebimbando ao mesmo tempo.

Num mesmo tom e com o mesmo som. Como se fora a abertura de uma ópera. No teatro da vida que existe em cada um de nós.

Blém, blém, blém!

Abro a minha janela. Uma e, depois, a outra.

As duas abertas para o meu mundo, tingido de um acastanhado claro. Mas, meu. São assim as minhas janelas.

O horizonte (meu!) se acastanha e, num mundo só meu, a poesia tem as cores que eu queira dar. Que eu queira pintar. Que eu queira ver. E, quero-o castanho neste momento.

Até um oásis, antes de um verde azulado pela profundidade, se tinge de tons castanhos – como meus olhos. Como meus olhos em janelas de mim mesmo querem ver.

É assim que eu quero ver, desde as minhas janelas recém abertas. Abertas às escâncaras, para um mundo castanho – como meus olhos de janelas abertas para o que antes, no horizonte, era totalmente azul.

O azul que outros olhos viam era azul

 

As minhas janelas!

Janelas de mim mesmo, que me transformei, tal qual as casas de antigamente, uma porta e duas janelas, numa moradia de coisas boas, pautáveis e paladares.

Coisas acastanhadas!

Como meus olhos, de um tom castanho claro, que consegue, nos momentos de felicidade, “ver a cor do som”. Dar cor castanha ao som.

Janelas de mim mesmo.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo domingo, 06 de novembro de 2022

A CANJICA DA VOVÓ (CRÔNICA E JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

A CANJICA DA VOVÓ

José de Oliveira Ramos

 

Milho nascendo em fileira

Hoje, próximo de uma data significativa, resolvi dar uma volta no tempo, e relembrar um pouco das boas coisas vividas no sertão – então adolescente, sempre passando as férias escolares na cada da minha Avó, figura que, se fosse minha mãe, não faria nenhuma diferença. As duas, Avó e Mãe, eram quase que a mesma pessoa.

Meu Avô, homem de poucas letras, conhecia apenas o mundo em volta de si mesmo. Tudo se resumia ao redor do que ele via e conhecia. Nunca ouvira falar de escola ou de estudar. Mas, a sensibilidade divina adquirida, compreendia e aceitava que o mundo, para outros, ia além das manhãs, tarde e noites nas Queimadas (povoado onde todos convivemos). Ele sabia que existia um mundo além daquele onde vivia. Admitia e aceitava.

Mas, nós, os netos por vezes nos cercávamos da crença que, pelo menos nos meses das férias, o mundo era aquele ali, onde vivíamos e do qual usufruíamos só coisas boas que hoje são apenas saudades.

E nunca deixamos de aceitar que ali tínhamos muito que aprender. E fazíamos isso com prazer e sem cerimônia.

Cedo entendemos que, para semear alguma coisa, precisávamos preparar a terra. Limpar a terra. Preparar a terra para o momento oportuno de semear. Tantas e tantas linhas, tantos e tantos roçados preparávamos com as nossas enxadas e com a nossa coragem. O fruto de tudo, com certeza, viria depois.

Semear o milho, para nós, era como sentir muito cedo o cheiro da canjica com coco e aquelas borbulhas de algo que nos ligaria cada vez mais à terra e aos nosso costumes – para alguns, efêmeros e passageiros prazeres. Para nós, parte da nossa própria vida e razão de existir.

Semear o milho na terra preparada, e, vê-lo crescer até “embonecar”.

Milho “embonecando

Avistada a “boneca”, o objetivo se imaginava mais próximo. E era verdade. Os resultados positivos de tantos dias trabalhados na terra, sol a sol, agora estavam por vir. Com certeza.

Enxadas à mão, a manutenção da limpeza das ervas daninhas era uma constante – que ali significava também com uma vigília ao crescimento e desenvolvimento daquelas espigas verdinhas do milho mole até atingir o amarelecimento da secagem.

Milho em espiga verdinha

Quem planta, colhe.

Quem plantar e cuidar, vai ter boa safra. No milho, e na vida.

É o milho verde que vai servir para alguma coisa. Para canjica e pamonha, por exemplo. É o filho bem orientado que vai seguir o bom caminho – esse, é o bom fruto que proporcionará a boa colheita.

Colhido, o milho verde vai à ralação.

Ralado, vai à preparação para a canjica ou para a pamonha – duas coisas que satisfazem aos que sabem o que isso significa. Desde o semear, passando por todos os demais caminhos, até o consumir – se possível com um “pozinho” de canela.

Ralação do milho verde

A ralação precede ao cozimento. Não é algo fácil. É preciso saber o que está fazendo, para não correr o risco de desperdiçar tudo que foi feito e ter que voltar à estaca zero.

Tantas espigas raladas produzirão uma quantidade xis de milho ralado que, passado por uma separação (uma “peneiragem”) produzirá um líquido que será levado ao fogo, com o acréscimo de adoçante e/ou coco ralado – sem que esse acréscimo seja algo obrigatório.

Canjica de milho verde

Podemos afirmar sem medo de errar, que tanto a canjica quanto a pamonha são duas especiarias entre as mais desejadas que a culinária sertaneja produz a partir do milho verde. O cuscuz, outra maravilha produzida com o milho, entra num estágio mais adiante – com o milho seco e moído.

Pamonha à moda sertaneja

Comer uma canjica de milho verde um dia após a sua feitura é algo divino, quase sempre à disposição daqueles que vivem na roça e trabalharam o milho a partir da sua colheita. Produzindo de forma positiva em todas as suas etapas.

Quem, como eu, viveu essa preparação da terra para o plantio do milho até o sentar à mesa para o usufruto do que foi produzido, com certeza não terá lido aqui nada que surpreenda. Mas, servirá para, entre outras coisas, matar a saudade.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo domingo, 30 de outubro de 2022

ZÉ OU ZÉ ALFREDO (CRÔNICA DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO

ZÉ OU ZÉ ALFREDO

José de Oliveira Ramos

 

Eu “praça” em 1961

 

Amigos, hoje vou honrar o nome da coluna: Enxugandogelo. Tenho certeza que em nada vou acrescentar de proveitoso neste primeiro domingo de maio do ano de 2022.

Pois, ontem, sábado e 30 de abril, recebi a graça divina, e cheguei aos 79 anos. Como se essa graça divina por si só não fosse suficiente, Deus, na sua imensa bondade, me deu um valioso bônus: a lucidez.

Nasci no dia 30 de abril de 1943, em Queimadas, então e ainda povoado de Pacajus. Vim ao mundo através de parto normal, feito e ajudado pela parteira Raimunda Buretama, por acaso, minha Avó materna.

Comecei a andar cedo e logo após o primeiro aniversário, já subia no parapeito onde ficava o pote com água. Eu mesmo me servia, quando o cururu que meu Avô criava permitia. Foi naquele parapeito onde também tomei meu primeiro catiripapo: subi no parapeito, enfiei a caneca no pote, peguei água e bebi. Despejei o resto que ficou na caneca, dentro do pote.

– Não faça mais isso! Gritou minha Avó, ao perceber o que fiz.

Cresci em liberdade total e sempre corrigido nos momentos oportunos, sem direito a choro, mimimi, ou as atuais frescuras que os pais permitem. Esses são coniventes com os descaminhos dos filhos.

Cedo ganhei uma enxada e um par de botinas para calçar quando fosse “ajudar o Avô a limpar a roça”, evitando algum acidente de percurso ou ferimento nos pés. Meu primeiro “trabalho” oficial em meio a família, foi “colocar os grãos de milho ou feijão” nas covas preparadas para o plantio.

A bifurcação no caminho

Os períodos de seca daqueles anos, que criavam na linha do horizonte apenas miragens, acabaram ensejando nossa mudança em êxodo, para a capital, Fortaleza. Os avós, meeiros das terras de propriedade da família Albano, preferiram permanecer morando em Queimadas. Fora mantido o ponto de referência e de “socorro” numa necessidade extrema.

Era a hora de trocar o poético cântico do vem-vem nos fins de tarde, quando eu sentava na porteira para apreciar o também poético sono do sol que se deitava num céu límpido que nos dava a certeza da impossibilidade de chuvas, pelo barulho dos motores dos carros no tráfego da capital. Era a hora de esquecer a inesquecível sinfonia das cigarras e dos grilos e perder os voos rasantes dos morcegos e andorinhas pegando mariposas.

E, lá fomos nós. Na capital, a vida desestruturada e a certeza da desesperança. Só pai e mãe trabalhavam. Moradia de desabrigado foi erigida na orla marítima, mais precisamente no Pirambu.

A mudança necessária trouxe junto a adolescência e o convívio dos poucos amigos (ainda não haviam sido feitos). A escola, o Curso Primário, o Exame de Admissão e o acesso ao Liceu do Ceará.

A primeira namorada, com frequência na casa dela e a aceitação da família veio aos 16 anos. Havia uma diferença de idade de 6 anos, de mim para ela, então com 22. As irmãs dela diziam que, “ela estava me criando” – daí ela mesma me chamar de “bebê”.

Aos 18 anos, a bifurcação. Tudo poderia ter sido diferente. Fiz concurso e logrei aprovação para a ESA (Escola de Sargentos das Armas), então funcionando em Três Corações/MG.

Em janeiro de 1961, Jânio Quadros assumiu a Presidência da República. Na estruturação da sua equipe de trabalho, incluiu também alguns conceitos e fez algumas mudanças estruturais. No concurso para a ESA, fui aprovado e classificado num grupo de 40 candidatos em Fortaleza. Me submeti e logrei aprovação nos exames médico, físico e psicotécnico. Ficamos aguardando a convocação e o chamado para o embarque para Três Corações. Nunca consegui descobrir minha classificação entre os 40 aprovados. Apenas 30 foram chamados e fiquei entre os 10 para uma convocação futura possível. Nunca aconteceu.

Em 15 de maio de 1962, ingressei no Exército Brasileiro como praça. Fui servir no CPOR (Centro de Preparação de Oficiais da Reserva) de Fortaleza. Servi por um período acima do normal, em virtude da quantidade pequena dos novos praças. Ao final do período, fui convidado pelo então Comandante do CPOR, Tenente-Coronel Celestino Nunes de Oliveira, para ingressar no CPOR como aluno e me tornar Oficial R-2. Agradeci e fui cuidar da vida, continuando no caminho escolhido na bifurcação.

Trabalho na Western como Teletipista, depois de ser aprovado e rejeitar ingressar no Banco do Brasil. Fui eleito para compor a Diretoria do Sindicato dos trabalhadores na categoria, que ainda tinha a adesão dos funcionários dos Correios e, posteriormente, da recém-criada Embratel.

E o “namoro” continuava e a cada dia se tornava mais firme. Tinha mais liberdade e era quase que “o homem da casa” da namorada.

Eis que, no trabalho na Western, conheci alguém de preponderante influência no meu destino. Resolvi “terminar” o namoro antigo.

Eu hoje veím veím

 

Resolvi me envolver com o futebol. Fiz o Curso de Arbitragem e, ingressando na FCD (Federação Cearense de Desportos), hoje FCF (Federação Cearense de Futebol), me tornei um dos principais árbitros ascendentes, passando a fazer parte de uma elite que tinha ainda Gilberto Ferreira, Adelson Julião, José Felício Lopes, José Leandro de Castro Serpa, Lourálber Monteiro. Me tornei amigo pessoal de Manoel Amaro de Lima, de Clinamulte França, de Sebastião Rufino.

Por motivos que prefiro não mencionar, pedi demissão da Diretoria do Sindicato da categoria, fiz acordo com a Western, recebendo todos os meus direitos trabalhistas. Mudei para o Rio de Janeiro com a cara e a coragem. Sem profissão definida, além de ter conseguido transferência formal para o quadro de Árbitros da Federação Carioca, graças a uma indicação e o aval do General Aldenor Maia, então presidente da FCD.

No Rio, trabalhei dois anos na COSIGUA (Companhia Siderúrgica da Guanabara – naquela época em processo de privatização após a compra feita pela família Landau) e acabei me tornando “metalúrgico” tendo, inclusive, viajado para São Paulo em mais de uma oportunidade para ouvir falas em comício do líder sindical. Logo fui tocado pela mosca azul e me arrependi. Até saí da COSIGUA e fui trabalhar numa Editora Gráfica.

Casei em 1973. Separei em 1983. Me graduei em Comunicação Social – Jornalismo. Estagiei no Jornal do Brasil (curricular) e na Rádio Imprensa (curricular). Mudei para o Maranhão em 1987, onde me dediquei integralmente ao Jornalismo. Sou aposentado pelo INSS.

Sou hipertenso, o que me levou à uma “Revascularização” (Ponte de Safena). Desde então faço uso de medicação contínua.

Constituí uma nova família em São Luís, da qual nasceram três filhos – dois moças e um rapaz, todos adultos e escolarizados com ingressos em universidades.

Oficialmente sou divorciado do primeiro casamento, que me deu duas filhas nascidas no Rio de Janeiro. Hoje residem em Fortaleza – e há cerca de dois meses ficaram órfãs de mãe.

Pois, ontem, 30 de abril de 2022, Deus me conduziu pelo caminho da humildade e me permite, quando posso, servir à outrem, cheguei aos 79 anos.

Olho pelo retrovisor, vejo um caminho longamente percorrido, mas, tão digno que, se fosse necessário faria tudo mais uma vez.

Levemente escuto a sinfonia da cigarra e dos grilos; e, a cada fim de tarde me imagino sentado na porteira para olhar o pôr do sol e escutar o cântico do vem-vem.

ANALISANDO:

1 – Com certeza, se em 1961 em tivesse sido chamado para a ESA (Escola de Sargento das Armas) em Três Corações, após o curso e promovido a Terceiro Sargento, na volta para Fortaleza teria casado com a então namorada. O caminho seguido teria sido outro – e nem posso afirmar que hoje estaria aqui, vivo e lúcido;

2 – O surgimento de outra jovem na minha vida (na verdade, apenas namoricamos, viemos ter algo mais sério anos depois, mas nunca nos assumimos), mudou a rota e me colocou aqui hoje;

3 – Com certeza, Deus Onipotente foi a luz e a mão com o dedo apontado indicando o caminho a seguir. Minha vida sempre pertenceu a Ele.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo domingo, 23 de outubro de 2022

LIBERDADE, OU, LIBERDADE! (CRÔNICA DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

LIBERDADE, OU, LIBERDADE!

José de Oliveira Ramos

 

Dudu “empinando” a pipa para a liberdade

 

Luiz Eduardo. Mas podem chamar de Dudu. Ele até gostava. Se sentia bem. Íntimo, amigo!

Dudu era filho único de Messias e Dalva. Era único por entenderem que era aquele mesmo que eles poderiam criar, com carinho, atenção e sem deixar faltar nada na viabilização dos estudos – para que ele, Dudu, só se preocupasse mesmo e muito com os livros.

Messias e Dalva eram casados. Messias era filho de Marina, que ficara viúva há pelo menos duas décadas. Marina, como toda Avó, amava mais Luiz Eduardo que o próprio filho, Messias. Dudu era quase tudo para Marina. Além de único neto.

Marina morava numa casa “ainda em construção”, numa reforma iniciada pelo falecido marido. Quando tivesse o dinheiro suficiente, ela concluiria a reforma. Por enquanto, a casa grande, fora concluída apenas no primeiro pavimento, com a laje servindo também de futuro piso para o segundo pavimento.

Eis que, certo dia o destino disse “presente” e se fez cumprir. Messias e Dalva foram vítimas fatais de um acidente automobilístico. Dudu estava na escola, quando a avó Marina foi buscá-lo, aproveitando para acalmá-lo de alguma forma na hora de transmitir a notícia fatídica.

A princípio foi muito difícil para Dudu. Seria parta qualquer um. Mas, o tempo passou e ele, Dudu, acabou aceitando o destino. Menor de idade, sem renda e sem muita coisa, passou morar com a Avó – essa, viúva e também só.

Um, dois, três anos – período difícil para Dudu.

Ele precisava se apegar a alguma coisa, e acabou fazendo isso.

A avó fazia tudo por ele. Pretendia, única e exclusivamente, que ele fosse feliz. Que encontrasse o melhor destino e tivesse uma vida diferente dos demais.

Estudioso. Concentrado no que fazia e pretendia, Dudu dava o máximo de atenção aos estudos, mas não se descuidava do lazer, da brincadeira e da diversão.

Eis que Dudu se encantou com a brincadeira da pipa. Pipa, arraia, papagaio – fosse o que fosse. Era uma nova conquista de Dudu.

Mas, naquela novidade havia um particularidade. Dudu se acostumou a “soltar a pipa” num lugar cativo – a laje da casa inconclusa da avó. Era ali que, claro, Dudu se sentia do “dono do pedaço”.

Mandava a pipa para o ar, sozinho. Sem eira nem beira.

Pipa é algo para voar em liberdade

 

Dudu não conhecera algo que não fosse a liberdade. Sempre foi assim. Na convivência com os pais e, agora, na convivência com a Avó. Liberdade era o tema. Era o mote. Liberdade era tudo.

Por que Dudu escolhera para mandar a pipa para o ar, desde a laje da casa inconclusa da Avó?

A liberdade era o foco.

Dudu não queria a companhia de outros meninos. Os outros, com certeza, viveriam em torno do “corte” das pipas. Tudo em função do cerol, um elemento que descaracterizava o “soltar a pipa”.

Apreciador da liberdade, o que Dudu gostava mesmo era de “botar a pipa” no ar e, quando tivesse certeza da boa altura, romper a linha e deixar que a pipa seguisse seu caminho da liberdade.

A pipa. A liberdade. A realização de Dudu. Nada de cerol, nada de corte, nada de voltar a ser “pega” por outros meninos.

A liberdade era o mote. Era o êxtase.

A liberdade da pipa e da vida.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo domingo, 16 de outubro de 2022

DEUS PÔS AS MÃOS NA TRANSPOSIÇÃO DO VELHO CHICO (CRÔNICA DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

Transposição do Velho Chico mudou a paisagem

Jovem turista hospedado no hotel cinco estrelas, escolhe uma mesa vazia próxima da piscina, e senta. Chama o Garçom, e diz:

– Me veja uma água Perrier!

Atencioso, o Garçom se curva para o jovem, e responde:

– Um momento apenas, senhor!

Diferente em tudo, de como e quando minha avó Raimunda ordenava:

– Meu fio, bote os cambitos no jumento e vá buscar um “camim” d´água, prumode eu lavá essas coisas que tão no girau!

E lá ia eu sem direito a resmungar, pois com certeza um pedaço de rapadura eu ganharia na volta e, na “boquinha da noite”, deitado com a cabeça na perna dela, eu ainda ganhava de bônus uns “cafunés”. Daqueles que a gente escuta o dedo estalar.

Distante daquela cena doméstica, tudo era desolador. Milho e feijão semeados que não nasceram. Manivas de mandioca ressecadas e nem mesmo a maliça (erva daninha espinhosa e sensível) crescera.

Na capital, os políticos diziam que faziam tudo para melhorar aquela situação. Como? Rezariam para São José ou enviariam carta para São Pedro, pedindo chuva?

Só chuva resolveria a situação. Melhor dizendo: só água melhoraria aquela situação que a seca transformara os roçados em cenas tristes e cheias de carcaças de animais mortos de sede.

A seca dizimou muitas gerações nordestinas

Toda noite, o rádio anunciava na Voz do Brasil, que era calamitosa a situação do sertão da Paraíba, Pernambuco e Piauí. Os municípios cearenses de Icó e Barro perdera parte da sua população. A fuga para escapar da seca era diária e constante.

Cena comum, era olhar as estradas repletas de pessoas carregando pertences em fuga. Dormindo ao relento, pedindo socorro nas igrejas e até acampando sob as árvores que encontravam pelas estradas em busca de nada.

Na realidade, procuravam a esperança. E quem espera, um dia alcança. Mas, ninguém conseguia ficar parado. Era o flagelo total.

Crianças caminhavam léguas transportando água

Havia a desconfiança de que alguém ganhava com aquilo. Chamavam de “a indústria da seca”. Começaram a aparecer os caminhões-pipas. A indústria e a comercialização de cisternas e o transporte d´água em maior quantidade. Era a confirmação de que alguém estava ganhando com a seca.

Era chegada a hora de acreditar nos videntes. Um dia alguém dissera que, não demoraria muito, o sertão viraria mar.

Só um Messias para tanger o bezerro de ouro, acalmar o povo faminto e levar esperança de que, “a mão de Deus seria colocada para aplacar aquela penosa e secular situação.

Eis, finalmente, que Deus usou suas mãos e conduziu o Messias.

A água da transposição está garantindo a boa agricultura

O milagre seria chamado de “transposição”. A “transposição” do Rio São Francisco, outrora imaginada por Dom Pedro, relembrada pelo então ministro Andreazza e, sejamos honestos, iniciada durante os governos petistas. Com inúmeras falhas que não puderam ser corrigidas por conta do superfaturamento, a obra foi aos poucos sendo abandonada. O povo perdera sua importância – e suas vidas também.

Eis que, no dia 1 de janeiro de 2019, Jair MESSIAS Bolsonaro assume a Presidência da República e começa montar sua equipe técnica de trabalho. Tarcísio Freitas, o nome do anjo que, demonstrando competência e seguindo sempre a orientação divina, inicia a obra da transposição salvadora.

Horas, dias, meses e os primeiros trechos começaram a ser inaugurados. A água salvadora estava chegando e se misturavam com as lágrimas de alegria, que por anos foram de lamentos e tristeza pelas vidas perdidas.

Os campos e serras, antes vermelhos pelo barro ou cinzento pela seca, como uma pintura de Vincent van Gogh, em milagre, ficaram verdes. Verdes e produtivos como nunca haviam sido.

Acabaram as fugas. As famílias se fixaram nas suas glebas e recomeçaram na construção das suas vidas e se vangloriando da produção de alimentos para si e para o mundo.

Graças à transposição.

Petrolina desenvolve cultura da uva e do vinho gerando empregos

O solo, antes ressequido, agora é verdejante. O interior nordestino que já recebe a água da transposição, já não é mais o “polo da seca”. Ali, agora, há trabalho. Há vida. Há produção e há uma dose enorme de felicidade.

 


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo domingo, 09 de outubro de 2022

EU CREIO, PAI! (CRÔNICA DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

EU CREIO, PAI!

José de Oliveira Ramos

 

Quem suportaria essa “coroa” além de ti?

Jesus, aprendi que nenhum de nós vai ao Pai, que não seja através de ti. E eu creio nisso. Creio, firmemente!

Creio, também, que só estou aqui porque Tu queres. Sei que permitistes que eu cumpra a minha missão – para, só então, voltar para o lugar de onde vim. O barro.

Mas, nesses 79 anos completados há poucos dias, aprendi muito. Aprendi com as pessoas certas, creio. Vivi vendo e procurando (além de valorizar) compreender o sacrifício que fizestes e o sangue que derramastes por mim, por nós. Por todos nós.

E, ao que parece, em troca temos dado tão pouco – provavelmente, menos do que o pouco que Tu pedes, em troca de tudo que fizestes.

Derramastes o teu sangue. Entregastes o teu corpo em sacrifício por nós – e até esquecestes de Ti próprio.

Vês!….

Viemos do pó e ao pó voltaremos, depois da nossa missão. Mas, nesse intervalo entre a chegada e a volta, nos permites o usufruto do que só Tu és capaz de criar – e de colocar à nossa disposição.

Tudo parece pintura e até as que realmente o são, como Capela Sistina e tantas outras que destes mãos, olhos e sensibilidade para Michelangelo, Vincent van Gogh, Monet, Manet, Toulouse-Lautrec, Leonardo da Vinci, Gauguin e tantos outros nos deliciarem com cores mágicas. Cores divinas. Cores tuas.

Jesus, quem na Terra conseguiria pintar o arco-íris?

E quem faria isso usando apenas a “tela” que usas?

E as tintas – alguém conseguiria mais belas que as tuas?

Senhor, e o vento, que fizestes forte para tanger os maus; fraco para acariciar os bons, e raivoso para castigar aqueles que teimam em desobedecer – e que só lembram de Ti nas necessidades?!

E o mar?

Quem mais poderia criar o mar, senão Tu?

Quem mais é capaz de manter a vida de todos e de tudo, se não Tu?

E a chuva, o sol, a noite, o dia e o cântico mavioso dos pássaros – alguém seria capaz de criar tudo isso e manter, além de Ti?

Por tudo isso Jesus, caminho único que nos leva à Deus, eu vivo.

Eu creio!

Conscientemente, o somatório de tudo, ainda será muito pouco ou quase nada para explicar o mistério da Fé.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo domingo, 02 de outubro de 2022

OS MOINHOS, O VENTO E O TEMPO QUE PASSOU (CRÔNICA DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

OS MOINHOS, O VENTO E O TEMPO QUE PASSOU

José de Oliveira Ramos

 

 

O Moinho dos Ventos de Don Quixote

Bom dia,

Vou lhes contar uma estória que poderia ser uma história. A história de como procurar o vento, encontrando os moinhos. Encontra-lo, usá-lo e transforma-lo num viés da vida.

Sendo mais atual: baixar e usar o vento como um “aplicativo”.

Não sou Miguel de Cervantes Saavedra, tampouco sou filho de Rodrigo Cervantes e de Leonor Baptizóle, e, muito menos, nasci em Alcalá de Henares.

Na verdade, sou filho de Alfredo e Jordina, e nasci em Queimadas, ainda hoje pertencente ao município cearense de Pacajus. Sou negro, filho de uma quinta geração de africanos e uma mistura indígena.

Cedo ainda, com espírito de viajante e “percurador de alguma coisa”, fiz amizade com um primo, meu escudeiro que nunca foi Sancho Pança. Cedo, por comer muito, mereceu a alcunha de Barrigudo. Luciano Barrigudo.

Juntos, sem montaria, mas sempre caminhando na direção favorável ao vento, eu e Barrigudo, com bornal à tiracolo e baladeira em punho, saíamos caçando o vento. Difícil encontra-lo, haja vista que ele (o vento) estava sempre à nossa frente. Provavelmente movimentando algum moinho.

Não procurávamos moinhos – na verdade, minha Avó tinha um em casa, afixado na ponta da mesa grande que servia para tudo – mas, passarinhos e às vezes, considerávamos sorte se encontrássemos uma casa de marimbondos com mel.

Nisso, o vento que soprava favorável, era nosso parceiro e nos levava na direção certa do mel. Mel de marimbondos. Às vezes, até mesmo mel de abelha jandaíra ou araçá.

Para que desejar ser Don Quixote, se sabíamos aonde estava o moinho?

E, para que encontrar o moinho, se já tínhamos o vento a nosso favor, nos levando ao mel dos marimbondos e das abelhas?

Uma coisa era certa: afixado na ponta da mesa, lá estava o moinho. Claro que não era o moinho que Don Quixote e Sancho Pança tanto cavalgaram para encontrar – mas era o moinho da Vovó afixado na ponta da mesa e com meia saca de milho para moer e fazer xerém para os pintos.

E no moinho da Vovó, diferentemente do moinho de Don Quixote e Sancho Pança, eu não tinha nunca a ajuda do escudeiro Luciano Barrigudo. Tinha que moer o milho todo. Sozinho. Embora os pintos fossem tantos.

O Moinho de moer milho da Vovó

Enquanto Cervantes se casaria com Catalina de Salazar em 1584, eu, moendo milho para Raimunda Buretama, precisei mudar para Fortaleza, onde namorei uma atriz de teatro, de quem me dou o direito de não citar o nome. Casar, casei mesmo foi com Marlene, em 1973, ou 389 anos depois. Cervantes voltou para Castela, mas eu não voltei para Queimadas.

Em outras oportunidades já falei quase tudo sobre minha Avó materna. Raimunda Ferreira Gurgel, conhecida onde morava por toda vida, como “Raimunda Buretama”, por ser casa com meu Avô, esse nascido no município de Uruburetama. O povo amigo preferiu “Buretama”, e assim ficou.

Diferente de Don Quixote, João, meu avô, nunca cavalgou procurando moinhos. Quando queria o vento, sentava no portal da porteira e ali recebia “a chegada do vento percebida pela frescura”.

Desnecessário procurar moinhos, pois ele tinha o dele. Pesado. Antigo. Era nele que moía o milho que precisávamos – o dos pintos, quem moía era eu, no moinho afixado na ponta da mesa grande – fazer além do xerém.

Moinho antigo de pedra a relíquia do Vovô

Contava meu Avô, que aquele moinho antigo, grande e pesado fora presente que ele ganhou do tetravô, quando ainda moravam em Uruburetama, mais precisamente no quilombo onde fora criado. Tinha, para ele, valor inestimável e por diversas vezes deixou de vender ou até trocar por uma vaca leiteira.

Ele (meu Avô) sempre dizia para nós, os netos, para que nunca esquecêssemos: “esse moinho nunca vai precisar do vento, mas da força humana.”

Lembro que era naquele moinho, que meu avô também triturava breu para garantir a durabilidade e a rodagem da roldana do carro-de-boi para moer a mandioca nas farinhadas. Lembro também, que, quando meu Avô faleceu, minha Avó teve a ideia de vestir o moinho com panos de sacos e enterrá-lo junto com meu Avô.

Minha Avó tinha essas atitudes incomuns. Minha mãe dizia que minha Avó carregava aquelas atitudes consigo, afirmando que tudo ela aprendera com os antepassados indígenas. Fez isso mesmo, quando um bode velho “Pai do Chiqueiro” morreu. Como não fora morto pela mão humana, ela entendia que não érea aconselhável comer o bode – sequer usar o couro, pois enterrava com tudo. Quando o bode velho morreu, junto, ela enterrou um chocalho grande, amarelo. Só aquele bode carregava aquele chocalho. Era como se fosse uma coroa de rei.

O vento sem ser do moinho mostrando que existe

Eis, finalmente, que eu vi o vento. Vi. Juro que vi e ele demonstrava estar zangado – por quais motivos um certo Don Quixote poderia imaginar que ele, o vento, dependia de algum moinho?

Ele, o vento, estava ali. Poeticamente visível e até podendo ser pego.

Quando estivermos em meio a uma ventania, caminhando contra o vento à procura de algum moinho, se colocarmos as mãos no nosso rosto, poderemos “sentir” o vento. Poderemos até pegá-lo.

O vento existe, sim. Nasceu muito antes dos moinhos encontrados por Don Quixote. O vento é. É, e pronto. Há até quem algum dia pretendesse “ensacar o vento” – e o vento é “ensacável”, sim!

Ora, o que fica minutos, horas ou dias guardado dentro de um “balão” daqueles que servem para decorar festas?

Não é o vento? Então!

O vento é bom. É o vento que mantém a lavareda e queima o carvão da churrasqueira. É o vento que leva os balões multicoloridos em passeios da Capadócia – não fosse o favor do vento, não adiantaria a queima do gás que impulsiona o balão. É o vento que o mantém no alto.

É o vento que “tange” a nossa vida, que leva para distante as aleivosias ou as vicissitudes de cada um de nós.

O moinho e seu “catavento” não seriam o que são, se não fosse o vento. Vento é vida. Vento impulsiona as correntes marinhas e cria as ondas. Vento acende e apaga fogo.

E, finalmente, é o vento quem carrega desde muito longe o som que emoldura nossas vidas.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo domingo, 25 de setembro de 2022

A ENGENHARIA DA VIDA E DA SOBREVIVÊNCIA (CRÔNICA DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

A ENGENHARIA DA VIDA E DA SOBREVIVÊNCIA

José de Oliveira Ramos

 

 

O arquiteto João de Barro na construção da sua moradia

Quando começamos os estudos, aprendemos, alguns anos depois que, as espécies vivas no planeta Terra “evoluem” – de acordo com a teoria de Charles Darwin, estudioso que, contestado ou não, conseguiu deixar como válidas suas teorias.

Depois, aprendemos também, que, as espécies se renovam tanto quanto se multiplicam – embora a espécie chamada humana não esteja atentando bem para isso nos dias atuais, entendo que alguém do sexo masculino “pode e tem direito” de pretender formar uma família com alguém do mesmo sexo. Pode até formar essa família, mas vai chegar um tempo que “multiplicar”, só se for com filhos infláveis comprados nas lojas de brinquedos.

Quer dizer, a sociedade “permite” e aceita, mas a Natureza diz “não”. Mas esse é outro assunto, e não está em pauta.

Voltemos à outras espécies.

Conseguindo se multiplicar de várias formas, convivendo entre si e se alimentando de milhares de formas diferentes, as formigas, por exemplo, têm um trabalho diferente. São várias as espécies. Afirmam os estudiosos que, de uma forma ou de outra, todas são úteis entre si, para a manutenção da biodiversidade.

As formigas devem ter uma relação muito próxima na Natureza. Sim, por que, como pode um ser vivo que não usa chips, não come pizza, não anda de avião, não paga impostos, não vê futebol nem torce pelo Flamengo ou Corínthians, ser avisado de quando vai chover, e, para se prevenir, carregar para si e para toda a sua “comunidade” a ração que vai consumir durante as intempéries?

Diz o ditado popular que, “formiga que quer se perder, cria asas”. Mas existem aquelas que voam naturalmente entre uma chuva e outra. Existem, também, aquelas que adoram açúcar, e ainda, aquelas que, quando ferroam alguém, a ferroada transmite algo que dói para caramba.

Já fizeram até filmes (A guerra das formigas) com esses seres inteligentes além da conta, que nunca incomodam os humanos; além de não perderem tempo votando em qualquer 3 de outubro.

É a Lei da vida.

Mas, o nosso mundo não é habitado apenas por nós e pelas formigas. Existem outros seres. Esses, inclusive, mais livres que nós. Têm asas e lhes foi dado o direito de voar. Voar livremente. Voar para onde desejarem.

São mais felizes que alguns de nós, pois constroem suas casas ou vilas sem a necessidade de comprar barro, tijolos, cimento, ferro, e sem precisar a liberação dos CREAs. São eles os próprios arquitetos das suas moradias e sequer precisam do “habite-se”.

Não é maravilhoso, ser um João-de-Barro?

É deles o mister da certeza de que podem ou não construir suas moradias sem serem importunados pela chuva – e acabam trabalhando em casal para agilizar mais ainda a construção da moradia, pois, provavelmente, as crias estão a caminho.

Nossas estórias que viraram histórias de tanto serem contadas, nos informaram que, ao lado de um “João”, quase sempre existe uma “Maria”. João e Maria, contam as estórias que na infância nos acalentavam e faziam dormir – e precisávamos ser transportados nos braços de adultos para as nossas camas ou redes.

Assim, existe também a “Maria-de-Barro”?

Enfim, entre todos os “Joões” que sobrevivem comendo formigas, lagartas, em que consiste mesmo a manutenção da biodiversidade?

Num futuro nem tão distante, como um João-de-Barro poderá construir suas casas e nos ajudar no combate das pragas, se a cada dia cresce o desmatamento que está obrigando as aves fazerem seus ninhos de reprodução nos postes de iluminação e nas janelas dos apartamentos dos prédios?

Quem, enfim, comerá as formigas e as lagartas?

Quem será aliado da sabedoria matuta, voando, para avisar “se vai chover ou não”?


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo sábado, 17 de setembro de 2022

AVÓ – MÃE DUAS VEZES E AMOR EM DOBRO (CRÎONICA DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

AVÓ – MÃE DUAS VEZES E AMOR EM DOBRO

José de Oliveira Ramos

 

 

Avó dando cafunés no neto

Tardezinha, com o sol já frio, ela sentava no chão da latada, enquanto puxava o fumo no cachimbo de barro.

Me chamava para deitar a cabeça na perna dela. Eu, apenas aproveitava aquela vontade enorme de fazer aquilo, e fingindo ser aquela cena um castigo. Mentira minha, pois eu adorava fazer aquilo.

O cafuné. Mais cafunés. Muitos cafunés. Daqueles que a gente escutava o estalar do dedo.

Ela, fumando o cachimbo e me dando cafunés, olhava firme para a porteira da casa que ficava distante dali por uns 40 ou 50 metros.

Ninguém chegava, mas ela continuava olhando.

E tome cafunés!

Neto xingando a Avó ao ver a injeção

A febre estava alta. Garganta inflamada.

A gripe tendia ficar mais forte. Chá disso e daquilo. Chá de mastruço, colheradas de mel de abelha. Compressas de panos na testa e no peito. Unguento de Vick Vaporub para garantir uma boa respiração e o sono. Nada resolvia. Só restava uma providência.

Manhã cedo, o cachorro latia na porteira. Chegara alguém. Era a Comadre Das Dores, aquela miserável do cão dos infernos!

Um prato fundo. Uma vasilha com álcool, e o aparelho para aplicar injeção começava a ferver.

Uma ampola tivera parte quebrada e fora misturada com outra. Algodão embebido no álcool, e a rotina:

– “Vem meu fio, vem logo prumode ficar bonzim dessa gripe”!

O choro e o berreiro antes da agulha furar, com certeza acordava e assustava as pessoas que moravam por perto.

Era a “milagrosa” Benzetacil!

– O praguejar do neto era garantido: “Sai daqui mizéra. Tu num gosta de mim.”!

No dia seguinte, era difícil entender que, com a febre tendo ido embora e a gripe acabando, aquilo nada mais significava que uma dura e constrangedora prova de amor.

As avós amam em dobro e também sofrem por nós. Até nas injeções.

Só hoje eu entendo que a segunda cena nada tinha de diferente da primeira. Apenas o palco da vida era diferente. Mas tudo era amor.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo domingo, 11 de setembro de 2022

NOSSAS ESTAÇÕES (CRÔNICA DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

NOSSAS ESTAÇÕES

José de Oliveira Ramos

Primavera no deserto de Atacama

 

A escola de antigamente ensinava. A de hoje, apenas faz de conta. Quer números, quer ranking, quer justificativas para as dotações orçamentárias – e estaciona na mentira. Muitos dos que ensinam (ou dizem fazer isso) não sabem sequer para si próprios.

Pois, ainda na escola antiga, aprendi que são quatro as “estações” climáticas no ano, assim:

Estação do ano é uma das quatro subdivisões do ano baseadas em padrões climáticos. São elas: Primavera, Verão, Outono e Inverno.

Inicialmente o ano era dividido em duas partes: 1 – O período quente (em latim: “ver”): era dividido em três fases: o Prima Vera (literalmente “primeiro verão”), de temperatura e humidade moderadas, o Tempus Veranus (literalmente “tempo da frutificação”), de temperatura e umidade elevadas, e o Æstivum (em português traduzido como “estio”), de temperatura elevada e baixa umidade; 2 – O período frio (em latim: “hiems”) era dividido em apenas duas fases: o Tempus Autumnus (literalmente “tempo do ocaso”), em que as temperaturas entram em declínio gradual, e o Tempus Hibernus, a época mais fria do ano, marcada pela neve e ausência de fertilidade.

Posteriormente, para ajustar as estações à posição exata dos equinócios e solstícios, correlacionados com a influência da translação associada à mudança no eixo de inclinação da Terra, convencionou-se, no Ocidente, dividir o ano em somente quatro estações. Vale a pena lembrar que certas culturas ainda dividem o ano em cinco estações, como a China. Países como a Índia dividem o ano em apenas três estações: uma estação quente, uma estação fria e uma estação chuvosa.

Já no continente africano, países como Angola só têm duas estações, a das chuvas, quente e úmida, e o cacimbo, seca e ligeiramente mais fresca, principalmente à noite.

Foi na escola, também, que aprendi a iniciação filosófica, de que “o homem é um produto do meio em que vive”. Assim sendo, provavelmente, somos partes das estações climáticas do ano.

Que estação seríamos, quando ficamos irritados?

E quando ficamos tristes?

Ou, ainda, quando ficamos alegres?

Por que não “renovamos” a plasticidade externa do corpo, ou o que há de interno, quando passamos pelo “outono” – o nosso outono?

As árvores o fazem pela fotossíntese – além das condições naturais que a Terra lhes oferece. Novas folhas, novos galhos e um crescimento contínuo, sempre em preparativos para novos frutos.

Nossas células são diferentes, sei. Em que pese vivermos na mesma Terra que vivem as árvores, nossa fisiologia é diferente.

Mas, infelizmente, a Terra é habitada por pessoas que são continuadamente ervas daninhas. Não crescem, não mudam, não passam por nenhum outono.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo domingo, 04 de setembro de 2022

O SOM DO VENTO E A CLARIDADE NOTURNA (CRÔNICA DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

O SOM DO VENTO E A CLARIDADE NOTURNA

José de Oliveira Ramos

 

Lugar preferido para escutar o vento e olhar a claridade da noite

 

Gosto de ouvir o vento – ele tem o inconfundível som da quietude, e nos conforta, quando nos encontra em Paz.

Gosto tanto de ouvir o vento – ainda que ele faça o barulho catastrófico da destruição, mostrando o seu poder de fogo (ops! – de força) – que me ponho a respeita-lo, para melhor perceber suas graves notas musicais.

O fá, o ré, o mi e até o sol, na construção da partitura do vento – que nos embevece e chega e sai, tão suavemente, que nos transporta em voos sem asas de um êxtase para outro.

O som do vento é belo. Tem cores tão fortes quanto o arco-íris que a Natureza Divina nos mostra no seu mural celeste.

Ouço o vento, tanto quanto vejo o mar composto por águas invisíveis, que evaporam até com o mais tênue açoite – do vento!

Dia desses fui ao campo, e chegando lá, sentei no chão. Sentei, fechei os olhos e comecei a ouvir a Orquestra Sinfônica da Ventania Celestial, nota por nota, acorde por acorde, passagem por passagem que transformaram o momento numa verdadeira ópera – Divina, no Teatro Espetacular da Vida.

E veja, escutei a bela ópera, gra-tu-i-ta-men-te!

Pagando apenas com as moedas do meu tempo e da minha Paz.

Eu escuto o vento, em todos os seus mais de 50 tons!

Tem posição “top” – para usar o americanismo da linguagem brasileira – no meu “ranking” de preferências, a noite. A noite é o único momento das 24 horas que me permite ver a nitidez das estrelas. É na noite que vejo a beleza que não consegui ver durante o dia – porque a beleza noturna é invisível durante a claridade do dia.

É só durante a noite, que a claridade do dia vai embora, se preparando para voltar no amanhecer seguinte.

Sem descanso. Continuadamente!

Certa noite contemplei o céu. O céu da noite – e achei que, de noite, podia olhar melhor para Deus – tem um “que” de nobreza poética; permite o aconchego ao vento ou debaixo de lençóis.

A noite é abusivamente permissível, ainda que redundante.

Boa noite!


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo quinta, 25 de agosto de 2022

MORANDO EM PASÁRGADA – OU, COMO GANHAR O PÃO COM O SUOR DO ROSTO (CRÔNICA DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIAO)

MORANDO EM PASÁRGADA – OU, COMO GANHAR O PÃO COM O SUOR DO ROSTO

José de Oliveira Ramos

 

 

“Vou-me embora pra Pasárgada

Manuel Bandeira

Ferro de engomar – o “aplicativo” de serviço de Dona Socorro

 

Socorro. Socorro era o nome dela. Socorro não sei-do-que. Isso, neste momento não é tão importante.

Lembro bem, que era Socorro.

Lembro também, que Socorro ficara viúva fazia algum tempo. Do casamento, tivera quatro filhos. Dois rapazes e duas moças – que, agora, cabia à ela fazer alguma coisa para garantir o sustento de todos. Era, como dizem os modernos, pai e mãe ao mesmo tempo.

Negra, cabelo liso e escorrido, com as ancas curvadas que a natureza lhe premiara – sem a modelagem das atuais academias de ginástica – garantia o desenho humano “de uma mulher e tanto”.
Aliás, “tanto quanto”!

Cera de carnaúba, usada para fazer o ferro “deslizar”

 

Dona Socorro não era amiga do rei de Pasárgada. Com certeza o Rei sequer a conhecia ou receberia alguma vez – a não ser que, por motivo especial Ela fosse ao Castelo para entregar alguma roupa especial de Sua Majestade.

Mas, se nunca foi à Pasárgada, hoje provavelmente Dona Socorro está no melhor dos céus. O céu que ela, em vida, fez por merecer.

Senão, vejamos. Viúva, mãe de quatro filhos menores para criar. Sem emprego formal (desses que os patrões assinam as carteiras profissionais e entram para amontoar os números do IBGE).

Como alimentar os quatro filhos?

Pela manhã, antes mesmo que o galo do vizinho cantasse, Dona Socorro já estava de pé. Tinha que levantar para preparar o café com nada para as crianças e fazer refresco de limão e embrulhar um pedaço de pão para cada um levar para “merendar” na escola.

Depois disso, não parava mais. Tinha que puxar água na cacimba para encher um tanque e lavar roupa. A roupa de casa (dela e dos filhos) e a roupa “da patroa”, de onde tirava a garantia do sustento.

Especializada em lavar (e passar, ou, como fala o cearense, “engomar”) roupa branca. O marido da patroa era médico e raramente usava outro tom de roupa que não fosse o branco. Lavar bem lavada – ainda não existia a água sanitária, nem o Omo lavava tão branco – e colocar no anil.

Era essa a rotina de Dona Socorro, de segunda à sexta-feira. Aos sábados, as tarefas domésticas ficavam a cargo das meninas, enquanto os meninos tinham a obrigação de encerar o assoalho de tacos de madeira.

Se os sábados eram diferentes para os filhos, desde a hora de acordar até o hábito de ver na televisão preto-e-branco instalada no chafariz público, onde a grade repetia por vezes as séries “O gordo e o magro”, para Dona Socorro tudo parecia rotina.

Cedo do dia claro, o ferro de engomar era colocado na janela, onde o vento soprava mais forte e não havia tanta necessidade de usar o abano de palha para “atiçar” o fogo do ferro. Mão limpas. Muito limpas, para não “manchar” a roupa branca da patroa.

Terminada a tarefa de engomar aquela pilha de peças brancas, a preparação para a entrega. O banho ao lado do tanque. A troca da própria roupa e, às vezes, até duas trouxas de roupas brancas eram preparadas para a entrega.

O ônibus. Muitas vezes lotado na ida, e mais lotado na volta.

A volta, entretanto, era triunfal.

Em vez de ir para Pasárgada, onde não existia Rei e ninguém era amigo de ninguém, o dinheiro do pagamento daquele trabalho da semana inteira, era “depositado com toda segurança” dentro do sutiã.

Dona Socorro “pronta” para entregar a roupa branca da patroa

 

Na chegada em casa, tudo limpo. Chão encerado com Parquetina, o que garantia aos meninos o direito de, depois de fazer todos os deveres de casa, e da escola, jogar bola domingo pela manhã no campinho de várzea.

E assim era a vida. Moradia em Pasárgada, ainda que ninguém fosse amigo do Rei. Na noite de domingo, a preparação para recomeçar tudo na madrugada da segunda-feira.

Assim, Dona Socorro “formou” os quatro filhos, vivendo em Pasárgada, mas, sem ser amiga do Rei.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo sexta, 19 de agosto de 2022

*VENEZUELAMOS* FAZ ALGUM TEMPO! (CRÔNICA DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

“VENEZUELAMOS” FAZ ALGUM TEMPO!

José de Oliveira Ramos

 

Rede de dormir armada no ponto mais “top” de Fortaleza

Muitos já sabem mas, outros tantos, não. Sou cearense, nascido em Pacajus. Quando nasci, no povoado Queimadas, o destino era em 98% Fortaleza, onde resolvíamos as necessidades de todos os níveis.

Pegávamos um ônibus da empresa Expresso de Luxo, às 07:00h e chegávamos em Fortaleza, na “Cidade da Criança”, por volta das 11:00h. Eram quatro horas de viagem – e quem conhece o trajeto sabe a distância.

Hoje, esse percurso é feito em 20 minutos e Pacajus integra a RMF.

Adolescente, estudei por 7 anos (4 anos no Ginasial, e 3 anos no Científico) no Liceu do Ceará, um dos três colégios mais antigos do Brasil.

Naqueles tempos, estudantes não eram tão baitolas quanto os de hoje. Nossas discussões e horizontes eram pelo país. Jamais pela dubiedade do gênero humano. Nossos pais condenavam qualquer tendência à viadagem – os de hoje são coniventes, e alguns até do mesmo naipe.

Bagunçávamos a partir do último degrau de descida da escadaria frontal do colégio, passando pela Rua Liberato Barroso até a Praça do Ferreira, costumeiramente nosso ponto de encontro. Já naquele tempo, muitos nos rotulavam de bagunceiros.

Dito isso, aproveito para dizer que conheço a Praça do Ferreira, tanto quanto conheço minhas duas mãos envelhecidas e enrugadas pela vida.

Na última semana estive em Fortaleza visitando duas filhas do primeiro relacionamento (ambas são “cariocas”, mas residem em Fortaleza). Decepção total. Com a cidade, claro!

O ambiente que, antes, parecia ser uma praça de Paris onde está erguida a secular Torre Eiffel, ou até mesmo a antiga Plaza La Concordia, em Caracas – agora nada mais é que uma Cracolândia com uma ampla cozinha à céu aberto.

Venezuelamos, faz algum tempo.

Os que ali ainda moram e vivem, aceitam tudo passivamente. A geração de “liceístas” não é mais a mesma. Baitolou total!

A foto anexada mostra uma rede armada numa das bancas de revistas e jornais da praça. A “Banca do Bodinho”, costumeiro ponto de encontro e discussões de torcedores dos times de futebol da cidade.

Fiz outras fotos, mas tenho vergonha de mostrar. Fotografei uma mulher “abanando” o carvão em brasa para aquecer uma panela velha de alumínio que estava num fogareiro – ali, nem me atrevi a verificar o que estava sendo preparado. Ainda que provavelmente sem tempero, o cheiro não era bom.

Tudo isso, sabemos, é o somatório dos anos que o PT e aliados usaram para destruir tudo e implantar suas filosofias de vida. Transformaram uma metrópole nordestina num reduto de fumadores de maconha, baitolas, lésbicas que se beijam ao ar livre e, dizem, alguns até fazem sexo tão logo a luz do dia vai embora.

E, sabem de quem é a culpa de tudo isso?

Não vou dizer. Vocês já sabem, e “eles” vivem dizendo a toda hora.

Triste, percebi a conivência e a passividade da população fortalezense, que prefere se esconder nos muitos shoppings da cidade, enquanto a “cupinzada vermelha” destrói o que ainda resta da cidade.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo sábado, 13 de agosto de 2022

DUDU – O “LÍDER” (CRÔNICA DE JOSÉ OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

DUDU – O “LÍDER”

José de Oliveira Ramos

 

Dudu convocando a “tropa”

 

Criado no verão de 1907 pelo tenente-general do Exército Britânico, Robert Stephenson Smyth Baden-Powell, que teve a ideia de reunir vinte jovens, dividindo-os em quatro grupos de cinco (Maçarico, Corvo, Lobo e Touro), na Ilha de Brownsea, então no Canal da Mancha dando-lhes o nome de “patrulhas”.

Foi esse o primeiro acampamento escoteiro que se tem conhecimento no mundo.

Baden-Powell nasceu a 22 de fevereiro de 1857, em Paddington, Londres, e faleceu a 8 de fevereiro de 1941 em Nyeri, no Quênia…..mas, essa é outra história!

Hoje, o nosso herói é outro.

Nascido no Brasil, mais propriamente no Nordeste, nos tempos que, as arengas das salas de aulas da escolas eram “resolvidas lá fora”. Recebeu o nome de Luís Eduardo na pia batismal, confirmado no Cartório de Registros. Cedo, em casa e na escola, ficou conhecido como Dudu. Mas, os “arengueiros” da escola preferiam mesmo era o “Dudu Rolha de Poço”. Alguns colegas mais próximos, por carinho e amizade, preferiam apenas o “Rolha”.

Estudioso ao extremo, Dudu seguia os conselhos paternos. Dava pouca importância aos insultos, levando-os como brincadeira. Mas, tal qual uma velha, Dudu tinha seus “dias de priquita queimada” e se prontificava, como os da geração, à resolver tudo, depois, lá fora.

Cedo, quando não passava de um menino, Dudu conheceu e ficou encantado com o Escotismo. Fez tudo para entrar para o movimento e, de tanto demonstrar vontade, acabou sendo aceito.

Nos primeiros dias, “novato”, recebia incentivo dos mais lúcidos; mas também recebia provocações dos gaiatos. À esses, do pódio do autoconhecimento, Dudu vaticinou: “um dia qualquer, eu vou ser líder de vocês”!

Pois, Dudu, o “Rolha de Poço”, o gorducho, ou apenas o “Rolha”, se destacava a cada dia. Fazia amizades, ganhava confiança sem permitir intimidades ou gracejos durante as atividades do Escotismo.

A mão de Deus!

Quem acha que as coisas acontecem “quando têm de acontecer”, faz parte do rol das pessoas sem Fé. Quando vimos ao mundo, alguma coisa foi planejada por Deus, o único que pode tudo.

Eis que o dia de Dudu chegara. Depois de sair de casa na direção do encontro semanal com o grupo, o “Chefe” teve um contratempo e precisou desviar a rota e o objetivo principal. Seu carro teve um sério problema mecânico, o que o impediria, naquele dia, de comparecer à reunião com os jovens.

Procurou um telefone e manteve contato com o local das reuniões. Mais ainda, sugeriu ao atendente, que Luís Eduardo, o Dudu, o substituísse naquele dia, no comando dos escoteiros.

Ninguém contestou. E, naquele dia, a emenda foi melhor que o soneto, pois estava nascendo o “Corvo”, cujo comando e liderança foi assumido formalmente por Dudu. É. O “Rolha de Poço”!

Sempre alerta!


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo terça, 07 de setembro de 2021

POR QUE OS CACHORROS FICAM GRUDADOS NA HORA DO ACASALAMENTO?

POR QUE OS CACHORROS FICAM GRUDADOS NA HORA DO ACASALAMENTO? 

 

 

A cópula diferenciada entre caninos

 

Por que os cachorros ficam “grudados” na hora do acasalamento? – Durante a cópula canina, é comum vermos os cachorros “grudados”. Essa posição ‘estranha’ consiste na junção dos dois animais, virados em direções opostas, unidos pela região caudal.

Apesar de parecer um pouco desconfortável, essa é apenas uma das fases do acasalamento. No caso dos cães, a penetração ocorre ainda com o órgão sexual flácido. Esse ato só é possível porque eles possuem um osso que permite essa penetrabilidade através apenas da fricção. E é somente após isso que a ereção acontece, conforme relatou a bióloga Karlla Patrícia, no site Diário de Biologia.

Quando a ereção ocorre, um órgão chamado ‘bulbus glandis’, presente nos machos, se enche de sangue, e, consequentemente, aumenta seu volume. Dessa forma, as cadelas possuem uma cérvix plana, que possui uma abertura na qual o ‘bulbo’ irá se encaixar.

Contudo, esse preenchimento sanguíneo do bulbo só ocorre após a penetração. O sêmen dos cães é muito tênue, ralo, acontece por gotejamento e possui baixa contagem de espermatozoides. Sendo assim, a anatomia do órgão sexual da cadela permite melhores chances de fecundação.

E se você já tentou separar os cães enquanto eles estão nessa fase do acasalamento, pode ter notado que é uma tarefa inviável. Isso porque, uma vez que o bulbo aumentou o seu volume dentro do canal genital da cadela, é praticamente impossível que eles sejam “desgrudados”.

Assim, em suma, esse grude acontece como uma forma de minimizar a perda de esperma e aumentar as chances de fecundação. Além disso, como a ejaculação acontece por gotejamento, essa fase pode demorar cerca de 30 minutos e só acaba com a retração do bulbo. Após isso, os cães estão livres para se separar.” (Por Merelyn Cerqueira)


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 14 de junho de 2021

PONTE AÉREA DA BAITOLAGEM

 

PONTE AÉREA DA BAITOLAGEM

José de Oliveira Ramos

Pois, tão logo “dei baixa do serviço no Exército” (CPOR – onde tomei três doses de vacina à base de Ivermectina, Hidroxcloroquina e Zinco – que fazia doer até miolo de pão), trabalhei alguns meses na Casas Silcar, representante da concessionária Chevrolet e da Frigidaire, que ficava na Rua Sena Madureira, ao lado do Mercado Central. Depois passei a trabalhar na Western Company Limited, empresa inglesa prestadora dos serviços de cabogramas. E tudo aquilo ficava como se fosse dentro de uma bacia de alumínio.

A Western usava dois tipos de tarifas: a tarifa comum, para os cabogramas comuns e de textos reduzidos; e o CTN (Correspondência Telegráfica Noturna), essa com tarifa abaixo de 50% do preço da tarifa comum.

Trabalhávamos em três turnos de seis horas cada. O turno da noite começava às 17 e 18 horas e encerrava às 23 e 24 horas. Quando era necessário, um Operador de Teletipo (minha função e de outros) permanecia na empresa, e fazia “O.T.” (Over time), recebendo, além das horas extras, a regalia de ser conduzido à casa por táxi. Essa hora extra consistia em esperar a chegada dos cabogramas CTNs procedentes de São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Recife, preparando-os para a entrega nas primeiras horas do dia seguinte.

Via de regra, eram ordens de transferências bancárias, ou pautas para os jornalistas correspondentes dos jornais Estado de São Paulo, Jornal do Brasil com maior frequência (lembro que eram Egídio Serpa e Rogaciano Leite).

Durante a espera da chegada desses CTNs, como ainda não havia jogo transmitido pelas televisões, a gente se “impirilutava” para o Curral das Éguas (ZBM) ou, para a putaria que reinava na Rua Franco Rabelo e, próximo dali, a famosa buate 80.

Era na Franco Rabelo que reinava o “senhor” José Benedito de Lima, pouco conhecido como tal, mas muito conhecido como “Zé Tatá”. Zé Tatá era um desses que hoje são rotulados popularmente de “Queimador de rosca” ou “Generoso do traseiro”; ou, numa linguagem mais atual que em nada atenua o objetivo, “gay”. Para o cearense, “Baitola”!

* * *

Zé Tatá – o baitola macho

Zé Tatá – O gay-macho: bom de porradas contra três ou quatro (e botava pra correr!)

Nascido em Salvador/BA, JOSÉ BENEDITO DE LIMA, em 1929, ainda criança (pouco mais de dois anos de idade) foi morar em Fortaleza, por conta da transferência do pai, então militar do Exército. Poucos anos depois, o pai faleceu vítima de um acidente num treinamento militar.

Filho único, ainda JOSÉ BENEDITO virou estudante no Colégio Maristas, na capital cearense. Não ficou livre da “zoeira” (os bobalhões de hoje denominam de “bullying”) própria do cearense. Assim, quando era repreendido por algum professor(a) no Colégio, aceitava e respondia apenas, “tá” repetidas vezes. Virou então “Zé Tatá”. Dono das casas noturnas (pensão) Ubirajara, Hollywood e Tabariz. Desfilava no carnaval vestido de baiana e imitava Carmem Miranda.

Zé Tata era um negrão de mais de um metro e noventa. Chamava atenção, por onde passava, por ser um homem, negro, forte, alto e belissimamente vestido de mulher. Ninguém tinha coragem de dizer qualquer coisa que ofendesse a integridade moral de Zé Tata.

Mas vamos ao início da história deste personagem baiano que, nos anos 50 e mais, era a rainha do Carnaval de Rua de Fortaleza: Zé Tata. José Benedito de Lima nasceu em Salvador, em 1929. Aos 2 anos idade perdeu seu pai vítima de acidente em um treinamento militar. Filho único de mãe viúva, foi criado em Fortaleza num conjunto habitacional do exército do Brasil. Sua mãe ganhava uma modesta pensão e tinha que trabalhar como empregada doméstica pra criar seu filho amado. Zé, como era conhecido pelos colegas, estudou no colégio Marista, onde também ganhou o apelido de Tata. Dizem que, quando ele ficava nervoso ao ser repreendido pela professora, dizia: – Ta! Ta! Daí virou o Zé Tata.

Quando menino, passou por todas as fases, foi levado, brigão, namorador… Sempre foi um aluno mediano, mas esforçado e logo estava numa escola de Sargentos do Exército, onde estudou enfermagem. Na Escola Militar descobriu que era diferente dos outros meninos: enquanto os outros tinham desejos sexuais por meninas, ele adorava ver os meninos pelados no vestiário. No início, achou estranho, mas rapidamente gostou da ideia. Ele se destacava em todas as atividades que fazia: era ótimo lutador, jogava futebol e queria participar de tudo que envolvia contato físico com os garotos da academia.

Quando estava com 19 anos, foi convidado para se fantasiar de mulher e sair com um grupo de amigos pra desfilar no Carnaval do centro de Fortaleza. Pediu ajuda a sua mãe, que não estranhou, pois aquilo era costume de Carnaval. Ele, então, se montou e se transformou numa mulher de quase dois metros de altura. Salto altíssimo, vestido longo e maquiagem impecável. Decidiu não usar peruca, deixou seu cabelo natural, bem batido, como deve usar um militar. Foi o dia mais feliz na vida de Zé Tata. Lá foi ele realizado, se sentido uma dama. Porém, na vida, nem tudo são flores e, logo que chegou ao centro, uma turma de machões bêbados resolveram brigar com os rapazes – Vamos dar porrada nessas raparigas que não gosto de veado, alguém gritou.

Começou aquela pancadaria. Zé Tata vinha mais atrás e quando chegou perto viu os amigos dele sendo surrados por um bando de bêbados gritando ofensas. O sangue de Zé Tata nunca ficou tão quente, deu um grito e partiu pra briga. Eram mais de vinte homens cercando Zé Tata. O primeiro que chegou perto levou um chute na cara, o salto alto de Tata arrancou sangue do dito cujo que já caiu semimorto. Os outros, vendo aquele negrão enorme ficaram sem saber o que fazer. Zé Tata partiu feroz para cima deles, derrubando um por um com socos, pontapés, cabeçadas, pernadas… Quando a polícia chegou, o quadro era de trinta homens no chão e uma bicha enorme, gritando, chorando e batendo em que chegasse perto. Foi preciso mais de dez policiais para conter a ira de Zé Tata que foi preso e autuado como agressor e perturbador da ordem pública. Ninguém mais foi preso. Só não foi pior porque o Raimundo, um dos amigos que apanharam, defendeu Tata.

* * *

Madame Satã

Anos 60, em Fortaleza; final dos anos 60 e começo dos anos 70, no Rio de Janeiro. Em Fortaleza, a “loira desposada do sol”, proximidades da Rua Franco Rabelo, do Curral das Éguas e do Quartel da Décima Região Militar. No Rio de Janeiro, a Lapa e o Bairro de Fátima. Tempos bons, de época braba.

Domingo pela manhã no Rio, a venda de selos pelos “Filotélicos” que viviam, e gastavam fortunas com as coleções. Algumas crianças se dirigiam para o Passeio Público, esperando o horário da primeira sessão infantil das manhãs dos domingos no Metro Boavista.

Em Fortaleza, a noite da sexta-feira e do sábado. A ZBM fervilhava e era ali que as coisas aconteciam. Fortaleza não era 5% do que é hoje e do que disponibiliza em opções de lazer noturno. No passado, na ZBM, era só para “molhar o biscoito”.

João Francisco dos Santos – Madame Satã

João Francisco dos Santos nasceu em Glória do Goitá/PE, a 25 de fevereiro de 1900, e faleceu no Rio de Janeiro, a 12 de abril de 1976, mais conhecido como Madame Satã, foi um transformista brasileiro, uma figura emblemática e um dos personagens mais representativos da vida noturna e marginal da Lapa carioca na primeira metade do século XX.

Nascido em Glória do Goitá, um município brasileiro localizado no interior do estado de Pernambuco, na Zona da Mata, João Francisco se mudou para a Lapa – que na época passava por um processo de transformação e gentrificação – aos 13 anos, onde viveu como moleque de rua até conseguir um emprego como vendedor ambulante de pratos e panelas de alumínio.

Navalha – a arma de Madame Satã

Madame Satã tinha fama. Para uns, uma má fama. Para outros tantos, a fama de brigão que, provocado “não batia fofo”. Enfrentava qualquer um. Tinha o hábito de vestir a cor branca. Nas ocasiões especiais preferia o paletó e calças de linho – e tamancos de madeira. Num dos bolsos internos do paletó, a inseparável amiga navalha.

Naquela região da Lapa, indo do final do gradeado do Passeio Público e cafés e bares nas imediações do Arcos até a Rua do Senado com Rua do Riachuelo e ladeiras de subida para Santa Teresa, Madame Satã era conhecido e temido. Só quem o dominava era a patrulha da Polícia Especial, antecessora da Polícia Federal no Rio de Janeiro.

Tamancos de madeira – o “escudo” de Madame Satã

Muito bom de briga, Madame Satã também tinha seus desafetos que, em duplas, o enfrentavam. Para esses, Satã (contam alguns que presenciavam os desafios) punha a amiga navalha numa das mãos e um dos tamancos de madeira na outra – trocando-as quando se defendia ou quando atacava. E os ataques eram quase sempre fatais.

Nos dias atuais tudo é diferente. A navalha, nem os barbeiros a usam mais. Os marginais criminosos preferem os fuzis de alto poderio, a grande maioria importados (na verdade, contrabandeados) de países especialistas em guerras. E até já se atrevem a trafegar na área que antigamente era dominada por Madame Satã.

DETALHE: Madame Satã também era baitola e não se escondia no armário. Mas essa era outra guerra, na qual ele sempre era derrotado. E, em vez de navalhas, espadas.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 15 de março de 2021

AFINAL, QUE PAÍS É ESTE? (CRÔNICA DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

AFINAL, QUE PAÍS É ESTE?

Vacinação contra o C-19 – atendimento Drive Thru

Não ainda insistir ou teimar. O Brasil não é um país para ser administrado ou vivido por amadores. Tem que ser mesmo “profissional”.

No próximo 30 de abril, se Deus me permitir, chegarei aos 78. Lúcido, revascularizado (safenado) há quase dez anos, vacinado contra o C-19 no último dia 4 (primeira dose), espero conseguir tomar a segunda dose, essa programada para o próximo deia 25. Coronavac. É a que tem, e não a que eu tenha escolhido.

Me entendo como gente que entende as coisas, desde que tinha 12 anos de idade. Já se passaram 66. Nasci no Ceará, de lá saí para o Rio de Janeiro, conheço um pouco do Paraná e já fui várias vezes a passeio em São Paulo. Estive em Recife, que não conheço; em João Pessoa e Campina Grande, que também não conheço; em Natal, em Belém, em Salvador, em Brasília.

Querem minha sinceridade?

Pois bem. Nunca vi, desde os 12 anos de idade, um país tão esculhambado, avacalhado, escrotizado com esse nosso Brasil. Ô país filho-da-puta, que tem um magote de filho-da-puta, gente!

Aqui tudo que é contrário ou do contra, é valorizado e funciona bem. No Brasil, é bonito dar o rabo e quem acha isso feio é rotulado de homofóbico e está praticando crime. O certo é queimar a rosca. Então queimem seus porras. Dêem até virar carvão!

A pessoa pode escolher abortar (está cometendo um crime contra uma criança); pode escolher ser lésbica ou gay, que estará exercendo o seu direito de vida. Mas, escolher ser “bolsonarista”, não pode. Quem faz essa escolha é fascista, é miliciano e outras merdinhas mais.

Roubar é “top” (desde que roube quantia que dê para dividir com quem deveria puni-lo). Ser honesto e correto, é apenas um apreciador da frase célere de Rui Barbosa.

É o país da esculhambação, ou não é?

Estão tentando implantar o auxílio do VAR na arbitragem do futebol. Observem como se com porta o Árbitro de futebol na Europa, e o tempo que ele leva para tirar uma dúvida e decidir o que fazer – e, depois, compare com o tempo que leva um mesmo Árbitro apitando um jogo de futebol no Brasil, quando precisa recorrer ao mesmo VAR. É uma viadagem sem tamanho. Estica o bracinho para um lado, estica o bracinho para o outro lado e acaba decidindo o que o VAR “determina”, e não o que realmente aconteceu.

É o país da esculhambação, ou não é?

No Brasil estão cobrando mais pressa na vacinação contra o C-19. Tem quem cobre que, alguns países até já terminaram de vacinar, mas esquecem que o Brasil tem mais de 200 milhões de habitantes, que é um país continental de trocentos locais de difícil acesso e o escambau. Mas, cobram pressa na vacinação. E dizem até que não há vacina para atender a todos.

Atendem idosos dentro dos carros de passeio. Atendimento “Drive Thru”. Mas, quem não tem carro, é atendido em moto, bicicleta, velocípede, canoa, cavalo, e bem que poderia ser atendido em avestruz ou camelo.

É o país da esculhambação, ou não é?

Grande Otelo – o eterno “Macunaíma”

No Brasil, tudo que é sacanagem frutifica. E não é de hoje que isso acontece. Lembrem o “Febeapa” do Sérgio Porto. Lembrem os célebres romances escritos por Jorge Amado, “Dona Flor e seus dois maridos” – tudo é uma sacanagem só. E é uma das obras mais lidas desse autor. Policarpo Quaresma, você já ouviu falar? Pois é. É por aí que vai a coisa neste país.

É o país da esculhambação, ou não?

Mário de Andrade, no século passado escreveu “Macunaíma” e resolveram rotular de “o herói sem caráter”. Não!……. é o puro herói brasileiro, sem precisar acrescentar nada!

Raul Seixas – ícone da mistura da verdade com a esculhambação

E na música?!

Claro que temos muita cosia boa na música – na música antiga, diga-se. Por que a atual, se misturarem com bosta não fará diferença. Só vai aumentar o “monte” e o tolete. E aumentar a catinga.

De repente, assim não mais que de repente, a mídia (que tem parte que dá para juntar com a música e a bosta e também só vai aumentar o volume) descobre “gênios” e os leva aos píncaros da glória. Endeusam. Leva-os aos Olimpo.

Alguns – por falta de inteligência, mesmo! – confundem letras inteligentes, de qualidade que alguns compositores do passado reuniam. Exemplo? Entre todas as letras escritas por Djavan, quem encontrar uma única que não preste, vai ganhar uma noite de paz e felicidade ao lado do Maurino Júnior, o meu amigo mais querido que eu não tive o prazer de conhecer pessoalmente – mas, qualquer dia Luiz Berto vai nos reunir para saborearmos uma fava rajada com colchão de bode francês. E tendo o prazer de escutar os solos geniais de Goiano ao violão.

Além de Djavan, para mim, um “gênio”, tivemos Belchior, Evaldo Gouveia, Jair Amorim, Dolores Duran, Taiguara, Vinícius de Moraes, Ivan Lins, Tom Jobim, e isso sem esquecer Humberto Teixeira e João do Vale que, por décadas disseram o que de melhor aconteceu em musicalidade e poesia vindo do sofrido Nordeste.

Como esquecer Falcão e Raul Santos Seixas, baiano que veio ao mundo em 1945 e nos deixou aos 44 anos?

Esse, o verdadeiro “Maluco Beleza” que nos presenteou com “Gita”, “Ouro de tolo” e “Mosca na sopa”, coroando e confirmando que, “tudo que é esculhambação” prolifera entre nós.

É o país da esculhambação, ou não é?

 


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 08 de março de 2021

AS HEROÍNAS E AS CHORONAS (JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS É COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

AS HEROÍNAS E AS CHORONAS – HOMENAGEM AO DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Lágrimas espontâneas e sinceras – de alegria ou tristeza

Prevenir é melhor que remediar. Assim, ensinado que fui por uma mulher (minha Avó) e trazido ao mundo por outra mulher (minha Mãe), alucinado por mulher, na cama, fazendo sexo, ou em qualquer outra atividade – nunca comemorei nem entendo por que de termos um “Dia Internacional da Mulher”. Para mim, sem frescuras, todo dia é dia da mulher.

Mas, também sei – e é essa minha opinião! – há mulheres que sequer deveriam existir. São problemas, sim. E problemas de difíceis soluções que vieram ao mundo apenas para atazanar, inclusive a si próprias. Para essas, tem que ter um dia especial, sim: o Halloween!

Agora, também sem frescuras, há uma situação maravilhosa: essas mulheres difíceis, problemáticas (ainda que sem necessidade de serem atingidas ou provocadas), são em número significativamente menor. E é isso que é bom!

Neste instante, entretanto, o que queremos mesmo é falar sobre o “Dia Internacional da Mulher” – neste momento com comemorações e enfoques diferentes, por conta dessa pandemia que nos prende a tudo e a todos, e nos impossibilita do aconchego da convivência.

Acácia Imperial (Cassia fistula), popularmente conhecida como “Acácia chorona”

Como escrevemos parágrafos acima, “todo dia é dia da mulher”, para os que gostam da fruta, e para os que respeitam como parceira forte na construção familiar.

Não cerramos fileira ao lado dos que defendem essa coisa do “empoderamento” feminino, haja vista que nossos antepassados nos ensinaram valores que até hoje respeitamos, tipo: “uma casa sem mulher, não é uma casa e jamais será um lar”.

A mulher precisa trabalhar? Tem o direito de construir sua independência?

Claro que tem todos esses direitos. Mas, não haverá como separar as coisas e haverá sempre uma cobrança, ou uma jornada que vai além do trabalho profissional.

A sociedade chamada moderna, nos últimos anos vem conseguindo impor valores diferenciados (e quem não aceita-los, será rotulado de machista), mudando o dia-a-dia de muitas casas, com a mulher saindo para o trabalho e, em alguns casos, assumindo o protagonismo, com fatia maior na assunção das despesas financeiras. Nada de errado nisso.

Queiram ou não, isso tem causado diversos problemas para as famílias. Às vezes, exigindo jornada tripla para garantir o “comando” da família, ou a pecha da desestruturação familiar por conta do “abandono dos filhos” na condução comportamental e educativa. Uma babá, uma governanta, uma cuidadora jamais conseguirá substituir a mãe.

Mas, sentimentalmente falando, a mulher, por sua participação no mundo, faz jus a todas as homenagens – e ainda poderiam ser acrescentadas outras.

Mulher é um ser especial. Quando quer ser especial. E é um ser diferente, quando quer atrapalhar a vida de outrem – jogando fora todos os bons valores.

Eu, particularmente estou no “segundo casamento” (sou divorciado do primeiro – de onde nasceram duas filhas, ambas adultas e independentes. Residem em Fortaleza, com a mãe) – e isso pode significar o quanto gosto da parceria da mulher.

Sou radical. Acho que um casal é formado por um homem e uma mulher. As demais escolhas, para mim, nada mais são que um acinte à religiosidade – e todos que pensam diferente pagarão por isso, no dia da prestação de contas. Mesmo assim, por saber que cada um responderá por si, a escolha de cada um nada me diz respeito.

A mulher é especial. A mulher chora. A mulher não é apenas uma rosa. A mulher é uma cachoeira de acácias distribuindo beleza, vida, perfume e sensibilidade. A mulher é uma acácia chorona.

Lágrimas femininas na semeadura do amor

Bobagem grande, imaginar que a mulher é uma chorona. A mulher é o ser mais forte que Deus colocou na Terra – deu-lhe não apenas a capacidade de ser o principal meio de geração da vida, com um “ninho” que suporta adversidades, traumas e é de uma estrutura muito frágil, apesar da capacidade ímpar de reconstrução e recuperação. É da mulher, o dom divino da geração da vida.

Como diz o compositor Ivan Lins na letra do seu sucesso que rende homenagem às mulheres:

“Essa firmeza nos teus gestos delicados
Essa certeza desse olhar lacrimejado
Haja virtude, haja fé, haja saúde
Pra te manter tão decidida assim
Que segurança pra dobrar tanta arrogância
Que petulância de ainda crer numa esperança
Quem é o guia que ilumina os teus dias?
E que te faz tão meiga e forte assim
Coragem, coragem, coragem, mulher
Coragem, coragem, coragem, mulher
Como te atreves a mostrar tanta decência?
De onde vem tanta ternura e paciência?
Qual teu segredo, teu mistério, teu bruxedo
Pra te manter em pé até o fim?
Coragem, coragem, coragem, mulher
Coragem, coragem, coragem, mulher”

Acácia branca (Moringa oleífera) importante na Fitoterapia

A intenção foi essa, sim. Juntar a mulher e a sua disponibilidade a qualquer momento (se for mãe, então, o filho ou a filha – não apenas serão protegidos em qualquer circunstância, como poderão contar com ela, inclusive com a disponibilidade da própria vida) compará-la com as acácias, de quaisquer cor, perfume ou utilidade.

As acácias são, por rigor, qualquer mãe.

Amarela, branca, roxa, rosa ou vermelha – e as mães, nova, meia idade ou velha, estarão sempre disponíveis.

Se me fiz entender, por isso que, todo dia é dia da mulher!

Acácia vermelha (Sesbania punicea) de todas é a mais rara


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 01 de março de 2021

PANDEMIA DO C-19 - O QUE É MESMO ESSENCIAL? (CRÔNICA DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

 

PANDEMIA DO C-19 – O QUE É MESMO “ESSENCIAL”?

Hoje nosso texto vai fazer jus, literalmente, ao título escolhido anos atrás para a coluna. Vamos enxugar gelo e, para isso, vamos colocar nossas luvas plásticas – pouco diferentes das que estão sendo usadas aqui e alhures, como meio de prevenir o contágio pelo C-19.

Assim, para não ficarmos tão distantes do assunto Covid-19, que tem tomado até mais da metade do tempo que qualquer padre tem usado nos sermões das missas dominicais, vamos falar do “fique em casa”, que está levando alguns miseráveis à cometer suicídio, por não vislumbrarem qualquer perspectiva de solução.

Dito isso, vamos relembrar de algumas profissões que, ainda que não fossem consideradas essenciais, não haveria, jamais, como obedecer o “fique em casa”.

* * *

Arrumador de pinos de boliche:

Você já imaginou, em algum desses dias atuais, baixar o aplicativo no seu celular e fazer uso de uma assinatura para reservar um horário para jogar boliche com um amigo obedecendo todos os critérios recomendados pelas autoridades sanitárias, com o objetivo de reduzir ao mínimo a possibilidade de contágio pelo C-19?

Ou, digamos, você usa de todos os seus direitos para marcar um horário especial naquela Casa de Jogos do Morumbi, bairro luxuoso da capital paulista e, assim sem mais nem menos, o nazi-governador daquele Estado decreta o “lockdown”?

Arrumador de pinos de boliche em plena atividade

E agora, você vai se divertir jogando boliche aonde?

Tudo isso, porque o calça-apertada considera que o “Arrumador de pinos de boliche” não tem família para sustentar, e sua profissão não é essencial. Pode até não ser essencial. Mas, você precisa diminuir o estresse jogando boliche, ora! E quem vai usar o tempo para jogar é pagador de impostos.

* * *

Despertador humano (batedor):

Essa profissão de “Despertador humano”, uma dia já foi muito importante. Importantíssima, diríamos!

Sempre foi profissão executada por mulher, quase que na sua totalidade. Foi oficialmente extinta no ano de 1876, época da Revolução Industrial na Europa.

No Brasil, entretanto, a “profissão” teve curta duração, haja vista que nenhum marido aprovava que sua mulher acordasse e levantasse com o dia clareando para ir tocar canudinho de som na janela de alguém. Deu uma confusão miserável e, querendo ou não, os familiares da casa de onde saíra a mulher também acabavam “despertados”. Despertados por tabela, digamos.

As antigas “profissionais Despertadoras”

Agora, a confusão era maior, quando uma mulher tocava o canudinho ao lado da janela onde um casal dormia, e a dona da casa acordada bradava: “acorda e levanta, pois a rapariga já está te chamando para as safadezas.” Como diria Adonias para Maurino – “deu uma confusão do caraio, para filho-da-puta nenhum ficar sorrindo.”

Nessa pandemia do C-19, com o “fique em casa” determinado pelas autoridades sanitárias, a profissão foi literalmente extinta.

* * *

Leitor de fábrica:

Operários escutam Leitor enquanto trabalham na fábrica de cigarros

Evidente que não conhecia todos os acometidos de C-19 que foram a óbito. Mas, uma coisa eu asseguro: mais de 90% dos acometidos pelo coronavírus que moravam em São Luís e foram a óbito, eram fumantes ou ex-fumantes. Os pulmões, aprendi na universidade, não são um órgão que se “limpe” dando descarga, como um vaso sanitário. Nossas constantes mudanças climáticas exigem mais trabalho dos pulmões – que ainda estão sendo sacrificados com o uso intermitente da máscara.

Assim, é evidente, que o “Leitor de fábrica” cuja profissão era promover entretenimento aos operários da fábrica de cigarros e outros tabacos é alguém dispensável. Descartável e nem precisa vir mais ao trabalho, pois foi uma profissão que desapareceu.

Agora, o operário da fábrica de cigarros, nesse ninguém toca. Afinal, quem produz mais linfomas pulmonares ao mesmo tempo que gera mais arrecadação para os estados?

* * *

Coletor de sanguessugas:

Sanguessuga coletado por profissional especializado

Até o fim do século XIX, a modalidade de tratamento médico conhecida como sangria ainda era utilizada em boa parte do mundo. E isso podia ser feito com o auxílio de sanguessugas, que eram vendidos aos médicos pelos coletores. Hoje a sangria terapêutica ainda é utilizada em casos específicos, como em pacientes com hemocromatose, policitemia vera e poliglobulia (provocada pelo excesso de glóbulos vermelhos no sangue). Mas sanguessugas não são mais necessários.

Tanto quanto a utilização pela medicina, o “Coletor de sanguessuga” foi abolido e tangido das profissões brasileiras através das leis. Senado federal, Câmara federal, assembleias estaduais, secretarias estaduais e municipais, vereadores e auxiliares fizeram lobby e tangeram com sal grosso e cabo de vassouras não apenas os sapos cururus. Tangeram, também, o “Coletor de sanguessuga”. Daí, a exagerada quantidade que temos desses “insetos”.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 22 de fevereiro de 2021

FAÇA-SE LUZ (DISSE DEUS) E, LOGO, AS TREVAS FIRAM ILUMINADAS (CRÔNICA DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

FAÇA-SE A LUZ! (DISSE DEUS) E, LOGO, AS TREVAS FORAM ILUMINADAS

Luzes iluminando a Terra

Palavras têm significados mil. Mas, o que vale mais é o significado que queremos dar. Para sair das trevas, qualquer pessoa ou objeto precisa de luz. Ainda que tênue, mas, luz.

Condenar à escuridão é impedir o direito de sair das trevas. O arado ou o trator, qualquer um, impede que o grão saia das trevas, aterrando-o na germinação. A semelhança é voraz, e pertinente ao aborto. Em gestação, ao bebê é negado o direito de sair das trevas para sorrir ou chorar com a luminosidade da vida, também chamada de luz. A mãe, ao dar à luz, tira o bebê das trevas. É legal ou humano negar a luz para quem está nas trevas?

Assim, também, ensinar à quem não sabe e quer aprender, é mostrar a luz. A luz a que todos e qualquer um têm direito. A luz do saber. O direito de sair das trevas do desconhecimento, da ignorância.

Uma nova vida ainda nas trevas

Não lembro mais onde li: “…. na construção do mundo, quando tudo ainda era trevas, Deus, na sua onipotência, criou a luz, dizendo: faça-se a luz!

E assim a luz foi feita, e tudo ficou claro”. Também não sei “quem soube disso” primeiro, já que não existia nada além das trevas e do mundo que estava sendo criado. Mas, em Deus eu acredito e acreditarei sempre. Deus é a própria esperança e Fé.

Da mesma forma, também não sei de onde viemos, a não ser que somos gerados no ventre de uma mulher (essa, também segundo os ensinamentos religiosos, criado por Deus, o Onipotente, a partir de uma das costelas do homem – também não sei quem viu isso para registrar. É o ensinamento da Fé.)

Há quem diga (e eu mesmo já repeti isso várias vezes) que viemos do barro, e para lá voltaremos. É um raciocínio lógico, principalmente após a morte.

Entretanto, por mais que se aproxime do mais provável início da vida de todas as espécies, incluindo a espécie humana, a ciência jamais terá o crédito do que seja realmente verdadeiro. Afinal, somos a evolução do espermatozoide, somos um transformação do macaco ou somos bonecos feitos do barro.

Se assim for, palmas para o Mestre Vitalino (Vitalino Pereira dos Santos) que fez milhares de “gente e animais” sem precisar produzir espermatozoide – e nem lhe cobraram “espermograma”. Seria Vitalino apenas um Mestre, ou um novo Deus?

Assim, raciocinemos: claro que o caminho mais curto e próximo da verdade é o caminho da Fé. A Fé em Deus, e na sua extrema bondade, ao criar o homem e todos os seres vivos da Terra.

Pois, se Deus criou a luz, tirando das trevas o universo e tudo que existe, por que transgredimos e nos arvoramos do direito de optar pela manutenção de humanos nas trevas. É. Nas trevas da placenta, e os condenamos eternamente às trevas, quando discutimos e aprovamos o aborto?

Ainda que nos casos de violência (estupro) ou malformação genética e reprodutiva, por que “aprovar o aborto” e não entender a cessação do sofrimento e da dor, aprovando a eutanásia?

Haverá sempre alguém que se atreverá à responder: apenas à Deus cabe o destino da vida das pessoas. É mesmo? E o aborto, quem recebeu procuração de Deus, o Onipotente?

Será que, aprovando o aborto, estamos também aprovando o não nascimento e proliferação do grupo sem caráter, do grupo que se alimenta do ódio e procura multiplicá-lo?

Não sei. Se você sabe me explique. Mas, aproveite e desenhe, para meu melhor entendimento e aceitação.

Aproveite e me convença: “por que os velhos morrem”? Claro que eu sei que não apenas os velhos morrem.

Velhice a caminho de volta às trevas


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 15 de fevereiro de 2021

A ESTRADA E A VEREDA (CRÔNICA DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

 

A ESTRADA E A VEREDA

Na longa estrada da vida algumas pedras precisam ser vencidas

Ainda consigo lembrar. Eu tinha exatos dez anos de idade, quando precisamos sair de Queimadas, naquele tempo um simples povoado de Pacajus. Meu pai, que havia sido demitido de um colégio onde lecionava Aritmética, voltava a trabalhar. Agora, nomeado como Fiscal da Fazendário (Secretaria Estadual da Fazenda do Ceará), e tínhamos que mudar para a capital.

Antes da viagem, uma olhada rápida no quintal da Vovó. Pela última vez. Eu ia embora, e ali deixava as mangueiras, os cajueiros, as galinhas, os patos, os capotes, uma jumenta, o cachorro Pintado e aquele barulho melódico de todos os fins de tarde do Vem-vem e das cigarras. Também lembro, ainda, que eu fui o último a me despedir de Vovó, abraçando-a também pela última vez. Depois do abraço, corri e deslizei o último pau da porteira, fechando-a.

Nunca mais voltei ali. Nunca mais olhei minha Avó, nem nunca mais cacei passarinhos, nem escutei os voos rasantes das corujas. Os pirilampos ficaram para trás. As mutucas, também. E ali se encerrava um dos mais importantes e construtivos ciclos da minha vida. Ciclo da infância, da liberdade, e das brincadeiras respeitosas.

Fui o último a subir no caminhão. Não tive coragem de olhar para trás, porque ali ficava parte de mim. (“Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.”)

Naquele dia, primeiros anos da década de 50, a viagem que hoje não consome 30 minutos para percorrer o percurso, levou mais de três horas. E o caminhão não parava. Apenas a distância que não queria diminuir, como se nos convidasse à voltar para continuar a vida na roça, apanhando cajus, pescando piabas, caçando passarinhos – e, vivendo!

A estrada era a continuação da vereda

Caminhão da mudança acionado pela manivela. Tudo funcionando. Eu, viajando junto das panelas velhas, redes, cristaleira e tamboretes, tão logo o caminhão teve acesso à vereda, me agarrei ao cachorro pela possibilidade que ele, já sofrendo saudade, resolvesse pular do caminhão e voltar para o aconchego da Vovó. Os animais nunca perdem ou esquecem o “arquivo” do faro. Eu, sem perceber que Vovó entrara na casa, faço meu último aceno – provavelmente para o tudo onde vivi e aprendi a viver como gente.

Felizmente que os tocos que ainda ficaram na vereda aberta à base de foice e machado, não furaram os pneus. A estrada longa foi alcançada e prometia nos levar à uma nova vida, sem muitas coisas que ficaram para trás, mas com a esperança de vitórias.

O caminho que nos levou à estrada

A cada árvore da vereda que deixávamos para trás, era um desvio para não machucar. Como se eu conhecesse folha por folha, galho por galho, e tivesse o nome de cada uma. Atingimos a estrada sem problemas.

Agora, como o cachorro não se atreveria mais a pular para tentar voltar, se aquietou sobre um colchão velho de molas. Eu fui para a frente e fiquei à mercê do vento que tocava no meu rosto, lavando-o. Deformando-o pela força da ventania. Enfrentar aquele vento, era, sem dúvida, abrir as portas do futuro.

A “cidade grande” foi atingida. Nos dirigimos na direção do mar, como se algum navio estivesse à nossa espera. Não houvera nenhum milagre de Moisés, tampouco estávamos diante do Mar Vermelho. Era a praia do Pirambu, e ali nos aguardava a “Comissão de Recepção”: um gato mariscado, que provavelmente esperava a maré secar para permitir que os siris viessem à tona como presas incautas a lhe proporcionar o jantar de todos os fins de tarde; um cachorro vira latas, que caçava restos de comida trazidos pela maré enchente.

A casa: paredes e telhado de palhas. Um barracão onde estacas internas permitiam armar as nossas redes. Água, apena a do mar – felizmente havíamos trazido um pote, uma quartinha e algumas latas que poderiam servir de depósito.

Mas, finalmente, estávamos numa nova estrada e poderíamos iniciar a caminhada que nos permitiu chegar até aqui.

Vereda e ao fundo dá para ver a nossa casinha branca que ficou

Na manhã do novo dia, o barulho sufocado das ondas do mar, que não ficava distante. Algo em torno de sessenta metros, num espaço separado pela praia pouco frequentada. Não havia urbanização, e os frequentadores que por ali passavam, eram pescadores a caminho de seus barracos – iguais ao nosso.

Teresa, uma jovem criada por mamãe, era uma espécie de Governanta. Tudo mandava fazer ou fazia ela própria. Serviu o café: café preto e um banda de pão com nada. Hoje entendo que aquilo já era o nosso muito.

Mãe saíra à procura de trabalho, enquanto o pai para assumir um novo emprego. Aos sábados e domingos, todos nós saíamos para procurar um novo local de moradia.

Durante a noite, a poesia vinda do mar nos mostrava o caminho que precisaríamos seguir para, como Don Quixote, encontrar um moinho que pudesse nos proporcionar novos ventos, novos ares na continuidade da estrada que a vida nos oferecia.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 08 de fevereiro de 2021

MARINO JÚNIOR, GO HOME (CRÔNICA DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

MAURINO JÚNIOR, “GO HOME”

Maurino acompanhado do tutor à espera da nave

Sniff, sniff, sniff!

Neste mundo que vivemos nos dias atuais, estamos entregues às incertezas. Uma certa OMS (Organização Mundial da Saúde) não sabe sequer para que existe, muito menos quais são suas tarefas além da “cagação” de bolotinhas caprinas. Diz hoje, amanhã desdiz.

Pois, ontem, no exato momento em que o STF, em decisão monocrática do bebedor de whisky determinava um alongado prazo de 48 horas para que Jair Messias Bolsonaro resolvesse a escassez de chuvas no Brasil, capaz de provocar novas queimadas nas águas dos rios Negro e Amazonas, o JBF, aparentado mais próximo do STF perdia um dos mais importantes colaboradores.

É! Maurino Júnior, “go home”!

A partida, um pouco parecida com fuga, não foi das entranhas de Spielberg. Foi do cafofo do “Cabaré do Berto”, até quando não se sabe, gerenciado por professor Assuero, filho da quarta geração do Mestre Yoda.

Lágrimas! Muitas lágrimas!

Até deu pra gente escutar um aboio vindo das Ipueiras, gritado por Dalinha, quando pescava tilápias na beirada do açude com isca de minhoca:

– Eeeeuuu achooo ééééé pooouuuco!

Maurino conduzindo a bike a caminho da “naveporto”

Por mais incrível que possa parecer, os meios de comunicação “fora do planeta Terra” funcionam às mil maravilhas, e quem os administra sequer pensa em privatização. Tá tudo nos trinques.

Afirmo isso por experiência própria. Ontem, estava eu observando no circuito fechado a minha criação de camelos de três corcovas, quando a campainha tocou. Era um “mensageiro” vestido de Homem Aranha, que veio entregar uma correspondência com embalagem diferente. Recebi, pois veio endereçada à mim. Observei o remetente.

Com certeza nenhum de vocês vai acreditar. Era a primeira missiva de Maurino Júnior neste primeiro semestre de 2021. Está morando na estrela Sírius, onde abriu uma bodega (filial) em parceria com Jessier Quirino.

A nave que “sequestrou” Maurino pousando em Palmares/PE

Na bodega, afirma Maurino, é claro que estão à venda pendrives com todos os shows de Jessier e CDs de Xico Bizerra – DETALHE: lá, afirma Maurino, ninguém precisa usar máscara contra o C-19, pois os hospitais de campanha que foram instalados abusaram de usar a Cloroquina. Ninguém morre por lá. Quando morre, é de morte matada ou morrida, e o legista que informar errado no atestado de óbito, nunca merecerá o beneplácito de “Boca de Priquito”.

Maurino afirma que, por lá, a alimentação é farta. Diferente da Venezuela. O futebol não existe por lá. O único “jogo” que funciona em Sírius, é a filial da Roleta do Cu-Trancado, que paga 0% de impostos e está de vento em popa, pois ninguém ganha, mas também ninguém joga.

Hoje, quando as estrelas começarem a brilhar, vou tentar me comunicar com Maurino Júnior através dos sinais de “Libras”. Meu intérprete será aquele mesmo que trabalha com Bolsonaro. Ganhou o cargo, depois que “mandou todo mundo à puta que pariu”, numa recente live presidencial.

Maurino usa um super telescópio fabricado em Oeiras, que foi enviado para ele por Cícero Tavares.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 01 de fevereiro de 2021

O ENCANTAMENTO EM CADA UM DE NÓS (CRÔNICA DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

O ENCANTAMENTO EM CADA UM DE NÓS

“Um dia, todos seremos estrelas no firmamento divino”

A selva que se inicia em cada um de nós

Ontem no exato momento que caía uma forte e contínua chuva, sem perceber que os anos se passaram e que envelheci, parei de ler, fechei o livro, e me pus a observar o direito aparentemente sagrado do ir e vir das estrelas, durante a noite.

Um desenho animado e multicolorido nos céus. Parecendo uma chuva de meteoros.

Aflito, resolvi fazer à mim mesmo uma pergunta:

– Por que os nossos direitos de ir e vir, não são assim, como o das estrelas?

Ninguém me respondeu. Não obtive resposta alguma. Nem mesmo de mim mesmo, à quem perguntei. Fiquei calado, pois não tinha mesmo o que responder.
Aliás, não sabia o que responder.

– Por que as estrelas, tão brilhantes e cintilantes, podem passear, ir e vir, e nós humanos, não?

Eis que uma voz distante, que provavelmente somente eu ouvia, respondeu trombeteando:

– Pois, transforme-se numa estrela, ora!

Me bastou a resposta da minha imaginação. Me bastou o campo ocupado do meu tempo – e assim, tudo me bastou.

Reabri o livro. Voltei à leitura.

Mas, ainda com o pensamento viajando – sempre para o passado efervescente da juventude – voltei a fechar o livro. Agora, deixando-o cair no chão de forma proposital.

Voltei o pensamento para a primeira namorada. Corpo bonito. Limpo de muitas coisas ou quaisquer outros problemas. Corpo jovem, viçoso, enfim. Seios rijos, dentes alvos e limpos, boca bonita protegida por um buço que, de tão real, precisava olhar com a lupa para ser percebido.

A beleza da terra e da noite de lua

Por que envelhecemos?

Que razão há para isso?

Por que, não permanecemos eternamente jovens?

Eis que, distante dali, aquela mesma voz que interferira noutro momento, mas ainda longe, e agora em tom mais suave, voltou a sugerir:

– Pois, transforme-se numa estrela!


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 25 de janeiro de 2021

BEM ALI! (CRÔNICA DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

BEM ALI!

O silêncio reinante no “bem ali”

– Ei, bora “bem ali”!

– “Bem ali” é aonde?

– “Bem ali” é muito antes do “acolá”, e distante do “lá na frente”!

– O que é que vamos fazer nesse “bem ali”?

– Vamos saborear a natureza. Vamos escutar o cântico da cigarra, quando começar a anoitecer.

– Nesse “bem ali” só tem cigarras cantando?

– Não!!! No “bem ali” tem a profundidade do silêncio, a natureza, o céu límpido e claro.

Mas, o que tem de bom mesmo “bem ali” é o silêncio. “Bem ali” é tão silencioso, que apenas alguns conseguem escutar a conversa entre o vento e a brisa – e, claro, o vento sempre tentando convencer a brisa para um colóquio amoroso.

Mas a brisa sempre reluta, achando que a conversa pode evoluir para “os finalmente”, e dali nascer uma tempestade.

A sonata da chuva que cai “bem ali”

– Indo “bem ali” a gente pode conhecer o desconhecido, descobrir o encoberto. “Bem ali”, tem uma lagoa e a gente pode até banhar juntos. Banhar nus, como a natureza nos criou.

– E…. se alguém nos olhar banhando nus na lagoa desse “bem ali”?

– Na lagoa, banhando nus, estaremos só nós dois. Ninguém sabe onde fica o “bem ali”. Só nos, os despidos da maldade.

– E, depois do banho nessa lagoa do “bem ali”, o que faremos?

– Voltaremos para casa, pois a noite estará se apressando para chegar. Aproveitaremos para escutar o vem-vem e até para espantar as corujas que ficam na estrada. Vamos?

– Tá certo. Vamos. Mas, só vou porque você está dizendo que é “bem ali”!

A caminho do “bem ali” a estrada estará cheia de folhas que o outono derrubou

– Vamos andar um pouco mais rápido! Só assim, o “bem ali” fica mais perto. Bem distante do acolá.

Chegaremos em casa, comeremos alguma coisa e, escutando os vôos rasantes das corujas, sentaremos na ponta da calçada e contaremos estrelas. Separaremos aquelas com brilho muito intenso, das que não brilham tanto. Formaremos, ainda que apenas na imaginação, a nossa constelação estelar.

– E depois que contarmos as estrelas, o que faremos?

– Entraremos. Deitaremos, e faremos o que você quiser. Mas, não faremos tantas vezes pois, com certeza, o amanhecer de um novo dia estará “bem ali”!


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 18 de janeiro de 2021

OS PÉS DE FULÔ (CRÔNICA DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

OS PÉS DE FULÔ!

José de Oliveira Ramos

 

O pé de fulô que Das Dores prantou

Faz tempo que usamos a fala popular de lugares, repleta de regionalismo. Ainda que passemos a morar em meio aos conglomerados urbanos, carregamos “a forma de falar” daqueles lugares onde nascemos e vivemos por décadas. Muitos chamam isso de cultura regional. Pode ser. Ninguém duvida.

Mas, isso não fica restrito apenas ao modo de falar. Estende-se, também, aos diferentes e ricos modos de vida. É comum o apego com a poesia do verde e do ter o que fazer todos os dias, ao acordar e levantar. Uma tarefa que ocupa a alma, lubrifica e norteia o ego.

– Diacho, eu prantei um pé de fulô meis passado, e inda num nasceu nadica de nada?

Maria das Dores viera do interior do Ceará, tangida pelas agruras da seca. Ali deixou algumas galinhas que sobraram e resistiram diante da morte de outras tantas, por conta da falta de alimentos. Dona Das Dores não suportava conviver com aquele sofrimento enfrentado pelas aves, e achava estranho ter que abater todas para o consumo. Até porque eram muitas. Também não dava para levar nenhuma daquelas aves para a nova moradia, uma casa num bairro diferente e cheio de pessoas da classe média alta. Ali, ninguém aceitaria dividir o sono do início das manhãs com o cantar de despertar de um galo. Teria que se adaptar a novos hábitos. Mas, outros, nem tanto.

Eis que, na noite daquele mesmo dia o tempo mudou. Nuvens negras apareceram no céu azul, pintando o firmamento de um cinza previsível que, no sertão, o relógio da vida garantia uns bons e generosos dias de chuva. E choveu bastante durante a noite. No dia seguinte, mais chuva, que continuou acontecendo no terceiro dia.

Felizmente, no quarto dia o sol voltou a brilhar, e aquela luz convidou Das Dores à abrir a janela do quarto onde passara a dormir e traquinar sexo com Assis, o marido.

– Deus dos céus, que maravia! O meu pé de fulô nasceu!

Naquela manhã o café foi diferente. A mesa farta com coisas sempre presentes no café da manhã da roça (tapioca, pamonha, batata doce cozida, ovos fritos na manteiga, cuscuz, coalhada e um café que, de tão cheiroso incomodava a vizinhança) era uma forma de dar graças à Deus, e agradecer à Natureza pelo nascimento do pé de fulô.

– Quem pranta, coie!

Das Dores não cabia em si de tanta felicidade. Todos os dias, por três vezes molhava o vaso onde plantara o pé de fulô que trouxera de onde morava. Presente de Deus pelas mãos de Raimundinha.

E todos os dias ela mesma observava que o pé de fulô crescia. Se espraiava tanto quanto as boas coisas.

A danisca da fulô nasceu, cresceu e se espaiou

– Aubrigado Deus, foi aquele pezim de fulô que prantei que tá ficano mais que bonito!

Era, realmente, uma poesia que a Natureza escrevia a partir da mão de Das Dores. Tudo tem uma semente. Até a bondade ou a maldade.

Mas como quase todos sabem, não existe bem que dure para sempre, muito menos mal que nunca acabe. Eis que, Dona Das Dores e Assis foram avisados que invasores do alheio estavam se abancando da roça deles.

O casal nem esperou pelo tempo bom. Arrumou aquela velha mala de madeira e pegou o caminho de volta para a antiga vida, agora renovada pela certeza das coisas boas. Um simples pé de fulô serviu para ensinar Das Dores.

A casa da roça tinha um aspecto de abandono. O trabalho árduo seria cansativo, mas valeria à pena para colocar tudo em ordem. E a primeira providência de Das Dores foi aproveitar um pote velho em desuso e um alguidá. O pote serviu de apoio e o alguidá serviu como vaso para plantar outro pé de fulô. Na verdade, rosas vermelhas, que para Das Dores nunca deixaria de ser mais um pé de fulô.

Ai eu plantei outra fulô dendicasa in riba do pote

Retomando a roça e expulsando aquele aspecto de abandono, Assis e Das Dores, de tão cansados com a labuta da limpeza da moradia, sequer banharam e foram para o catre como se vivessem uma nova lua de mel.

Nas primeiras chuvas, agora com total assistência e trabalho da mão de Das Dores, a frente da casa tomou novo desenho, recebendo um aspecto europeu da Holanda. Flores por todos os cantos da propriedade, a ponto de chamar a atenção de quem por ali passava.

Nim todo lugá nasciam fulôres

Das Dores só tinha motivos para regozijo e se deliciava com tudo que a retina dos olhos alcançava. Até mesmo distante da primavera, o roçado de Das Dores deixava de ser uma simples roça para se transformar um jardim florido – e a qualquer época do ano.

Tudo a partir de uns simples “pés de fulô”!

– Quem pranta tem, e coie”!


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 11 de janeiro de 2021

A VIAGEM DE PAPEL (CRÔNICA DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

 

A VIAGEM DE PAPEL

Cada livro lido é uma viagem realizada

Nasci pobre. Continuei pobre e ainda sou pobre. As únicas riquezas que consegui amealhar, poupar e quintuplicar, foram os valores humanos e morais “depositados” nos porquinhos da minha vida pelos meus pais. Prosperei e, com certeza, vou deixar um bom saldo para meus filhos.

Por isso, muito provavelmente, nunca consegui viajar para fora do País. Nunca carimbei passaporte. Entretanto, com muita fé e coragem aceitei que, “ler, é viajar”! Cada livro uma viagem, com os conhecimentos, as paradas e rodopios feito um beija-flor.

Assim, sentado numa confortável poltrona sem numeração, viajei. Conheci até outro planeta e ali fiz amizade com uma raposa, com quem me habituei a cada fim de tarde olhar o pôr do sol e contar quantos lampiões o Acendedor acendia. Até aprendi a esperar o amadurecer das uvas, que a raposa teimava em vê-las sempre verdes.

Passei a juventude quase toda em Salvador. Conheci e convivi com quase todos os capitães daquela maravilhosa areia. Fui ao Pelourinho e os recantos mostrados por cada Jorge antes do encantamento.

O conhecimento pelo livro será sempre maior que os carimbos nos passaportes

Viajei no Expresso Oriente, bati longo papo com Hércule Poirot, e até o ajudei a descobrir alguns segredos. Ainda nessa viagem conheci vários quilombos e fiz amizades duradouras com mais de dez negrinhos. Na parte da tarde, dei milho aos pombos.

Nos rotulados anos de chumbo e exceção da década de 60, visitei Itaguaí e juntei todas as memórias do cárcere. Tudo parecia sonho. Mas era uma viagem real a cada página virada e uma nova escala a cada capítulo.

Ler é viajar, sim!

O livro é o único passaporte que a “esteira” não bloqueia

Neste exato momento estou no meu assento preferido. Sempre ao lado da janela, para melhor olhar as belezas que a Terra nos mostra, e que vão ficando para trás, renovando as esperanças que, mais na frente, nossos olhos premiarão nosso coração com o melhor roteiro.

Não suportei viver a arrogância, tampouco as atitudes descabidas dos Onze, cada um escondendo o pudor e o respeito aos semelhantes – como se eles, ao morrer, tivessem pelo menos direito a uma honrosa lápide.

Sentei na cadeira. O ônibus da vida vai partir e, neste exato momento, sigo para me encontrar com uma Pequena Abelha.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 04 de janeiro de 2021

ACÁCIO, O TOLO! (CRÔNICA DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

 

ACÁCIO, O TOLO!

Acácio – a simpatia e delicadeza em pessoa

Chico, ou o Francisco, viveu o quanto Deus permitiu. Nasceu raquítico, viveu raquítico, e faleceu com a gordura que o destino lhe devia. Na verdade, Francisco de Oliveira Ramos, o primogênito de papai e mamãe. Precisou de orações e promessas desde o dia que nasceu. Sufocado pelo líquido amniótico nasceu puxado, em vez do parto natural. E, no dia que nasceu também iniciou o périplo pela salvação.

A promessa inicial partiu da Avó (aquela que muitos de vocês já conhecem pelas minhas quase falas), que “prometeu” a partir dali ao Santo Protetor, São Francisco, que emprestaria seu nome a alguém nascido no dia 24 de junho, dedicado à São João.

Pois, nascido no dia 24 de junho de 1939, Francisco, o Chico, faleceu no dia 13 de setembro de 2004. Casou e teve uma “reca” de filhos. Dois rapazes e quatro moças. Um rapaz, quase Engenheiro Eletrônico formado pelo ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica), abandonou o que disse pretender, quando cursava o nono período. O outro rapaz é Engenheiro Militar formado pelo IME (Instituto Militar de Engenharia), sendo ele civil. Chico chegou à Superintendência Estadual do INSS no Maranhão.

Advogado, Radialista e Jornalista, Chico assinava uma coluna semanal no jornal O Estado do Maranhão. Escrevia crônicas sobre a vida e a cidade. Criou um jardim que nunca possuiu, e nele empregou um jardineiro que sequer conheceu, e jamais assinou a carteira profissional ou pagou salários. Chamava-o de “Acácio”.

Por anos, Acácio cultivou margaridas, samambaias choronas, lírios, girassóis e todas as cores de ipês. Por conta da dedicação ao patrão e ao trabalho, Acácio foi premiado no dia do aniversário, 30 de fevereiro, com uma bolsa de estudos para aprender a plantar e cuidar de orquídeas e bonsais.

O primeiro bonsai produzido por Acácio, era um “flamboyant”

Eis que, nesta semana recebi uma mensagem de Acácio, pelo “zap”. Garantiu que, no próximo dia 30 de fevereiro, data em que comemora seu natalício, vai comparecer na minha residência, pois entende que, com o falecimento do Chico, faz tempo eu sou o novo patrão dele.

Prometeu me presentear com um vaso em que cultiva um bonsai: ipê róseo que produz abacaxis mais doces que mel. Prometeu, também, mostrar ao mundo a sua obra-prima em orquídeas: uma orquídea fálica cultivada do cactos.

Obra-prima fálica produzida por Acácio

Sinceramente, eu acho que, além de expert jardineiro, Acácio nunca deixou de ser um verdadeiro tolo. Se vier e tiver a petulância de cobrar alguma coisa, vai ser demitido por justa causa e mandado de volta para Caracas, onde esteve ganhando a vida como jardineiro durante todos os anos que desapareceu.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 28 de dezembro de 2020

MOMENTOS DE LEMBRANÇAS (CRÔNICA DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

 

MOMENTOS DE LEMBRANÇAS

Nesta última coluna do ano de 2020 que, graças à Deus está terminando, deixando para nós um saldo negativo no que se trata de amigos e familiares, quero aproveitar para renovar a amizade e o respeito que sinto por todos que aqui comparecem, curtindo, comentando, ou postando suas matérias.

Que tenhamos um 2021 diferente. Para melhor. Que sejamos mais sensatos, e que tentemos com o que está ao nosso alcance ajudar na reconstrução desse País – dilapidado e jogado na lama por quase duas décadas.

A Fé reconstrói!

Coloque o seu tijolo nessa obra. Sinta-se participante na correção do que nos usurparam, e sigamos em frente.

Para fechar este ano, volto à infância que foi minha e, com certeza, de outros tantos que foram e continuam peraltas.

* * *

1 – Quando chegar em casa a gente conversa!

A varinha mágica

Que chegar em casa qual nada, mermão. A situação era resolvida era ali mesmo. Fosse onde fosse, e na presença de quem estivesse ali. Afinal, o “filho” era dela, e não do Conselheiro Tutelar uma exceção que o Estado nos impingiu, roubando nossos direitos de partícipes na educação familiar dos nossos filhos!

Era assim que minha Mãe era. Pau é pau, e pedra é pedra, doa à quem doer. Homem é homem, e mulher é mulher. Segundo ela, “baitola” é invenção de quem comeu merda ou barro tirado da parede, e se delicia com melecas tiradas das narinas.

Hoje é que acontecem essas marmotas e um monturo de idiotas fica querendo saber por que as crianças são rebeldes! Çei!

E çei, de novo!

Quer mais um “çei”? Então toma: çei!

Se não ficarem satisfeitos com todos esses “çeis”, mando um arre égua!

* * *

2 – Não quero essa comida!

Item da farofa que matava fome

Pense no prato preparado com o maior dos sacrifícios, às vezes até com a “intera” comprada fiado na bodega da esquina, e nos era servido: um baião de dois, farofa de carne em conserva fiambrada Kitut, uma banana prata madurinha.

Quem se atrevesse a dizer que não queria, a solução era a seguinte: “Tá bom, filhinho. Mamãe vai deixar aqui em cima da mesa, e coberto. Quando você estiver com fome, você vem e come, visse?!

E ó, depois lave os dois pratos, seque e guarde. Tá pensando o que?”

Hoje, a mamãe fica assoberbada, nervosa, caçando moedas e trocados em tudo que é lugar da casa e em todas as bolsas, procura nos dois sutiãs e fica atarentada para satisfazer o gosto do fdp, enquanto ele continua dedilhando o celular!

É, ou não é?

* * *

3 – Vá banhar e sem dar um pio!

A tarde era toda de jogar bola na rua na frente daquela vila, onde os moradores escutavam até o ronco dos outros durante a noite. Nunca a escolha dos times era feita sem confusão. Os “traves”, lembro bem, eram montados com camisas emboladas. Os donos das camisas tinham vagas nos times, caso contrário retiravam as camisas e iam embora – nessa situação a pelada acaba antes do tempo. E o tempo, quem determinava era a escuridão da noite que chegava.

Quando começava escurecer, com a claridade do dia dizendo até amanhã, ainda que o placar do jogo estivesse 5 a 5, tinha chegado a hora de entrar. Resmungar era algo natural. Responder ou discordar, ninguém se atrevia, quando escutava: “Chega de bola. Entra e vai direto pro banheiro, sem dar um pio. Lave bem as orelhas e as costas.”!

Hoje, provavelmente por que não existem mais aquelas peladas, o que alguns talvez escutem é o seguinte: “Stefesson (hoje não existem mais os José, Raimundo, Pedro, Francisco), será que não está na hora de largar esse computador, meu filho?”

E, se por alguma audácia materna, ele escutar aquele antigo “sem dar um pio”, ele, desaforadamente responde que não é pinto e até ameaça denunciá-la ao Conselho Tutelar. Pois sim!


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo sábado, 26 de dezembro de 2020

SANTA CEIA (CONTO DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

 

 

O dia é diferente da véspera!

A mesa está posta. Aquela mesma mesa usada todos os dias por Dona Mariazinha para quase todas as coisas. Ali é servido o café da manhã, sem toalha, com xícaras diferentes e algumas até sem alça. Um bule de ágata com a tampa quebrada, e até copos de vidro que antes foram embalagem de massa de tomate. Mas, é a mesa que o trabalho digno e Deus põem.

Aquela mesma mesa que Dona Mariazinha, às vezes, usou para colocar aquela bacia de alumínio com água morna para banhar Pedrinho, quando esse tinha seis meses de nascido. Mas, era a mesa, ué!

Hoje é o dia. Ontem foi a véspera. Naquela casa com portas velhas, janelas fechadas com a ajuda de cabos de vassoura, e com goteiras no telhado – e Dona Mariazinha coloca uma panela de alumínio para aparar os pingos e não enlamear o piso – ninguém é peru. Ninguém comemora véspera.

Hoje é o dia. Ontem foi a véspera. Por isso, Seu Pedro saiu com a espingarda bate-bucha, um bornal com espoletas, pólvora e algumas bolotas de chumbo. Foi à caçada para tentar matar alguma ave para a ceia. Não era dia do caçador. O dia era da caça.

Seu Pedro voltou para casa, sem nada caçado. Triste e pensativo guardou a espingarda num lugar onde Pedrinho não pegasse. Foi para a latada, sentou num cambito que colocava no jumento para transportar tonéis d´água. A tarde estava terminando, e não tinha nada para oferecer para Dona Mariazinha preparar a ceia. Lembrou que, no quintal, duas galinhas ainda ciscavam antes de subirem para o poleiro.

– Não! Uma das galinhas, não! As duas estão pondo ovos, e Mariazinha não vai aceitar matar. Pensava, e concluía Seu Pedro.

Também não tinha pão; panetone, sequer sabia o que era. Seu Pedro lembrou que ainda tinha milho. Podia socar no pilão, fazer o xerém e depois o fubá. Poderia fazer cuscuz, mingau, bolo misturado com meia dúzia de ovos – afinal as duas galinhas eram poedeiras.

Chamou Mariazinha e perguntou:

– Mulé, não cacei nada. Tá difícil a caça nesse tempo. O que vamos fazer para a noite do dia que Jesus Cristo nasceu?

– Num se desespere hômi. Deus é bom e vai nos ajudar! Disse Mariazinha, voltando para a cozinha.

– Mulé, vamos usar o milho. Mas não podemos usar todo. Precisamos deixar pelo menos cinco litros para plantar, e a chuva tá parecendo que vai chegar.

– Hômi, nóis tem aquele frango que pensa que já é galo, veve brigano com o galo, porque quer as galinhas só pra ele. Vamos já arresolver isso.

Foi que Seu Pedro iniciou a socagem do milho no pilão. No mesmo momento viu Mariazinha colocar a panela grande no fogo com água.

– O que qui tu vai fazer quessa panela d´água mulé?!

– Espera só que tu já vai vê. Pois sim!

Incontinenti, Dona Mariazinha foi ao quintal e, quando voltou, já trazia o frango saliente, metido a galo, com o pescoço quebrado.

A partir dali, tudo mudou. A mesa recebeu uma toalha velha de retalhos. Os mesmos pratos diferentes uns dos outros, poucas colheres. Até a panela veio para a mesa, pois não havia travessa bonita, dessas utilizadas nas casas diferentes daquela.

Finalmente a noite disse presente. As lamparinas estavam acesas. Na sala, o farol movido a gás clareava tudo, embora os pirilampos também tivessem chegado, provavelmente atraídos pelo calor da luz.

Mãos dadas e unidas ao redor da mesa, cabisbaixos, Seu Pedro e Dona Mariazinha faziam oração de agradecimento:

– Deus, sei que estás presente, e te convidamos para a ceia que nos destes. Sei, meu único Senhor, que tudo tem seu dia para acontecer. Nada acontece na véspera!


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 21 de dezembro de 2020

GÊNERO – MASCULINO OU FEMININO? (ARTIGO DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

 

GÊNERO – MASCULINO OU FEMININO?

A menina no balanço

Presidente, ou Presidenta?

Afinal, o que seria da raça denominada humana, se não fosse a resolutiva interferência da Natureza na designação das coisas que nos cercam, e que estão à nossa disposição?

Por que é prazeroso para a raça humana a “transgressão, o discordar, o contrariar ou até mesmo o querer fazer diferente”?

Depois de alguns anos convivendo com a República, até poucos dias atrás viemos experimentar a “diferença” de estar sentada na cadeira de maior autoridade eleita do país, uma mulher. Nunca isso acontecera antes. Pelo menos de forma direta ou legal (sic).

Pois, entre nós brasileiros, essas aberrações (conceito meu e assumo) linguísticas começaram a acontecer e ganharam terreno entre os seguidores dos métodos paulofreirianos. Criaram, no falar e na gramática, o exuberante “Presidenta”!

Aí eu digo o meu primeiro “arre égua”!

Hoje moro em São Luís. Não há como discutir isso em meio a tanta gente que aprova a mudança. Até por que, quando alguém vai se manifestar em público para uma plateia, inicia da seguinte forma:

– Bom dia para todos e para todas!

E sou obrigado a dizer o meu segundo “arre égua”!

Quer dizer que, quando alguém fala “todos”, está falando apenas com as pessoas do gênero humano masculino?

Não me perguntem por que, pois ainda não aprendi o suficiente, nem tenho lastro para responder, mas aqui em São Luís, quase ninguém fala o “ao invés de”. Fala: “em vez de”. Eu, nesse caso, já me acostumei, e também falo “em vez de”.

E aqui não cabe nenhum “arre égua”!

Aqui faço um registro, e digo que sou leitor e fã do paraibano Ariano Suassuna, usuário contundente das boas e bem faladas palavras, principalmente dos adjetivos. Nada contra quem desdenha e minimiza a importância disso.

Prefiro usar “baitola ou lésbica”, em vez de “gay”. Uma coisa ou outra, dará sempre no mesmo. Não vai mudar a prática apreciada por alguns, que hoje formam um grande contingente nesse país.

E é aqui que coloco que estão querendo nos empurrar goela à baixo, o termo “orientação sexual” para quem faz uma “opção sexual”. Está dito lá no nosso “Aurélio”, o que significa “orientar”, da mesma forma que também está escrito o significado de “optar”. Ambos são completamente diferentes no sentido.

Quem “orienta”, ensina. Quem “opta”, escolhe. Nessa vida pregressa que me permitiu chegar onde estou, nunca tive notícia de que alguém tenha orientado outrem a ceder generosa e prazerosamente o traseiro. Não há escola, tampouco professor(a) para isso. É uma questão de “opção”.

Balança e seus penduricalhos

E por que num bloco acima citei a palavra “Natureza”?

Porque, essa mesma “Natureza” se encarregou de nos mostrar a diferença entre os gêneros, quando nos apresentou o cavalo marinho, um dos poucos ou talvez o único capacitado “para parir filhos”.

Sem pretender entrar no mérito especial do ato sexual entre um homem e uma mulher, há um passeio teórico pela configuração da imagem da Santa Ceia, com Jesus Cristo no “centro”. Esse passeio teórico mostrou no filme (claro, uma obra de ficção!) “Código da Vinci”, que realmente existe um “espaço” mais aberto ao lado direito de Jesus Cristo, simbolicamente em forma de “cálice”. E o cálice, a gente sempre soube, é algo “receptivo”. É algo que recebe, embora também “ofereça” o acesso do visitante.

Na prática do sexo, a mulher “recebe” muito mais do que oferece. E não estamos falando no sentido de oferecer carinho, receptividade, disponibilidade. Estamos falando no sentido de oferecer penetração para o visitante. Trocando em miúdos: dá mais do que recebe. É o sentido simbólico do cálice.

Eis, no meu modo de entender, o sentido do gênero masculino ou feminino. Claro que não sou o dono exclusivo de nenhuma verdade.

Entretanto existem palavras que, “aparentemente” iguais, usadas na configuração masculina tem um sentido e significa realmente outra coisa, enquanto que, usada na configuração feminina identifica algo completamente diferente.

Veja que, impulsionado pelos ventos da saudade, do amor, da inocência infantil ou qualquer outro sentido que o ambiente queira dar, “o balanço” – objeto criado para o lazer prazeroso e poético – tem adjetivação diferente da “a balança” – objeto criado para medição de algo ligado ao comércio, ou, em poucos casos, à cobrança tarifária de impostos.

Ariano Suassuna, o genial, esteve sempre completamente certo. Não há sentido algum em querer mudar a obviedade.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 14 de dezembro de 2020

CANTANDO COM AS BUNDAS (CRÔNICA DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

CANTANDO COM AS BUNDAS

Sábado, com a claridade do dia dizendo até amanhã, era comum muitas das casas daquelas ruas onde moravam o amor e o bom gosto, as radiolas ligadas e sendo a principal mobília da sala. A sala iluminada e exalando aquele perfume inconfundível de limpeza e enceramento com Parquetina, havia até quem preferisse iluminação diferente conferindo a presença do romantismo. Coisa de épocas passadas. Coisa dos anos 50, embora houvesse até quem aumentasse o volume da radiola quando tocava: “Vinha por este mundo sem um teto, dormia as noites num banco tosco de jardim, sem ter a proteção de um afeto, todas as portas estavam fechadas para mim…mas Deus, que tudo vê e nos consola, em seu sagrado templo me acolheu….”

Vicente Celestino se transfigurava numa letra à qual se entrega como se um eterno Ébrio fora e não tivesse jamais encontrado uma Porta Aberta.

Era música, sim. As músicas diziam algo com as letras, sim. Tínhamos cantores, sim. Tínhamos cantoras também, sim.

Para onde foram? O que aconteceu com esses mágicos que nos diziam do amor e da beleza da vida?

E hoje?

Por que as cantoras, em vez de estudar canto, vão para as academias de ginástica para moldar as bundas?

As bundas cantam? As bundas são o que?

Por que se apresentam (principalmente nos programas televisivos) com mais da metade dos seios de fora?

Seios cantam?

Não. Não tenho nada contra bunda e muito menos contra seios. Adora bundas e adoro seios. Gosto de acariciá-los, se femininos.

Dolores Duran

E eis que chegou o tempo da doçura mágica e acalentadora dos fins de tardes ouvindo Dolores Duran. Músicas suaves, letras doces que acalentavam em confirmação do amor que habitava nas pessoas. Que existia em nós.

Assim:

“No ar parado passou um lamento
Riscou a noite e desapareceu
Depois a lua ficou mais sozinha
Foi ficando triste e também se escondeu
Na minha vida uma saudade meiga
Soluçou baixinho
No meu olhar
Um mundo de tristeza veio se aninhar
Minha canção ficou assim sem jeito
Cheia de desejos
E eu fui andando pela rua escura
Pra poder chorar.”

 

 

E aí a fila andou. Os tempos mudaram os grandes cantores e cantoras deram o ar da graça. Elizete Cardoso, Marlene, Ângela Maria, Dóris Monteiro, até que o Rio Grande do Sul nos apresentou e o mundo conheceu essa até hoje insubstituível Elis Regina, desafiando o sistema, correndo sobre o fio da navalha e dizendo e cantando o que queria e o que queríamos ouvir: música!

“Quando olhaste bem
Nos olhos meus
E o teu olhar
Era de adeus
Juro que não acreditei
Eu te estranhei me debrucei
Sobre o teu corpo
E duvidei
E me arrastei
E te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos
No teu peito
Teu pijama
Nos teus pés, ao pé da cama
Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta…”

 

 

Elis a maior entre as maiores em todos os tempos

Essa época de ouro da música brasileira nos trouxe e nos privilegiou com cantores e cantoras da melhor qualidade. Gente que jamais será desbancada por outros. Não há como. Não vamos ficar citando nomes, pois são muitos. Foram muitos.

Louve-se, também, a qualidade dos compositores que vão desde Lupiscínio, Donga, Cartola, Evaldo Gouveia, Jair Amorim que compuseram músicas que consagraram os cantores e cantoras daqueles anos.

E aí chegaria o tempo de conhecermos Maysa, que cantava por que gostava de cantar. Não dependia financeiramente da músicas para viver. Cantava por prazer.

Maysa Matarazzo

“Meu mundo caiu
E me fez ficar assim
Você conseguiu
E agora diz que tem pena de mim

Não sei se me explico bem
Eu nada pedi
Nem a você nem a ninguém
Não fui eu que caí…”

 

 

Quem ouviu e conheceu Elis Regina e Maysa Matarazzo, sabe bem como e por que faleceram precocemente. Faleceram em pleno e total reinado da qualidade técnica.

Nada temos com a vida pessoal desses gênios musicais, muito menos com a vida e o comportamento pessoal dos atuais cantores e cantoras. Nosso tema se prende exclusivamente à qualidade vocal e na maioria das vezes à qualidade interpretativa.

Os cantores e cantoras de hoje nada mais fazem que mostram a bunda

O momento atual da música brasileira, principalmente no que tange às apresentações com imagens pelo sistema de televisão é ridículo. Péssimo. Sem qualidade nas letras, sem qualidade interpretativa e com enorme apelo para o sexo.

Nada contra o sexo. Muito pelo contrário. Apenas não concordamos com o que é mostrado na televisão em qualquer horário da programação.

 


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 07 de dezembro de 2020

OS FINS DAS TARDES NA JANELA (CRÔNICA DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

 

OS FINS DAS TARDES NA JANELA

Dona “Nena” no pastoreio na janela

Cartão postal da Rua da Palma, bairro periférico da cidade histórica São Mateus, uma das poucas onde o progresso demorou chegar. Ali naquele bairro e cidade, quase todas as pessoas se conheciam. Sabiam os nomes, o que faziam e a qual família pertenciam. Era uma comunidade nascida, crescida e envelhecida com quase nenhuma mudança. Apenas alguns jovens tinham motivação para sair da cidade à procura de escolas mais avançadas. Tipo universidade. Mas, nas férias nunca perdiam o vínculo.

– Boa tarde, Dona Nena! Cumprimentava respeitosamente o passante.

– Boa tarde. Deus te abençoe! Respondia Dona Nena, com o braço direito no parapeito da janela e o cotovelo esquerdo segurando um lado da face.

Diferente de outras moradoras, que nos fins de tarde se punham sentadas nas calçadas, fazendo croché e aproveitando para “pastorear” os meninos que brincavam na rua.

Era comum que, mesmo com a noite chegando, as senhoras só entrassem de volta nas suas casas após a chegada dos maridos vindos do cansativo dia de trabalho. Alguns maridos até sentavam também na frente da casa, e só entravam duas ou três horas depois.

Ali, sabiam de tudo que acontecera durante o dia. Era um verdadeiro relatório passado pelas esposas.

Mas, a moradora da casa 22, Dona Nena, era diferente. Esperava na janela por nada. Ficara viúva fazia alguns anos. O que esperava realmente, era a chegada de Emerenciano, “Seu Cecé” para leva-la junto para aquela enorme constelação estelar.

Por alguns problemas de saúde, Dona Nena e Seu Cecé não tiveram filhos. Eles dois eram o fim da frutificação da árvore genealógica.

E toda tarde a rotina se repetia. Pouca louça usada no almoço, o que também significava pouco trabalho na limpeza. Depois, uma boa madorna vespertina, até ter coragem e disposição para preparar o café da tarde para apenas uma pessoa. Ela mesma.

Dona Nena permanecia naquela janela da casa 22 por muito tempo. Às vezes a noite chegava e ela não se dava conta. Na rua, quando as luzes da iluminação pública eram acesas, as mariposas começavam a dar o ar da graça, os maridos de quem permanecia ainda nas calçadas começavam chegar.

Ela, coitada, sofria ainda mais sentindo a ausência e a partida de Seu Cecé.

O corvo que substituiu Dona Nena

Dias e meses se passaram e a rotina continuava. O mesmo movimento das crianças na rua, as donas de casa na calçada, as mariposas se aquecendo no calor da iluminação pública. A nostalgia marcava presença.

Eis que, numa certa tarde de outono, aquela janela da casa 22 da Rua da Palma ficara diferente. A figura taciturna e observadora de Dona Nena, braço direito apoiado no parapeito e esquerdo apoiando a face pensativa, não estava ali.

Mas a janela estava aberta. Sem ninguém. Sem Dona Nena. No seu duradouro lugar de observação da vida pela janela, pousava um corvo.

Anos depois, as mesmas donas de casas que se postavam nas suas cadeiras na calçada, continuaram afirmando que aquele corvo fora enviado por Seu Cecé. Não dava mais para esperar tanto tempo pelo carinho e afagos de Dona Nena. Agora, uma estrela daquela constelação divina.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 30 de novembro de 2020

A COR DA PELE IMPORTA? (CRÔNICA DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

A COR DA PELE IMPORTA?

Menino beijando a água – o reflexo é escuro sem ser negro

Não sei quem foi o “autor” da foto. Mas, a primeira que vi e guardei na memória, foi a de uma mulher negra alimentando o filho. Era uma foto de uma das primeiras habitantes da Nova Papua, que hoje teve acrescentado o “Guiné”.

Era um livro sobre História ou Geografia que nos encaminhava para a iniciação antropológica de muitos. Claro que “alguém” fez a foto. Se assim não fosse, ela (a foto) não existiria.

Pois, desde então leio e ouço falar dessa questão “raça” como uma das vertentes da História da Humanidade. Também é desde esse tempo que escuto falar na insolúvel e desnecessária tentativa de encontrar uma solução para o rotulado “preconceito racial”.

Há momentos que essa discussão vem à tona. E isso não aconteceu ontem nem hoje. Vem de muito tempo. E, infelizmente, para aqueles que vivem politizando toda e qualquer tentativa de solução adjudicando a solução ao governante do momento, não há como falar em “solução justa” num país como o Brasil, onde a “justiça” é parte maior do “febeapá” de Sérgio Porto.

Como falar em “Justiça” num país onde um Juiz comete um crime, principalmente contra humanos, e é “premiado” com aposentadoria compulsória, quando deveria sentar numa cadeira elétrica?

E por que cadeira elétrica?

Por que um Juiz sabe o que é um crime, como sabe, também, que não deveria cometê-lo! E ele existe para, com a lei dos homens, punir quem comete crimes.

Entendo eu que, “isso não se resolve pela via judicial”. Como dizia minha falecida Avó, que nunca se graduou em Direito nem fez Doutorado em Harvard, isso a gente começa a resolver “dentro de casa”. Nas nossas casas. Nunca nas escolas.

O que as escolas têm ensinado nos dias atuais, além da tentativa de empurrar goela à dentro, os significados das palavras? Querem que aceitemos o termo “orientação sexual”, quando o certo é “opção sexual”. Orientar é algo que nada tem com optar.

Mas, por que estou colocando esse assunto, logo hoje, neste espaço tão nobre e ao mesmo tempo tão esculhambado, e de forma sábia e altaneira criado por esse fantástico Luiz Berto Filho?

Nada relacionado como a morte do rapaz naquele supermercado de Porto Alegre. Aquilo não nasceu ali. Aquilo não me pareceu racismo. Aquilo é violência desmedida que a mídia “alfabetizada” a partir das teorias de Paulo Freire encaminhou para nada.

Racismo?

Não. Aquilo que a televisão mostrou não é racismo.

Aquilo é a depravação do ser humano. É violência humana.

Vejam o vídeo mais uma vez, e expliquem o motivo “racista” que leva um dos agressores a se contentar “apenas” em bater na cara do agredido. Por que “na cara”? O que é que tem o “racismo” com a cara de alguém?

Essa aí é uma “negra linda” ou uma “mulher linda”?

Refresco de maracujá é bom. Acalma. Bebamos um refresco e suavizemos o assunto.

Olhem a fotografia dessa jovem mulher. Poucos dirão: uma mulher negra linda. A maioria dirá: uma mulher linda. E o que tem a cor da pele com a beleza?

Por acaso, uma rosa preta é mais, ou menos bonita, que uma rosa vermelha?

Repito: o combate ao racismo começa “nim casa” cuma dizia Vovó.

“Fio maravilha” se fosse branco seria mais maravilhoso?

Qual é a cor da Geni, que Chico convida para jogar bosta?

Essa fala seria mais contundente se Morgan fosse branco?

 


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 23 de novembro de 2020

AS COISAS BOAS DA VIDA (CRÔNICA DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

AS COISAS BOAS DA VIDA

O que seria a vida se não existisse o sal?

Hoje vamos mais uma vez justificar o título da nossa coluna. Vamos, literalmente, “enxugar gelo” e tentar colocar nossa opinião pessoal discorrendo sobre o que quase todos sabem.

É. Vamos falar de algumas coisas boas da vida. Algumas muito importantes, e outras largadas aos conceitos de cada um.

Claro que, banho, a maioria prefere tomar nu. A não ser naqueles filmes onde as temporariamente ricas (quando morrem, todos ficam iguais) aparecem nas banheiras vestidas com peças que nada cobrem. Nem a vergonha.

Agora, num açude, no rio, numa lagoa ou no mar – tomar banho nu, sem nada, nos parece ser tão prazeroso quanto indescritível.

Sexo feito entre casais (eu sou de outra geração e abomino “esfregação” entre duas pessoas do mesmo sexo – mas, quem quiser dar o que é seu, que dê), será sempre algo que será trocado por enes maçãs e em qualquer lugar. No Éden, na sombra, dentro do carro e até sobre uma bicicleta. Sexo é bom.

Existem, sabemos disso, várias coisas “condenáveis”, que acabam se tornando prazerosas por conta do intempestivo. Soltar um peido fedorento, silencioso, dentro de um elevador lotado e depois ficar olhando para a cara das pessoas, não tem preço. É muita falta de educação. Mas que é gostoso e hilário, isso é.

Comida em mesa farta é uma bênção

Nos dias atuais muita coisa mudou no Ceará, estado onde nasci. Nos anos 50 e 60, o cearense, com sustento garantido pela agricultura, dependia das chuvas. Dependia do bom inverno para semear e colher – alguns até transformavam cômodos das casas em depósitos de sementes alimentares, se prevenindo para a possibilidade de novos períodos sem chuva e, com plantio mas sem colheita. Era a seca. Seca braba, que matava animais e tangia pessoas para longe do convívio.

Quem conhece, teve notícia ou (como eu) viveu essa situação, sabe o significado de uma mesa farta de alimentos. É um bálsamo. É uma verdadeira transfusão de otimismo e a certeza de que Deus existe.

A noite sugere e propõe uma pausa na labuta diária

Na prática, a noite serve para separar um dia do outro. Acreditamos que a noite é metade de um dia que se vai, e metade de outro que começa. É na noite que acontece a reparação e a preparação para o que vem a seguir.

Uma noite de frio, sem cobertor, não é coisa boa. Quem não tem esse cobertor, será sempre como um(a) filho(a) que acabou de perder a mãe. Estará a partir de então, “descoberto”.

É na noite que as cigarras cantam e que os grilos aporrinham. Habitualmente, é na noite que os diversos acasalamentos acontecem e que renascem as possibilidades reprodutivas.

Mas, aprendi ao longo da vida que, a noite é o semear da esperança de um dia sempre melhor. E jamais haverá alguém esperando por algo pior. A noite é a partida para o recomeço.

Ler é um dos prazeres da vida

Entre as muitas coisas boas e prazerosas da vida, considero a leitura uma das mais importantes. Quem lê, viaja.

Já estivemos incontáveis vezes na Inglaterra, sem passaporte, sem dólar e até conhecemos o detetive Hércule Poirot, que nos foi apresentado pela magia de Agatha Christie.

Também, sem que nunca tivéssemos sido condenado ou preso, já convivemos num cárcere através de Graciliano Ramos, e até nos consideramos Mestre e Doutor em nordestinidade, graças ao paraibano Ariano Suassuna.

Ler em qualquer lugar é bom. Ler deitado é melhor ainda, e ler o que é bom, faz a festa de qualquer um.

Nesse “rodar da Terra” um livro escrito cem anos atrás acaba sendo atual. Como “Capitães da areia”, que Jorge Amado descreveu uma infância vivida em Salvador. Algo muito atual nos dias de hoje.

O amor é o melhor de todos os prazeres

Não há, entre todas as coisas boas terrenas, algo que supere o amor. Amor emoldurado pelo respeito, pela admiração e sobretudo pelo prazer de estar junto construindo a vida, a família, superando todos os obstáculos encontrados.

Aqui, não dá para deixar de fora nenhuma espécie de amor. O amor é algo que merece respeito, qualquer que seja ele – embora existam alguns tipos de amor que não podem ser considerados como tal. O amor interesseiro que busca sempre os bens materiais – esse não é amor.

O desmedido amor edipiano, que consegue superar qualquer coisa. O amor materno, preparado, semeado ainda no ventre, será sempre algo que nenhum tipo de tempestade vai destruir.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 16 de novembro de 2020

BRINCAR É FAZER POESIA INFANTIL (CRÔNICA DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

BRINCAR É FAZER POESIA INFANTIL

Os navegadores

(Ludoterapia é uma técnica psicoterápica de abordagem infantil que se baseia no fato de que brincar é um meio natural de auto-expressão da criança.)

Este pequeno e reflexivo texto tem a pretensão de, poeticamente, nos levar de volta aos anos da infância. Como se estivéssemos num passeio de gôndola nas águas de Veneza.

Queremos passear pelas boas lembranças e reviver as peraltices praticadas durante anos – que acabaram modulando nosso caráter e a maioria das nossas atitudes quando adultos.

– Mãe, deixa eu ir bem ali, fazer uma coisa?

Preocupada com o modelo educacional e com a construção do homem a partir de uma criança, a (minha) Mãe argumentava:

– Ali aonde, e fazer o que?

E nós, incutidos em falar apenas as verdades, respondíamos:

– Fazer um pouco de cerol!

E ela, vigilante, asseverava:

– Vá, mas volte logo!

E lá íamos nós, dispostos a caminhar cerca de 5 Km, com duas e até três lâmpadas queimadas para coloca-las na linha do trem, esperar a passagem do dito cujo, e, depois apanhar o pó de vidro que seria adicionado à cola e se transformava no cerol para a pipa (no meu Ceará, também chamada de “arraia”).

Na parte da tarde, depois de uma boa soneca pós-almoço e a feitura dos deveres de casa da escola, era sentar na ponta da calçada com pedaços de cacos de louça, extrair o pó para limpar todos os botões do time. Ali, os nossos times já recebiam os nomes de Santos, pelo excesso de botões pretos (Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Abel), o Flamengo, Vasco, etc., conforme a preferência de cada um.

Quando o sol esfriava, a pelada na rua. O dono da bola e o mais velho da rua escolhiam os times. Às vezes eram jogadas várias partidas de 10 gols. Quem fizesse os 10 gols primeiro, era o vencedor e o perdedor dava lugar para outro time.

Fora disso, era jogado o “gol à gol” – com bola de meia, com dois jogadores de cada lado. Um chutava e o outro defendia. Tudo acabava quando a escuridão da noite dizia: cheguei! Ou, quando a mãe aparecia no portão e determinava: chega! Tá na hora de entrar para banhar!

A pintora de telas imaginárias

A noite chegava, e tudo voltava à rotina: quem não tinha televisão em casa, se dirigia para uma praça onde havia um televisor público, ou pegava um tamborete e se postava pelo lado de fora na janela do vizinho – quando o vizinho era bom e amigo. Quando não era uma boa vizinhança, a janela sequer ficava aberta.

Os anos passavam, os pelos pubianos apareciam nos meninos e nas meninas, a fase ludoterápica e a idade mudavam. As meninas encontravam mais motivos para se postarem diante dos espelhos, observando o crescimento dos seios e o arredondamento das ancas, e ambos momentos avisavam que uma mulher estava chegando. Chegava a hora de trocar de brinquedos. Nada mais de bonecas ou casinhas de ensaios de culinária. Chegara a hora dos bebês.

E, assim, tirando uma “bobagenzinha” daqui e colocando outra dali, estava sendo posto um ponto final nos bambolês, nas petecas, nos escorregas, nos balanços, nas corridas do saco e noutras tantas brincadeiras que, desapareceram e abriram espaços para os “xópis centeres” da vida moderna.

A professora disciplinadora

Até mesmo as meninas, que um dia se auto-afirmaram como “fessoras”, proferindo aulas imaginárias para turmas idem, começaram a aparecer nos xópis, com saias que mal cobrem as calcinhas e são usadas, especificamente, para possibilitar a amostragem das tatuagens nas curvas das coxas roliças, muito bem depiladas e provocativas.

As mudanças visceralmente intempestivas nada mais são que o exagerado consumo de uma cultura globalizada e, lamentavelmente, descaracterizada, como em mais de uma oportunidade opinou Ariano Suassuna. É uma cultura deturpada, com valores estereotipados que destroem mais que constroem.

A master chef

A partir daí as cenas mudaram nos palcos da vida dos teatros das famílias. Pais, tanto quanto mães, deixaram de ser o “porto seguro” de alguns, e se transformaram nos chatonildos e castradores de plantão. Os narizes, que antes acompanhavam as cabeças no ato obediente, tomaram posições horizontais e se exacerbaram num enfrentamento que está destruindo aquela poesia infantil da convivência.

– Você vai aonde filho(a), posso saber? Pergunta a mãe.

– Não te interessa. Que saco! A vida é minha! Responde o(a) antes obediente filho(a).

É assim, ou não é?

A poesia macia de Cora Coralina na vida do jovem, foi substituída pelo texto real de Plínio Marcos.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 09 de novembro de 2020

O CABARÉ DA ZEFA (CONTO DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

O CABARÉ DA ZEFA

Cabaré da Zefa com publicidade explítica

Acertei o corte da máquina de aparar grama. Vou cortar baixo e, já nesse primeiro parágrafo peço desculpas para aqueles que não usam esse tipo de palavreado chulo – são os que costumam cagar em pé.

Nos idos anos 50, 60 e até meados dos anos 70, quase a totalidade da moçada que namorava não exercia a cultura atual de “pegar a namorada”. Quem “pegava” tinha consciência que estava fazendo algo fora do hoje “politicamente correto” – uma das muitas coisas que acabaram emprenhando nessa geração – e sabia que precisava assumir. Isso é: casar para sustentar o bruguelo.

Mas, quem só ficava nos amassos e se conformava em voltar para casa com a cueca melada e o saco dolorido, precisava recorrer à duas soluções: 1 – descascar uma banana chamada Maria; 2 – ou arrumar uns trocados para bancar a troca de óleo. Foi a geração que mais teve punheteiros nesse Brasil e a que ajudou disseminar a prostituição, transformando as xanas em “produto de consumo” e não “ponte para o amor”.

Não faz muito tempo, puta é alguém de respeito. Muitas putas saíram do puteiro para constituir família. Hoje, em segredo, famílias probas e respeitáveis.

Mulheres aguardando clientes no Cabaré da Zefa

Na Bela Vista, um bairro de Fortaleza habitado por famílias da classe média, existia uma travessa e, nessa travessa, uma única casa pintada com um verde musgo, com muro alto e um portão sempre trancado. Ali morava a respeitável senhora Dona Josefa, viúva que resolveu reconstruir a vida após a morte do marido.

Com a chegada da escuridão e das mariposas, aquele lugar soturno se transformava no “Cabaré da Zefa”, o mais depravado puteiro que existia na periferia.

Quem ali chegasse e não fosse desconhecido, sabia as regras rígidas da casa. E sabia olhar, de imediato, para uma recomendação escrita na parede e iluminada por duas boas lamparinas:

“As putas estão aqui, todas à disposição, e não fazem nada de graça. Não procure quem você deixou em casa.” – Assina, Zefa.

Aviso mais claro que esse, ninguém vai encontrar nem nas prateleiras das bodegas (“Fiado, só amanhã”). Frequentador do ambiente sabia que, ali, tudo era pago e tinha um preço.

Tabela oficial: “Mulher nova, coxuda, com peito grande e duro” – 20 mil réis, com pagamento adiantado. A senha que afirmava que o pagamento fora feito, era um rolo de papel higiênico cor de rosa quase morrendo e um sabonete Eucalol.

Quem pagava mais alto recebia um rolo de papel higiênico branco e um sabonete Phebo. A mulher se dirigia ao “Caixa”, recebia e conduzia o “cliente”. E aproveitava para marcar a hora. Uma hora!

Radiola toca discos – acionada por moedas

E a tabela ainda continha: “mulher magra, com pouco peito, pouca bunda, mas que finge desespero na hora do orgasmo aos gritos de “mais, mais, quero mais” – 15 mil réis; mulher “fria”, gorda, que fica lixando as unhas na hora do sexo – 10 mil réis.

“Empresária” das mais bem sucedidas na venda das xanas das outras, Zefa “só pegava homem” depois de encerrar o caixa do dia, pois não dava trela para ser enganada por ninguém. Nem pelas “operárias”, nem pelos “consumidores”.

Passava o tempo aproveitando para escutar as músicas bregas de Orlando Dias, Núbia Lafayete, Cláudia Barroso, Cauby Peixoto, Miltinho, Evaldo Braga e a turma que, sem saber, fazia a alegria de qualquer cabaré brasileiro. Cada ficha para acionar o bracinho que pegava o disco e levava para tocar, custava 1 mil réis. Quem comprasse 3 cervejas, ganhava uma ficha para acionar o disco.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 02 de novembro de 2020

O BEIJA-FLOR DA VOVÓ – MEU TIO! (CONTO DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

 

O BEIJA-FLOR DA VOVÓ – MEU TIO!

Vovó, mãe da minha mãe, era uma negra de descendência africana que nasceu em Pacajus, interior do Ceará, onde, por muitos anos viveram os índios paiacus. Pele negra, que ficou mais negra ainda pela constante e obrigatória convivência sob o sol e o calor abrasador – sem que uma coisa implique a outra.

Vovó era filha de Nanahme – quinta geração dos índios paiacus – e teve duas filhas por conta do convívio com os negros vindos da África. Assim, em nada nos diminui ou ofende o termo “afrodescendente”. Realmente o somos. Somos legítimos descendentes de negros africanos.

A necessidade de “sair de baixo da saia rodada da mãe” fez com que Vovó procurasse um rumo na vida. Aprendeu a fazer tudo que era necessário para viver, aonde vivia. Cozinhava, lavava roupa, matava galinhas, fazia fogueiras, torrava café, fazia farinhada, tangia animais, criava galinhas e tinha extrema habilidade com a foice, o machado ou com a vassoura. Aparava filhos, netos e bisnetos. Era uma parteira leiga – daquelas do lençol grosso e encardido mas sempre limpo.

O marido só vivia para ela e para o trabalho. Os dois fumavam no mesmo cachimbo. Era minha Avó quem cuidava das tarefas “domésticas” – enquanto a parte que exigia mais esforço físico, ficava com o Avô.

Foi a Avó quem construiu no final da casa, e onde ficava a cozinha, um girau onde lavava as panelas de alumínio, as panelas de barro, os alguidás e os pratos, também de barro. Ali, debaixo do girau, quando caía algum resto de comida dos pratos que estavam sendo lavados, os pintos comiam. Caroços de feijão cozidos, sementes de melancia, de maxixe, de tomate, de quiabo – ao serem molhados pela água que caía da lavagem dos pratos e panelas, nasciam. Antes de frutificar, floravam.

Do que florava, quando as galinhas não comiam, alguns pássaros se regozijavam. Faziam a festa, num ambiente totalmente doméstico. Entre alguns pássaros, começou a aparecer um beija-flor.

Vovó, nesse tempo, não tinha idade tão avançada. Assim, pensar que ela estava caducando ao ouvi-la “conversar” com o beija-flor, nunca nos pareceu justo. Mas ela conversava, sim. E até insinuava que o beija-flor respondia:

– Quer mais um pôquim, d´água bixim?! Quer meu fii?

E entendia que respondia, e atendia ao pedido da minúscula ave. Aquele beija-flor, sem documento cartorial, sem qualquer papel, passou a ser “filho” da Vovó e, portanto, meu tio. Exigente, matriarcal e dominadora por excelência, minha Avó até fazia questão que os netos – sem exceção – pedissem a bênção diária ao “tio” voador. E não ganharia o naco diário de rapadura, o neto que não pedisse a bênção ao bixim.

A noite chegou e algumas horas depois, um novo dia. Louça do café para lavar, feijão para limpar retirando os gorgulhos, lavar e botar no fogo. Uma rápida passada pelo girau e Vovó não viu o beija-flor. Pegou a vassourinha e foi tentar enganar a si própria, fingindo que limpava o quintal. Nova vassourada e nova olhadela para debaixo do girau. Agora uma olhada mais demorada. Não viu o beija-flor. Olhou, olhou e procurou mais demoradamente. Não viu nada.

– Meu Deus dos céus, por onde andará o meu bixim?!

Cuidando da montaria para seguir para a labuta na roça, o Avô, sem saber muito do que se tratava, ralhou:

– Tá falando sozinha, véia?

– Que nada hômi, é meu bixim que num tô veno!

– Véia, derna de quando, um passarim que veve avuando, soltim nas capoeiras, é teu?

– É meu sim. Eu dô água, dô de cumê, dô meus óios espiando pra ele, admirano, banhano, entãosse é meu, sim! É mais um fii que crio!

O Avô amuntousse no animal e foi trabaiá. A Vovó continuou resmungando e, quando o sol começou a esquentar, de foice na mão foi pegar uma caminhada de lenha prumode fazê o dicumê. Tinha muita lenha na latada, que o Avô nunca deixava faltar. O que a Avó queria mesmo, era um motivo para sair para procurar o beija-flor.

Saiu, procurou e nada encontrou. Almoçou com o Avô, deitou rapidinho para uma madorna, mas o barulho dos chocalhos nas cabras e bodes no chiqueiro acabou acordando a Avó. Pegou a foice de novo e foi apanhar mais lenha – mas ela mesma assumira que era apenas um pretexto para procurar o beija-flor.

Entre entristecida e ansiosa, Vovó pisava em tocos, gravetos, touceiras de ortiga e em quem mais aparecesse pelo caminho. O barulho da corrida de um teiú sobre as folhas secas assustou Vovó, como se estivesse num pesadelo. Aquilo lhe chamou a atenção, e ela voltou a observar os galhos com mais interesse. Via besouros mangangás, calangos das costas verdes, chapéus de marimbondos e até cobras verdes. Mas não conseguia ver o que procurava: o “seu” beija-flor.

Por não ser primavera, não havia flores. Esperava encontrar o “seu” beija-flor pousado num galho qualquer, voando, rodopiando e fazendo aqueles voos tão rápidos que só os experientes conseguem vê-los.

Assim, como que uma ação divina, o vento soprou mais forte. Galhos balançaram, folhas se afastaram e Vovó teve a atenção chamada por um ninho minúsculo. Num galho muito fino (que dificultava o acesso de cobras), lá estava um ninho que Vovó conhecia. Um ninho de beija-flor.

Usando a foice, Vovó procurou um galho ainda maior e o cortou, deixando nele um gancho. Teve a feliz ideia de abaixar o galho para conferir se era realmente o ninho do “seu” beija-flor.

Difícil saber, mas para ela, era o ninho do “seu” beija-flor e aquela era a única justificativa possível para o desaparecimento momentâneo dele da floração dos tomateiros nascidos debaixo do girau. Alegre e mansamente foi soltando o galho puxado com o gancho, até ter certeza de que o “seu” beija-flor não perceberia que alguém se aproximara da sua futura cria.

Chegando à casa de volta, Vovó jogou caroços de milho no quintal e acabou pegando uma das maiores galinhas do terreiro. Colocou vinagre numa tigela, aparou sangue e mergulhou a galinha abatida na água quente para a devida limpeza. Preparou uma galinha à cabidela para comer com o véio, que não demorou chegar e foi logo se abancando na mesa posta também na cozinha.

– O que tem prumode cumê, véia?

Um sorriso largo, escondendo as lágrimas derramadas na tristeza com o repentino desaparecimento do “seu” beija-flor, chamou a atenção do Avô.

– Galinha? Galinha à cabidela? Hoje é niversário de quem, muié?

– Véio, num é niversário de ninguém. É que tô avuando de alegria cuma um beija-flor, apois encontrei o meu bixim. O danisco vai sê papai e eu vô sê Avó de novo e tu, meu véio, vai ser Vovô de novo!

– Amém véia! Eu já tavo atarantadim catua tristeza, teu chôro dento de casa, se entristeceno pelos cantos, sem nem querê dá uma cachimbada cum teu véio!

– Véio, ante de cumê vamo rezá. A gente tá precisano de agradecê a Deus pela graça alcançada!

– A graça de tê comida na nossa mesa, né véia?!

– Não véio, por causa de que eu encontrei o meu bixim. Tomara que os meus netim nasça tudo dereitim, cagraça de Deus!


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 26 de outubro de 2020

O ALIMENTO – DO SEMEAR AO CONSUMO

 

O ALIMENTO – DO SEMEAR AO CONSUMO

Mesa brasileira com alimentos

Hoje, segundo estimativas oficiais do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), somos neste Brasil continental, 211,8 milhões de pessoas. Éramos, também oficialmente, em 2018 (último censo oficial divulgado), 209,5 milhões.

A “pandemia” do C-19 provavelmente mudou muita coisa e alterou esse somatório, mas nada que atingisse a soma do milhão. Pesa contra esse somatório, o alheamento e as próprias dificuldades de acesso de muitos para o registro oficial de nascimento ou óbito. Com isso pretendo dizer que existe uma provável margem de erro para mais ou para menos nessa contagem divulgada.

Carnes de qualidade produzida no Brasil

Somos um país continental e nunca fomos satisfatoriamente bem administrados no sentido amplo e público da palavra. Por anos somos castigados pelas intempéries das secas ou pelo dissabor causado pelo excesso de chuvas – que, no final, acabam tendo influência de alguma forma no contingente populacional. E esse depende da produção de alimentos.

Com a mais absoluta certeza, nesse atual governo, tampouco nos próximos três ou quatro atingiremos o patamar desejável da autossuficiência na agropecuária ou nos outros sistemas produtivos de tudo que se come. Mas, há a certeza de que também não seremos no continente sul-americano, uma nova Venezuela. Essa sim, está numa distância pequena para se transformar num novo Darfur do Sudão. Sabemos que há um certo exagero nisso.

Felizmente, no Brasil, tudo que se planta, dá. Brota. Frutifica e quase tudo é comestível. Também felizmente, o atual governo federal está

O feijão importante na culinária brasileira

aproveitando a qualidade do solo brasileiro, os erros e os acertos praticados nos governos anteriores e “está dando conta do recado”. Está apostando no apoio oficial e necessário ao “agro” e na iniciativa privada através de financiamentos e diversos programas que estão dando sustentação a cada ano, ao aumento da produção em todos os setores. Além do alto percentual da produção brasileira que é exportada.

Dito isso, sem que sejamos “donos da verdade” recorro aos tempos da minha infância, quando criança podia aprender a trabalhar e trabalhar sem ser considerado explorado ou trabalhador escravo, voltamos à roça onde aprendemos semear maniva de mandioca e ramas de batata doce.

A experiência de meu Avô no manejo com as coisas da roça, do semear ao colher após a inicial preparação da terra, fez de mim uma pessoa que cedo aprendeu a gostar do cheiro da terra molhada pela chuva. Fez de mim, entender que uma simples minhoca é um forte aliado da natureza em prol da humanidade. Fez de mim compreender e acreditar que, na terra, tudo que for semeado de bom, vai dar bons frutos e uma colheita farta.

João Buretama me chamava, dizendo assim:

– Vem cá meu filho. É assim que se corta e prepara a maniva da mandioca. Procure semear na terra com o “olho” da maniva olhando para o céu, esperando a chuva e o sol, os dois amigos de qualquer lavoura.

Eu olhava e aprendia. Pedia:

– Vô repare se estou fazendo certo!

Dependendo da qualidade da mandioca e do período plantado, quando chega a hora da colheita, algumas folhas começam cair ou o agricultor percebe a mudança do solo no pé da mandioca. O chão fica mais alto, como se estivesse “rachando”. Na verdade está dando espaço para a raiz da mandioca que cresceu e virou tubérculo.

Manivas de mandioca prontas para a semeadura

Colhida a mandioca, como se formassem uma cooperativa, os agricultores se reuniam e combinavam a “farinhada” para aproveitar a mão-de-obra da vizinhança.

Centenas de linhas plantadas garantiam uma farinhada de pelo menos duas semanas transformadas num acontecimento festivo. Aquele que tivesse mais mandioca para fazer farinha, era responsável, também, por abater o boi para o dia do encerramento da farinhada.

Rama da batata doce pronta para ser amarrada e semeada

Procedimento parecido era feito com a batata doce, componente importante na alimentação do nordestino. Rica em nutrientes, a batata doce é servida no café da manhã, quase sempre cozida para ser comida com o próprio café ou com leite.

Na semeadura, o que se requer é conhecimento do que vai ser plantado. No florescimento das muitas ramas, outras nascem como se fossem “galhos”. Cada junção do “galho” é um local apropriado para semear. Uma cova com cerca de três metros de comprimento e aproximadamente 30 centímetros de altura é a “cova ideal” para o plantio da batata doce.

Fiz isso enquanto fui criança, morando com meus avós. Era a necessidade da família que estava sendo atendida. Não havia exploração, pois o que plantávamos e colhíamos, era para o nosso próprio consumo e sustento.

Hoje, num mundo hipócrita semeado e construído pelos “politicamente corretos”, a infância pode servir para vários tipos de exploração – inclusive “avião” no transporte de drogas. Como um grande número desses “politicamente corretos” engrossa a fila de usuários, essa ação é aceita e compreendida. Vida que segue.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 19 de outubro de 2020

SEU JULIM E O DIA DAS CRIANÇAS (CRÔNICA DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

SEU JULIM E O DIA DAS CRIANÇAS

Seu Julim e o prazer em fazer a felicidade dos outros

 

Dia da criança como muitos nunca tiveram.

Depois do almoço preparado por Joana, que resolvia abater três ou quatro galinhas bem cevadas no quintal, e algo mais que se fizesse necessário para preparar a cabidela, arroz novo torrado e socado no pilão, e depois lavado na arupemba (uma espécie de peneira fabricada pelos indígenas) sem tirar aquele gosto de queimado, farinha seca crocante, feijão de corda verde com quiabo, maxixe e jerimum, além de um gostoso pirão escaldado.

Tava pronto o almoço para os parentes e a meninada que se preocupava mais nas brincadeiras da roça que em ganhar presentes da Estrela, como acontece hoje. Se bem que os brinquedos da Estrela foram substituídos pelos celulares, tabletes e autorizações para baixar os aplicativos.

As crianças têm novos hábitos. Os pais são outros. A maioria afeita à transferir responsabilidade na estruturação da família. Escancaram as portas para o Estado, e depois usam uma lupa na procura do culpado.

Almoço servido e comido, as redes são armadas na latada e no alpendre comprido da casa. É naquela rede que a gente ficar tacando o pé na parede, e aproveita pra coçar as frieiras dos dedos nas beiradas da rede tijubana e ficar escutando aquele rangido do armador como se fora um besouro mangangá.

Não tive e jamais terei vida melhor. Que aconteçam tantos e tantos Dia da Criança.

No finzinho da tarde, com o sol ainda morno, mas de quando em vez a gente escutando o barulho do chocalho preso no pescoço do bode no chiqueiro, a cadela Pintada se despedaçava na direção da porteira e se danava à latir. Chamando a atenção de todos que estão no alpendre se balançando nas redes.

– É seu Julim!

Apois, Seu Julim, em todo Dia das Crianças se dava ao trabalho de selar um burro formoso e trotar mais de dez léguas – tudo prumode ter o prazer de contar histórias e algumas estórias para a criançada. Tinha até criança que se banhava e arrumava todim, butando brilhantina nos cabelos, prumode ficar assentado e quietinho escutando as estórias de Seu Julim.

Logo que apeava do burro e o acomodava para descansar e beber água, Seu Julim achava bonito e educado cumprimentar os adultos da casa, um por um, e só então dizia o que fora fazer.

Antes de deitar na rede para balançar, Vovô João Buretama tinha a obrigação de preparar o tamborete que Seu Julim usaria para sentar e entreter a criançada. Também fazia questão de manter algum tição aceso em brasa no fogão. Era o tição que Seu Julim usaria para acender o fumo do cachimbo.

Tamborete posto e Seu Julim sentado. Agora era picar e socar o fumo no cachimbo, enquanto as crianças se aproximavam, uma a uma para sentar numa roda em forma de arena.

Tição no cachimbo e uma sugada. Tição de novo no cachimbo, até que a brasa quebrava e caía. Mas o fumo do cachimbo estava aceso.

– “Era uma vez, um Rei de uma cidade muito distante!…….”

– Seu Julim, essa estória aí o sinhô já contou!…… garantia Moisés, um dos mais antigos que já desfrutara das tardes do Dia da Criança em pelo menos três oportunidades.

– Já contei? Mas vou contar de novo, pois você drumiu antes deu acabar de contar!

Longe dali, com a penumbra da noite chegando, o sonoro e triste cântico do vem-vem dava a garantia que todos estavam mesmo era na roça, e não num shopping cheio de barulho e escadas rolantes. Muito movimento, mas sem a vida que nos faz bem e amamos.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 12 de outubro de 2020

A DIFÍCIL MAS ETERNA E APRECIADA DOÇURA DO MEL

 

A DIFÍCIL MAS ETERNA E APRECIADA DOÇURA DO MEL

Mel de abelha só sabe fazer o bem

Os tempos estão amargos. Precisamos adoçar isso um pouco, e falar de mel. Falar da doçura do mel, passeando um pouco e rápido pela dificuldade de “fabricar” algo tão doce e benéfico para a saúde. Benefício sem nenhuma contraindicação. É doce e só faz o bem.

Hoje viajaremos na doçura do mel. Com o devido cuidado, para não nos lambuzarmos.

“O mel é um produto natural obtido a partir do néctar das flores e de excreções da abelha. Além de ser um ótimo adoçante natural, este alimento é cheio de benefícios porque conta com ação antimicrobiana, capaz de impedir o crescimento ou destruir micro-organismos e assim proteger contra doenças.”

O mel com “industrialização” apenas na embalagem

Dito acima, o mel é um produto do néctar das flores visitadas e polinizadas pelos vários tipos de abelhas que o Único Poderoso colocou no mundo. Cada tipo com sua resistência de habitat, capacidade produtiva diferenciada, e motivação recebida da Natureza, em especial na estação primaveril.

Sem flores não haverá mel. Quanto mais o humano (???!!!) destruir a natureza inviabilizando a visível existência das estações climáticas no planeta, sem árvores, menos abelhas teremos e o mel será transformado em algo de acentuado amargor diferente.

Veja o que garante a Nutricionista TATIANA ZANIN a respeito dos benefícios do mel para a saúde humana:

“O mel possui propriedades nutritivas e terapêuticas que trazem vários benefícios à saúde. É rico em antioxidantes que protegem o corpo e o coração do envelhecimento, auxilia na diminuição da pressão sanguínea, dos triglicerídeos e do colesterol, contém propriedades contra bactérias, fungos e vírus, combate a dor de garganta e a tosse e pode ainda ser usado como adoçante natural.

No entanto, mesmo com todos esses benefícios, o mel deve ser consumido com moderação, já que ainda é rico em calorias e açúcar. A substituição do açúcar puro pelo mel em alguns alimentos ajuda a manter os níveis de açúcar no sangue estáveis e pode trazer muitas vantagens para a saúde. Algumas dessas vantagens são:

1. Aumentar as defesas do corpo – Os compostos presentes no mel conferem poder antioxidante, o qual ajuda na proteção do corpo. Entre os benefícios, destaca-se a redução do risco de infarto e derrames, promoção da saúde dos olhos, além de auxiliar no tratamento de alguns tipos de câncer, como o de rim, impedindo a multiplicação das células cancerígenas.

2. Melhorar a saúde do coração – O mel traz benefícios à saúde do coração pois é capaz de aumentar o fluxo sanguíneo e reduzir a formação de coágulos. Esse processo ajuda na diminuição da pressão arterial, prevenindo assim doenças do coração.

3. Melhorar o colesterol e diminuir os triglicerídeos – O mel pode ser um bom aliado no combate ao colesterol alto, pois diminui os níveis de colesterol “ruim” (LDL) e aumenta o colesterol “bom” (HDL) do corpo. Ainda, o mel pode ajudar a diminuir os níveis de triglicerídeos porque pode ser usado como substituto do açúcar. Geralmente, dietas ricas em açúcar e carboidratos refinados causam aumento dos níveis de triglicerídeos, aumentando o risco de doenças do coração e diabetes tipo 2.

4. Combater bactérias e fungos em feridas – O mel possui propriedades que reduzem o tempo de cicatrização, pois é capaz de esterilizar feridas reduzindo a dor, cheiro e tamanho, promovendo, assim, a sua cura, sendo considerados eficaz e até melhor do que alguns curativos.

Pode ser também uma ótima opção para tratar úlceras nos pés de diabéticos pois combate os germes e ajuda na regeneração dos tecidos. O mel também já vem sendo usado para curar lesões de herpes oral e genital, já que reduz a coceira e funciona tão bem quanto as pomadas encontradas na farmácia. Também pode tratar bactérias resistentes a antibióticos, úlceras e feridas a longo prazo após a cirurgia e queimaduras.

5. Aliviar a dor de garganta, asma e tosse – O mel reduz a inflamação e inchaço da garganta e dos pulmões, sendo eficiente ainda nos casos de gripe e resfriado, melhorando o sono. É indicado tomar duas colheres de chá de mel na hora de dormir, pois o doce faz com que mais saliva seja produzida. Isso melhora a mucosa da garganta protegendo contra a irritação, reduzindo e aliviando a tosse, sendo, em muitos casos, mais seguro e eficaz que alguns xaropes.

6. Melhorar a saúde gastrointestinal – O mel é um prebiótico muito potente que nutre as bactérias boas que vivem no intestino. Logo, é benéfico para a digestão e para a saúde em geral. Além disso, também pode ser usado para tratar problemas digestivos, como diarreia e é eficaz no tratamento para as bactérias Helicobacter pylori, causadoras de úlceras gástricas. Ainda, outro chá que pode ser feito para combater a má-digestão é de mel com canela, pois esses dois alimentos naturais ajudam a melhorar o processo digestivo como um todo.

7. Ajudar na memória e ansiedade – O uso do mel em substituição ao açúcar vem sendo associado com a melhora da memória e dos níveis de ansiedade. Além disso, estudos indicam que o mel também pode melhorar a memória de mulheres na menopausa e pós-menopausa.

8. Tratar hemorroidas – O mel possui propriedades antimicrobianas, anti-inflamatórias, analgésicas e cicatrizantes, que reduzem o sangramento e aliviam a dor e a coceira causadas pelas hemorroidas. Para esse efeito, basta misturar mel, azeite de oliva e cera de abelha e, depois, aplicar na região.

9. Combater a obesidade – Devido às suas propriedades, o mel melhora o controle de açúcar e gordura no sangue, reduzindo o estado inflamatório e auxiliando na manutenção do peso.” (Tatiana Zanin).

E… quem faz esse mel ser tão doce?

A abelha “engenheira do doce mel

Os especialistas afirmam que existem várias espécies de abelhas, sendo necessária, às vezes, a mudança de nome dessas espécies, de região para região deste país continental. Abelha africana, jandaíra, araçá, uruçu, mandaçaia, tiúba, jataí, contando ainda os marimbondos chapéu, amarelo e outras espécies, todas produzindo mel.

Cada espécie de abelha “trabalha” com tipo diferente de flores, de onde extrai o pólen. São chamadas também de “abelhas operárias” e recebem comando da “abelha rainha” – mesmo tipo de vida da Rainha da Inglaterra. Reina, mas não manda nada.

Marimbondo chapéu ou marimbondo de fogo

O marimbondo produz mel. Não se tem informação afirmando o consumo do mel produzido pelo marimbondo – sempre em menor quantidade que o produzido pelas abelhas. Provavelmente, por conta das diferenças entre as colmeias.

Do marimbondo se tem informação dizendo da dor provocada no ser humano pela “ferroada” desse mosquito. Quem já teve a má sorte de ser ferroado pelo marimbondo não faz nenhum elogio.

Eu mesmo, criança e ainda morando em Queimadas, quase perdi um primo por conta de uma ferroada do marimbondo chapéu. Um só marimbondo não. Vários. Foram ferroadas nos lábios e nos olhos. A falta de cuidado adequado levou à uma infecção, e essa causou problema grave para a visão.

Colmeia do marimbondo chapéu

Distante da intenção de procurar mel (e era fácil encontrar enxames de arapuá, uma abelha preta que constrói colmeia nas árvores semelhante ao cupinzeiro), a infância premiava a meninada com a diversão do “caçar com baladeiras” – alguns até contribuíam com rolinhas, juritis, camaleão, teiú, nambus para completar o “dicumê”, quase sempre feijão com nada – e era isso que a levava à mata.

Comum encontrar cobras verdes, cobras de cipó, libélulas, gafanhotos, calangos, mané-magos, louva-deus e também muitos marimbondos.

Criança que sabe ser criança, “não bole com marimbondo”, era o que aconselhavam os avós, quando pegávamos a baladeira e o bornal com pedras e outros apetrechos apropriados para aquela divertida obrigação de caçar.

Marimbondo não ficava fora do caminho. Avistado, ninguém se atrevia e mexer. Quando se atrevia, mexia e saía de perto.

Marimbondo da febre

Entretanto, havia nas Queimadas uma espécie rara de marimbondo desconhecida para um sem-número de pessoas mas, conhecida pela meninada, principalmente a que andava pelas matas caçando aves ou filhotes ainda nos ninhos para criar. Era criado com a intenção do entretenimento, sem qualquer tipo de maldade com as pequenas aves.

Essa espécie de marimbondo construía uma colmeia em forma de pera, mas os “afuleimados” garantiam que se assemelhava a um seio de menina. Pequeno e rijo. Era ali que viviam os marimbondos que, ferroando alguém, provocava febre. Provavelmente, era uma espécie que tinha alguma serventia para os pesquisadores. Essa espécie, ninguém se atrevia à saber se produzia mel ou apenas ferroava.

Mas, entre todas essas espécies de abelhas ou marimbondos que produzem mel, uma espécie em especial chama a atenção de duas comunidades: a comunidade indígena, que faz uso do mel para fins terapêuticos; e a comunidade dos pesquisadores, que há anos tenta descobrir a forma habitacional em função do pequeno porte da abelha e a sua real utilidade medicinal para a saúde humana.

Comumente é conhecida como “abelha mosquito” e é o seu tamanho minúsculo que causa curiosidade. Escolhe os lugares mais fáceis de serem encontrados, tanto para viver quanto para produzir.

A abelha mosquito escolhe o jucá ou pau-ferro para construir suas colmeias. Constrói no miolo dessas árvores a sua colmeia e ali produz e se reproduz, sem a preocupação de ser incomodado. Mas os indígenas sabem a forma para extrair o mel medicinal da abelha mosquito.

A abelha “mosquito” de mel medicinal preferido pelos indígenas


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 05 de outubro de 2020

A PRAÇA (CRÔNICA DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

A PRAÇA

Toda e qualquer cidade tem seu ponto de referência. Seu ícone, ainda que não seja o ponto principal da cidade.

Em Recife, por exemplo, temos o “Marco Zero”; em Salvador temos o “Pelourinho”; no Rio de Janeiro temos a “Cinelândia”; em Ribeirão Preto temos o “Bar Pinguim”. Até em Palmares/PE, temos o local da roubalheira, onde funciona a roleta do Cu-Trancado.

Assim, em Fortaleza não poderia ser diferente. Com tantos lugares repletos de passagens históricas, de momentos de glórias – mas o ícone será sempre a Praça do Ferreira. Era ali que muitas coisas aconteciam, aconteceram e continuarão acontecendo. É o coração da cidade.

Ali, onde hoje é o ponto mais importante e “falado” da cidade, um dia já foi tão insignificante que poucos se preocupam em saber. Foi um areal onde existia apenas umas poucas e crescidas árvores (mongubas e castanholas) e uma cacimba. Ainda sem denominação oficial, a famosa Praça do Ferreira era conhecida por “Feira Nova”, por ser ali que acontecia uma feira nos finais de semanas.

Por volta de 1842, a praça já recebera novo nome: Praça Dom Pedro II, denominação sugerida pelo próprio construtor e então presidente da Câmara – Antônio Rodrigues Ferreira, boticário, que aproveitou para instalar seu primeiro “negócio” na então Rua da Palma, hoje conhecida como Rua Major Facundo.

Esse comércio de medicamentos manipulados ganhou fama. Era na frente ou dentro do próprio estabelecimento, que passou a ser conhecido como Botica do Ferreira”, que a maioria das pessoas cultivou o hábito de se encontrar, transformando-o numa referência local. E isso foi o ponto inicial para que a Botica do Ferreira, após mudar de lay-out, se transformasse na hoje Praça do Ferreira, a partir do ano de 1871.

Antiga foto de urbanização da Praça do Ferreira no século XIX

Fortaleza crescia. Novos bairros se formavam a partir de pessoas tangidas dos lugares onde nasceram pela escassez de trabalho, principalmente aqueles voltados para a agricultura.

Influenciadas pelo fato do movimento abolicionista de 1882, em Redenção, distante dali por apenas 55 km, famílias, agora “livres da escravidão formal”, partiram em busca de novos rumos. Como Fortaleza não ficava tão distante, esse foi o local mais procurado.

A população da capital cresceu (não apenas por esse motivo) e novos bairros surgiram na periferia. Mas, o “ícone” ainda era a já Praça do Ferreira.

A partir de então as necessidades foram impondo as reformas. Lojas comerciais, cafés e demais pontos de encontros e reuniões. Quiosques foram erguidos. A política chegou e passou a ter importância de alta relevância na cidade. E a Praça do Ferreira era o local escolhido para a solidificação das parcerias. Três novos pontos surgiram. Na realidade, três quiosques onde se tomava café e conversava: Café do Comércio, Café Elegante e Café Java.

Novo lay-out da Praça do Ferreira onde já aparece o relógio

A então gestão pública ganhou o seu quinhão. Foi ali que surgiu o primeiro ponto de funcionamento da fiscalização, erigido pela Companhia de Luz.

Por sua vez, a mesma gestão municipal tomou a iniciativa de privatizar e gradear a secular cacimba que atendia o serviço de água para a comunidade. Sobre a cacimba mandou instalar um cata-vento para facilitar o bombeamento da água. Foi construído ali, também, um jardim que deu novo visual à Praça do Ferreira.

Finalmente, a partir de 1920, o então prefeito Godofredo Maciel resolveu dar uma forma urbanística definitiva para a praça. Mandou demolir os quiosques, haja vista que perderam a importância no desenvolvimento da cidade. Em seguida mandou ladrilhar a imensa área e aproveitou para construir um famoso coreto, que anos depois seria demolido pelo município e ali colocado o famoso relógio que, reformado por várias vezes, enfeita o principal cartão postal do centro de Fortaleza.

A atual Praça do Ferreira

Após ter sido em 1839 um imenso areal, em 20 de dezembro de 2001, pela lei municipal 8.605, a Praça do Ferreira foi oficialmente declarada Marco Histórico e Patrimonial de Fortaleza.

Durante anos, a hoje Praça do Ferreira foi palco de fatos e momentos históricos que marcaram a vida fortalezense. Surgiriam nos anos seguintes os bares, cafés, agências bancárias, cinemas em lugares onde antes, existiam apenas o Boticário Ferreira e sua significativa importância para as decisões políticas, sem esquecer os membros que compunham a Padaria Espiritual.

Chegaria sem demora a época do abrigo, costumeiro ponto de encontro e discussões de assuntos da política, da segurança da cidade e, principalmente, do futebol. Chegariam os hotéis Savanah e o Cine São Luiz para somar à vida noturna e boêmia da cidade ao lado do já existente Excelsior Hotel e Clube do Advogado – esses dois últimos na esquina da Rua Guilherme Rocha, mas voltados para a Praça do Ferreira.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 28 de setembro de 2020

O PARTO E O PATO (CRÔNICA DE JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

O PARTO E O PATO

A “parteira” e o bebê

Tudo tem seu começo, meio e fim. Tudo que tem vida passa por essas escalas da Natureza. O ciclo vital.

Menino ainda, sem conhecer o prazer de fazer e a alegria de ver nascer, levei algum tempo para entender a “diferença” entre o sentar à mesa para uma refeição em família, e o entrar na camarinha para ver uma criança nascendo.

Era assim naquele tempo que está distante. Só permaneceu na memória e na poesia da saudade. E, da mesma forma, era ali naquele não ter nada de nosso, que a Fé semeava a esperança para nos premiar com a colheita de dias melhores. Cada criança que nascia, era a forma prática da colheita da esperança.

O choro era o bom anúncio do resultado daquela torcida empurrada pelos “força”, mais “força”, tá nascendo. Aguenta firme!

Antes, o cenário mostrava uma bacia de ágata com água quente e uma jarra com água fria para a necessidade de “esfriar um pouco”. Uma tesoura com pouco uso, mas muito antiga, era o único instrumento cirúrgico usado por Dona Tina (Esmerantina Costa), madrinha e comadre de quase todas as famílias daquele povoado. “Parturiou” quase todas as mulheres e aparou quase todas crianças que ali nasceram.

Bacia de ágata usada na assepsia do recém nascido

– É um menino!

Um anúncio feito em estridente grito por Dona Tina, encerrava a expectativa do nascimento de mais um rebento, ornamentado pela possibilidade de boa saúde da criança e da mãe. O futuro não lhes pertencia – mas, naquele instante, era reforçado pela esperança semeada pela Fé, de que tudo seria só felicidade.

A tesoura que cortava o cordão umbilical – nunca se teve notícia de infecção

O corte e a sutura do cordão umbilical acompanhado pela imersão na água para a assepsia, coroavam o trabalho de parto de Dona Tina em “Donana” (Ana Beatriz) que, automaticamente, se transformava em “Comadre Tina”.

Abraços e parabéns e a primeira mamada da nova mãe. Sem charutos nem champanhes, na cozinha o furdunço era intenso na preparação do enorme pato “cevado” especialmente para aquele momento de alegria.

– “Donana” num pode cumê pato, gente!

Era o principal conselho da agora Comadre Tina. A solução era abater aquela galinha, também cevada com carinho para a oportunidade. Por três dias, só “Donana” comeria daquela galinha de parida. Mas, o que ela mais gostava era de beber o caldo.

Três ou quatro mulheres preparavam o “dicumê festivo”, enfeitado e reforçado por uma paçoca de castanha de caju com charque, as duas socadas num pilão batido a quatro mãos. A paçoca substituía a farinha seca – mas continha parte dela. O arroz colhido na pequena roça fazia parte de tudo. Torrado e pilado, além de posteriormente lavado e escorrido na “arupemba”. Tinha sabor especial. Aquele gostinho de queimado sem ser “queimado”.

O pato que pagava o pato

– Já mataro o pato?

Era a pergunta feita por Comadre Salustiana, convidada especialmente para comandar a cozinha naquele dia – por conta dos trabalhos de parto de “Donana”.

– Inda não!….. respondeu Abigail, ocupada em preparar a paçoca no pilão.

– Apois adindonde que tá o danisco?

Quis saber Salustiana, já portando uma faca e uma bacia com um pouco de vinagre.

– Tá ali, amarradim, o coitado! Respondeu toda pesarosa Abigail.

Com tantas auxiliares naquele dia especial, preparar o almoço para alguns convidados não era tarefa difícil. Parto feito, pato abatido e comida a caminho da mesa. Sangrar o pato, cortar e fazer o molho pardo, naquele lugar parecia ser muito mais fácil que fazer um parto. O parto é a primeira etapa e o pato a consumação.

Pato ao molho pardo

Chegava a hora do servir. Salustiana serviu às crianças (a mim, inclusive) e mandou que fossem para o alpendre da casa. Quem quisesse mais, poderia vir pedir.

Finalmente, a oração. Oração pela chegada de mais um rebento com saúde. Oração pela pronta recuperação da mãe – já em preparativos para daqui a dois meses começar a fazer mais um. Era assim que a coisa era naquele interior cearense.

Almoço comido. Todos alegres e satisfeitos. Agora era esperar o café, mas quem quisesse ir embora ficava à vontade.

– Compadre Augusto, vosmecê aceita batizar meu menino?

– Depende compadre. Cuma é o nome que vosmecê quer botar nele?

– “Getúio”, compadre!

– Eita meu compadre! Bom nome. Bem escoído. Nome de Presidente da República!


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 21 de setembro de 2020

O SENADINHO DE ANGICO

 

 

O SENADINHO DO ANGICO

Na sombra do angico transformada em Senado e Câmara tudo era aprovado

O forte aroma da floração primaveril do angico tangido pelo vento era um convite para alguns sentarem à sua sombra e usufruírem do local, usando como assentos os cambitos e as cangalhas.

Era ali também que, o jumento “Feliciano” e o burro “Dourado” descansavam e aproveitavam para ruminar suas rações de capim misturadas ao milho e colocadas à disposição.

Uma gamela com água, também aproveitada pelas galinhas transformava o desenho imaginário do local numa fazenda. E não era uma fazenda. Era a casa de Raimundim de Maria de Horácio – onde também morava uma reca de meninos, todos “descobertos” no calor dos galanteios das duradouras noites de lua cheia.
Era ali usufruindo da sombra do angico, que se reunia o “senadinho” do lugar. Era onde se sabia de tudo e, também, onde se resolvia tudo. Desde o início da colheita do feijão ou do milho de cada roça cooperativada, até o plantio da maniva, ou carpina interativa e coletiva da vazante – quiabo, melancia, batata doce e alguns pés de abóbora.

Debaixo daquele angico era também aonde se abatia, limpava, cortava e vendia o porco, o bode, o carneiro ou o boi para o consumo da comunidade. Lavagem e limpeza de vísceras não eram permitidas para evitar a proliferação de moscas, ratos e outros insetos roedores. Enfim, aquele angico tinha o mesmo papel que hoje tem o shopping ou a Associação Comercial de cada cidade.

Nas tardes de sábado o local era preparado para receber um encerado de caminhão, enquanto o fole de Seu Tôquim animava e promovia gratuitamente o melhor forró pé-de-serra dos arredores.

Com o suor escorrendo pelo sovaco e pescoço ensebados, homens e mulheres se grudavam, e alguns casais envolvidos, continuavam dançando sem perceber que o frege terminara. Sanfona, fole, pandeiro, triângulo e um bumbo furado, que servia apenas como cenário, pois não emitia qualquer som.

Nas manhãs de domingo, a feirinha comunitária. Macaxeira, farinha seca, rapadura, galinha da terra, peru, carne de boi, de porco e de bode. Fumo, cachaça e até comprimidos para qualquer meizinha.

De tarde, o local se transformava com a chegada do rádio Transglobe à bateria, para a transmissão do jogo do Maracanã ou Pacaembu nas vozes inconfundíveis de Jorge Cury, Doalcei Bueno de Camargo ou Fiori Gigliotti e ainda Waldir Amaral. Na Rádio Assunção Cearense, as vozes de Ivan Lima, José Santana, Jurandir Mitoso e alguns anos depois, de Paulino Rocha e Gomes Farias.

Na segunda-feira começava tudo de novo:

Coçar frieira na beirada da rede. Subir na árvore para fazer uma necessidade fisiológica tentando fugir dos porcos e das galinhas. Tomar banho nu no açude, jogando “galinha d´água”. Beber água fresca da quartinha. Surrão. Caganeira de chicote. Bicho de pé. Balançar na rede, tocando o pé na parede e escutar o ranger do armador. Pirão de farinha seca. Beber caldo no prato sem colher. Cheirar rapé e ao espirrar, dizer: “Armaria”. Cachimbo de barro. Amarrar sabugo de milho no pescoço do cachorro. Assoviar pra provocar o glu-glu do peru. Esperar o cântico do vem-vem e botar o angu para a graúna.

Matar a cobra e mostrar o pau. Pescar no açude com anzol de alfinete. Caçar e pegar “mané-mago” (libélula) nas árvores. Atiçar cachorro vira-lata pra pegar teiú no mato. Passar creolina para matar bicho no lombo do cavalo. Acender a lamparina e andar feito alma com a dita cuja no meio da noite.

Deitar na sombra da catingueira. Cortar unha das mãos e dos pés com canivete. Peidar dentro d´água na hora do banho no açude. Cangalha. Cambito. Chicote. Chifre pra aboio. Caranguejo uçá. Rapadura melada. Alfenim. Batida de cana. Manteiga de garrafa.

Leite mugido. Chiqueirar cabras e bodes. Camaleão. Rola-bosta. Cobra de duas cabeças. Besouro mangangá. Cavalo do cão. Sibite. Graúna. Bem-te-vi. Potó. Muçum de açude e de lagoa.

Debulhar milho e feijão. Plantar maniva. Raposa. Capote. Cabaça d´água. Terrina para água dos animais. Sal em pedra. Torrar café no alguidá. Mão-de-pilão. Pano de coar água no pote. Panariço. Gurgumio. Cajuína. Assar castanha no caco. Espinho de bananeira. Moita de mofumbo. Caminho d´água. Sabão Pavão. Óleo Pajeú. Grude na colher. Ferro à carvão para passar roupa. Anil e goma para camisa de cambraia de linho.

Viver. Cantar. Passar o anel. Brincar de manjô. Pião. Caçar passarinhos. Comer jumentinha. Montar a cavalo e campear o boi. Galo de campina. Alpargatas. Trempes. Pão sovado. Voo rasante da coruja. Rasga mortalha. Calango a galope. Cantoria. Cordel de mimeógrafo. Papel de embrulho. Lápis na orelha. Manteiga à retalho. Caderno de fiados. Bicada pra tomar banho e cusparada no pé do balcão. A “do Santo” na bicada. Tira-gosto de cajá embu. Sirigüela inchada. Arapuca pra pegar sabiá. Foice. Pedra de amolar machado. Cabaça d´água. Beber água na caneca no mesmo cantinho que a velha babona bebia.

O viver na roça que faz o verdadeiro pacote da saudade.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 14 de setembro de 2020

OS PÚBERES E AS ADÚLTERAS

 

OS “PÚBERES” E AS “ADÚLTERAS”

Antigo “Curral das Éguas” em Fortaleza dos anos 40/50

Costumo dizer que as muitas coisas boas do passado ainda não dobraram a esquina da curva do tempo. Se a visão falha, a memória ainda permite lembrar e, assim, terminamos vendo. Ainda dá para ver que, naquele tempo de pureza e pessoas boas, andar de bicicleta e tocar o sinal pedindo passagem, ou viajar uma pequena distância num Jeep Willys era melhor que ir à Disney, onde as crianças são iniciadas em putarias.

Eu escrevi “putarias”. Talvez eu não quisesse escrever “putarias”. Mas escrevi, e é assim que vai ficar. E, já que falei em Disney e escrevi “putarias”, tal qual a Disney, era no “Curral das Éguas” onde os púberes eram iniciados nas putarias do sexo.

Naquele tempo, beijar na boca, só se fosse escondido de muitos – e muitas namoradas não permitiam. Achavam que engravidariam. Aquilo significava para elas, uma iniciação à incitação sexual. Como dizemos hoje, a chegada nas “preliminares”, onde meninas e meninos ficam excitados e molhadinhos, se não tiverem sido “orientados” para outras preferências.

E foi por conta dos muitos que não conheceram o “Curral das Éguas” ou locais iguais, que chegou forte entre nós essa idiotice de “orientação sexual”, em vez de “opção sexual”. Estão querendo nos empurrar goela à baixo, termos que têm outro significado, e querem que aceitemos como eles querem. Estudei foi no Liceu do Ceará, na época em que havia professores que, ao mesmo tempo eram autores de livros da língua pátria.

“Orientação” vem de “orientar”. “Orientar” que dizer “ensinar”. E sexo sem um mínimo de amor é a mesma coisa que cagar. Não precisa de “orientação”. Ninguém ensina ninguém a fazer sexo. Agora, “opção sexual”, é o direito que qualquer um tem de praticar sexo da forma que lhe convier. De forma ativa ou passiva, embora tenha crescido muito o número dos que preferem a fungada no cangote – e eu não tenho nada contra. O que estou tentando dizer é que, orientação é uma coisa e opção é outra. Querem que troquemos os significados. Ninguém vai me obrigar a isso.

Pois, foi ali no “Curral das Éguas”, hoje bairro Moura Brasil, que dei minhas primeiras “pimbadas” – naquele tempo ninguém comia a namorada com a facilidade que come hoje. Precisávamos satisfazer nossas taras nos cabarés, nos chatôs, nas casas de putarias – e precisávamos pagar para fazer sexo que não fosse com a própria mão ou nas jumentinhas da capoeira no sertão.

Hoje, se o namorado não procura logo sentir o cheiro da “xana” no primeiro encontro, para aprovar ou não a depilação total feita com cêra quente, a namorada manda andar e procurar algum gay.

E, como a memória ainda funciona bem, lembro bem de como eram as “suítes” onde o pau cantava na xana de Xolinha. Tinha que pagar antes o valor estipulado pela Cafetina. Era xis pelo tempo pretendido da transa, e xis pelo “serviço” da prostituta. Compunham o cenário da suíte: um rolo de papel higiênico (toalha esterilizada e para o casal, nem pensar), uma bacia de ágata, um pedaço de sabão, e uma jarra com água – chuveiro íntimo com ducha antes e depois da fudelança, é coisa dos tempos que querem confundir “orientação” com “opção”. Era um tal de ouvir o “choque-choque” da água batendo no saco!…..

Nas noites do Curral das Éguas todos os gatos eram pardos

Sem preliminares. Era o que dizia a mulher, pois ela precisava atender outras pessoas e faturar o dela para pagar as contas, pagar a parte do cara que arrumara a vaga para ela no prostíbulo, além de precisar comprar calcinhas novas e atraentes.

Muitos não conheceram a Fortaleza desses tempos. O “Curral das Éguas” funcionava e existiu durante décadas numa área que ficava atrás da Estação Ferroviária e da Cadeia Pública e Santa Casa de Misericórdia. Foi ali que muitos conheceram as principais doenças venéreas que perturbavam, mas não matavam como as doenças dos tempos modernos.

Com a chegada da modernidade trazendo os cinemas “Drive-in”, e junto os carros com ar-refrigerado e os preservativos (que antes eram chamados de “camisa de vento”); a liberação de funcionamento dos motéis até ao lado dos templos religiosos, não teve outro caminho para o “Curral das Éguas” e os iguais, que não fosse a falência.

Uma verdadeira “putaria” que fizeram com os contumazes frequentadores. Ali, muitos conquistaram as atuais esposas e com elas construíram probas famílias, apenas confirmando que a honra nunca esteve entre as pernas. É algo conhecido em meio à família e vive no lado esquerdo do peito.

Ponto de honra do “Curral das Éguas”: afastado dali por cerca de 50 metros, a Polícia mantinha um Posto Policial e quase não intervia naquele frege ou no puteiro. Desentendimentos por conta de embriaguez e briga entre putas por conta daquele homem que “pagava mais” por uma “pimbada”, era coisa comum. Mas, continuava sem intervenção policial. Era crime hediondo vender a única droga que existia com facilidade naqueles tempos: maconha.

Dia desses retornei à Fortaleza para rever familiares e ouvi de um sobrinho policial militar: “Tio, não existe mais o Curral das Éguas. A putaria agora é na cidade inteira, incluindo os apartamentos de edifícios com coberturas.”

Bairro Moura Brasil – um dia foi o Curral das Éguas

Agora, o que jamais vão conseguir substituir é o “Serviço de Autofalante Rosa do Lagamar”, funcionando graças à uma irradiadora de três bocas, espraiando mensagens românticas e músicas idem, com variação da preferência musical. Ali, onde muitos anunciavam (pagando) que a noite estava começando e acabavam de chegar “no pedaço”, era comum escutar a sofrência cantada por Orlando Dias:

 

 

 


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 07 de setembro de 2020

A CHUVA QUE MOLHA A ALMA

 

A CHUVA QUE MOLHA A ALMA

Homem protegido da chuva – chapéu, capa plástica e galocha

Quando nasci, dois irmãos já haviam chegado antes de mim. Meu pai já tinha mais de 40 anos. Era um homem amadurecido, vindo de ultrapassagens de empecilhos difíceis. Foi professor, naquela época, de Aritmética, trabalho para o município. Ali conseguiu ultrapassar o primeiro grande empecilho: foi demitido, mas saiu ileso e garantiu sua dignidade.

Os muitos amigos que havia feito ajudaram na caminhada. Se soubesse dirigir veículos, teria sido motorista de ônibus intermunicipal. Como não era habilitado, foi trabalhar como Cobrador de ônibus na empresa intermunicipal de um antigo amigo.

Iniciou preparação para um concurso público. Fez e foi aprovado. Foi a partir de então que se transformou em Fiscal Fazendário do Estado.

Foi a partir daí que conheci meu velho Pai. Até onde sei, antes de assumir a família, um verdadeiro boêmio. Notívago, gosto pelas serestas e pelas coisas fáceis da noite. Depois que conheceu minha mãe e constituiu família, um santo homem. Mudou de vida completamente, professor que era, e precisava dar exemplos. Bons exemplos, diga-se.

Andarilho por natureza, meu pai tinha paixão por “andar”. Andar, no sentido físico da coisa, sem que isso tivesse alguma ligação com a necessidade esportiva do andar, do caminhar. Andava por que gostava. E o tempo não era problema para ele. Andava com o sol à pino ou com aquela chuva que molhava tudo. Até a alma!

Guarda-chuva, uma das “armas” do meu pai

Hoje, anos depois da partida e do encantamento do meu velho pai, lembrei uma imagem que tenho gravada: após caminhar por cerca de 10 ou mais quilômetros debaixo de uma chuva torrencial (com bastante dinheiro no bolso para viajar de ônibus e ficar livre daquela chuvarada), meu pai entrando em casa completamente encharcado. Molhado do pés à cabeça e, pasmem, com um guarda-chuva, com uma capa e com uma galocha. Não adiantava falar nada. Aquilo, aquele banho lhe dava prazer.

O guarda-chuva do meu pai, abandonado

Meu pai foi homem metódico. Tudo que precisava cumprir como pagamento ao início de cada mês, era devidamente anotado. Aquela anotação era “riscada” quando era paga. Aprendi muito com ele e hoje repito algumas daquelas coisas que ele fazia. Sou extremamente organizado com minhas coisas do dia a dia, em casa. Parece chato. Mas sou assim e não vejo necessidade de mudar.

E aí talvez eu não esteja conseguindo me fazer entender. O que o Zé Ramos está querendo dizer, falando algo da vida dele com o pai, numa postagem textual onde ninguém tem qualquer tipo de interesse com o Alfredo Ramos (meu pai)?

E aí eu respondo: meu pai, além de ser meu pai, biologicamente falando, me inspirou, meu fez ver o mundo com os olhos da simplicidade e da verdade e, foi a primeira pessoa que me disse que, “o Brasil é um problema sem solução”!

Um país que tem a gente que tem, que tem os políticos que tem, que tem a educação que tem, que tem o judiciário que tem, que tem o sistema educacional que tem, e que tem, ‘PRINCIPALMENTE’ as escolhas e opções políticas que tem, jamais conseguirá chegar em algum lugar.

Quem que estudou, que tem mais de 60 anos de vida, que algum dia imaginou que aceitaria ouvir dizer que a única solução para este Brasil é a intervenção militar?

Quem está satisfeito com a situação político-administrativa do Rio de Janeiro, e acha que algo diferente de uma intervenção vai resolver alguma coisa?

Quem acha que os políticos que compõem a Câmara e o Senado alguma dia vão resolver “essa merda que está aí”? Fui! Meu pai, acho, estava certo.

EM TEMPO: Se alguém que lê essas maltraçadas linhas não entendeu o que pretendi dizer (principalmente) nas entrelinhas, eu tô é fudido e desisto de tudo!


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 31 de agosto de 2020

SAUDADE

 

SAUDADE!

A lágrima salgada da saudade

Há horas que a saudade me faz sangrar. É um sangue incolor, salgado, esfumaçado, doído, como se extraído a fórceps. Dói demais!

É uma saudade danada! Saudade de ti, de mim, de nós!

Saudade do que fui, sem querer ser. Saudade do que poderia ter sido, e não fui!

Saudade até de quando eu for!

Dói!

Saudade do vento, do amanhecer e do sol quente que me fazia suar e do suor que me fazia chorar, sentindo saudade de ti.

Dói muito!

Saudade daquela noite em que quase nos entregamos, e das lágrimas que chorei por te perder!

Saudade do teu sorriso na manhã seguinte.

Saudade do ontem. Do hoje e do amanhã, que um dia será hoje e depois será ontem.

Saudade do menino que fui e do velho que serei. Saudade de mim, de ti, de nós!

Dói e corta fundo!

Saudade das nuvens que eram minhas. E daquelas que eu não tinha!

Saudade dos caminhos, das trilhas, das veredas e das estradas por onde andei.

Saudade da minha infância. Da bila, do pião, da cachuleta, da arraia, do corrupio, e das estórias construídas e contadas em castelos de ventos e de areia.

Saudade das arapucas armadas e dos sabiás pegos. Saudade dos sabiás comidos e até dos que conseguiram fugir. Parabéns sabiás! Tomara não sintam saudades de mim.

Saudade – Pablo Neruda

Saudade é amar
Um passado
Que ainda
Não passou.
É recusar
Um presente
Que nos machuca,
É não ver
O futuro
Que nos convida.

Saudade do futuro. Saudade de tudo e até do que eu nunca vi.

Saudade da paz que eu quero ter e da que eu nunca tive.

Saudade grande. Dói!

Mas, a maior saudade é de ti. De mim. De nós!


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 24 de agosto de 2020

LAURA, A MENINA QUE CATAVA FLORES

 

LAURA – A MENINA QUE CATAVA FLORES

Laura no trabalho de catar flores

Provavelmente nos meados dos anos 20, Basileo Munhoz, nascido em Campanillas, bairro antigo da cidade de Málaga, na Espanha, depois de trabalhar alguns anos no Jardim Botânico – Histórico La Concepción, resolveu mudar em definitivo para o Brasil. Ainda solteiro, conseguir o visto definitivo não foi coisa difícil. Tentou e conseguiu.

Viajando de navio, levou alguns dias para desembarcar em Santos, litoral de São Paulo. Na cidade portuária procurou trabalhar, mas não conseguiu. Viajou por terra para Minas Gerais e, em menos de uma semana já estava trabalhando numa fazenda que produzia bebidas. Ali, também não conseguiu se adaptar. Embarcou no trem dos sonhos, com uma pequena mala cheia de ventos e de esperanças.

Dias depois acordou, já em Redenção no interior desprotegido e esquecido do Ceará. Na terra da cachaça e dos canaviais, Munhoz conheceu Bernarda, quarta ou quinta geração de africanos feitos escravos. Namorou. Namorou mais e mais. Namorou sem reservas e sem cuidados.

Coisa de duas ou três semanas depois, escutou de Bernarda uma preocupação:

– Bem, estou aflita! Minha menstruação está atrasada há mais de uma semana. Bernarda “buchou”.

Meses depois, sem eira nem beira, nasceria uma menina com traços visuais flamencos e sangue brasileiro. Chamou-se Laura. Laura, filha de Bernarda com Basileo, dois canavieiros que aprenderam fazer dos dias de vida o mais doce açúcar.

Basileo casou de papel passado. Resolveu que deixaria para trás, em Campanillas de Málaga, o Munhoz, agora assumidamente transformado em Muniz. Basileo Muniz, Bernarda Muniz e Laura Muniz. Uma família!

Como jamais haverá mal que dure para sempre, nem bem que nunca acabe, o período de valorização e importância da cana-de-açúcar e derivados sofreu um baque com a queda da economia, a variação para menor das exportações e os problemas naturais de qualquer economia de um país. Os dias ruins bateram à porta.

No auge, movido mais pela força do trabalho de Basileo e Bernarda, uma boa reserva financeira permitiria a compra de uma extensa área de terras, mas sem muita utilidade agrícola. Era uma terreno acidentado, repleto de dificuldades.

Um único benefício: um córrego que banhava parte da área e, durante o ano inteiro produzia um verde mais verde que muitos verdes.

Laura crescia. Pelos, seios e “aqueles dias” vieram quase todos no mesmo mês. No Ceará, diz-se: “ficou mocinha”!

Menina moça, pouca roupa, seios rijos e crescentes desprotegidos do sutiã, saia curta, acima alguns centímetros das patelas e bulindo cagente quando trocava os passos. Colhendo flores, colhendo margaridas, colhendo camomilas e espraiando vida e juventude num desenho inconfundível de desejos explícitos.
Assim era e ficou Laura, a menina que catava flores e margaridas para vender e colorir a vida – dela e de quem a olhasse.

Basileo que era Munhoz e virou Muniz, envelheceu. Bernarda, que era apenas Bernarda e também virou Muniz, cumpriu a missão divina da multiplicação e, com Laura já “mocinha ascendente”, encantou-se.

No campo banhado pelo córrego, a cada primavera de todo ano, as margaridas se misturavam com a Laura e as camomilas, viravam buquês perfumados nos vasos, muitos até sem água, levando a vida pela vida e pela eternidade.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 17 de agosto de 2020

ODORICO PARAGUAÇU FAZENDO FALTA NO BRASIL – SUCUPIRA E O POEMA DA TERRA QUE FICOU POR LÁ

 

ODORICO PARAGUAÇU FAZENDO FALTA NO BRASIL – SUCUPIRA E O POEMA DA TERRA QUE FICOU POR LÁ

Odorico e as irmãs Cajazeiras

Publicada em 1605, mas, provavelmente escrita antes disso, “Don Quixote”, a obra-prima de Miguel de Cervantes Saavedra registra passagens bem atuais e outras que estão por vir (coincidências, acredita-se). São mais de quatro séculos de vaticínios.

A revolução dos bichos” (Animal Farm), escrita por George Orwell, e publicada em 1945, vai completar nessa segunda-feira 17, 75 anos, e nela também há passagens coincidentemente atuais.

E o que tem de atual nisso?

Poderia ser “as promessas feitas à Sancho Pança”. Não? Afinal, as eleições no Brasil já estão batendo à porta. Ou que os bichos, se revolucionem e evitem pelo menos o caminho das panelas.

Assim, imagino que não estarei exagerando, se disser que, a novela “O bem amado”, escrita em 1973 por Dias Gomes, nos transporta para o momento atual vivido pelo Brasil, mais propriamente pelos ansiosos prefeitos de centenas de “Sucupiras”, que tentam justificar parte do dinheiro surrupiado via Orçamento de Guerra, com o aval do STF (Supremo Tribunal Federal), e, além dos hospitais de campanha, se deleitam com as imagens das sepulturas enfileiradas. Muitos sonham com isso, transformando sonhos em água para lavar o dinheiro.

E pouco se importam se algum “Nezin do Jegue”, em momentos mais que sóbrios, e sem tocar fogo no álcool consumido na bodega do Jessier Quirino vai furar a quarentena e gritar a todos pulmões: “São todos uns Odoricos, esses prefeitos ladrões”!

Nezin do Jegue (Wilson Aguiar)

Don Quixote acalentava o sonho levado pelos moinhos, mas ora ouvia e ora não achava importante escutar o escudeiro Sancho Pança, à quem fizera promessas. Sonha até hoje. Mas Cervantes entregou ao mundo a ideia da perseverança, na procura da realização do sonho, ainda que esse pareça impossível ou pouco provável.

George Orwell conseguiu dizer que, “nem os bichos se conformam tanto, de forma tão degradante e resolvem partir para a revolução, tentando impor novas ideias que os libertem da submissão ou do “só servir para ser comido”. Às favas o conformismo e ao inferno a aceitação total e perene das coisas que não são boas. Isso, creio, poderia ter alguma ligação com o povo brasileiro nas últimas eleições, mudando o caminho da história. Exatamente quando o “#elenão” perderia até para a Marina.

Dias Gomes sequer faz uso do Zeca Diabo, contratado para solucionar o problema “equacionatório, imaginatório e realizatório” de Sucupira, e da consumação corruptiva de Odorico Paraguaçu. É o Brasil de hoje mostra do há 45 anos atrás.

Estranhei que, na verossimilhança não haja um mínimo de espaço onde possamos inserir as atuais decisões do STF. Seria, por acaso, a necessidade de nos apropriarmos das notícias através do Dirceu Borboleta (Emiliano Queiroz) ou de Neco Pedreira (Carlos Eduardo Dolabella), proprietário d´A Trombeta (TV Globo)?

Chico “Maranguape” Anysio

* * *

Eu vim da terra do Chico,
Deixei o Anysio por lá.
Ficaram também Belchior,
Fagner, Cego Aderaldo,
Sem esquecer Zé Tatá.

Terra do meu Padim Ciço,
Castello Branco, Paulino Rocha,
Não esquecendo Florinda,
Prometendo lembrar sempre
Que Zé de Alencar vem de lá.

Eu vim da terra do Chico,
Deixei o Anysio por lá.
Ficaram também, Mucuripe
O Orós, a guabiraba, e o sapoti
Mas ficou eterno o Liceu do Ceará.

Terra do peixe biquara, do Cumbuco
Louvando o Xico Bizerra de lá,
Não esqueci as rendeiras, as redes,
Macaúba, murici e o pão do aluá
Patativa, Juazeiro, Messejana e Tauá.

Eu vim da terra do Chico,
Deixei o Anysio por lá.
Tenho sofrido, aprendido, vivido
Alimentando a Fé e a certeza
Que um dia voltarei para lá.

Composição deste colunista


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 10 de agosto de 2020

SEU XEXÉU, O INVENTOR

 

“SEU XEXÉU”, O INVENTOR!

“Seu Xexéu” só não conseguia inventar filhos

Quando saí de Queimadas para morar em definitivo em Fortaleza, no interior, as unidades de medidas conhecidas eram muito antigas. Não existia 1Kg de farinha, feijão, milho ou arroz. Existia, sim, 1 litro – a medida era um caixote de madeira em formato de cubo.

Se me lembro bem, 1 litro de farinha era diferente de 1 litro de querosene ou de leite, por exemplo – mas, todas eram medidas confiáveis que atravessaram gerações. Nos comércios, os bodegueiros usavam “1 Kg” com um pedaço de pedra. 2 Kg, eram dois pedaços de pedra, e daí em diante. Tudo levava a crer que vivíamos nas cavernas – mas, saltava aos olhos de qualquer um, a confiança. A palavra empenhada valia mais que muito dinheiro.

Lembro bem que, a distância entre um lugar e outro, era chamada de “légua”. Tantas léguas pra cá, tantas léguas pra lá. Era assim que se fazia entender a distância. E, na casa da minha Avó, ninguém se atrevesse a reclamar se, “na boquinha da noite” ela quisesse acender as lamparinas e não tivesse querosene.

– Zezim, meu fii, se avexe e vá comprar “meia garrafa” de querosene, apois o daqui acabou. Diga pro Seu Manuel pra me aviar essa meia garrafa, que adispois eu pago!

Ordem dada. Ordem cumprida. Sela no jumento, espora num pé, e tome estrada na direção da bodega do Seu Manuel.

Hoje, quando lembro do tamanho da garrafa que levava para comprar querosene, sinto crises de risos. Na realidade, não era meia garrafa. Era um frasco, que provavelmente só encheria a lamparina naquela noite.

Eis que essa situação mudou. O mundo também. As pessoas que até então só conheciam “Aleijadinho”, passaram a ter conhecimento do Mestre Vitalino e suas invenções, que passaram a chamar de trabalho em artesanato.

Garrafa vazia adaptada como vaso decorativo

E, foi Seu Xexéu quem descobriu para nós, morando lá nas brenhas das Queimadas, que, “queimar bosta de vaca/boi espantava muriçoca”. E passamos a fazer aquilo. Ninguém andava mais léguas e léguas para comprar aquele espiral químico.

Seu Xexéu passou a juntar garrafas vazias, embalagens de magnésio, Biotônico Fontoura e outras que tais e, delas passou a fabricar lamparinas. Fabricava lamparinas maiores até com as latas vazias do óleo comestível Pajeú. E, era exatamente porque “imitava muitas coisas”, que Raimundo Birino recebeu o apelido de “Seu Xexéu”!

Não demorou muito e “Seu Xexéu” descobriu como cortar garrafas de vidro sem quebra-las, adaptando-as para centenas de outras utilidades. Vendia os “inventos”, e com o que ganhava passou a sustentar a família.

Foto 3 – Uma futura lamparina ou ralo para ralar milho verde

Finalmente, todas essas coisas me conduziram, na juventude, a entender melhor o texto de Antoine du Saint-Exupèry, n´O Pequeno Príncipe, quando desenhou a pedido, uma caixa e afirmou que, dentro dela havia um elefante. Ou, ainda, quando diz que, hoje, “amigos não são vendidos em lojas”. Por isso eles são tão poucos.

 


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 03 de agosto de 2020

A SEGUNDA REVOLUÇÃO DOS BICHOS

 

 

A “SEGUNDA” REVOLUÇÃO DOS BICHOS

Aquela negra alta e magra, sem a característica da bunda arrebitada tão comum nas mulheres de hoje, com uma cuia cheia de milho numa das mãos, cachimbo num canto da boca, ainda conseguia emitir um som que as galinhas, patas, galos, patos e perus conheciam como se fosse uma linguagem em cifras, entre eles:

– Ti, ti, pê, ti, ti, pê, ti-ti-ti!

Em poucos segundos, Raimunda Buretama ficava rodeada de todas as aves que mantinha e fazia a criação meieira do quintal. Continuava rebolando mancheias de milho, ao tempo que espantava o galo, que esquecia do milho e tentava “abaixar” a pata, mulher de Nicolau, o pato.

Não era diferente com Francisca, a galinha poedeira, mãe de quase todos os pintos e frangos do quintal – tinha até um pinto com os pés diferentes, como se filho de pato fosse. E eu não tenho conhecimento para duvidar disso. Galo corno, seria o primeiro.

Francisca, assim era chamada, como forma de insulto da Vovó ao Vovô, “raparigueiro” de marca maior, com fama de gastador de trocados em troca de uns reles e fingidos carinhos. E, no local frequentado por Vovô, havia uma fuampa muito famosa – pelo atendimento interesseiro que dispensava aos fregueses. Vovó afirmava que era atitude de “galinha”. Daí o apelido que a penosa recebera, de “Francisca”.

Foto 1 – Francisca – a galinha especial

Sempre chamando a atenção pela pretensa “conversa” com as aves, o que Vovó pretendia, na verdade, era atiçar arenga com Vovô – que, amadurecido e sem nenhuma razão, pois andara mesmo mijando fora da bacia, nem se atrevia a dar um pio sequer. Se se metesse a enfrentar a véia, com certeza o castigo seria pior, pois passaria duas quarentenas sem “trocar o óleo”. E, quem vive no sertão, perereca não é “bicho” que se dispense.

Foto 2 – Nicolau – o pato maluco e tarado

Mas, aquele quintal não se reduzia apenas à Francisca, a galinha, tampouco ao “atiçamento arengal” de Vovó com Vovô. Havia outro personagem destacado naquela segunda edição da “Revolução dos bichos”, mesmo não sendo contada por George Orwell. Era Nicolau, o pato que nada mais era que uma mistura de tarado com maluco.

Foto 3 – Para provar que não temia ninguém Nicolau “pegou” Francisca

Nicolau entendia que, galinha, sempre será galinha. E, no sentido que os modernos usam hoje, essa palavra: ficar de galinhagem. Esquecendo o apelido de doido, e agindo mais como verdadeiro tarado, Nicolau esqueceu o milho jogado por Vovó, e foi “cloacar” com Francisca. Francisca, ansiosa e sentindo a falta de Artur, o galo Rei do Terreiro, espiando para Nicolau, não resistiu ao rosnar do maluco.

Vovó bem que tentou impedir aquele verdadeiro estupro, mas chegou atrasada. Exatamente quando Nicolau estava nos finalmente, e “desceu” de cima de Francisca batendo as asas como se pretendesse dizer: “finalmente, te peguei”!

E aquele conhecido ti, ti, pê, ti, ti, pê, ti-ti-ti, continuava, com o milho sacudido dentro da cuia!

Aquela manhã ficaria marcada, realmente, como uma segunda “Revolução dos bichos”. E tudo acontecia exatamente na hora em que todos estavam soltos no quintal, comendo milho e bebendo água, ou, uns “comendo” os outros.

O quintal da Vovó sempre teve aves, e galinheiro. Mas, “galinhagem” não ocorria sempre – o que nos levava a acreditar que aquela manhã, em meio às cuias de milho e mais alguns ti-ti-ti, pê, ti-ti-tis, era revolucionário. Nunca houvera cornagem em meio aos bichos. Ainda que fosse uma manhã atípica.

Artur apareceu exatamente na hora que Nicolau, contando vitória e vantagem, sacudia as asas com ar de superioridade. Abriu as asas, fez aquele conhecido rodopio de asas abertas e deve ter pensado consigo mesmo:

– Vou dar o troco, e mostrar quem é o corno aqui.

Foto 4 – Artur na hora da vingança

Artur começou sua pretensa vingança bicando o chão. Bicou milho, cantou e procurou a terrina com água. Se serviu de umas “bicaradas” na água, e foi à luta. Disfarçadamente, esticando o pescoço, nada mais fazia que procurar Benevalda, a pata – por quem o maluco Nicolau nutria uma paixão enorme. Ciúme, era só o que ele sentia.

Não demorou muito, Artur conseguiu localizar Benevalda, distante dali uns 15 metros, caminhando “pateticamente” para a terrina d´água. Artur apressou os passos, alcançou Benevalda, e sem muita cerimônia, “crau”! Cravou Benevalda, esperou o relaxamento da cloaca, o que lhe garantiria a troca do óleo.

Vitorioso, sacudiu as asas, arrepiou-se todo e cantou!

– Corno é o escambau!

Mas, aquele dia literalmente revolucionário estava longe de terminar. Vovó já se recolhera para a camarinha e Vovô achava que ela teria ido buscar mais milho. Não foi. Foi verificar se todos os ovos estavam nas suas devidas cumbucas – pois o que vira naquela manhã no quintal, tinha tudo para que ela desconfiasse que não criava bichos aves. Criava verdadeiros “animais” – ainda que alguns tivessem recebido nomes de humanos.

Foto 5 – Assim fica difícil legendar e saber quem é o que

Quando Vovó continuava contando ovos dentro das cumbucas, Vovô assistia, incrédulo, uma cena para ele nunca vista. Sem que até hoje se tenha uma explicação em termos de “quem comia quem”, o cachorro Berimbau estava literalmente engatado com o galo Artur. Com certeza, um dos dois jogou água fora da bacia – mas, era apenas a confirmação de uma nova e moderna “Revolução dos bichos”.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 27 de julho de 2020

O ROLO DE FUMO E A PROSA NA CACHIMBADA

 

O ROLO DE FUMO E A PROSA NA CACHIMBADA

Rolo de fumo

Diferente da maioria dos outros estados brasileiros, o “falar cearense”, vez por outra enfeitado pela verve da comicidade, é tipo cartão de visita ou convite de apresentação. O que nem seria necessário, pois existe cearense morando até na lua. A NASA levou experimentalmente, um Pedreiro e um Servente de Pedreiro, com o objetivo de construir as primeiras vilas e realizar um teste de como alguém poderia sobreviver naquele mundo, sem ter certeza que existe água potável. E, sejamos sinceros, cearense é phoda nisso.

Sem deixar pegar vereda diferente na prosa, indo para a capoeira e nunca para o xópi, quero focar hoje o fumo. É o fumo que, no Brasil tem sua melhor fabricação nas Alagoas. É ali que se planta, se curte, se produz e vende – mas poucos fumam. É de lá que saem os rolos. Rolo de fumo. Mas, e o que tem o cearense com isso?

A verve cearense, muito antes de abolirem os primeiros escravos brasileiros, já apelidava o “negro” – e não o escravo – de “pau de fumo”. Também, nenhuma relação com o pênis avantajado da negrada. Nenhuma relação ofensiva ou humilhante. Pode até não haver carinho mas, com certeza para nós cearenses, “pau de fumo” vai muito além daquela mangueira com fumo enrolado ou com algo ofensivo ao afrodescendente.

Pois, foi com canivete feito de uma banda do Gillete Blue Blade, ou com uma peixeira de 25 polegadas sacada da bainha de couro, que vi pela primeira vez meu Avô cortando fumo para fumar no cachimbo – de barro.

Nas tardes de domingo, a paisagem nunca mudava: meu Avô, João Buretama sentado na latada, botando a prosa em dia com meu tio Antônio Luciano. Vez por outra, Vovó cortava a prosa e servia um café quente daqueles grãos torrado e pilado em casa. E a prosa continuava, mantida pelas cachimbadas.

Prosa na “cachimbada”

* * *

O ZAP-ZAP DOS ÍNDIOS

Zap-zap indígena

Descoberto por conta do destino e da forte ventania que mudou o caminho para as índias, o Brasil, desde aquele “fatídico” 22 de abril de 1.500 convive com a mentira, aceitando-a como verdade. Tem quem afirme que, quando o Monte Pascoal foi avistado, de lá já saíam sinais de fumaça que os índios enviavam numa conversa por zap-zap com a tribo que vivia em Fernando de Noronha. Verdade ou mentira, fica o registro.

Longe dali, do outro lado do Atlântico, as mensagens “zapianas” entre os índios americanos do Alabama já existiam, avisando que o homem branco tentava invadir aquelas terras para construir o caminho do “cavalo de aço” (trem). Foi por conta disso que o chefe Cabeça de Touro organizou o primeiro levante naquelas plagas, e entregou o comando para Flecha Ligeira, aquele guerreiro que tirava a exibia os escalpos dos homens brancos.

Os anos se passaram, alguns hábitos mudaram, e outros nem tanto. O homem branco construiu e passou a usar o Cavalo de Aço que o levou em definitivo para novas terras. Fizeram avenidas, arranhas-céus, shopping centers e venderam parte dos direitos para a Samsung que fabricou os telefones celulares – a forma moderna do homem branco para enviar suas mensagens. Algumas mentirosas, tal qual aquela do dia 22 de abril de 1.500. A essas mensagens deram o nome de “fake news” – prova de que os índios americanos continuavam mandando seus sinais pela fumaça.

Junto com os sinais, os índios americanos exportaram também a linguagem. E é exatamente essa linguagem importada, que passamos a chamar de stand-up, que o cearense chama de baitolagem. Coisa de fresco, de queimador de rosca.

Por que, temos tanta vergonha de falar a nossa língua?

Que beleza existe em “dèjavu”? Em “monsieur”?

Ou, em mister, background, know-how, feed-back?

Imagine, o dia que Luiz Berto chegar em Palmares, e o ladrão da Roleta do Cu-Trancado começar a falar: “Mister and miss, make yours plays”!


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 20 de julho de 2020

A SOLIDÃO INEVITÁVEL E O AMOR ETERNO

 

A SOLIDÃO INEVITÁVEL E O AMOR ETERNO

Idoso dando continuidade à vida

Era apenas o início de mais um dia, como tantos outros. Mas, o frege naquela casa fazia parecer que ninguém dormira – o barulho causado pela movimentação da preparação da filharada para começar mais um dia de trabalho e sustentação da roça. Era assim, na casa de Doroteu e Alice.

A casa, ainda desarrumada, tinha uma porção de quartos e camarinhas. Meninos e meninas dormiam no mesmo aposento, uns nus e outros vestidos, pois, maldade das ideias estava distante dali e todos se respeitavam.

Café servido e tomado. Tapiocas, cuscuz, leite de cabra, macaxeira cozida, batata doce e até carne assada faziam o “breakfeast” da família numerosa de Dodô de Alice – era assim que Doroteu, casado de papel passado com Alice, era conhecido por aquelas paragens. Guaiúba, mais precisamente. Hoje, Região Metropolitana de Fortaleza.

Eis que os tempos mudaram. Os meninos cresceram, casaram e tiveram que procurar seus destinos. As meninas não foram diferentes, embora Maria Alice, a caçula, tenha feito peraltices com alguém sem-futuro, no que resultou numa prenhês indesejada.

Todos da Guaiúba viram o crescimento e o esfacelamento natural daquela família. Eis que Maria Alice, por conta dos dotes físicos avantajados, não demorou muito para conseguir um novo interessado – que assumiria, também, o “bruguelo” que não era seu filho biológico. Mas, isso era o menos importante para quem pensava em “desfilar” pela cidade com aquele monumento de mulher.

Alice encantou-se. Com os filhos todos em novas vidas, o passar do tempo mostrou para Dodô de Alice, a solidão. Momento inevitável para quem vive. Por amor à quem lhe ajudou na construção da vida e da família, Dodô de Alice decidiu que sua cama seria transformada num catre, e não seria mais dividido com outra mulher. Reuniu os filhos e decidiu que a casa da Guaiúba seria de Maria Alice. E assim foi feito.

Dodô de Alice partiu para uma nova vida, não tão nova, porque solitária. Num terreno que ainda era parte da propriedade da família, nas proximidades do Açude Novo, resolveu fazer a sua própria moradia. Não demorou muito e, numa semana, um casebre foi erguido. Varas nas paredes sustentariam a rede armada. Um pote com água, era a única “mobília” decorativa do ambiente, com o enfeite de uma caneca de alumínio. Num canto, um fogão com “duas bocas” tocado a lenha, para cozinhar o feijão e o que mais houvesse.

Dodô de Alice ainda conseguiu superar aquela solidão que a vida lhe impôs, por pelo menos dez anos. Nesse período, em duas oportunidades teve a presença de alguns filhos e muitos netos – sempre no dia 29 de fevereiro, data do seu aniversário. Nesses dias, o almoço que regava o encontro, era organizado e servido debaixo de uma frondosa mangueira, onde ele, caprichosamente, esculpiu com um canivete, dois corações unidos pela flecha do cupido, com os dizeres: Dodô e Alice!

* * *

A NUDEZ QUE A CHUVA DESENHAVA

Banho de chuva e o prazer dos olhares

Vila Pasteur, uma das três vilas que ficava na “Baixa da Égua”. Morador mais antigo daquela vila, Messias ao concluir sua moradia, lembrou de atender um pedido das crianças, e construiu no alto da frente da casa, um jacaré. É, um jacaré – que é como todos denominam aquela manilha de cerâmica colocada no alto e na frente da casa, para o escoamento das águas da chuva. É certo que as chuvas eram escassas, mas não custava nada atender o pedido das crianças.

O tempo passou, e mais vizinhos chegaram e construíram suas casas, separadas umas das outras por pequenos muros altos nas laterais e baixos nas frentes – forma de garantir a manutenção da amizade dos vizinhos.

As crianças de Messias, nascidas do ventre de Divanira, eram três: Carla, Ana Carla e Carla Ana. As três, chegaram para se juntar à Monalisa, fruto de outro relacionamento amoroso de Messias.

Monalisa era estudante universitária e pretendia, um deia, se tornar Odontóloga. Em casa, preferia os livros, principalmente os didáticos relacionados à sua futura profissão.

Os “meninos e os homens” da vizinhança afirmavam que, Monalisa, se fosse possível fazer uma comparação, nada ficaria devendo à Sônia Braga, nos mais tentadores anos da juventude da atriz, que a televisão e as telas do cinema mostraram para nosso deleite.

Perfeita, a Natureza às vezes impõe castigos aos humanos. Houve tempo em que chuva era algo raro naquela Vila Pasteur. Ainda bem que, quando chovia, chovia forte e por vários minutos. Permitia um bom banho debaixo do jacaré da casa de Messias – um prêmio para os meninos e a confirmação para os rapazes, de que, “quem espera, sempre alcança”.

Vestida de chitão e uma minúscula calcinha, Monalisa, como qualquer deusa, se punha a banhar debaixo daquele jacaré. Nenhum rapaz aparecia (todos, literalmente todos, se escondiam atrás das portas e janelas), para ver Sônia Braga no corpo de Monalisa. Quanto mais chovia, mais o vestido colava no corpo, desenhando e esculpindo a beleza natural de uma fêmea.

Distantes, todos torciam para que Monalisa “lavasse o cabelo”, pois significaria demorar mais tempo debaixo do jacaré, expondo uma nudez que só a imaginação consegue desenhar e descrever. Muitos caíam em depressão, quando a chuva parava, acabando com o privilégio. Sem que se soubesse definir, se nua ou molhada, Monalisa, após deliciar os olhares dos rapazes, entrava rápido. Eu, como se dirigisse uma cena de um filme, digo: corta!


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 13 de julho de 2020

ÉRAMOS FELIZES – E SABÍAMOS DISSO!

 

ÉRAMOS FELIZES – E SABÍAMOS DISSO!

Os meados da década de 40, reforçados pelos anos 50 e o começo dos anos 60, foram os que mais formaram e qualificaram mão-de-obra no Brasil. Dois ícones qualitativos e pódios mais altos desejados por aqueles que, naqueles tempos pensavam apenas em constituir e construir família. Infelizmente, o modernismo e a tecnologia, num somatório, não se pode apostar em algo positivo.

Os pais que conseguiam vagas para matricular os filhos no SESI ou no SENAI, onde aprendiam e se especializavam verdadeiramente na profissão, se consideravam ganhadores de loteria. Era um prêmio à família, aprender Mecânica, Tornearia, Funilaria e muitas profissões que significavam verdadeiras cartas de alforria daqueles tempos.

Eu, só consegui ter uma profissão definida, na década de 80. Antes, fui de fabricante de sacos de papel para vender peixes, vendedor de cocadas, vendedor de “filhóis” e até Caixeiro de bodega – e foi ali que descobri que, 1 Kg só continha 850 gramas. Arre égua!

Aprendi “Dactilografia” e me aproximei de ser Auxiliar de Escritório. Dali, trabalhei como Teletipista na Western, onde aprendi transmitir e receber cabogramas – foi, também, quando pela primeira vez me tornei sindicalista. Foi ali, também, onde fiz a primeira grande besteira da minha vida, enveredando pelos caminhos da ideologia política. E isso me fez desistir de assumir uma aprovação num concurso para o Banco do Brasil – apenas por que o salário recebido na Western era melhor.

Foi essa lembrança, que me encaminhou para a matéria da coluna de hoje. “Antigas profissões”, que eram uma garantia contra o desemprego. Hoje, entendo eu, não há “desemprego”. O que há, realmente, é muita gente sem qualificação profissional. Todos querem ser Advogados ou todos “abrem” uma Farmácia.

No final da década de 60, já morando no Rio de Janeiro, conheci até algumas famosas agências de emprego. A TéD, era uma das mais prestigiadas e respeitadas, haja vista que, antes de encaminhar qualquer candidato a um emprego para a empresa com quem mantinha contrato, testava e até treinava o futuro empregado.

Agências de empregadas domésticas mantinham cadastros de “empregadas” e de “patrões”, incluindo referências de quem se candidatava. Esse item, hoje, é conhecido como “Diarista”.

Vamos ver profissões antigas que, se ainda não sumiram, estão a caminho:

O OURIVES

Ourives

Ourives é aquele que trabalha com ourivesaria (homem ou mulher – mas, é raro conhecer alguma mulher trabalhando nessa profissão) e ainda hoje existem profissionais em pequena escala. Profissão que existia há 2.500 anos antes de Cristo. Comprovação feita, segundo descobertas de peças trabalhadas com esmero, encontradas em sítios arqueológicos no mar Egeu.

A profissão de Ourives ainda é bastante comum, ainda que sem a mesma procura e valia de antigamente. A arte da ourivesaria é considerada uma das profissões mais antigas do mundo.

Atualmente, existem as chamadas “Casas de Ourives”, que costumam fazer consertos em joias ou ornamentos, em quase todas as cidades do mundo.
Mas, como tantas profissões, o “Ourives” está desaparecendo com o passar dos tempos.

O FERREIRO

Ferreiro

“O Ferreiro é uma pessoa que cria objetos de ferro ou aço forjando o metal, ou seja, através da utilização de ferramentas como fole, forja, bigorna, martelos, dobra e corta, e de outra forma moldá-la na sua forma não-líquida. Geralmente o metal é aquecido até que brilhe vermelho ou laranja, como parte do processo de forjamento. Ferreiros produzem coisas como portões de ferro forjado, grelhadores, grades, lustres, luminárias, mobiliário, esculturas, ferramentas, implementos agrícolas, religiosos e objectos decorativos, utensílios de cozinha, e armas.

Durante a Idade Média era comum a imagem do ferreiro da aldeia, responsável por praticamente toda a metalurgia do feudo ou povoado. Sendo que muitas vezes, nestes tempos, o ferreiro se tornara sinônimo de forjador de armas, já que era função dele fabricar as armas (espadas, lanças, machados, etc.) utilizados pelos soldados da época.

Com a revolução industrial, a partir do século XVII, o oficio de ferreiro foi gradualmente sendo substituído pelas indústrias metalúrgicas, sendo que a profissão sobrevive até hoje apenas em regiões menos desenvolvidas e/ou para a forja de objetos com finalidade principalmente decorativa.

Acredita-se que a profissão de ferreiro exista desde quando o homem aprendeu a manipular e moldar os metais (em torno de 2000 a.C.), sem grandes distinções até os tempos atuais.” (Fonte: Wikipédia)

Nos dias atuais, o Ferreiro quase não existe. É um trabalhador raro de ser encontrado, haja vista que, grande parte dos objetos da linha, são fabricados pela indústria pesada. A continuação da vida (que estou me negando a rotular de “evolução”), deixou um pouco de lado esse profissional. Antes, no começo deste século, portas, portões, basculantes, janelas, etc., estavam sendo fabricados pelo mesmo profissional, agora, estranhamente rebatizado de “Serralheiro” – o que acabou se tornando definitivo, com a chegada e o uso do alumínio em grande escala na confecção de muitos itens, antes fabricados exclusivamente com o ferro.

O MARCENEIRO (OU CARPINTEIRO)

Marceneiro ou Carpinteiro

Há quem afirme, que São José era Carpinteiro, prática que evoluiu e foi reconhecida como profissão. Na profissão, São José teria tentado iniciar Jesus Cristo, fabricando alguns utensílios domésticos. Foi então, que apareceu a Marcenaria, cujo profissional é rotulado de Marceneiro. São profissões próximas, dependentes, mas não iguais.

“A Marcenaria – O marceneiro trabalha exclusivamente na fabricação, conservação, reparação de móveis, além de outros objetos de decoração a base de madeira. Por isso, podemos dizer que o trabalho do marceneiro é mais artesanal e delicado se comparado a carpintaria.

O marceneiro para o desenvolvimento de seu trabalho utiliza de técnicas exclusivas e ainda conta com matéria-prima nobre e de qualidade, pois os móveis e enfeites devem ser feitos com madeiras de boa qualidade.

Vale lembrar que a marcenaria se derivou da carpintaria, adequando algumas técnicas para melhor desenvolvimento de seus produtos. O marceneiro durante muito tempo foi considerado um artesão de móveis, no entanto, hoje, com os avanços da tecnologia, seu trabalho foi reduzido devido a indústria moveleira que utiliza em suas fábricas, máquinas.

A Carpintaria – A carpintaria costuma trabalhar essencialmente com madeira maciça em seu estado natural, comum na construção civil e naval. Os carpinteiros, necessitam de conhecimentos geométricos e precisão técnica, precisam ter conhecimento dos diferentes tipos de materiais e técnicas a serem utilizadas naquele tipo de madeira. Está é uma das principais diferenças entre marceneiros e carpinteiros.

A carpintaria é uma das profissões mais antigas e abrange uma série de trabalhos, tais como: escadas, portas, soalhos, telhados e até obras de menor dimensão mais comum na construção naval.” (Fonte: Wikipédia)

O ESTIVADOR

Estivador

Passados dois ou mais séculos, muita coisa (e profissão) mudou de conceito. Passou a receber o apoio da tecnologia, e teve o reconhecimento dos legisladores, que criaram e aprovaram leis determinantes no exercício de cada profissão. O Estivador, no princípio, nada mais era que o reles “carregador de sacos, volumes de diferentes pesos, e, quase sempre, em situações desfavoráveis” para muitos.

Há quem afirme que, tudo dependia do “pouco estudo, muito mais do que da força física”, sem que também tivesse qualquer aproximação com a cor da pele – muitos estivadores, no passado, eram negros.

“Hoje, o Estivador é o técnico responsável pela colocação, retirada e/ou arrumação de cargas nos porões, ou sobre o convés de embarcações principais e auxiliares, autopropulsadas ou não. O Estivador é imprescindível para execução do transporte marítimo, ficando encarregado da movimentação e sinalização para o movimento de cargas e equipamentos a bordo.

Normalmente, confunde-se o Estivador com outras classes de operários do porto: o Estivador só trabalha a bordo, e nunca em terra. Quem fica sobre carretas ou vagões do lado de fora é o Arrumador de cargas; Quem opera as pranchetas e anotações é o Conferente; Quem opera os guindastes de terra, são os portuários (Estivador não opera guindaste, opera guincho, pois o guincho é acessório do veículo de transporte).

Hoje em dia, grande parte desta atividade está automatizada. Mesmo assim, é considerado um trabalho perigoso, insalubre e estressante, já que as condições de trabalho quase sempre não são boas, podendo ocasionar acidentes. Até a primeira metade do século XX, cabia aos estivadores a tarefa de embarcar a carga nos navios transportando parcelas dela nas costas, frequentemente embaladas em sacos de 60 quilos.” (Fonte: Wikipédia).

O CAÇADOR DE RATOS

Caçador de ratos

Como pode ser facilmente percebido pelos leitores, algumas informações sobre profissões antigas que continuam existindo ou não, foram compiladas na Wikipédia, fruto de pesquisa que acabou me atualizando, e levando a conhecer mais um pouco do desconhecido.

E, nessa “pesquisa”, consegui encontrar duas “profissões” que, hoje podem ser consideradas estranhas: o Caçador de ratos, e o Despertador humano.

O Caçador de ratos, que também os abatia, era empregado da gestão pública nos séculos passados, em lugares que não dispunham de saneamento básico nas principais ruas e logradouros. Como o mundo era outro, pouco ou quase sem contaminação, os ratos caçados e mortos, eram colocados livremente à venda. É os ratos mortos eram vendidos (e, creio eu, consumidos).

Dizer que a profissão foi extinta é desprezar os agentes antipraga, ou dedetizadores modernos. Em certos casos, são chamados exclusivamente para exterminar ratos, mas, no passado, era comum contratar os serviços de caçadores de roedores que, com seu equipamento e know-how, entravam em sótãos, porões, bueiros, sistemas de esgoto, atrás dos temíveis ratos. Durante a Primeira Grande Guerra, com a escassez de alimentos, os especialistas encontraram uma segunda fonte de renda, comercializar os ratos para serem comidos.

O Despertador humano, é uma antiga profissão, totalmente extinta. O trabalho consistia em despertar alguém mediante contrato. O contratante assinava um termo de serviço com o(a) contratado(a), indicando, além do horário, o endereço residencial. Para não incomodar a vizinhança, o que poderia caracterizar perturbação do silêncio e do descanso, o Despertador humano trabalhava com objeto que poderia ter o tamanho do alcance aumentado ou diminuído, conforme a necessidade de atendimento apenas ao contratante. O objeto era uma espécie de corneta.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 06 de julho de 2020

TRANSPOSIÇÃO QUE VIROU TRANSFUSÃO

TRANSPOSIÇÃO QUE VIROU TRANSFUSÃO

Ou, “Uma ponte de safena nas veias da vida”

Água que alimenta a vida no planeta

Eu sou de uma terra que o povo padece
Mas não esmorece e procura vencer.
Da terra querida, que a linda cabocla
De riso na boca zomba no sofrer
Não nego meu sangue, não nego meu nome
Olho para a fome, pergunto o que há?
Eu sou brasileiro, filho do Nordeste,
Sou cabra da Peste, sou do Ceará.

Patativa do Assaré

Dia histórico, o 26 de junho de 2020. A fome, que noutros tempos matou muita gente, naquele dia recebeu o “tiro de misericórdia”, e anteviu a transformação dos campos e roçados esturricados em pastagens verdejantes convidando para o trabalho e o plantio.

Incontáveis as vezes que, desesperados, saíamos de foice na mão e cabaça no ombro, à procura d´água.

Os açudes, no barro esturricado, nos obrigavam a procurar água noutros lugares. A saída era o cipó da mucunã (cuja semente, em outros lugares é conhecida como “olho de boi”), onde a Natureza divina deposita no seu âmago uma pequena e saudável reserva.

Cipó de mucunã

Distante de algum dia ser uma “torneira”, o cipó é algo muito além da vida. Água saudável e, dizem, medicinal. Mas, por vezes, é apenas o líquido que abastece a ansiedade e mata a necessidade do corpo humano.

Às vezes o “segredo” está na forma de cortar

Não é “qualquer um” que encontra e identifica o cipó d´água. É necessário vivência e, mais ainda, precaução na hora de verificar e tentar cortá-lo. Não é raro encontrar cobras venenosas enroladas e camufladas nos cipós.

A vida do sertanejo passa por todo esse tipo de perigo – e, sempre para suprir uma necessidade vital.

Assim, que importância tem o fato de descobrir “quem idealizou” fazer a transposição?

Idealizar por idealizar, quem vive naquela região, antes castigada pela Natureza e hoje abençoada por ações de pessoas que sequer nasceram ali – vem idealizando há mais de um século e sabe que “apenas idealizar e nada fazer”, não é o mais importante.

Agora, complementando a boa ação, o Governo Federal precisa viabilizar e facilitar o apoio logístico (equipamento de irrigação, energia elétrica barata, transporte e principalmente cooperativas) para o Agricultor que tem coragem e disposição para retribuir.

Semente da mucunã (olho de boi)

Quem nunca foi ao Ceará, certamente não conhece, por óbvio, e jamais ouviu falar numa espécie de “triângulo” formado pelos municípios de Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha. Desses, o mais conhecido é Juazeiro do Norte – assim chamado, para fazer diferença com Juazeiro da Bahia, não tão distante dali, separado de Petrolina/PE, pelas águas que serpenteiam o Velho Chico.

Do lado Norte, a saída ou entrada por Sobral e Tianguá ou Chaval; do lado Sul, Icó, que leva à Petrolina e, logo depois, Juazeiro da Bahia; noutro ramal, levando à Paraíba, Jati – esse último, o caminho da “transfusão” chamada de “transposição”. É o Ceará, aberto ao Brasil.

Desde aquele histórico 26 de junho, discute-se a paternidade da transposição. Se, fora daquele Estado, alguém pega em armas e se engalfinha por conta disso, no Ceará, os beneficiados se regozijam e, com jumentos com cambitos, latas, tonéis e cabaças, se preocupam apenas em encher os potes e as quartinhas.

Na esteira das ações, o livramento definitivo para a raiz da mucunã, e os joelhos postos ao chão, em oração de graças e agradecimento: à Deus, o Onipotente.

Momento da chegada da água em Jati

 


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 29 de junho de 2020

OS MENINOS DE ONTEM

 

OS MENINOS DE ONTEM

O pau que dá em Chico, dá em Francisco? Nem tanto. Poderia ser mas, hoje, por conta da diversidade cultural deste País continental, que tem as “porteiras” abertas para pessoas com diferença de raça, credo e entendimento, não há como acreditar em “tudo linearmente, com a mesma facilidade de entendimento e prática.”

E isso, aqui e alhures, em todos os polos do planeta, contando ainda com a mudança climática, a cultura de vida a facilidade e o alcance dos apoios que a tecnologia oferece e, no somatório, transforma num peso importante e decisivo para a nossa forma de vida.

A Antropologia + Sociologia que compõem as mais variadas formas de “políticas públicas e urbanas” mundo à fora, acabaram fazendo com que, o hoje, seja diferente do ontem, e esses dois, mais diferentes ainda, do amanhã. É arriscado apostar na perseverança das coisas – deixando de lado, claro, a questão da religiosidade.

Dito isso, continuo acreditando que, “tudo de bom, ou tudo de ruim” que de alguma forma nos encaminha para as boas ou más ações, tem uma nascente única: dentro de casa, na família e por conta da saturação dessa, se as coisas não caminharem bem; ou, também, dentro de casa, graças ao “domínio dos gestores domésticos”, se tudo acontecer como todos desejamos que aconteçam.

É ali, na família, onde tudo começa. O bom, ou o bem; e o mau ou o mal.

A infância atual caga para o mundo

A boa e apropriada terra, preparada e cuidada, vai produzir boa plantação e melhor colheita. Isso é fato. É bíblico. Não poderia ser diferente o resultado com o ser humano, cuidado e preparado na infância com boas maneiras e ações que levem à uma boa vida (nesse caso, a colheita). Entre esses bons e eficientes “cuidados” com a infância, entre os mais positivos está o “brincar”.

Trocentos anos atrás, por conta da falta de dinheiro e por melhor entendimento da vida, pais e mães até incentivavam os filhos para a brincadeira sadia e construtiva que proporcionasse melhor e frutífero convívio social – e isso produzia uma resposta social maravilhosa.

A brincadeira semeava a convivência. Criava não apenas os anticorpos da defesa humana, como edificava o convívio social para uma vida de Paz e harmonia, tanto em meio a família, quanto num futuro, fora dela. Mas, na construção de uma nova família – era o “crescei e multiplicai-vos”.

Os pais brincavam junto, ensinavam a brincar e a fabricar os próprios brinquedos, imaginando que, daquela forma, os filhos se apegassem mais ao que faziam, por aprenderem as dificuldades que enfrentavam.

Brincando de forma saudável para o convívio e disciplina

Haviam também, o apego ao local apropriado para brincar. E isso levou à disseminação da cultura de “encontro” sem enfrentamento. Pensava-se numa troca de experiências entre as diferentes classes socioeconômicas. Aí surgiram, por necessário, as tais cidades ou parques das crianças. Nada melhor que um domingo no parque.

O progresso social foi de encontro à descoberta da “ludoterapia” (se é que assim poderíamos chamar), um diferente forma de curar, brincando. Ou, integrar, brincando. Método ainda muito utilizado para aproximação e convivência dos Portadores da Síndrome de Down.

A necessidade de defesa que os corpos humanos passaram a demonstrar, levaram à necessidade da criação dos anticorpos – e até Vovó já sabia: meninos e meninas precisam brincar juntos, tendo contato direito com a Terra. No interior onde nasci, alguns teóricos passaram a chamar essa fase de “a festa das lombrigas”.

E, realmente foi algo factual. A bactéria da lombriga entrava junto com o anticorpo. Mais tarde, o purgante de óleo de rícino (mamona) expulsava as lombrigas e aumentavam o sistema imunológico pela permanência dos anticorpos.

O dia da lama proporciona o contato direto com a terra e os anticorpos

As crianças de ontem, claro, não eram anjos. Eram apenas “filhos” – e, ainda hoje, filho não tem defeitos. Principalmente para os pais, esses de hoje, completamente diferentes dos de ontem. Os exemplos, se são bons, serão absorvidos e repetidos. Os maus exemplos, da mesma forma. E aí nunca haverá absolvição.

Pegar uma cadeira pesada, colocá-la diante de um armário de parede, subir e dali retirar uma lata para subtrair uma colherada de leite em pó (que ficará grudado no céu da boca), muitos de nós fizemos. Pegar um grampo de cabelo feminino e tentar enfiá-lo na tomada da eletricidade, outros tantos também fizeram. E, quando muitos fizeram isso, não havia a tecnologia atual, tampouco o atendimento médico tinha a possibilidade da rapidez de hoje.

Depois desse lamaçal um bom banho resolve tudo

O que se depreende atualmente no mundo infantil, é que as mudanças impostas pela convivência social, pelas intempéries ambientais, e, principalmente pelas falhas absorvidas pela educação doméstica com o reforço da deficiência da escolarização, é que, a criança de hoje é diametralmente oposta à criança de ontem – e tudo, repito, começou dentro de casa.

Numa culminância, não há como negar que, entre o céu e a Terra, existe algo além dos aviões de carreira. Se o mundo já não é mais o mesmo, e o ar é rarefeito por conta da falta de saneamento básico e uma absurda produção de lixo orgânico que, ao mesmo tempo contamina o ar, o lençol freático e o que dali evapora vai contaminar também a camada de ozônio, é evidente que, quem está entre o céu e a terra, usufruindo inclusive do alimento produzido nesse ambiente, se não tiver os anticorpos necessários, vai ser pego e contaminado por qualquer “gripezinha”.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 22 de junho de 2020

GERAÇÃO DE IDIOTAS

 

 

GERAÇÃO DE IDIOTAS

A “involução” da espécie humana

Tem sido difícil conviver diariamente com tanta coisa sem-sentido. Tem sido difícil conviver com tanta gente que vive “achando que é”, sem sê-lo.

Minha atenção está sendo levada pelos veículos de comunicação do Maranhão – o que não tem sido tão diferente em outros estados – pela quantidade de publicidade “oficial” (é, dessa paga pelo governo, com o dinheiro que arrecada dos impostos que pagamos, e que deveria ter outra finalidade) veiculada sem sentido, na ânsia de “ensinar alguém a lavar as mãos”. “Ora vão à merda”! Com certeza diria minha falecida Avó Raimunda, com tanta falta do que fazer.

Será que tem mesmo neste mundo, alguém que não saiba “lavar as mãos” e precise ser “ensinado”?

Sei que tem que nunca tenha aprendido escovar os dentes, lavar a xeca ou o fiofó. Tem quem, se pegar em merda, vai lavar as mãos. Mas, quando “joga barro fora”, acha que papel higiênico “limpa”!

Para mim, isso soa como algo que tenta “idiotizar” as pessoas. Tipo, dizer: você sequer sabe lavar as mãos!

É assim que se lava as mãos, visse!

Juro que olhei na televisão, dia desses, alguém se referindo a um “aplicativo”, que resolveram chamar de “app” que já existe e pode ser acessado pelo celular (tinha que ser, né?!) com todos os itens ensinando como se deve lavar as mãos. E, pasmem, após a lavação, “como passar álcool em gel”! É mole, ou quer mais?

É uma geração de idiotas, ou não?

MAIS UM

Quem ainda não teve o desprazer de conhecer até as tripas do “Supremo”, é só comprar e ler

Ontem, finalmente, concluí a leitura do livro (que achei maravilhoso, por revelar detalhes até então distantes de mim, e tão desconhecidos quanto um roçado que ganhei na lua) “Os Onze”, com autoria de Felipe Recondo e Luiz Weber. Eu gostei, e recomendo – quem já bebeu até sopa de pedra, como eu, não vai vomitar. Com certeza.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 15 de junho de 2020

TEMPO DE GUARNICÊ

 

TEMPO DE GUARNICÊ

Santo Antônio “afogado” por quem procura marido

Ontem, 13 de junho, dia consagrado a Santo Antônio, foram oficialmente iniciados os festejos religiosos do mês, no Maranhão. Com simpatias, fogueiras, muitas brincadeiras tradicionais, podemos dizer que, “começou o São João”, embora o dia em que comemoramos em louvor ao santo, seja apenas no dia 24 de junho.

Nesta segunda semana do mês, também de forma oficial, foram iniciados os batizados dos bomba-bois, festa cultural do Estado, patrimônio imaterial do Brasil, de acordo com a Unesco.

Durante a segunda semana de junho, são divulgadas e conhecidas as novas “toadas” (músicas apresentadas) que vão conduzir a boiada em todos os terreiros onde se apresentam. Quem apresenta a “toada”, não é o “cantor”. É o “Cantador”. Mas, há também aqueles que cantam e, sem terem ligações com os “bois”, se transformam em cantores e cantadores ao mesmo tempo. É o caso de Papete.

José de Ribamar Viana, conhecido como Papete, nasceu em Bacabal, a 8 de novembro de 1947, e faleceu em São Paulo, a 26 de maio de 2016), foi um cantor, compositor e percussionista brasileiro.

Papete estudou no Colégio Marista Maranhense. Estudou também reportagem fotográfica em São Paulo. Trabalhou por sete anos em uma casa de música, o Jogral, onde deu início a sua trajetória musical. Trabalhou como produtor, pesquisador e arranjador na produtora Discos Marcus Pereira. Foi eleito um dos três melhores percussionistas do mundo quando participou do Festival de Jazz de Montreux na Suíça nos anos de 1982, 1984 e 1987.

Também acompanhou o músico italiano Angelo Branduardi na década de 80, se apresentou com o saxofonista japonês Sadao Watanabe, com Toquinho e Vinicius, e posteriormente com Toquinho, por treze anos fazendo com este mais de mil apresentações em mais de vinte países. Trabalhou com os maiores artistas da MPB, como Paulinho da Viola, Miucha, Rosinha de Valença, Paulinho Nogueira, Marília Medalha, Chico Buarque, Sá e Guarabira, Almir Sater, Rita Lee, Diana Pequeno, Renato Teixeira, Martinho da Vila, entre outros.

Compôs com Josias as canções e o libreto da ópera “Catirina”, marco da cultura maranhense nos anos 90. Um dos projetos que coordenou, originou a obra Os Senhores Cantadores, Amos e Poetas do Bumba Meu Boi do Maranhão lançado em novembro de 2015.

Catirina

Catirina que só quer
comer da língua do boi
carne seca na janela
quando alguém olha pra ela
pensa que lhe dão valor

Ai Catirina poupa esse boi,
Ai Catirina poupa esse boi.
Que quer crescer

Papete

 

 

Coisa bela pela plasticidade, e encantadora pela evolução dos movimentos, nesse período da magia que envolve a cultura popular maranhense, é o bumba-boi de orquestra (aqui, chamado de “sotaque” – o que caracteriza ritmo, sonoridade e percussão diferentes). E, um desses momentos mágicos e encantadores é apresentado pelo Boi Pirilampo.

Existindo há mais de três dezenas de anos, o Boi Pirilampo é o elemento mágico que se tornou conhecido a partir da beleza e da simplicidade da toada “Esqueça”, carro-chefe do grupo, onde quer que se apresente. Infelizmente, problemas de desentendimento entre o autor da toada e os comandantes (aqui chamados de “amos” – no caso, é o “amo”) levaram à uma decisão judicial que, hoje, proíbe a apresentação da toada. Mas, você pode ouvi-la logo abaixo.

Passistas do Boi Pirilampo

Esqueça – Composição de José Raimundo Gonçalves – Boi Pirilampo

Esqueça aqueles momentos, felizes que você me deu
Esqueça aquele juramento, que fizemos só você e eu
Esqueça a noite, a madrugada, e a lua que já se perdeu
Esqueça que você me amou
Esqueça esse amor que foi meu
Esqueça que já me deixou
Esqueça que não me esqueceu

 

 

Humberto – Cantador e Amo do Boi de Maracanã

Muitos neste Brasil já ouviram a maranhense Alcione apresentar essa toada (“Maranhão meu tesouro, meu torrão”) e isso contribuiu para que o bumba-boi da zona rural de São Luís ganhasse notoriedade e seja um dos mais festejados da Ilha. Infelizmente, o Cantador e amo do Boi de Maracanã, Humberto, faleceu há poucos anos atrás deixando uma lacuna aberta na vida da cultura popular maranhense.

Maranhão Meu Tesouro, Meu Torrão

Maranhão, meu tesouro, meu torrão
Fiz esta toada, pra ti Maranhão
Maranhão, meu tesouro, meu torrão
Eu fiz esta toada, pra ti Maranhão
Terra do babaçu
Que a natureza cultiva
Esta palmeira nativa
É que me dá inspiração

 

 

A pandemia instalada no Brasil por conta do Corona vírus diminuiu o ímpeto e limitou as apresentações juninas no Maranhão. Entretanto, como os batalhões diminuídos para atender as determinações das autoridades sanitárias, ainda assim, na noite de ontem aconteceram alguns batizados.

Ainda é dúvida na cidade, o que vai acontecer nos dois últimos dias seguidos do mês, com encerramento oficial dos festejos religiosos. No dia 29, consagrado à São Pedro e, no dia seguinte, 30, consagrado à São Marçal, dia em que acontece há mais de 50 anos, em São Luís, um encontro de bumba-bois de todos os sotaques.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 08 de junho de 2020

A CANJICA, A MAÇÃ E O ROLETE DE CANA

 

A CANJICA, A MAÇÃ DO AMOR E O ROLETE DE CANA

Milho verde apropriado para a canjica

Começa o mês de junho e a gente já consegue ouvir, longe, os sons das zabumbas, das sanfonas, dos foguetes e dos ensaios das quadrilhas juninas. É a confirmação da tradição cultural de um país que, ainda que enfrentando uma pandemia, ousa se divertir. Mês joanino, de Santo Antônio, São João e São Pedro; e junino dos trinta dias do mês de junho.

No meu Ceará, tradicionalmente e neste ano, a agricultura familiar recebeu a bênção divina das chuvas (muita água em alguns lugares, mas nada que atrapalhe) e tem a colheita assegurada. A fartura. O arroz, o feijão, a mandioca e o milho.

Canjica de milho verde decorada com canela em pó

A primeira colheita do milho preserva e mantém a tradição de uma culinária rica que leva alegria às mesas das famílias dos muitos agricultores. Tão logo a boneca vira sabugo, e a espiga fica completa, vem a primeira colheita – e a garantia do milho cozido ou assado; da pamonha e da canjica.

No próximo sábado, 13, dia consagrado à Santo Antônio, as primeiras fogueiras são acesas e as tradições culturais e folclóricas ganham nova pintura – mas, sempre mantendo a tradição trazida, ensinada e perpetuada pelos nossos antepassados.

Aprendi com os avós que, 17 dias após o “amadurecimento” do milho, as espigas já estão prontas para “virar” – por algum tempo, na posição que brota, a espiga apanha sol, e seca. É chegada a hora de “virar” a espiga para secar na outra posição. É a cultura da roça que nenhuma escola ensina.

Para aprender, tem que viver no meio e sentir prazer em fazer o que faz: pôr alimento na mesa.

Maçã do amor

Quase sempre no início da segunda semana do mês de junho, muitas Igrejas realizam (ou, “realizavam”) seus preparativos para render homenagens ao santo padroeiro. Entre esses preparativos, por tradição, são realizados os folguedos – em Fortaleza e de resto no Ceará, são conhecidos como “quermesses” – que duram cerca de 30 dias.

Os folguedos antigos reuniam os jovens enamorados e aqueles que pretendiam namorar. Os rapazes, roupas simples, mas sempre bem vestidos; as moças, acompanhadas das mães ou tias, primeiro assistiam a Santa Missa. Depois, “ganhavam” uma pequena folga das mães e se permitiam namorar.

Carrossel, roda gigante, tiro ao alvo, laça cigarros, pescaria, eram algumas das diversões apresentadas durante os folguedos, tudo permitido e organizado pela paróquia. Ao final de cada noite, o leilão de prendas domésticas – o “frango assado” ainda era uma grande novidade nos anos 50 e 60. Os valores arrecadados, descontados os custos e as despesas, eram em benefício da paróquia.

A “maçã do amor” era uma tradição. O rapaz juntava dinheiro durante toda a semana, para oferecer, à noite, aquela gostosura à namorada. Os dois mordiam a maçã, juntos. Pena que ainda não existia a “selfie”.

Barraca com vendedora da maçã do amor

Faz tempo que, festança junina que representa tradição e respeito, não pode4m faltar alguns itens como cacho de pitombas, caldo de cana com pastel, pipoca, algodão doce e, principalmente, rolete de cana.

Nos folguedos nordestinos, a cana caiana da qual é feito o rolete, é parte da cultura das coisas importantes. Ainda hoje, a cana de açúcar é uma das maiores riquezas do Brasil, produzindo, entre outras coisas, o açúcar, o metanol e principalmente o álcool.

Desde os primórdios, os engenhos fazem a riqueza de muitos “senhores”, gerando empregos e desenvolvimento. Mas, também de forma tradicional, jamais deixará de existir o trabalho escravo no plantio, no cuidado durante a lavoura e no corte da cana de açúcar.

Cana caiana

Vale registrar que, no caso específico do “rolete de cana”, ele é vendido em vários lugares, incluindo praias, estádios de jogos de futebol e até faz a alegria de crianças em festas de aniversários.

Roletes de cana caiana


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 01 de junho de 2020

EITA MUSQUITIM FELA DA PUTA!

 

 

EITA “MUSQUITIM” FELA DA PUTA!

Dando uma pequena volta pelo mundo da infância (a minha) vou focar hoje, umas traquinagens que me renderam boas sovas e muitos castigos com a cara voltada para o canto da parede.

Toda criança “levada” passou por isso. Quem não passou, com certeza virou vítima de “bullying”, o rótulo afrescalhado do americano.

Chulipa – era mais gostoso ainda, “dar uma chulipa”, passando saliva no dedo e melando da areia, e dando aquele catiripapo vertical na orelha de alguém.

Tirar o selo – geralmente, quem fazia isso, fazia a cada mês. Era comum o corte de cabelo “estilo busca-ré”, onde, metade do quengo era raspado com máquina graduada a zero. Ficava liso, igual bunda de recém-nascido. Dar uma leve pancada, significava “tirar o selo.”

Criança de castigo por desobediência

Pois, hoje, me vieram à lembrança, dois castigos que tomei na infância. O primeiro, até hoje considero “injusto”.

Sempre que ia “jogar barro fora”, tinha que procurar fazer a necessidade no mato. Não tínhamos local apropriado em casa para fazer a necessidade fisiológica. Papel higiênico, a gente só foi conhecer ao mudar para a capital.

Certa vez “precisei jogar o barro fora”. Senti que as galinhas e alguns porcos sentiam tanta fome, que seriam capazes de enfrentar qualquer guerra. A arma que dispúnhamos era uma vara de aproximadamente 3 metros, com a qual mantínhamos o animal distante, momentaneamente, da “obra”.

A solução era, literalmente, “cagar trepado”. Nisso, a “obra” acabou sujando uns porcos da Vovó. Castigo: levar os suínos para banhar no açude, distante da nossa casa por uns bons quilômetros. E aí, veio a calhar aquele ditado: quem com porcos se mete, farelo come.

O segundo castigo, foi mais que merecido. Meu Avô não gostava de castigar os netos – deixava para a Avó, esse “trabalho”.

Eis que cismei de “botar um musquitim” no meu Avô, enquanto ele dormia o sono dos justos, deitado no chão da varanda.

Criança de castigo na escola

“Musquitim”, na minha terra, era o reuso de um palito de fósforo. Enquanto a pessoa dormia, malandra e lentamente, a gente colocava o “musquitim” apagado na testa do dorminhoco, antes, colocando algum calçado na mão. Toca fogo e espera a reação. Quando o “musquitim” tá pegando fogo, o dorminhoco “dá um tapa” para matar o mosquito.

Foi assim. Quando meu Avô precisou matar o mosquito da nesta, deu com o chinelo no próprio rosto. Eita musquitim fela da puta!

Como criança naquele dia só tinha eu em casa, entrei foi nos tabefes. Depois, o castigo pior: tomar banho depois que apanhava.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 25 de maio de 2020

A REDOMA É DE VIDRO – E NÃO É BLINDADA

 

A REDOMA É DE VIDRO – E NÃO É BLINDADA

Redoma de vidro não protege nadica de nada

Ao longo da minha vida, bem vivida e com ótima infância por sinal, ouvi e acabei aprendendo muita coisa. Cheguei até comer jia, que ainda pegava, para vender para uns padres holandeses que, nos anos 60 chegaram em Fortaleza, com o objetivo de colaborar com a Educação. Mas, uma coisa nunca consegui, por mais pressionado que tenha sido: “engolir sapo” e ficar calado.

E, convenhamos! Após passar incólume por um regime excludente durante 21 anos, de 1964 até 1985, nunca imaginei que, a Constituinte de 1988, conquistada em troca de muitas vidas humanas, fosse tão publicamente desrespeitada, exatamente pelos que, ali colocados, imaginávamos guardiães.

Antes de ir me aconselhar com minha Avó, quero ter a audácia de sugerir aos amigos que comparecem por aqui aos domingos, a leitura de um livro. “Os Onze – o STF, seus bastidores e suas crises”, editado pela Companhia das Letras, escrito pela dupla Felipe Fecondo e Luiz Weber.

Ali, a dupla revela tantas coisas, que poucos acreditam. O que poucos acreditam é que, num país em constante e crescente curva de descrédito, roubalheira, corrupção, desfaçatez, pouca vergonha, e mais uma infinidade de maus adjetivos – mas, justos e cabíveis! – exista em meio a tudo isso, um monstro mais horrendo que Frankstein. É o que mostra a dupla autora do “ex-ce-len-te” livro – porque revelador.

Pois, eis que me arvoro do direito pleno de, querendo mostrar em qual pântano estamos vivendo e sendo obrigados a engolir todo e qualquer tipo de sapo, jia ou rã, antes de sermos devorados pelas cobras que ali sobrevivem.

Supremo Tribunal Federal – haja Justiça!

Transcrevo, ipsis literis:

Página 131: “Era um pedido feito por “Tango”. Na tarde de 15 de abril de 2016, o ofício número 0006/2016 – Gab/VPR chegou à mesa do então secretário de Segurança Pública de São Paulo, Alexandre de Moraes. Despachado do gabinete da vice-presidência da República, o documento informava que o e-mail marcelatemer@terra.com.br fora “raqueado”. A velocidade com que um papel percorre os escaninhos da burocracia varia conforme o remetente. Nos dias que se seguiram à correspondência, 33 policiais da Equipe A da Divisão Antissequestro da polícia paulista foram mobilizados para investigar o caso. No inquérito, apenas uma menção cifrada às vítimas: “Tango e Mike solicitaram proteção”.

No alfabeto fonético adotado pelos policiais, cada letra é associada a uma palavra……….Tango representava o “T”, de Temer, de Michel Temer; Mike, o “M”, de Marcela, a primeira-dama.” Além do e-mail, os arquivos de áudio do WhatsApp haviam sido violados.

“………………..A dois dias da aprovação pelo plenário da Câmara, da abertura do processo de impeachment de Dilma – uma crise germinada com a colaboração do então vice-presidente, que se afastara politicamente da mandatária -, Temer suspeitava da discrição dos canais oficiais à sua disposição – Polícia Federal e Abin. Preocupado com vazamentos e determinado a pôr um fim rápido à chantagem, Tango recorreu, sem intermediários, a Moraes, enviando-lhe o ofício confidencial. Moraes era um híbrido de político e jurista, como o próprio Temer. Passara pelo DEM e pela USP. Eram seres que se reconheciam, embora não íntimos. Em menos de um mês, os envolvidos foram presos e a gravação furtada do aplicativo da primeira-dama nunca apareceu.” (Página 132).

A seguir, na página 133, o que mais me causou “estranheza”:

“A morte de Zavascki catalisou a única nomeação de Temer, que, durante o processo, revelou a aleatoriedade que permeia as indicações ao Supremo – vinculação partidária com o presidente, linhagem jurisprudencial, manifestações acadêmicas anteriores pouco são levadas em conta. “O Alexandre foi a opção natural com a morte de Zavascki. Tinha dado provas de confiança e discrição no caso do hacker e se aproximara do presidente. Só isso”, lembrou um integrante do primeiro escalão do governo Temer, que acompanhou de perto o processo de escolha para o STF do então ministro da Justiça.”

Ainda na página 133:

“A análise das indicações ocorridas após a promulgação da Constituição mostra, até há pouco tempo, um processo de indicação subordinado a cálculos de política menor, a pequenos agradecimentos, idiossincrasias do presidente, ao marketing político, a padrinhos poderosos, à confiança pessoal do presidente da República na pessoa e não no perfil de quem será o julgador. Isso reduzia quase à insignificância as avaliações sobre o poder das decisões de um ministro do STF para interferir na sociedade.”

Diante de tudo isso (claro que, aqui se trata apenas de um texto provavelmente opinativo interpretado pelos autores, sem deixar de lado os fatos. Fatos verídicos.

Ora, e o que estou pretendendo dizer com isso? Nada.

Apenas dizer que a redoma é de vidro. E, não sendo blindado (por uma gama de contraposições mostradas e, principalmente, pelos fatos estapafúrdios que acontecem desde janeiro de 2019), pode quebrar. E, vê-se que, apenas um cabo e um soldado podem quebrar. Sem tanta força ou trabalho.

Agora, se voltarmos um pouco a fita desse filme que virou pornochanchada, sequer teremos o direito de nos surpreender, pois, Joaquim Barbosa “nos avisou” em várias oportunidades que “aquilo ali” jamais seria uma “instituição onde se faz Justiça”.

Enquanto “falta dinheiro” (e isso nada tem com o Governo Bolsonaro) para impulsionar com a qualidade necessária a pesquisa científica que possa honrar e justificar as nossas universidades – “Os Onze” ainda revela que, cada “Excelência” dispõe naquele “muquifo”, de elevador privativo. São onze “Excelências”, cada um com um elevador privativo, programado para abrir a porta apenas para entrar e sair do gabinete “excelencial”, ou, no salão de sessões. Auxiliares, tantos quantos queiram e solicitem. Veículos com placas camaleônicas – que mudam quando saem do local onde deveriam trabalhar – para não serem flagrados ou identificados.

Vovó, com certeza perguntaria: “Mais menino, se tudo é legal, é feito com toda Justiça e clareza, tudo direitinho, e à luz da Constituição, pra que essas preocupações?”

Pior que isso, é que, aquela conversa de “notável saber jurídico e nada, é a mesma coisa”!


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 18 de maio de 2020

TÔ DEVENDO E QUERO PAGAR

 

 

TÔ DEVENDO E QUERO PAGAR!

1 – Pai de jumentinho!

Fiquei (e ainda estou) fora do ar por uns dias. Mudei meu provedor de e-mails na Internet e estou esperando a regularização. Não vai demorar muito. Prometo.

E, quando me disponho a rabiscar alguma coisa, o mundo rico que vivi foi o mundo da infância. Da minha infância, vivida no interior, aporrinhando meus avós, espantando ou juntando cabras e bodes para o chiqueiro, e, quando apareceram os pêlos nos devidos lugares, “fazendo fios em jumentinhas”.

Foi quando, certo dia numa capoeira, estava “me aproveitando” de uma certa “diversão dos meninos”, quando escutei minha Avó:

– Tenha vergonha, cabra safado! Vá percurar outra coisa pra cumê!

Vivi o restante daquela idade sendo obrigado a escutar e suportar gozações dos primos, que afirmavam que, meu primeiro filho seria um jumentinho! Arre égua!
E eu acreditava!

2 – O cineasta

Sei que deveria pedir licença para o especialista Altamir para dar uma rápida passeada n o tema cinema. Eu gosto de cinema. Filme que considero bom, costumo ver mais de uma vez. Filmes que considero excelente, vejo apenas uma vez – para não estragar.

Mas, o assunto não é esse. Bifurquei errado e vou corrigir. Quero falar de filme e de cinema, mas de filme e de cinema feito por mim. Sim, fui cineasta e achei que teria futuro. Mas, quando menos esperava e já comemorava a bênção da Lei Rouanet para subvencionar de forma superfaturada as minhas fitas, minha Mãe, com uma “cabada de vassoura” na minha cabeça, me fez acordar do sonho.

 

A “máquina de projeção”

Juntei alguns mil réis que meu Pai carregava naquele bolsinho pequeno, na frente da calça, próximo da fivela do cinto e me dava. Juntei tanto que, no dia 23 de outubro (data do aniversário de vida dele), pude comprar uma caixa cheia e lacrada de charutos Suerdieck para dar-lhe de presente. Ele agradeceu muito e, toda noite, após o jantar acendia um charuto e fumava.

Minha Mãe dizia que ele “ficava fumando para matar muriçoca”! Por isso e por outra coisa, fiquei patrulhando os 50 dias que meu Pai fumava aquele charuto de cheiro até agradável. Mas, eu tinha um objetivo: pegar o caixote dos charutos, vazio. Era ali que eu montaria toda a minha engrenagem de cineasta.

No dia seguinte ao último charuto, peguei logo a caixa vazia e me apressei. Arranquei a tampa. Colocando a caixa na vertical, furei nela com a serra tico-tico, uma buraco, onde afixei uma lâmpada queimada, marca Phillips (lembro até hoje). Parte da “engenhoca” estava pronta.

Enquanto meu Pai fumava os 50 charutos, fui me preparando. Saía da escola e, em vez de voltar para casa, ia para o Cine Nazaré, onde fiz amizade. Pedi uns pedaços de fita e ganhei quase um rolo. De fita colorida, pasmem!

 

Lâmpada para auxiliar na projeção da fita

No dia seguinte, em casa, eu precisava testar a projeção. Faltava a iluminação. Sem que minha Mãe visse, subi no telhado da casa e, calculadamente, afastei uma telha, de forma que, passasse por ali a luz do sol.

– Menino, o que tu tá fazendo aí nesse telhado? Perguntou minha Mãe.

– Tô pegando uma arraia (papagaio ou pipa) bonitona que enganchou!

Depois de tudo aquilo, demorei tanto que uma lenta e grande nuvem me roubou o sol. Precisei disfarçar e consegui. Naquele dia o sol não voltaria mais.

No dia seguinte, enchi a lâmpada de água, afixei uns pedaços de fita, peguei um pedaço de espelho e, comecei a projetar o filme. Uma maravilha!

Não gostei foi do resultado final. O funcionário do Cine Nazaré, quando me entregou quase um rolo de fitas, provavelmente sem maldade, não percebeu que existia uns 20 metros de “The End”!

Filmes épicos do meu cinema

Mas os dias seguintes foram proveitosos e me sentia um dos melhores cineastas, ao lado de Jean Luc Godar, Orson Welles e o ainda desconhecido Glauber Rocha.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 27 de abril de 2020

O VAQUEIRO E A BOIADA

 

O VAQUEIRO E A BOIADA

O Vaqueiro “fala” com o berrante no domínio da boiada

Tudo tem um sentido. Tudo faz sentido, ainda que não seja para você. Nada acontece sem que tenha que acontecer. Você ver ou gostar é uma questão normal do universo das coisas.

Alguém pode estar num teatro assistindo uma peça teatral, uma ópera, um musical ou coisa do gênero. Você está ali naquele momento – mas, pelo “querer universal” das coisas, outras pessoas não estarão. É assim que é a vida e o viver. Tudo faz sentido. Repito: ainda que não seja para você.

Há quem aprecie um teatro com uma música clássica, tipo uma música de Johann Sebastian Bach. Há momentos que essa música satisfaz a um e a outros, não. No somatório, a maioria que ouve, gosta.

Mas, há momentos e lugares que, o som de um berrante tangendo uma boiada é muito mais envolvente, e consegue acariciar ao mesmo tempo o nosso ego e o nosso relacionamento individual com a Natureza. Com o boi, com a fazenda. Com a vida que nos satisfaz, naquele momento. É a satisfação comandada pelo universo das coisas.

Um berrante modificando o som universal do prazer diário

Da mesma forma, passear no shopping, na praça, na praia, certamente dará prazer e alegria à alguém. Mas, entre nós, sem que precisemos rotular de simplório ou bobalhão, alguém que sentirá, também, prazer em caminhar por uma fazenda de gado, visitar os currais ou acariciar uma vaca ou um bezerro.

Tudo depende do momento que o universo nos oferece mas, principalmente, do seu estado de espírito. Claro que haverá momentos que o berro de um boi incomodará, da mesma forma que o som alto de uma música vindo de algum lugar também incomodará. Mas, isso será apenas a ação universal benfazeja que ainda não chegou até você.

Vaqueiros em preparação para conduzir a imagem de São Raimundo

Falando especificamente em boi, vaca e bezerro, aproveito para informar aos leitores que, no Maranhão, ainda que aqui não estejam grandes ou os maiores rebanhos bovinos do Brasil, é no Município de Vargem Grande onde se concentra o início da pecuária como força econômica do Estado.

Nos dias atuais, Vargem Grande, que aniversaria no dia 29 de março, e dista 172 km de São Luís é onde acontece o maior festejo religioso do Norte-Nordeste ligado à pecuária. É o festejo que rende homenagens ao santo padroeiro São Raimundo Nonato dos Mulundus, sempre no período de 22 a 31 de agosto de cada ano.

Muito concorrido, o festejo religioso reúne acima de 60 mil pessoas – a população da cidade, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), colhida em 2015, era de 54.845 pessoas.

Além da importância de Vargem Grande no calendário dos acontecimentos religiosos do Estado, a cidade é festejada historicamente, por ter servido de acampamento para a Terceira Coluna, em 1840, em repressão preparativa no combate à Balaiada.

Vaqueiro “condutor” de boiada para o pasto ou para o abate

Lidar com boi não é coisa fácil nem para qualquer um. Há que ter destreza e coragem, mas, principalmente, respeito pelo animal que, na maioria das vezes está sendo levado para o sacrifício do abate.

Ainda que criado com as melhores rações ou nos melhores pastos, o “stress” poderá provocar diferença na qualidade da carne consumida pelos humanos.

Há quem garanta que, o Vaqueiro “conversa com o boi, no estalar do chicote” ou o convida para momentos bons no toque do berrante. Com certeza, será por isso que existem diferentes tons no toque do berrante.

Boi maltratado será sempre boi difícil de lidar. O chicote do Vaqueiro não é para bater no animal. É para garantir a ele, boi, que alguém o está conduzindo com segurança, e sempre em meio da sua comunidade (boiada) – Vaqueiro não toca berrante quando conduz o boi para o abate. O som não seria agradável.

Esporas (sem pontas – para não estressar o cavalo) de Vaqueiro conduzindo boiada

EM TEMPO: Claro que, quem conhece e vive o dia a dia da pecuária, pode e deve ter informações e definições diferentes das que apresentamos aqui – mas, com certeza, será apenas por conta do tamanho continental e das diferentes formas de vida e da produção de alimentos – entre esses, a carne bovina. Nada além disso.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 20 de abril de 2020

O VÉI DO SACO - E A SERPENTE DE TRÊS CABEÇAS

 

O VÉI DO SACO – E A SERPENTE DE TRÊS CABEÇAS

Mãe ameaçando entregar a filha ao “véi do saco”

Alguém entre os maravilhosos leitores deste Jornal da Besta Fubana já viu uma “casa de avós” no interior, quando recebe os netos para um mês de férias?

Alguém já viu o “aperreio” que fica na casa, quando os netos chegam da cidade durante a noite? Alguém já viu aquele armar as redes, banhar e escovar os dentes antes de deitar?

– Meus fiinhos querem cumê alguma coisa? Pergunta a Avó, mais babona que preocupada.

Pois, uma ou até duas semanas depois de muitas brincadeiras, a mãe avisa para a mãe dela – nesse caso, a Avó – que quer dar um purgante para diminuir as lombrigas dos filhos.

– Você trouxe o remédio, minha filha? Pergunta a Avó.

– Trouxe mãe. Responde a filha.

– Entonces, bem cedim, antes do sol raiar, a gente acorda eles e dá o purgante!

Purgante de óleo de rícino, que saiu da roça em forma de mamona e foi industrializado na cidade grande. Uma verdadeira peste para quem um dia foi criança e precisava tomar. Precisava não. Era obrigado a tomar.

Galo cantava, e mãe e avó já estavam de pé. O frege na cozinha, era grande na preparação do café da manhã. A avó continuava preparando as tapiocas (para alguns, beijus) e o cuscuz de milho feito no prato. Leite de cabra fervia no fogo. Açúcar mascavo, batata doce e macaxeira cozida.

Do quarto, onde as redes estavam armadas, vinha a conversa:

– Acorde José. Acorde e abra a boca pra tomar um remédio! Dizia a mãe.

– Que remédio mãe? Eu num tô doente!

– Tá sim! Tá cheio de lombrigas! Vamos acorde e levante. Abra a boca!

– Eu num quero tomar remédio!

– Não quer? Mãe, a que hora o “véi do saco” passa aqui?

– Não mãe! Pelo amor de Deus! O véi do saco, não!

E foi assim que, durante muitos anos o “Véi do saco” entrou para a vida de muitos sertanejos, virou personagem de cordel, ajudou mães a resolver problemas de desobediência, e ajudou curar muitos meninos e meninas infestados de lombrigas.

Nos dias atuais, nenhum menino ou menina toma purgante. Tampouco conhece o milagroso óleo de rícino (mamona) aplicado e reforçado pelo famoso “Véi do saco”.

Casal administrando purgante numa filha

Aproveitando essa quarentena forçada pela pandemia, muitos estão vendo filmes da Netflix. Muitos estão viajando pela Internet, conhecendo coisas e lugares nunca vistos antes.

E é aí que quero mostrar algo que nunca havia visto, e acredito que vosmecês também.

Numa estrada, na Índia, o trânsito ficou interrompido por conta de uma serpente rara que chamou a atenção de quem por ali trafegava.

Não era uma serpente comum, dessas que até o Lula sabe encantar. Era uma serpente de três cabeças, como mostra a foto anexada.

Du-vi-d-ó-dó que você já tenha visto coisa igual. Já viu rato com nove dedos e vaca peidando. Agora, para ver coisa igual, só indo à Índia ou a Palmares, interior pernambucano.

Serpente com três cabeças


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 13 de abril de 2020

CANTE LÁ – QUE EU CANTO CÁ

 

CANTE LÁ – QUE EU CANTO CÁ

“Poeta, cantô de rua
Que na cidade nasceu
Cante a cidade que é sua
Que eu canto o sertão que é meu

Se aí você teve estudo
Aqui, Deus me ensinou tudo
Sem de livro precisá
Por favô, não mêxa aqui
Que eu também não mexo aí
Cante lá, que eu canto cá”

Pois, foi, e será sempre assim. No sertão onde nasci, xícara é xirca; mulher gostosa é paquetão; japin é xexéu; e chico preto é graúna. Sem esquecer que o peru continua respondendo assovio com glu-glu-glu.

Quando criança criei pássaros. Pouco sabia de liberdade e me satisfazia com a magia dos cânticos de cada um. Eram criados como se filhos fossem, saídos de mim. Hoje, com o que aprendi nos mundos por onde andei, essa foi uma prática que lá deixei.

Xexéu pra mim – japin pra outros

Quando eu era criança, caminhando para a adolescência, “caçava” passarinhos para completar a comida em casa (quase sempre, feijão com nada e menos alguma coisa. Rapadura com farinha seca era a gostosa sobremesa, e a gente comia como se fosse pudim de leite), sem ter ciência de nada e que aquilo era, além de ação para suprir uma necessidade, uma forma de brincar e passar o tempo.

Criança que nunca possuiu uma baladeira, um bornal cheio de pedras, nunca foi criança.

Além de “caçar” os passarinhos, quando encontrávamos algum ninho com ovos, “aquele já era muito mais nosso” que dos próprios pássaros. A gente “pastorava” aqueles ovos por 24 horas, quase chocando-os.

Pois um dia achei um ninho de xexéu, pendurado num galho que, de tantas folhas pesadas, acabou entortanto – e o xexéu, pássaro sabido, não faz seus ninhos em galhos ou locais de fácil acesso. O bicho é sabido.

O xexéu é da família icteridae, conhecida nas regiões onde prevalecem as grandes árvores e as folhagens em forma de palmeiras. É um imitador quase perfeito. O macho mede de 27 a 29,5 cm de comprimento e a fêmea de 22 a 25 cm, pesa de 60 a 98 g. O imaturo é de cor de fuligem em vez de negra. As fêmeas são bem menores que os machos. O canto é tão variado que as vezes causa a impressão de um coro de vários exemplares. É comum os indivíduos imitarem perfeitamente outras aves.

XEXEU CANTANDO

 

 

Graúna para mim – Chico-preto para outros tantos

Pela imensidão continental do Brasil, o pássaro graúna é conhecido por vários nomes. Mas, o nome científico é um só: Gnorimopsar chopi, popularmente conhecido como graúna, pássaro-preto, assum-preto, cupido, chico-preto, arranca-milho, chopim, melro ou craúna, é uma espécie de ave da família Icteridae. É a única espécie do gênero. Põe em média 4 ovos em ninhos geralmente construídos em buracos de árvores ou em ninhos abandonados de outras aves. Sua incubação é de 14 dias. Os filhotes permanecem em média 18 dias no ninho. Com 40 dias podem ficar independentes dos pais. Não há dimorfismo sexual ou etário, pois machos e fêmeas cantam, e os jovens são como os adultos.

No Nordeste ocorre a graúna (Gnorimopsar chopi sulcirostris), bem maior que o pássaro-preto. Devido ao nome chopi, presente na identificação científica, essa espécie recebe erroneamente o nome de Chopim ou Gaudério (da espécie Molothrus bonariensis): o macho é azul escuro de tonalidade de metálica, e a fêmea preto fosco.

A graúna era uma ave que, criança, gostava de criar numa gaiola, desde que apanhasse na primeira semana de nascida. Era alimentada no próprio bico, com angu de farinha e leite de cabra. Nunca pretendi “furar os óios”prumode ela cantar mió.

Ave dócil, de fácil convivência – às vezes ficava solta sobre a mesa onde comíamos. Tinha o hábito de voltar para a gaiola, com suas próprias asas e quando tinha vontade. Foi criada solta.

CANTO DA GRAÚNA

 

 

Peru – o rei dos que abrem o rabo

Por muitas e muitas vezes já citei aqui, que, minha Avó era meieira. Criava aves que pertenciam ao proprietário das terras onde vivíamos – e o que nascia a partir dali, era dividido ao meio. Criava caprinos, cuja produção leiteira era nossa. Criava galinhas, catraios, patos e perus.

Os perus, como até hoje manda a tradição, eram abatidos apenas no período natalino. E quando Vovó abatia uma ave daquelas, duas coisas apenas me interessavam: as tripas e o papo. As tripas viravam fritura com farofa e o papo virava a nossa bola de jogar nos fins de semanas.

O peru é uma ave que se alimenta de grãos e insetos. Tanto o macho quanto a fêmea têm a cabeça e o pescoço descoberto de penas. Geralmente as penas têm coloração preta, castanha ou até mais clara. Somente o macho possui um apêndice carnoso sob o bico chamado carúnculas. Medem até 1,17 m de altura.

Originário da América do Norte, foi levado para a Europa em 1511. O peru selvagem foi domesticado pela primeira vez no México há mais de mil anos, mas, no começo do século XX, havia desaparecido em grande parte dos Estados Unidos. Nos últimos anos o peru começou a ser reintroduzido no seu lugar de origem com aparente sucesso.

Peru é o nome comum dado às aves galiformes do gênero Meleagris. Uma espécie, Meleagris gallopavo, conhecida vulgarmente como peru-selvagem, é nativa das florestas da América do Norte. O peru-domesticado descende desta espécie.

Por anos, o peru era um dos nossos principais divertimentos, quando, de férias do período escolar nos dirigíamos para o interior. E a gente se divertia, assoviando. O peru respondia com o seu belo e tradicional glu-glu-glu, como pode ser ouvido no áudio a seguir.

PERU: GLUGLUGLU DE BOAS VINDAS

 

 

Esse é o papagaio falador que só canta o que lhe ensinam

O papagaio é uma ave rara e, no Brasil, enfrenta uma crescente extinção. Seu aprisionamento por famílias, o retirou do seu habitat de reprodução livre e crescente. Seu nome científico é Amazona aestiva (L.), mas é conhecido vulgarmente como papagaio-verdadeiro, ajuruetê, papagaio-grego, ajurujurá, curau, papagaio-comum, papagaio-curau, papagaio-de-fronte-azul, papagaio-boiadeiro, trombeteiro e louro, é uma ave da família Psittacidae.

O papagaio-verdadeiro é principalmente um papagaio verde com cerca de 38 cm (quinze polegadas) de comprimento e pesa cerca de quatrocentos gramas. Tem penas azuis na testa, acima do bico e amarelo na cara e coroa. Distribuição do azul e amarelo varia muito. A cor da íris dos adultos é amarelo-laranja no macho ou vermelho-laranja na fêmea. Se destaca um fino anel externo vermelho. Os imaturos têm íris marrom uniforme. O bico é negro no macho adulto. É uma das espécies mais inteligentes de ave do planeta. Sua expectativa de vida é de oitenta anos. Os papagaios-verdadeiros também costumam repetir o que ouvem de seus donos. (Este bloco de informações foi compilado do Wikipédia).

PAPAGAIO BOCA SUJA

 


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 06 de abril de 2020

RECORRENDO À PSICOLOGIA

 

RECORRENDO À PSICOLOGIA

O banho dos primos

Era um sábado, lembro bem, embora já se tenham passado mais de 60 anos. No que poderia parecer um cenário teatral, eu acabara de almoçar e resolvi descansar um pouco. Não queria dormir, pois, se assim quisesse armaria uma rede.

Peguei um cambito que Vovô tirara do jumento Moreno, peguei a sela que era usada na montaria do cavalo Salú, arrumei as duas peças de modo a me oferecer apoio e conforto, sentei e me pus a olhar na linha do horizonte. Como se estivesse no deserto do Atacama, na primavera. Me pus a “matutar”, como dizemos naquelas paragens.

Um filme que eu jamais vira, estava passando na minha mente, em “slow motion”. Dava para contar as pessoas, os objetos, e, tudo que enfim, compunha as imagens da fita. Eram imagens policrômicas, que sequer existiam – para os apaixonados, a vida é sempre em policromia, e as paisagens são sempre as mais belas.

Cambito que auxilia às montarias no interior

Eis que, um movimento diferente do que “passava na fita mental” me chamou a atenção. A porteira, que ficava numa distância de uns 40 metros de onde eu estava sentado, me chamou a atenção. Mas, dava perfeitamente para perceber o rabo do cachorro Babalu balançando, frivolamente – a alegria do animal era visível, e eu pude deduzir que ele estava alegre pela aproximação de alguém.

E era mesmo. E estava mesmo. Dois meninos caminhavam ao tempo que também brincavam na frente de um comboio de jumentos conduzidos pelo nosso vizinho Zé de Augusta que, naquele instante transportava a farinha para entregar na manhã seguinte, no comércio do Seu Horácio. Os dois meninos brincavam na frente dos animais, e aquilo alegrava Babalu, que até davas cambalhotas.

Passada aquela aparente festa canina, permaneci sentado onde estava, e não percebi que o tempo passara, que a escuridão da noite mandava torpedos e mais torpedos, avisando sua chegada. Era a noite que se aproximava.

Mas, algo estranho continuava acontecendo, pois Babalu, passada aquela alegria pela passagem dos meninos, continuava na porteira. Vigilante, como sempre fora. E, de repente, começou latir. E latia cada vez mais. Mas, era um latido sem raiva, sem agressividade. Como se pretendesse avisar que alguém de casa se aproximava. E era verdade.

Era Anunciada, minha prima mais velha. Naquele tempo, aparentando 25 anos de idade. Apressada e cabisbaixa, caminhava na direção da nossa casa e mais apressada ainda ficou, quando de longe avistou Vovó. Ofegava. Causava ansiedade em quem viera saber algo na sua chegada.

Babalu o “vigia” da nossa porteira

Com dificuldade de falar, tomada pela emoção dos fatos, Anunciada agarrou-se à Vovó, e fez esforço para anunciar com voz trêmula, e copiosas lágrimas:
– Vó, mamãe tá desesperada! Zildinha acabou de falecer!

Aquele anúncio chocou os que ouviram a triste novidade. A mim, foi como uma facada penetrante na carótida. Eu tinha naquela época um envolvimento muito forte com Maria Zilda, a Zildinha. Namorávamos escondido, por sermos primos – e a gente do interior não aprovava muito naqueles tempos.

Lembro que nos encontrávamos para o banho no açude, nus. Descobrimos e mantivemos por longos tempos, um local só nosso. Nos beijávamos, nos acariciávamos – mas nunca ultrapassamos os limites que a criação daquela época nos impunha.

Vovó decretou silêncio e luto total na casa. Fomos ao velório na mesma noite, e permanecemos para o dia seguinte.

Foi aquela, a minha primeira grande emoção na vida. Passava dias e noites relembrando os bons momentos, as carícias que trocávamos. Zildinha se desenvolvia fisicamente. Ainda não era “uma mulher feita”. Seios crescendo, coxas longas ficando arredondadas e pelos começando aparecer nos devidos lugares do corpo.

Passados todos esses anos, graças à Deus, sem sequelas, recorro à Psicologia dos que lêem essa “gazeta escrota” (fala do próprio Editor), para uma explicação. Se possível pedagógica.

Qual é o comportamento do cérebro e dos demais órgãos que compõem as emoções humanas, numa situação que começou com o descanso conciso e necessário a partir do sentar no cambito; no olhar a emoção do cachorro em dois momentos e com ele compartilhar; no ouvir e participar do anúncio do indesejado da morte da prima amada; no féretro, onde foi enterrada parte emocional de mim; e na volta solitária aos banhos no local onde vivemos bons momentos.

 


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 30 de março de 2020

O CARRO DE BOI

 

O CARRO DE BOI

“Trem de bois” (seis) para uma carga mais pesada

“Naqueles tempos, e desde o princípio……” contavam e contarão sempre os mais velhos, quando tiverem o prazer de serem escutados por uma roda arenada de crianças, ávidas para conhecer os tempos da felicidade.

Pois, atenção! – era assim: mais de uma semana, para dois hábeis carpinteiros, com reduzida quantidade de ferramentas à disposição, trabalharem desde o clarear do dia, até ser necessária a luz de lamparina, na confecção de uma ou das duas rodas de madeira. Com as calejadas e até feridas mãos, mas com Fé na orientação divina, tudo faziam para atender as encomendas.

Muitas encomendas, digamos. Um carro de boi especial, era como um moderno veículo blindado dos dias atuais. Sob encomenda.

Duas rodas de madeira, o “eixo” e a justeza na colocação dos carretéis ou roldanas de encaixe para garantir a movimentação. Em alguns casos, a falta dessa engrenagem suscitava, também, o fabrico de encaixe de madeira. Ali, naquele encaixe, era imaginada uma forma de adicionar o “breu” – por isso, com o tempo de uso, era fácil ouvirmos aquele som irritante e estridente do besouro mangangá” quando as rodas estavam em movimento.

– Diiiiiaaaaa!

Era esse o cumprimento de quem, como “schoffer”, conduzia o carro de boi na estrada vicinal nos povoados e sertões de Norte a Sul. Muitas vezes, aquele cumprimento não encontrava destinatário, que provavelmente havia saído cedo para cuidar da roça. Por centenas de vezes, além do som de mangangá produzido pelo movimento da roda no breu, o que se ouvia era o latir do cachorro e, alguns metros depois, o estalar do chicote no tanger do boi.

Carro de boi no transporte da madeira que será “combustível”

Hoje, os moderninhos das escolas pós-Paulo Freire, se acostumaram rotular um veículo que faz o que fazia o carro de boi, de “utilitário”. Nada contra.

Sem uma única preocupação com o preço da gasolina ou do diesel, os donos de uns poucos carros de boi (esse veículo é puxado por uma parelha de bois e nunca tivemos explicação do “desuso” deles como carne para ser consumida quando envelhecem, ou são substituídos por outras parelhas) estenderam ao máximo a utilização, variando de acordo com a necessidade da demanda.

Transporte em geral, por conta do “modismo” que imperava nos interiores, e por conta do estado vicinal das estradas e dos caminhos sem qualquer tipo de urbanização – mas, também, sem tantos buracos como as modernas estradas estaduais e federais dos dias atuais. Por anos, o boi e não o carro, teve serventia na movimentação da “bolandeira” das casas de farinha.

Eis que, a partir da “pandemia” provocada pelas guerras e de outros movimentos sociais anteriores, surgiram a Ford e a GMC, e nos apresentaram os caminhões movidos pelos combustíveis de hoje – mas com a “partida” dada pelas manivelas. Eita coisa mais antiga!

E isso, de forma paulatina, proporcionou a diminuição que levou ao quase desaparecimento do carro de boi, e, esses animais, finalmente puderam descansar. E, infelizmente, foi a vaca que passou ir para o brejo.

Os carros sem os bois aos poucos perderam utilização

Finalmente, os carros e suas rodas de madeira feitas por mãos hábeis e perseverantes, estão fora de uso (no município maranhense de Mirinzal ainda existem, e funcionam, para bem-servir à comunidade que, pasmem, só dispõe de longas estradas vicinais. Em que pese a ousadia governamental de, um dia, se candidatar para resolver todos os problemas brasileiros.

Tudo, literalmente, carros e rodas, nada mais são hoje, que figuras transformadas em motes de poesias, que falam de saudade. Saudade do homem bom e trabalhador. Saudade da Terra e das suas milhares de serventias.

O boi triste e aposentado já não puxa mais os carros – foi substituído pelo “horse”

A transformação dos tempos que nos apresentou o “utilitário”, preterindo o boi, e preferindo o cavalo, sejamos sinceros, serviu para, ao mesmo tempo levar ao esquecimento aquele romantismo que existia nas fazendas, chácaras e sítios.

As vacas, que passaram a ter mais a presença dos seus machos nas “quarentenas”, estão indo mais ao brejo. Agora, para lavar as mãos (uuuiii!) com álcool em gel.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 23 de março de 2020

NOVENA DE SÃO JOSÉ

 

NOVENA PARA SÃO JOSÉ

Banner usado nas novenas dedicas à São José

“Novena é a reza de um conjunto de orações, em particular ou em grupo realizada durante o período de nove dias. Teve sua origem na tradição católica, mas pode ser encontrada também em outras religiões ou crenças. Padre Luizinho, da Canção Nova, explica o significado das novenas: “Novena é uma prática de espiritualidade que fazemos durante nove dias, geralmente para um santo a fim de que ele nos ajude a entrar em contato com Deus pedindo por uma causa.& rdquo;

Lembro como se fosse hoje e tivesse acontecido ontem. Todos que moravam sob o teto do casal Raimunda-João Buretama tinham suas tarefas específicas para cumprir durante a realização das “Novenas em louvor a São José”. As minhas tarefas eram condizentes com a faixa etária: saindo da infância para a adolescência.

Primeiro, capinar com a minha própria enxada (cada pessoa tinha a sua enxada, ora!) o extenso quintal. Depois, quando o mato da capina estava murcho, varrer com uma vassourinha e gadanho (a gente dizia: “varrer gadanhando”); enterrar qualquer possível sujeira feita pelos cachorros ou outros animais – com a intenção de evitar comentários negativos que atingissem os donos da casa.

No começo da tarde, encher os dois potes d´água e as duas quartinhas, colocando-as num local sombrio, expondo-as ao vento para que a água esfriasse para o consumidor. Arear (lavar com sabão, bucha e areia) os canecos, colocando-os nos devidos lugares, ao alcance de quem precisasse usá-los.

A última tarefa era arrumar os bancos e tamboretes de forma a parecerem uma arena, afim de que todos se olhassem durante as orações das novenas.

Altar para novena à São José

Cumpridas as minhas tarefas, eu era mandado preparar o animal que me conduziria até o Açude Novo para um bom banho, esfregando bem as orelhas, as pernas e os pés com sabão e bucha de pepino. Me deslocava esporando o animal, para que ele galopasse, evitando assim as mutucas nas pernas.

Agora, com roupa trocada, ajudando em algumas outras tarefas necessárias e cumprimentando as pessoas que chegavam, oferecendo assentos e outras acomodações. Era então um menino prestativo, e sabia o quanto receber bem era importante para a minha Avó.

Banco coletivo usado nas novenas

– Boa noite, comadre Doca, boa noite compadre João! Era esse o cumprimento dos que chegavam.

– Boa noite compadre, abanque-se. Vamos sentar que a reza começa já. Sentem. Querem tomar água, café ou aluá? Perguntava minha Avó, fazendo a cortesia da casa.

Era naquela noite, a primeira das mais oito que ainda viriam em seguida, que os amigos e vizinhos retiravam dos armários e baús suas melhores roupas, cheirando a naftalina, para se sentirem dignos de um encontro com cunho estritamente religioso.

Afinal, orar para pedir chuvas ao Padroeiro, era uma obrigação de todos que professavam Fé.

– Boa noite, a todos. Vamos dar início às nossas orações, avisava Tia Maria, a responsável pela condução da novena daquela noite. Vamos sentar.

Tamborete com assento de couro

– Amigos, parentes, convidados: em nome da minha irmã Raimunda, e do meu cunhado João, cumprimento a todos, desejando-lhe boas-vindas. Estaremos reunidos aqui durante nove noites em orações, para louvar São José, na esperança de sermos atendidos no nosso mais forte pedido – chuvas para molhar nossas terras, nos permitindo e nos motivando a trabalhar e produzir, para alimentar dignamente as nossas famílias. Falava bem e claro, a Tia Maria.

Era assim. Estavam abertas as Novenas em Louvor à São José na casa de Dona Raimunda e seu marido, João Buretama. Em cada uma das noites, um parente, vizinho ou convidado era chamado a iniciar as orações.

Assim, durante nove dias, a mais famosa e frequentada Novena para São José que se tinha notícia por aquelas paragens, dava início ao périplo de orações a caminho da perpetuação da Fé.

Nos últimos anos que este “neto” devoto teve notícias, ainda houve espaço na programação religiosa para mandar imprimir santinhos com mensagens de devoção e esperanças, dedicadas ao santo Padroeiro do Ceará.

Aluá de abacaxi servido nas novenas

Na última noite do novenário o público era maior. Compareciam o Padre da Paróquia de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro para encerrar o festejo religioso, agradecer pelos momentos de fé cristã, e autorizar, a cada ano, a realização de uma festa profana – onde compareciam sanfoneiros e outros que tais, e eram servidas guloseimas, salgados, doces e aluás (abacaxi, pão e milho) em fartura, antevendo o alcance das graças pedidas à São José.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 16 de março de 2020

O MOCORORÓ E A PAÇOCA

 

O MOCORORÓ E A PAÇOCA

Caju “in natura” e a paçoca de castanha de caju

Vamos voltar ao sertão, onde ainda existem coisas boas e pessoas com as melhores virtudes dadas por Deus. Aprenderam fazer sempre o bem – por terem certeza que o retorno será sempre o melhor.

Pois, lembrando disso, volto ao sertão na primavera, finzinho de setembro, quando o caju já amadureceu e a gente pode usufruir do que a Natureza oferece – incluindo nesse cardápio, os nasceres e os pores do sol. Como se Leonardo Da Vinci assinasse as mais belas das suas pinturas.

O caju tá maduro. Cheira e nos atrai ao usufruto, como se fosse uma cadela no cio, embevecendo o macho pelo cheiro do feromonas expelido pela vulva junto com a urina. É o estro, conhecido também, como cio, e é nesse momento que acontece a fertilidade. O caju, pelo cheiro forte, atrai as abelhas e os humanos consumidores. Está maduro e, mal comparando, podemos dizer que está no cio.

É nesse momento que o caju produz mais suco. Quando está no cio. E, é nesse instante, que a gente “espreme” o caju para obter mais suco. Espreme com as mãos, pois a gente só “precisa retirar o líquido”. Separamos o suco, e vamos assar e pilar a castanha – num pilão (nada de usar outro equipamento – esse rico alimento tem origem nas tribos indígenas, desde quando eles jamais imaginavam que, um dia, pudesse vir existir o “liquidificador”), produzindo uma paçoca de castanha.

Põe-se uma generosa porção de paçoca num prato (ou outra vasilha) e, em seguida, acrescenta-se o suco. No interior do Ceará, esse alimento rico em tudo, é conhecido como “mocororó”.

Paçoca de carne seca (ou carne de sol)

A paçoca é hoje um excêntrico componente da culinária nordestina. Tradicionalmente servida como “merenda” ou “tira-gosto”, ou ainda, componente dos reconfortantes cafés das tardes, a paçoca tem como principal componente, a carne bovina – por ser mais consistente. A alcatra ou o filé mignom não são carnes adequadas para a paçoca. Usa-se mais a chã, o patinho ou mesmo o lagarto. Esses, antes, transformados em carne de sol, ou, como diz o bom linguajar cearês, “carne seca”, por ter sido posta ao sol para secar.

No início, a paçoca era feita dessa carne, frita que, somada à farinha seca, era socada num pilão, sempre servida como acompanhamento do feijão verde cozido, e bons nacos de abóbora ou batata doce.

Nos dias atuais, a paçoca é vendida em porções nos eventos da culinária nordestina. Acompanhada de uma cerveja gelada é algo imperdível por quem aprecia coisas gostosas.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo domingo, 08 de março de 2020

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

 

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Minha Avó – a flor silvestre da caatinga conhecida como “xanana”

“Procurei em todas as mulheres a felicidade
Mas eu não encontrei e fiquei na saudade
Foi começando bem mas tudo teve um fim
Você é o sol da minha vida a minha vontade
Você não é mentira você é verdade
É tudo que um dia eu sonhei pra mim.”

Casei em 1973. Tinha, então, 30 anos de idade. Separei em 1983, e tive duas filhas nesse casamento. Tive outros relacionamentos, mas nada sério além do contato físico-sexual. Foram cinco anos assim.

Mulher, mulher e sempre mulher. Para esse aspecto que as palavras estão dirigidas, tenho alergia a homem. Só tive dois homens na minha vida: o Pai, que me honrou com a vida em conluio com a Mãe que Deus me deu; e um filho, do segundo casamento. Este, Nutricionista e Professor de Educação Física.

Jordina – minha “Negona”

No mais, minha preferência é por mulher. E sou contra, sim, quem troca mulher por homem – e, depois, nas horas difíceis, quer ser ajudado por Deus.

Em 1987 mudei do Rio de Janeiro para São Luís, por uma mulher. Hoje, o único lado que me atrapalha é o “financeiro”, que não me permite realizar 10% das minhas aspirações e desejos. Mas, tenho Deus, e isso me conforta e conforma.

Antes dessas duas mulheres, fiz peraltices e essas me levaram à prática da política-ideológica. Hoje não mexo com isso, e me sinto bem, estando quieto e vendo a banda passar.

Muito antes, ainda, me apaixonei por uma flor xanana da caatinga, de nome Raimunda Buretama. Cheirava que só. Uma mistura de fumo de rolo, com sabedoria, proteção, bem-querer, cafunés e um escudo de amor que só sabia me proteger e ensinar para o mundo. Foi meu primeiro amor, aparentemente platônico.

Elza – minha sogra querida – um anjo feito gente

Depois veio a “Véia”, a “Negona” que me deu a luz, a vida, e principalmente, me ensinou a ser gente, homem e macho. Me impôs limites e educou para a vida. Foi Dona Jordina. Amor sem igual. Aparentemente, só superado pelo amor de Dona Raimunda.

Namoradas tive algumas mas, hoje, são todas peças de decoração do passado. Foram importantes, sim. Uma dessas, foi a responsável por eu estar aqui, hoje, pois me tirou do que poderia ter sido um abismo e me apontou o caminho certo na bifurcação. Sei disso. Mas, hoje não nos relacionamos bem. Vida que segue.
Durante cinco anos “solteiro” morando no Rio, me esbaldei. Maduro, conhecendo as vielas da Cidade Maravilhosa, simplesmente me embrenhei e curti a vida.

Edna Maria – Assistente Social e Doutora em Políticas Públicas

Mudei para São Luís e conheci a atual mulher. Funcionária pública federal, Assistente Social, aposentada recentemente, Doutora em Políticas Públicas. Tivemos duas meninas (mulheres): Anna Paula, quase Jornalista; Érica Luíza, Enfermeira esperando nomeação de concurso federal.

O primeiro casamento foi realizado em Fortaleza, em 1973. Voltei para o Rio de Janeiro para preparar a casa onde moraria. Esse casamento durou exatos dez anos, com alguns problemas que acontecem com todos os casais. Mas, o principal foi um problema de saúde que a afetou (toxoplasmose), levando-a a entender que não estávamos sendo felizes por conta disso e propôs a separação.

Tivemos duas filhas: Ana Karina, hoje com 42 anos, e Annya Karenina, atualmente com 39 anos. Ambas residem em Fortaleza, com a mãe, Marlene.

Marlene – a primeira esposa – somos divorciados

Elas, as três, mudaram para Fortaleza, onde comprei uma casa. Continuamos mantendo contato, com alguns senões normais para um casal, e isso acabou nos levando ao divórcio amigável, com cada um pensando na felicidade do outro.

Foram dez anos difíceis. A toxoplasmose acabou sendo o principal motivo do fim do casamento, haja vista que perdemos quatro filhos ainda na gestação. O bom senso nos fez pensar resolver o problema sem arranhões. E fizemos isso!

Ana Karina – a filha mais velha do primeiro casamento

A mudança definitiva para São Luís me fez conhecer outros valores, outras culturas – a cultura popular é muito forte! – e outras pessoas. Me afeiçoei muito às mulheres da família, principalmente a “nova sogra”, um anjo de pessoa.

Foi no Maranhão, também, que perdi minha “Negona”. Esse fato me fez conhecer mais profundamente o que é a saúde pública de um dos estados mais pobres da federação. Apenas 30% da população da capital dispõe de saneamento básico.

Apenas dois pequenos hospitais municipais atendem o setor de Emergência para facadas, tiros, acidentes de veículos, infarto, viroses e tudo mais. A Santa Casa não fecha por que as portas não têm ferrolhos.

Mas, acabei me acostumando. Hoje até gosto de muitas coisas que a cidade proporciona, apesar de todas carências que são visíveis para quem enxerga um pouco.

Annya Karenina – a caçula do primeiro casamento

Anna Paula – a mais velha do segundo casamento

Érica Luiza – a caçula do segundo casamento – é Enfermeira profissional

Por todas essas narrativas de sobrevivência aos problemas inerentes à vida, eu não teria como não me sentir feliz e fazer valer alguma comemoração no Dia Internacional da Mulher.

Gosto muito de mulher, em todos os sentidos. Na cama, e na mesa. Tenho muito sim, contra aqueles que não gostam. Mas respeito a escolha de cada um.

Deus não nos sacrificaria, nos tirando uma costela, se não fosse para fazer bom uso dela.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 02 de março de 2020

AS CURVAS NAS ESTRADAS DA VIDA

 

AS CURVAS NAS ESTRADAS DA VIDA

As curvas perigosas da vida

A caminhada tem sido longa até aqui – e as estradas cheias de curvas, algumas surgindo intempestivamente, molhadas e, por isso, derrapantes. A atenção precisa ser redobrada.

Há perigo em cada esquina, e o sinal está fechado pra nós. Melhor esperar “esverdear”, até que a nova estação seja a primavera, onde as folhas amarelecem, e algumas pétalas se desfolham com o leve tocar do vento.

Assim, poderemos seguir para atravessar, e continuar a caminhada na direção do porvir, agradecendo cada sol poente para criar forças e enfrentar o novo sol nascente – do amanhã.

“Corrijo num segundo
Não posso parar
Eu prefiro as curvas da estrada de santos
Onde eu tento esquecer
Um amor que eu tive
E vi pelo espelho na distância se perder
Mas se o amor que eu perdi eu novamente encontrar
As curvas se acabam
E na estrada de santos não vou mais passar
Não, não vou mais passar”

Cuidado com as curvas que podem estar molhadas

O amanhecer chega, e a cada dia traz um perigo novo. Antes, tempos atrás, o cheiro próprio do caminho servia de bússola – a simples a necessária umidade facilitava o caminhar, pois todas as curvas eram conhecida. Reais. Apenas o tamanho da estrada era diferente.

E o novo perigo foi provocado pelo desmatamento. Tá tudo diferente e o olhar cada curva de frente, causa uma sensação de perigo. As curvas se agigantam e a gente nem pode mais pretender se guiar pelo cheiro – aquele, o inconfundível.

Cuidado com as curvas. As curvas na estrada da vida, além de sinuosas, são também perigosas.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 24 de fevereiro de 2020

NO ESCURINHO DO CINEMA

 

NO ESCURINHO DO CINEMA

Pipoca doce no escurinho do cinema

Há quem diga que o Brasil não mudou. Mudou, sim. Há dois anos atrás, era perda de tempo transportar carga pela BR-163, na região amazônica. Atualmente, tem quem esteja fazendo turismo, deixando de viajar para a Disneylândia, preferindo conhecer cobras, mosquitos, saborear a culinária da região e até montar em búfalos em regiões que passaram a ter acesso fácil e privilegiado com a inauguração da BR-163. Distorcer fatos, qualquer um pode. Incluindo entre esses, uma gama de babacas.

Pois, nessas visíveis mudanças que aconteceram, uma é o namoro. É, a forma de namorar, independentemente da faixa etária. Antes, “segurar a mão” era uma saliência, um atrevimento que poucos ousavam.

Beijar na boca?!

Pelo amor de Deus!!!

Só se fosse escondido de muitos, incluindo a família.

Hoje, a própria família da “moça” oferece o quarto da dita cuja, para um “namoro mais seguro” – e, como a carne é fraca, né! Pimba na raspadinha!

E o que tem o escurinho do cinema e pipoca doce com isso, Zé Ramos?

A tranquilidade aparente não mostra onde estão as mãos

Espiem. Lá pelos anos 60, início da década, já ganhando meu próprio dinheiro e sem muitos compromissos domésticos, namorava, curtia noites, frequentava bons restaurantes e bares, viajava e, além de estudar, comprava livros. Gostava muito de cinema. Nunca perdi um bom lançamento, quando o filme era exibido no Cine São Luiz, o mais confortável de Fortaleza naquela época.

Mas, “namorando”, respeitava os valores da época. Só beijava a namorada, se estivéssemos sós. E era beijo rápido. Beijo “de língua”, só no escurinho do cinema, onde o “Lanterninha” não dava conta de vigiar as ações de todos. E tome beijos e tome amassos.

Não lembro bem qual filme estava sendo exibido, pois isso não importava muito. O melhor filme era o “escurinho”. Normal comprar pipocas. No momento só tinha pipocas doces. Vai essa mesma!

Frente antiga do Cine São Luiz de Fortaleza – hoje totalmente diferente

Ora, se havia algum tipo de “má intenção”, essa com certeza não era só minha. Não era só eu que estava pensando bobagem, ou querendo libidinagem, perversão, bolinagem.

E o que te garante isso, Zé Ramos?

Pois, para ir ao cinema, a namorada punha uma saia bem rodada, bem larga, sem muita dificuldade para algumas coisas. E “quase tudo” acontecia no escurinho do cinema.

Há quem afirme que, o “planeta” é uma coisa, e o Universo é outra. Faz sentido, sim. Pois, não existe no planeta terra, nada tão perfeito quanto a Natureza. Cada coisa que está no planeta tem uma razão de ser, e existir. Nessa relação, ouso incluir as “formigas”, cujo tamanho contradiz sua força hercúlea. E, essa força fica ainda maior, quando existe a união. Um formigueiro é algo complicado, difícil de entender.

Aí “começa o filme”. Mão pra lá, mão pra cá. Mão na pipoca doce, beijo na boca. E segue o filme.

Esperta, e aparentemente carente de ações, a namorada deixa cair uma pipoca sobre a saia. O namorado (eu, claro!) se aventura a retirar a pipoca da saia plissada da namorada. Eis que a namorada põe a mão sobre a mão do namorado (eu, de novo!), dizendo sem dizer nada, que o importante não era pegar a pipoca. Era sentir o volume da ansiedade sob a saia, muito bem plissada e passada no ferro com esmero.

Como isso aqui não é um ambiente erótico, e às vezes é lido por João Berto, uma criança no auge da inocência e da puberdade, vou direto ao assunto:

Dedos melados de pipoca doce, caminho para a satisfação descoberto e visitado. Minutos intermináveis levam ao êxtase. Mas, aí é que vem a ação da Natureza.

Inexplicavelmente, que diabos tantas formigas estavam fazendo ali, entre o saco de pipocas, levando a doçura do açúcar para o formigueiro sob a saia plissada?

Mas, a Natureza vai continuar merecendo meu respeito. Afinal, formigas não pagam ingresso de cinema, tampouco são convidadas, mas não escolhem hora apropriada para incomodar.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 17 de fevereiro de 2020

A REVOLUÇÃO DOS PEIXES

 

A REVOLUÇÃO DOS PEIXES

 

Geleira “derretendo” por conta do Aquecimento Global

Começo essa crônica de hoje, me fazendo uma pergunta: será que a pirralha Greta sabia ou sabe de tudo isso e não nos disse?

Ou, será que ela só se preocupa com o que acontece no Brasil? Nos EUA, na Austrália, na França acontecem tantas ou mais catástrofes que no Brasil – e ela não diz nada, não se manifesta por que?

$era que pode $er algo encomendado?

Tá parecendo que i$$o é coi$a de bra$ileiro!

Pelo sim ou pelo não, fui reler, para tentar fazer alguma relação (se é que existe, e eu não havia percebido antes, quando li pela primeira vez) “A revolução dos bichos”, obra épica satírica do inglês George Orwell, escrita e impressa pela primeira vez em 1945. Final da Segunda Guerra mundial – essa, entre os homens(???!!!).

E como na fazenda do George havia mais de um “porco” (Napoleão Bonaparte, Bola-de-Neve, Velho Major) e apenas um burro (Benjamin) e as “mulheres” tinham nomes citados, mas não tinham ações (no romance!), fiquei matutando como conseguiam se comunicar e entender entre roncos e relinchos.

Teriam as tempestades alguma influência do “derretimento” das geleiras?

Deixando um pouco de lado a famosa “Revolução dos Bichos”, esquecendo um pouco a Fazenda, ou o curral onde vivem e dormem os animais – no caso da “Revolução” do Orwell, onde os animais tramam tudo, usando seu linguajar apropriado. Só não pode ser em “libras” – situo essa minha “revolução” no mar, e nas profundezas, onde peixes e demais habitantes também tramam e fazem suas revoluções, de preferência bem próximo de uma Amazônia de algas marinhas.

Podemos até afirmar que, “há horas que o mar não está pra peixes”!

Cá fora das águas, na orla marítima, uns poucos homens falando línguas diferentes umas das outras, vivem dizendo que o “Aquecimento Global” está provocando a mudança de temperatura, e essa está provocando problemas para os continentes gelados, para as geleiras e seus habitantes e, esses, aborrecidos, também resolveram fazer suas revoluçõezinhas. E não olvidem: a água que vem de cima, conhecida como chuva, tem muita e estreita relação com a água que está no mar.

Habitante do mar comanda as reuniões dos cardumes em revoltas

Entre as muitas ideias e reivindicações que o Comandante Jubarte tem ouvido dos que estão no seu entorno, estão a promessa de “desovar” menos, com o objetivo de povoar cada vez menos os mares. Outra ideia é a criação de um sociedade anônima que devolva em dobro todo mal que o homem tem feito aos mares e seus habitantes, incluindo o vazamento de óleos. Mas, esse, a Greta não soube. Provocar tempestades, propõe o tubarão, uma espécie de Benjamin dos mares.

– Quem provoca tempestades não somos nós, Benjamin. É a resposta raivosa do mar por conta da temperatura e das agressões que sofre!

Flagrante do exato momento de uma reunião no fundo do mar

Numa completa demonstração de que “os humanos não são os únicos humanos” do Universo, o Golfinho usou toda sua formalidade para pedir a palavra. E disse:

– Somos os mais prejudicados pelas fortes tempestades e por outras catástrofes que acontecem em nossas casas. Mas, não podemos deixar de pensar nos pinguins! Esses sim, estão perdendo seu habitat!

Nem preciso dizer que Golfinho foi efusivamente aplaudido, e as enguias fizeram questão de incluir os ursos polares e leões marinhos que, sem geleiras não terão moradia nem comida.

– Vai ficar é ruim pra nós, disseram as enguias!

Pinguim e Urso polar perdem habitat e alimentação com o Aquecimento

Pois tal e qual o passarinho, que, sem as árvores e sem os mosquitos, lagartas e sementes que garantem suas cadeias alimentares e lugares apropriados para reprodução e continuação das espécies, e mudam para o parapeito da janela do João Berto no confortável apartamento do Apipucos, as espécies que habitam as geleiras, se não saírem mundo à fora com uma trouxinha de pertences, uma filharada e rapadura, farinha e uma cabaça d´água, morrerão na seca, pois o “mar vai virar sertão”.

Imaginemos uma reunião de pinguins vindos da Antártida, acontecendo de madrugada, no Marco Zero de Recife. O alvoroço que isso poderá causar no estado onde nasceu o homem mais honesto do mundo. Até aquele homem da roleta, lá de Palmares, vai bater em retirada, procurando a Zona da Mata.
Tudo por conta do “Aquecimento Global”!

É?

Não. Não é.

Nós, aqui fora do mar, e distantes das geleiras, que somos os responsáveis pela necessidade que os bichos de George Orwell tiveram para fazer a sua revolução; e os peixes e viventes dos mares do Zé Ramos encontraram para motivar suas reuniões. E, nem precisaram convocar as algas marinhas, os camarões, os siris, caranguejos e ostras. Fecharam o mar. Lacraram, literalmente.

Pinguins batendo em retirada no início do êxodo

Nesse raciocínio, cientistas e estudiosos afirmam que, o nível do mar está subindo por conta do “Aquecimento Global”. Sendo isso verdadeiro, os habitantes das ilhas começarão a sentir os efeitos em muito breve.

No Brasil, Florianópolis, Vitória e São Luís que se preparem – e não haverá sistema de drenagem para dar conta das águas pluviais.

Especificamente São Luís, onde o gestor público faz questão de esconder o lençol freático, plastificando com asfalto até encostas e ladeiras, a situação já é caótica quando o índice pluviométrico é diferenciado.

Rios que têm influência dos mares serão mais um problema para as cidades

Ora, desde cedo aprendi com uma certa senhora que, quem conhece a terra onde vai plantar, produzir e viver, é o Agricultor; quem engorda o boi na fazenda, é o olho do dono; quem conhece fogo, é o Bombeiro que o apaga; quem conhece o doente, deveria ser o Médico. Mas, agora, é a máquina.

Assim, por que nunca se tem notícia de que, nessas reuniões e congressos para discutir esse novo fenômeno (Aquecimento Global), nunca se tem as presenças de quem vive no mar? Marinheiros, pescadores e até se fosse possível, os peixes, baleias e representantes de cardumes?

Quem é do mar, não enjoa!

Infelizmente, as reuniões vivem superlotadas. Mas, não é de especialistas nos assuntos. É de empreiteiros e outros interessados. E o que se vê, ao final de cada congresso ou reunião, quase todos “pedindo dinheiro”.

Pedem dinheiro para resolver os problemas urbanos e sociais; pedem dinheiro após as catástrofes causadas pelo caos nas cidades por eles administradas.

Mas, a culpa será sempre do “Aquecimento Global”!

Cidade de Osasco literalmente “debaixo d´água”


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 10 de fevereiro de 2020

LILICO: PRA LÁ COM ESSE NEGÓCIO!

 

 

PRA LÁ COM ESSE NEGÓCIO!

Lilico concluía sua piada com o bordão “pra lá quesse negócio”!

Mais uma vez volto ao sertão, e novamente, ao povoado onde nasci – que, aliás, vivo pensando que nunca deveria ter saído de lá. Penso, também, que minha Avó jamais deveria ter-se encantado. Deveria estar contando as prosas dela, me dando cafunés, criando os passarinhos dela soltinhos e dando a cada um deles um nome de gente – para ela, bicho, principalmente ave, era melhor do que muitos seres.

Se alguém lhe perguntasse: Dona Doca, quem é melhor? Lula, ou aquele urubu?!

Não tenho dúvida que ela responderia:

– Meu bixim, o arubu é muito mais mió, ora! Apois, o arubu come a carniça dele, de bicho que morre. O arubu num rôba!

Pois, essa mesma Dona Doca Buretama, como já foi dito inúmeras vezes, criava patos, galinhas, perus, cabras e bodes como meieira do dono das terras. Ficava com uma parte, e entregava a outra parte para o “patrão”.

Mas, o “patrão” tinha outros moradores, que faziam a mesma coisa. E um desses moradores era o Cícero de Zefa, conhecido como Cicim (ele não aceitava que o chamassem de “Cissim”. Era “Cicim”, mesmo e tamos conversados).

Eis que, certo dia, sem avisar nem nunca ter falado nada, Cicim chegou na casa da minha Avó, com um galo enfiado no sovaco direito. Minha Avó achou que o galo tava com “gogue” e o vizinho precisava de uma meizinha pro bicho.

– Cumade Doca, sei que hoje num é seu niversáro, mais vim lhe trazer um presente. Tô lhe dado inté de papé passado o galo Gegê, com muita saúde, fogoso e bom quisó!

Como no sertão viaja há séculos, o dito popular que ensina: “cavalo dado, num si óia os dentes”, Vovó mandou que ele soltasse o galo no quintal, que de mais com pouquinho ela botava milho pro bicho.

Mas, Vovó ficou matreira com aquele presente. Porque, tão logo soltou o galo no quintal, Cicim foi fazendo meia volta, e pegando o caminho de casa.

Eis que, pra ter certeza que o galo num tava com fome, Vovó foi na camarinha e pegou uma cuia com milho para jogar no quintal. Se o galo estivesse com fome, com certeza procuraria comer.

Mas, o melhor vem agora. Vovó tinha o hábito de dar nome às galinhas que tinha no quintal. E aquela que mais botava ovos, ela dava o nome de umas “fuampas” que ela achava que viviam às custas do Vovô, João Buretama. E, uma dessas galinhas, ela chamava de Maria Francisca, pois a penosa botava dois ovos por dia, e ela achava que era porque os galos viviam “subindo nela”. Tal qual a “fuampa” que não podia ver os trocados de Vovô, e logo se engraçava, fingindo desejo de nhanhar.

Pois, mais parecendo uma águia, “Maria Francisca” tão logo o galo Gegê abaixou as asas e começou a fazer roda, olhando de soslaio, ela conseguiu arranjar forças nunca se sabe de onde, e saiu voando.

Vovó estava no girau, lavando alguns pratos e, ao ver aquilo, admirada, soltou um grito:

– Valha-me Deus! O que qui tá contecendo? Galinha num avua!

Ora, aqui todos sabem que o cruzamento ou a cobertura, ou o sexo, ou ainda a trepadinha entre aves, é feita com as cloacas, sendo que a cloaca do macho é diferente da cloaca da fêmea.

Mas, Vovó, ainda boa das vistas, garantiu que conseguiu ver que Gegê não tinha uma cloaca. Tinha era um “martelo” dependurado naquele lugar. E ela jura que, na linguagem com que se comunicava com as aves dela, a “Maria Francisca” ao ver o “martelo” de Gegê, saiu avuando e até dizendo:

– Pra lá quesse negócio!

Anos depois foi descoberto que Cicim agira de má vontade e por ciumeira, pois o patrão havia concedido mais umas linhas de terra pra Vovó e Vovô aproveitarem na roça.

Eita que ciúme é coisa feroz! Pra lá com esse negócio, siô!


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 03 de fevereiro de 2020

FREGUÊS DE BODEGA
 

FREGUÊS DE BODEGA

Cesto com ovos de galinha caipira

Um amigo fraterno que viveu e morreu em Pindaré-Mirim, por anos foi o responsável pelo abastecimento da cidade, com pães. Início da madrugada, todos os dias, já levantava da cama e começa “bater a massa do trigo”. Quem não conheceu Paulo, e jamais comeu o pão que ele fazia, não nasceu em Pindaré-Mirim ou nunca acordou naquela cidade.

Pindaré-Mirim é um antigo município do Maranhão, cidade onde primeiro foi instalada neste Brasil, energia elétrica como força motriz. As demais cidades, onde antes de Pindaré-Mirim “chegou a energia elétrica”, são capitais dos estados.

Engenho Central “São Pedro” em Pindaré-Mirim no Maranhão

Mandado construir por um grupo de canavieiros da região, o Engenho Central São Pedro, aproveitando o leito do caudaloso rio Pindaré para transportar seus produtos no abastecimento das cidades vizinhas com o açúcar produzido no engenho, contratou a construção, instalação e funcionamento de uma linha férrea para fazer a ligação entre o Engenho e a Fazenda Santa Filomena, onde era produzida a cana-de-açúcar.

Após incompreensível abandono, o Engenho Central São Pedro foi totalmente restaurado no ano passado pelo Iphan, sendo transformando num Centro de Atividades para os moradores da cidade e ponto turístico onde abriga peças e valores da Cultura Popular do Maranhão.

Pois, dito isso e informado, num início de tarde qualquer, depois da sesta habitual, Paulo encostava a cadeira de macarrão plástico na varanda frontal da casa e, além de “esquentar os miolos” com um litro da cachaça Pitu, tinha e mantinha ao seu redor um selecionado grupo de pinguços para escutar suas prosas. Nenhum Pedro Bó no grupo que escutava, mas ninguém se ausentava, pois bebida de graça prende qualquer um.

Não faz tanto tempo assim, Paulo, numa prosa muito divertida sobre algumas figuras emblemáticas da cidade, contou que, certo dia alguém entrou no comércio de Pepeu (nome fictício!) procurando ovos de galinha caipira. Um cesto cheio de ovos estava sobre o balcão de madeira, ao lado de ossos, carne de porco e peixes salpresados. Pepeu apontou para o cesto e perguntou debochadamente:

– Ovos, é isso aí?

O freguês já ficou um pouco sem graça pelo deboche, mas continuou com as perguntas, passando também a escolher os ovos caipiras. Pegou um ovo, balançou ao lado do ouvido; separou. Pegou outro ovo, balançou novamente ao lado do ouvido, separou. Pegou o terceiro ovo, balançou ao lado do ouvido e, quando ia separar, foi interrompido por Pepeu, que gritou:

– Pare amigo! Pare! Você não quer comprar ovo! Você quer comprar é maracá! E, maracá eu não vendo. Quem vende é Zé Bimbim (nome fictício), o maior boieiro da cidade!

“Maracá” – instrumento de percussão usado no bumba-boi do Maranhão


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 27 de janeiro de 2020

A ESTACA CHORONA

 

 

A ESTACA CHORONA

A estaca transformada em “ mourão” quando ainda era viva

Existem centenas de milhares de pessoas que são completamente diferentes das outras. Eu, provavelmente, sou uma dessas pessoas. Não tenho nada contra aqueles que “amam os animais”, ainda que esse amor não seja verdadeiro e a alegria apareça apenas na hora da fotografia. Entendo isso como hipocrisia, e, nessa altura do campeonato não vejo motivos para mudar o meu comportamento.

Maltrato os animais? Não. Apenas não os quero na minha cama, na minha rede, na minha mesa. Mas, sinceramente, nada tenho contra quem manda fazer uma cadeirinha para o cão comer sentado na hora do almoço – entendo como “mesa da refeição” como algo sagrado, tipo a Santa Ceia – ou manda colocar um berço para o danisco dormir o sono da tranquilidade no mesmo aposento. Sei de pessoas (homens e mulheres) que usam os animais para perpetrar o sexo doentio.

Agora, uma árvore, se ela for cortada, sou até capaz de mandar rezar uma missa de sétimo dia, de trinta dias, e de um ano. Árvore não dá apenas sombra. Os frutos e o trabalho que, junto com a Natureza, faz por nós.

Imbuia secular foi derrubada e ninguém protestou. Nem a Greta!

Não vejo e não quero traçar paralelos de animais e árvores. São diferentes e certamente são úteis, mas de formas diferenciadas.

Já escrevi aqui, antes, o motivo da minha rejeição ao cão e ao gato. Estou vivendo um segundo casamento, a construção de uma segunda família. Sou divorciado legalmente da primeira esposa. Minha primeira mulher ainda hoje sofre por conta da “toxoplasmose” adquirida pelo convívio próximo com animais (gatos, principalmente). Esse problema nos levou à perda de quatro filhos, um após outro, gravidez após gravidez. Foi, também, o motivo principal da separação.

Juazeiro – além da sombra e dos frutos, tudo pode ser usado pela medicina em favor do homem

E as árvores?

Se estiver no local adequado, se receber o tratamento adequado, uma árvore jamais causará algum problema ao ser humano. Só benefícios.

Na minha casa mantenho vasos com plantas. Prefiro aquelas que “ajudam em alguma coisa”. Cultivo cebolinha, coentro, pimenta de cheiro, pimenta malagueta, pimenta murici, quiabo e plantas decorativas.

Tenho aquário, onde crio peixes. Crio canários belgas, cujos cânticos me deixam alegre. Tenho respeito pelos canários, pelos peixes e pelas plantas. O mesmo respeito que tenho por qualquer ser humano.

Assunto dessa crônica é a árvore. Cortado de forma inadequada para uso indevido, um velho ipê teve o seu desenvolvido tronco utilizado como “mourão”, uma estaca mais grossa e mais segura para garantir a sustentação e o peso do arame na construção de uma cerca.

A cerca protegia a fazenda de Seu Ribamar, um fazendeiro e conhecido pecuarista das Queimadas. Pagou caro pela construção da cerca, mas ficou famoso mundo à fora, não pela riqueza ou pela quantidade do gado que produzia metade da riqueza do lugar.

Ribamar ficou famoso por ser “proprietário” da estaca que chorava e criou raízes depois de cortada. Não tinha folhas mas continuava produzindo resina – e isso, para os moradores locais, nada mais era que lágrimas. Lágrimas da estaca que chorava.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 20 de janeiro de 2020

A MOCHILA E A VOLTA AO INÍCIO DA VIDA

 

 

A MOCHILA E A VOLTA AO INÍCIO DA VIDA

Porteira de acesso à casa da Vovó

Nunca atrasava ou adiantava. O ônibus da empresa Expresso de Luxo, da família Paula Joca fazia a linha intermunicipal entre Pacajus e Fortaleza. Saindo de Fortaleza na “Cidade das Crianças” rigorosamente às 15:30 h, sempre e pontualmente às 16:00 estava parando no Olho d´Água, hoje Horizonte.

E, não havia demora, por que o tráfego pela BR-116, ainda era pequeno, e a estrada de boa qualidade facilitava o percurso de pouco mais de 40 Km.

Desci do ônibus e, como fiz por muitos anos durante as férias, peguei a direção da estrada vicinal, de areia pura e frouxa, que levava à casa da minha Avó. Mochila nas costas, ainda pensei em tirar o tênis e percorrer a distância de uns 6 Km descalço. Mas, logo vi que, ainda que sendo a mesma, a estrada não tinha mais tanta areia. Segui caminho.

O sol começara a esfriar, e logo entendi que não havia necessidade de andar rápido, pois Vovó e Vovô me receberiam bem na hora que eu chegasse.

Andava e andava, tendo sempre a atenção voltada, de repente, para algo que acontecia. A mesma cerca velha feita de toras de sabiá (mimosa caesalpiniaefolia) construída há dezenas de anos. Quase tudo igual.

Longe dali, mas tão perto para a captação dos ouvidos, a rolinha cantava chorosa, fogo-pagooooouuuuu, fogo-pagoooooouuuu, num lamentável cântico que tornava o fim de tarde mais triste ainda. E tome estrada. Aquela mesma que, antes tão distante, agora era percorrida com apenas um “salto” (dizer da Vovó).

Caminhando, sozinho, sequer sentia o peso ou o incômodo da mochila. Não demorou, e cheguei na porteira corrediça da casa da Tia Maria e ainda me atrevi a avisar:

– Ô de casa, tô chegando! Tô passando, mas depois eu volto!

E continuava a caminhada, que tinha o objetivo de atingir e atravessar a mata fechada antes da noite chegar. Precisaria caminhar por mais de meia hora mata à dentro, antes de atingir a porteira do destino. Não era recomendável atravessar, andando no escuro aquele matagal, sempre avisou o meu Avô.

E, poucos metros antes de entrar na mata, o susto veio através do vôo repentino no “inhambu”, despertando um medo que até então não existia. Mas, era seguir em frente, e deixar pra lá as crendices nas assombrações e lobos maus.

Mata atravessada, eis a porteira à frente. Longe, dava para escutar o toque-toque da mão do pilão, pilando fubá de milho torrado, ou café: – toque, toque, toque tão ritmado que mais parecia um ensaio de bateria de escola de samba do Rio de Janeiro!

Anunciada – a prima pilando fubá de milho torrado

Provavelmente, o rangido feito pela dobradiça enferrujada, ao abrir o portão-porteira, despertou o cachorro Bimba, até então em sono profundo, enquanto deitado sobre o forro do cambito encostado na parede da sala. Desesperado e balançando o rabo, veio ao meu encontro. Cheirou. Conferiu o faro, e me deixou entrar sem alarido ou latido.

Subi o batente, abri a porta de baixo, pois a de cima estava sempre aberta. Apesar do silêncio, arrisquei um cumprimento:

– Ô de casa! Tem alguém aí? Vó, a senhora tá em casa?

Resolvi entrar e, como conhecia a casa em todos os cômodos, fui até a cozinha e vi o fogo do fogão aceso e, sobre a bancada, a fumaça do café que estava sendo preparado (provavelmente para a novidade que estava chegando – eu!), ainda fora do bule.

Já demonstrando preocupação, voltei a chamar. Vóóóóó, a senhora está em casa? Tá onde?

Como, provavelmente, ela estaria em casa, pois era a hora de preparar o dicumê para o Vovô, resolvi procurar também no quintal, onde talvez ela tivesse ido pegar uma toras de lenha para atiçar o fogo.

Café ainda no coador esperando a visita

Descendo o batente da porta da cozinha, logo percebi as galinhas ciscando o chão à procura de milho, ou algo para comer. Eram muitas as galinhas criadas no sistema “meeiro” com o dono das terras – e a netaiada, crescida e morando na capital, nem vinha mais aos domingos, suscitando o abate das penosas. A tendência era aumentar o rebanho.

Se eram tantas as galinhas, com certeza em alta postura, dava para imaginar a quantidade de ovos guardados nas cuias da Vovó dentro da camarinha – esperando alguém para levar pros meninos na cidade grande, ou para fazer aquela gemada gostosa, caso alguém precisasse.

Como continuei chamando e não fui atendido, deduzi que não havia ninguém em casa. Coisa lógica.

Galinhas soltas cacarejando no quintal

Continuei passeando pelo quintal, quando avistei, ao lado do antigo girau, aquela mesma porca pintada na cara, comendo babugens ao lado dos dois bacurins – e esses me deram a impressão que continuavam do mesmo tamanho de mais de 50 anos atrás.

A porca e os bacurins procurando “babugens”

Interessante que, um dos bacurins tinha a cara “cagada e cuspida” de Zé Luciano, um primo, que não dispensava nada. Comia até buraco na cerca, ou na parede. Nem me admiro que tenha emprenhado a coitada da porca. Se é que isso seria possível.

Embora já se fizesse escutar, a cantata das cigarras e dos grilos, ainda havia claridade. Como não aparecia ninguém, continuei passeando pelo quintal, matando a saudade da convivência com os bichos criados por Vovó.

Foi quando percebi que, uma pata pastoreava os onze patinhos que acabara de alimentar, e agora os levara à beber água. Um pato, mais afoito, acabou caindo dentro da bacia improvisada de bebedouro. Todos, inclusive a pata, levantaram os olhos para mim, admirados pela presença – depois, descobri que fazia muito tempo não recebiam o incômodo de ninguém.

Pata e patinhos assustados com minha presença

Segui o passeio, e ninguém dava o ar da graça. Comecei me sentir “só”, necessitando entender o por que de, até aquele momento, não ter aparecido ninguém. E a noite começava a dar o ar de sua presença. Pelo menos eu teria que me preparar para enfrentar a noite, sozinho, enquanto Vovó ou Vovô não chegavam de volta para casa.

Galo Messias “galando” mais um ovo para a cuia da Vovó

Ali mesmo onde estava, escutei (ou imaginei ter escutado) um latido de Bimba. Era a senha que eu precisava, para ter a certeza que alguém chegava de volta em casa. Fui até a portas de entrada e, percebi que não era ninguém menos que o jumento Policarpo, querendo entrar – e ele mesmo, com certeza, como se acostumara fazer durante todos aqueles anos, caminhou até encontrar o buraco da cerca por onde entrava para dormir ao lado do chiqueiro das cabras.

Assim, continuei andando, agora, curioso para conhecer as novidades. E, aparentemente não havia muita coisa nova naquela casa com ares de abandonada, embora o fogo do fogão se mantivesse acesso e o coador do café ainda fumegasse.

E, daquela forma, quem havia jogado milho para as galinhas; ou, quem havia servido água da bacia para os patinhos?

Antes de resolver parar para entrar e procurar uma lamparina, percebi o que para mim era uma novidade, sim. A moita de “mufumbo” havia crescido, e dessa feita, os catraios haviam posto muitos ovos – e nenhuma cobra se atreveu a come-los.

Os ovos das “capotas” (catraias) continuaram já eram muitos

Ligeira, a noite chegou e me pegou desprevenido. Como e onde encontrar uma lamparina que iluminasse aquela casa até a chegada da Vovó?

Eis que, enquanto procurava a lamparina, tropecei, e me dei conta que, nas costas, carregava uma mochila. Perguntei para mim mesmo: de onde saiu essa mochila? Eu nunca possui ou usei mochila, quando era criança!

O barulho do carro que faz a coleta do lixo de dois em dois dias, me acordou. Só então consegui perceber que tudo aquilo não passara de um sonho. De um bom e saudoso sonho.

Mas, e o cheirado de Bimba, o cachorro; o fogo aceso no fogão e o café fumegante; o milho para as galinhas; a água para os patinhos, e a chegada da noite? Como explicar tudo isso?


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 13 de janeiro de 2020

O LINGUAJAR ,CHULO, DO CEARENSE

 

 

O LINGUAJAR “CHULO” DO CEARENSE

“Curral das éguas” – ZBM da Fortaleza antiga

Quem acessa pela primeira vez este JBF (Jornal da Besta Fubana), que neste começo de ano tem trocado mais de cabeça do que o Lula troca de mentiras, vai ler: “A gazeta mais escrota da Internet”.

Pois, saibam alguns que, “escrota” pode até não ser feminino de “escroto” mas, com certeza é um dos palavrões mais “escrotos” no Ceará. Da mesma forma, alguém rotular alguém de “canalha” no Ceará, fique certo que está desafiando para briga de porrada, mesmo. Não é diferente com o termo chulo “escroto(a).”

Mas, como O JBF também é cultura, vou tentar relembrar aqui nesta segunda postagem do ano, algumas situações (ou termos) chulas que, ou usamos muito, ou quase nunca usamos no dia a dia do meu Ceará – terra boa pra caralho (ops!).

“Quebrar o cabresto” – Homem que faz sexo pela primeira vez, rompendo o prepúcio. Fazer sexo faz bem ao corpo humano – masculino ou feminino. Nos dias atuais, essa prática salutar está totalmente desvirtuada, invadida que foi pelo homossexualismo, isso se olharmos para os ensinamentos religiosos. Muitos que, no Ceará se acostumaram dormir em redes, com o pênis ereto pela necessidade de urinar, “quebravam o cabresto “roçando” na própria rede.

“Abriram as portas do inferno” – Fala-se quando chegam muitas mulheres feias, juntas, numa festa. Isso não é algo que se considere “chulo”, mas uma zoação. Uma “mangação”. A rapaziada jovem, em grupos, que tinha o hábito de frequentar as “tertúlias” nos poucos clubes sociais de Fortaleza, gozadores por excelência, ficavam à espreita de quem chegava ou saía antes da hora. Muitas meninas, ainda sem namorados, gostavam de ir às festas em grupos. Quando chegavam juntas, os rapazes cochichavam: “abriram as portas do inferno”.

Zé Tatá – o veado mais “macho” da antiga Fortaleza

“Açucareiro” – Mulher, quando fica brava. Elas, geralmente assumem uma posição, com as duas mãos na cintura, semelhante a um açucareiro.

“Amancebado” – Amigado, aquele que vive maritalmente com outra pessoa, sem estar casado legalmente. Nos dias atuais, diz-se que são “companheiros” e já é uma relação considerada legal.

“Amassar um Bombril” – Foder, transar. Depilação de partes do corpo, incluindo as genitálias (masculina e feminina), é moda nova. Alguns (homens e mulheres), por escolha própria, ainda não aderiram ao “depilar total”. Assim, alguns homens ou mulheres conservam os pelos pubianos (nessa referência, o “Bombril”) e, quando os dois fazem sexo, os pelos se juntam – estão amassando Bombril.

“Amulegar” – Apalpar os seios. No caso, os seios da mulher. “Amulegar” de vez em quando, se transforma num ato erótico. Carícias preliminares.

“Anel de couro” – Ânus, fiofó, bufante, roscofe, rosca. No linguajar atual, quando alguém está fazendo sexo anal, está “queimando rosca”.

“Areia de cemitério” – Pessoa que não gosta de dividir. “Você é igual a areia de cemitério, quer comer tudo sozinho.”

“Arroz” – Homem que anda com muitas mulheres, mas não namora (fode) nenhuma. “Igual a arroz. Só serve para acompanhar.”

“Baitinga” – Veado.

“Balançar a roseira” – Peidar.

“Barba, cabelo e bigode” – Trepada completa (de cabo a rabo) com direito a sexo oral, anal e convencional.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 06 de janeiro de 2020

A FAZENDA AURORA – SUAS LAGARTAS E BORBOLETAS

 

 

A FAZENDA AURORA – SUAS LAGARTAS E BORBOLETAS

Fazenda Aurora e seu campo de girassóis

Tudo, acreditem, aconteceu na Fazenda Aurora, uma das maiores propriedades de Ricaço, sujeito caladão, que só se preocupava em ficar cada dia mais rico com a plantação, colheita, e venda de girassóis.

Numa manhã chuvosa de domingo, na casa de Dona Lurdinha, os moradores só perceberam alguns estragos feitos pela chuvarada, depois que o dia clareou.

Aquele cheiro gostoso e inconfundível de terra molhada, ajudava abrir o apetite para o farto café da manhã para quem ainda estivesse sonolento, mas já preparado para a pequena caminhada que levaria até à Santa Missa de domingo, celebrada pelo Padre Elói.

Antes mesmo que todos saíssem de casa, o sol deu o ar da graça, desenhando pelas frestas das telhas, reais obras de arte. E esse mesmo sol começou a agir, esquentando o solo, fazendo com que todos esquecessem que, horas antes havia caído quase que uma tromba d´água.

E, aproveitando que todos saíram de casa a caminho da Igreja, Mimosa, uma horrível mas colorida lagarta, resolveu sair do esconderijo por debaixo de umas folhas grandes, e iniciou seu trabalho de devastação do verde que, de tão bonito, fazia tremer a vista de quem olhasse procurando a linha do horizonte.

A feia lagarta Mimosa

E destruía, ao mesmo tempo que comia, enquanto caminhava aos pulos na direção da enorme plantação de girassóis. E caminhava aos saltos, ao tempo que se dobrava e desdobrava. Sabida, procurava a sombra das folhas verdes que não lhe interessavam. Ela queria mesmo era os talos e os botões dos girassóis.

À medida que o tempo passava, mais ela comia e destruía. Uma brisa leve lhe trouxe o aroma dos girassóis, fazendo-a compreender que a plantação não estava perto. Continuou comento. Continuou destruindo, até que, anestesiada, quase dormindo, sequer se deu conta que havia chegado na plantação. Adormeceu.

Casulo de lagarta para borboleta

A alta temperatura lhe trouxe um esconderijo. Uma sombra escura de várias folhas muito verdes. Foi coberta por um casulo. Veio a tarde, e veio a noite, e, no dia seguinte veio o amanhecer, o entardecer, e um novo anoitecer.

Um dia, dois dias, vários dias, um mês. Mais um mês e mais outro. Aquele casulo tomava forma diferente, querendo dizer que não era mais uma horrível lagarta chamada Mimosa, por ironia.

A bela transformação da Natureza

Eis que, belo dia – por coincidência, também domingo! – a Primavera chegava, trazendo aquele mar amarelo de centenas de milhares de girassóis. O casulo, se abria, enfim! E um vento forte açoitou a Natureza e deu asas a uma bela e pintada borboleta, que, ao lado das abelhas, parecia pousar em cada girassol, para agradecer-lhes a beleza da transformação da vida.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 30 de dezembro de 2019

MENINOS, EU VI

 

 

MENINOS, EU VI!

A selfie da inocência – eu vi

Eu vi, um dia, o mar pegando fogo. Eu vi um navio carregado de óleo pegar fogo em alto mar, na Baía de São Marcos, em São Luís, e aquele marzão pegando fogo, fazendo a água ferver para cozinhar os peixes.

Meninos, eu vi. Vi, um dia, uma lagarta caminhar centenas de quilômetros, comendo e destruindo tudo, até atingir um campo de girassóis, e ali transmutar em casulo, e voar como uma borboleta multicolorida.

Meninos, eu vi. Vi faz tempo, um jumento subir em relinchos numa jumenta, desesperada pelo gozo, e, onze meses depois, pelo mesmo canal do prazer, expelir um burrego saltitante como se fosse de borracha.

Óleo de bacalhau o pior remédio do mundo – eu vi

Meninos, eu vi. Vi, certo um dia, um homem chorando copiosamente e em desespero, por ver um dos seis filhos morrendo de fome e de sede, na terrível seca de 1957 que assolou o meu Ceará.

Meninos, eu vi. Vi e ainda me lembro, de minha Avó sentada no chão, numa tarde de domingo, me catando lêndeas e me dando cafunés – daqueles que estalavam o dedo! – enquanto eu sonhava com a maravilhosa sonata dos pássaros maviosos.

Meninos, eu vi. Vi, faz muito tempo, uma galinha das mais queridas criadas pela Vovó, botar um ovo de perua – fora “galada” por um peru tarado! – e de tanto fazer força, acabou morrendo “entalada” pelo furico.

Meninos, eu vi. Vi, certo dia, meu bom e trabalhador Avô conversando com um burro na capoeira, se lamentando da seca que levou a água que eles bebiam, matando tudo e, em lágrimas, beijando a cabeça do animal que, minutos depois morreria de sede.

Meninos, eu vi. Vi, juro que vi, como observador anônimo em Palmares, Luiz Berto ganhar três vezes seguidas na roleta do Cu-Trancado. Essa roleta, precisa ser muito amigo do dono, ou policial dos brabos para conseguir ganhar.

Meninos, eu vi. Vi e não faz tanto tempo, o nosso querido colunista Goiano, defensor peremptório de Lula da Silva, todo enrolado num belo cachecol russo, sentado na calçada da adega parisiense Le Comptoir, sorvendo taças e mais taças do bordeaux Château Bolzan.

Pinguim sobre geladeira Frigidaire – eu vi

Meninos, eu vi. Vi, juro que vi, Chupicleide se mijar-se da cabeça aos pés de tanta alegria, ao receber de Luiz Berto os salários atrasados dos meses de julho, agosto, setembro e outubro, graças às doações dos fanáticos e embevecidos leitores desta gazeta escrota.

Meninos, eu vi. Vi chegar a hora da despedida de tantos amigos feitos aqui neste ano de 2019, esperando merecer a atenção desses mesmos e de mais amigos, na leitura desta porcaria de coluna, para que Polodoro continue arrebentando “a coisa” de Xolinha. Um maravilhoso 2020 para os que aqui comparecem. Paz, alegria e saúde para todos e para as famílias.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 16 de dezembro de 2019

A PIRRALHA E OS DESOCUPADOS PIRRACENTOS

 

 

A PIRRALHA E OS DESOCUPADOS PIRRACENTOS

Greta Thunberg – a “pirralha pirracenta”

O assunto virou mote. Sem valor nenhum, o assunto virou mote para a grande maioria de desocupados que deviam estar catando folhas secas, capinando o mato, banhando cachorros, ou lavando calçadas. É uma absurda falta do que fazer.

Sim, por que as viúvas do Kid Nove Dedos, que acabou de ficar sem a moradia oficial e como não tem mais o tríplex ou o sitio de Atibaia, vive vagando e provavelmente dormindo pelas calçadas da vida, ao tempo que aproveita para falar merda e pregar violência, pegaram o Jair Messias Bolsonaro para Cristo e fizeram e continuarão fazendo uma tempestade com apenas um copo d´água.

Pois, em vez de cuidar da própria vida, a pixoxotinha, kid, mirim, pequena, miúda, e outros tantos adjetivos que o nosso regionalismo brasileiro conhece e fala para designar uma criança, Greta Thunberg ficou ofendida por ter sido rotulada de “pirralha” pelo já reeleito Presidente da República Federativa do Brasil.

E, a partir daí, os “do contra” que divulgam e fazem estardalhaços até por conta de um peido fedorento que B-17 deixe sair pelo furico, estão mandando brasa, propondo cassação por falta de decoro, por desrespeito à sua eminente pirralha Gretinha. Absoluta falta do que fazer.

Entre os “do contra”, muitos precisam ir ao Aurélio. Se forem, lá, com certeza encontrarão:

“Pirralha – S. f. Bras. E prov. Lus. 1. Menina pequena; criança, guri. 2. Indivíduo de baixa estatura.”

Os fatos da semana mostram apenas que, o maior e provavelmente único problema do Brasil, é o brasileiro. Mau, praticando males. Seja contra quem for, que ele não simpatize. Não quer nada com “política”, mas politiza tudo. Tudo tem que ser politicamente correto.

Desemprego? Não existe. Existe, isso sim, quem não queira trabalhar ou não tenha qualificação para isso.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 09 de dezembro de 2019

O SER HUMANO E SUA DECREPITUDE

 

 

O SER HUMANO E A SUA DECREPITUDE

A evolução teorizada por Charles Darwin não está dando certo

Durante muitos anos, os livros e as escolas ensinaram que, “segundo Charles Darwin, a espécie humana nada mais seria que uma espécie em evolução.” Ainda hoje, afirma-se que o homem (espécie) teve como ancestrais, milhares de anos-luz atrás, o macaco.

Hoje, percebe-se que, se isso tem algum fundo de verdade, a evolução está numa “cadeia circular”, haja vista que o homem (espécie) no dia a dia, vem demonstrando que está “involuindo” e, célere, está se transformando em animal. Está voltando a ser o que um dia pode ter sido.

Isso por que, os fatos do dia a dia, nos levam a imaginar isso. As ações de violência praticadas pelo homem, não nos asseguram que, um dia, ele foi animal e continua evoluindo. Cada dia o homem é mais animal. Suas atitudes nada têm com atitudes de um ser humano.

Nem mesmo a “tecnologia” confirma a evolução humana

Mas, Darwin sempre afirmou nas suas teorias que, embora não possuísse elementos comprobatórios, nunca teve dúvidas que a espécie humana descende do macaco.

E aí vem à mente aqueles momentos cômicos da Escolinha do Professor Raimundo, programa veiculado pela TV Globo sob o comando de Chico Anysio, onde o personagem Pedro Pedreira, interpretado por Francisco Milani, com certeza afirmaria: “há controvérsias”!

E o próprio Pedro Pedreira perguntaria: “há algum registro de um macaco que tenha entrado numa jaula, depois de passar meses comendo bananas e macacas, tenha fugido da gaiola, depois de se transformar num homem”?

Ora, se não tem, “não me venha com chorumelas”!

Desconcertado, o “Professor Raimundo” não terá outra alternativa, diante dos fatos que a mídia mostra todos os dias, a não ser concordar com Pedro Pedreira.

Pedro Pedreira – “não me venha com chorumelas”

E o que contradiz tudo isso, factualmente?

Ora, na semana que passou, a televisão mostrou em seguidos dias, as ações de “seres humanos” que ainda vivem em dúvidas se descendem do macaco ou não, travestidos de policiais, agentes oficiais do Estado, com atitudes nada humanas, agredindo com chutes violentos, “um macaco” que estava caído no chão e indefeso.

É, a vítima caída no chão e continuamente agredida, só podia ser um macaco, com raiva, tamanha era a violência com que o “agente do Estado” desferia violentos chutes, e transmitia, naquele instante, a contradição à teoria de Charles Darwin.

Pergunta-se: o que é que um “humano” como aquele tem dentro da cabeça? O que o leva a fazer aquilo com um semelhante?

Noutra imagem, um outro “ser humano” desfere cassetetadas em quem por ele passa, enquanto ri, descaradamente.

Imaginemos qual pode ser a reação “daquele pedaço de não se sabe o que”, quando olhar noutra oportunidade aquelas imagens.

Seria o caso de voltarmos à Escolinha do Professor Raimundo, agora para relembrar outro personagem: Sandoval Quaresma, conhecedor de tudo, que sabia tudo, que respondia tudo, até que, na última resposta “faiava”, e concluía:

– “Mas eu estava indo tão bem”!

Sandoval Quaresma estava indo muito bem – mas “faiou”


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 02 de dezembro de 2019

JOÃO-DE-BARRO - O PASSARINZIM LINDIM DA VOVÓ

 

 

JOÃO-DE-BARRO – O PASSARINZIM LINDIM DA VOVÓ

Alguidá de barro

Como se fora um cenário para teatro previamente marcado, a cena se repetia toda vez que o relógio da vida, em vivas badaladas, tocava doze horas. Naquele panorama, em breve tocaria a primeira hora de um novo dia.

Era assim: no poleiro, estridentemente, aquele galo vermelho estofava o peite carnudo, abria o bico, e começava a cantar anunciando a madrugada e o novo dia que chegava. Senha dada, ali próximo, os bodes e cabras no chiqueiro se movimentavam e, aquela ladainha quase poética dos chocalhos acontecia, regida, nunca se saberá por quem. Todos, quase ao mesmo tempo. O que dava a ideia de algum comando.

E, a partir dali, o frege na cozinha de Doca Buretama não parava mais. Fogo de lenha aceso, lata velha pendurada com arame iniciava a fervura da água para o café. A frigideira velha esquentava ao mesmo tempo que recebia a massa gomada para os beijus. Na outra boca do fogão à lenha, fervia a água da panela para o cuscuz de milho feito no prato virado. Nata de leite e batata doce cozida já estavam postas na mesa.

Preparado, servido e tomado o café na casa de Doca, a luta continuava, agora para a limpeza da “louça” usada (uma meia dúzia de canecas de ágata e alumínio que, quando o líquido estava muito quente, “queimava os beiços” de quem bebia) e a continuidade com a das panelas para a preparação do almoço.

Nenhuma gota d´água podia ser desperdiçada, ainda que usada na limpeza da louça. Pensando e agindo assim, Doca colocou quase na ponta do “girau” da cozinha, um alguidá de barro, com estrume bovino servindo como adubo, para ver nascer e crescer ali um pé de pimenta malagueta.

Doca só tinha um trabalho com o alguidá: molhar com a água usada na lavagem de qualquer peça da cozinha. No mais, só se preocupava com ele, quando precisava colher uma ou duas pimentas para serem machucadas no caldo do peixe, do feijão verde, ou da carne bovina que se comia aos domingos. Só aos domingos.

A Triste Partida – YouTube

 

 

Além daquele alguidá com a pimenteira, Vovó cultivava cebolinha e coentro num canteiro bem cuidado. Coberto com um véu que ganhara da neta Conceição após o nascimento de Pepê, que durante anos serviu para evitar moscas durante o dia, e muriçocas durante a noite, enquanto dormia no berço. Aquele véu, no canteiro, servia para proteger dos pássaros e das galinhas, o coentro e as sementes que, secas, eram guardadas numa garrafa tapada com sabugo de milho e cera de abelha, e escondida na camarinha. Coisas do sertão, que só quem as viveu pode identificar.

Canteiro plantado com coentro e cebolinha

Eis que, certo dia, derrubando cajus maduros com uma comprida vara de marmeleiro, Vovó descobriu que um João-de-Barro construía ali um belo e bem arquitetado ninho. E a casa do “passarinzim” já estava concluída. Coisas que a mãe Natureza nos premia no viver do dia a dia.

A partir daquela descoberta, ela acrescentou à sua “prole passarinheira” mais uns filhotes, e o “passarinzim lindim” ganhou novo status de proteção, adoração e bem-querer. Era “meus bixins pra cá, meus bixins pra la´!

Mas, como sempre houve e haverá por toda a eternidade do universo, o dedo de alguém que atrapalha, contra a mão de alguém que protege a nós e a tudo, o fatídico, um dia aconteceu.

João-de-Barro construindo a casa

Terminado o almoço de um certo domingo, quando todos se preparavam para a madorna vespertina, Doca, que não tinha o hábito de guardar sobra do almoço para o jantar, ao terminar de lavar a louça, resolveu molhar a pimenteira do alguidá com toda a água usada que juntara. O alguidá abriu, quebrou e espatifou-se no chão fora do girau. Doca arrodeou, e só então percebeu que parte do fundo do alguidá não existia mais. Havia um buraco enorme.

E sabe onde estava o barro tirado do fundo do alguidá? No galho do cajueiro, ora! Transformado no ninho do “passarinzim lindim”!

De filho da puta para mais alto, foram os impropérios que o “passarinzim lindim” foi obrigado a escutar. Tem ouvidos, sim.

Incontinenti, Vovó pegou a mesma vara que usara para derrubar cajus, com a ânsia de destruir aquilo no que fora transformado o seu belo, servil e antigo alguidá que ganhara de presente de aniversário.

Mas, como o bem também existe em qualquer lugar, na primeira paulada dada na casa do João-de-Barro, Vovó escutou um piado diferente do cântico que escutava sempre. Como Pepê estava passando o domingo com ela, pediu para o menino “assubir” naquele cajueiro e espiar o que acontecia.

– Vó, tem quatro “passarinzim” novos no ninho!

Filhotes do João-de-Barro

– Ô meu filho, intãosse desça daí. Deixe os bixins crescerem e percurarem a vida deles. Afinal de contas, um alguidá véio num seuve mermo é pra nada! Coitadinha da minha pimenteira!


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 25 de novembro de 2019

QUEM CUIDARÁ DAS NOSSA CRIANÇAS?

 

 

QUEM CUIDARÁ DAS NOSSAS CRIANÇAS, E LHES EMBALARÁ NAS REDES?

Pais vão ao trabalho e crianças ficam “soltas”

Empurrada pelas “necessidades” de consumo desnecessárias, semeadas pelas teorias do capitalismo, nas quatro ou cinco últimas décadas, a família atendeu o chamamento, e permitiu ser dividida ao meio, para correr em busca do nada. Mas que provocou o “status quo” que vivemos hoje, na prática. O desmoronamento familiar, e a proliferação da violência em todos os níveis sociais, são ventosas do capitalismo enganador.

As famílias dos dias atuais não se reúnem mais para o café matinal, para o almoço ou para o jantar. No máximo “se encontram” ao redor de mesas, entre churrasco e cerveja – mas, com a grande maioria dando total atenção aos telefones celulares. As conversas desapareceram.

Acreditando numa mentira, aquela mãe “do antigamente” que se dedicava à família aceitou sair de casa para algum tipo de trabalho, acreditando, também, que o que poderia ganhar pudesse ajudar na manutenção e melhoria do orçamento familiar. Pode até ser. Entretanto, ao “sair de casa” para fazer algo que não sabe e para o qual não está preparada, a mãe se expôs, largou os filhos à sanha dos predadores sociais. E a melhora financeira não saiu do zero.

A partir dessas situações, ou ela se prontifica às realizações de jornadas duplas (ou triplas, se resolver voltar à escola no período noturno – essa uma boa decisão), ou vai somar aos números manipulados pelos estudiosos do convencimento de que, o ter é melhor que o ser: capitalismo puro e perverso.

Vítimas de falácias (ainda que com excelente nível cultural e de informação), há mulheres que, equivocadamente, chamam essa saída de casa para o trabalho, de “empoderamento”. Pois sim!

Por conta disso, resolvemos “criar essas duas situações” tão corriqueiras e verdadeiras em meio aos nossos dias.

I

Cinco da manhã. A movimentação na casa de Doca e Domingos é intensa. No banheiro, Domingos toma o banho matinal no início da preparação para ir ao trabalho. Dominguinhos, toalha no ombro e escova na mão, espera sua vez de ir ao banheiro.

Na cozinha, Doca termina os preparativos para a primeira refeição (do marido e do filho) dos dois. Poucas frutas (apenas banana e mamão), beijus, café preto no bule, manteiga real – os dois sentam à mesa e se servem.

Doca, de abano numa da mãos, tenta esquentar o ferro a carvão colocado na janela. Precisa “passar o ferro” nas camisas de Domingos e Dominguinhos – um vai ao trabalho na fábrica de óleo, o outro vai à escola municipal com pouca estrutura e poucas aulas.

Café tomado, começa acontecer a rotina diária. Domingos prepara a bicicleta, abre o portão da casa e aguarda Dominguinhos, que vai ser levado de “carona” até a escola e, de lá, Domingos seguirá para o trabalho. Ao meio dia o trajeto da volta será o mesmo de cada dia.

Mesa posta para o almoço simples, família toda à mesa. Pouca conversa, mas a auréola do respeito se faz presente. Antes, a oração para agradecer a refeição, saúde, paz familiar e, principalmente, pela manutenção do trabalho que continuará alimentando a todos.

Domingos come rápido, pois quer fazer um pequeno reparo na bicicleta, antes de pegar o caminho para a fábrica. Dominguinhos faz a assepsia, e vai descansar um pouco, antes de cuidar do “dever de casa” da escola, que será fiscalizado pela mãe, Doca.

Louça usada lavada. Casa limpa e o início da preparação do jantar. Enquanto Doca escuta a novela nas ondas do rádio, Dominguinhos conclui o “dever escolar de casa” e pede para brincar um pouco com os amigos da rua. Doca consente, mas avisa que estará vigiando.

Crianças do passado aproveitavam momentos de lazer

Cinco horas da tarde. O movimento na cozinha é nenhum. A movimentação na rua, na frente da casa é a mesma de todas as tardes. Doca, sentada na cadeira de balanço, remenda as camisas de Domingos, e Dominguinhos brinca feliz, com os amigos.

Passam anos. Domingos ganha aposentadoria. Após de um dia de afazeres domésticos, duas cadeiras de balanço estão à frente da casa. Doca e Domingos conversam e esperam a chegada de Dominguinhos da faculdade. Último período de Medicina.

Chega 24 de dezembro. Véspera de Natal. Mesa posta para a ceia. Castanhas, rabanadas, nozes, vinho, um pernil suíno bem assado. Amigos da família e familiares começam chegar. Dominguinhos chega com a esposa, e a ceia começa ser servida. Família feliz!

II

Sete horas da manhã. A movimentação na cozinha e no banheiro da casa de Caroline e Hugo é intensa. No banheiro, Hugo toma banho, iniciando os preparativos para ir ao trabalho. Huguinho, toalha e escova na mão espera sua vez, dedilhando o celular.

Na cozinha, Caroline inicia os preparativos para a primeira refeição (dela, do marido e do filho) da família. Frutas (morangos, bananas e mamão), torradas, café na garrafa térmica – os dois sentam à mesa e se servem. Huguinho continua no banho, e no celular.

Caroline, não se preocupa com a roupa do marido, Hugo; ou do filho, Huguinho. Tampouco se preocupa com lanche, pois a escola fornece merenda escolar. Assim, inicia a preparação para trabalhar – Vendedora de loja, com salário comissionado pelo que vende.

Café tomado, começa a rotina diária. Hugo arruma a mochila, e aguarda o ônibus da empresa. Huguinho, ainda no quarto, com o celular, sem ter certeza se terá aulas naquele dia. Caroline caminha para pegar o ônibus, sem dar a devida atenção à Huguinho.

Não há mesa posta para o almoço, por que ninguém almoça em casa. Sem conversa, sem a auréola do respeito presente. Todos fora de casa. A família está dispersa, sem reunião e os problemas do dia sem solução. Também não há como conceituar isso de “família”.

Hugo come rápido no restaurante do trabalho. Joga dominó no tempo que resta para o horário do almoço. Poderia ler um livro, haja vista que vai à escola de noite. Huguinho, longe de casa, passa o horário de descanso dedilhando o celular. Caroline vai ao shopping.

Jovem “largado” pelos pais chega em casa para o Natal

Em casa, a louça do café está por lavar. Casa desarrumada e não há jantar. Quando todos estiverem em casa, será pedida uma pizza e refrigerantes. Hugo demora chegar, Caroline, só Deus sabe onde anda. Huguinho com os amigos de comportamentos duvidosos.

Vinte e duas horas. Todos já em casa, cada um com o celular. Ninguém conversa. Na rua, na frente da casa, tudo como nos outros dias. Caroline não demonstra interesse em saber se Huguinho fez o dever de casa. Joga no celular, enquanto Hugo fala com um amigo.

Passam anos. Hugo é demitido do trabalho e está desempregado. Caroline fez bobagem, se envolveu com o patrão. Foz demitida após aprontar um barraco durante o expediente da loja onde trabalhava. Huguinho, teve problemas na escola, onde nunca aprendeu nada.

Chega 24 de dezembro. Véspera de Natal. Não há mesa posta para a ceia. Nem castanhas, rabanadas, vinho. Sem dinheiro, Hugo se nega a sair de casa. Huguinho, cumprindo prisão por tráfico de drogas, vai passar o Natal em casa, usando tornozeleira eletrônica.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 18 de novembro de 2019

A COLHEITA

 

 

A COLHEITA

O milho na colheita manual

O bornal apoiado no ombro do lado esquerdo; o saco, do lado direito. Caminhar lento, mas definido. Caminho do roçado. Colher, como recompensa do suor escorrido pelo rosto, e resultado de muito trabalho, o milho e o feijão.

O alimento da prole. Cultivado cada pé, como se filhos biológicos fossem. Ali foram semeadas a esperança, a fé, e a dignidade em poucas sementes. Nascidas, crescidas e vigiadas pelos espantalhos que se tornariam coniventes com as aves na propagação das espécies. É a vida. São os ciclos que o universo nos proporciona.

Uma espiga. Outra espiga e mais outra. Uma vagem de feijão, outras vagens. Quiabo, mais quiabos e, agora, o agachamento na colheita do maxixe. Outro maxixe, mais outro. A colheita transformada em bônus.

Uma abóbora. Uma melancia – o caçuá está quase cheio. É hora de voltar à casa, com o que produziu o trabalho diuturno, de sol a sol. Sem domingos ou feriados.

A colheita. Fruto da boa semente, do trabalho digno e da esperança e fé em Deus.

* * *

SEXO COM O MAR

A mulher “esperando” as ondas

Se sou areia e posso me molhar,
Quero a magia da onda do mar,
Lambendo minhas entranhas
Que só o tempo enxugará.

Mas, relva que sei que sou,
Quero tua luz, clareando
O cogumelo que eu poderia ser.
De alma e corpo transparente.

Lá vem ela, a onda, me molhar.
Se não me molhar total, espero.
Pois sei que vais voltar
No vai-e-volta, até molhar.

Molhar o olhar, no mar
Molhar o corpo e a alma, no mar
Molhar o sonho e o pensar
Molhar minhas entranhas, me fazendo amar.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 11 de novembro de 2019

A CRISTA DE GALO E O VRRRRUUUUM DA INHAMBU

 

 

A “CRISTA DE GALO” E O VRRRRUUUUM DA INHAMBU!

Pirão de farinha seca da “crista de galo”

Era habitual, antes de botar a tramela na porta do galinheiro, auxiliada com a claridade da lamparina, conferir se todas as galinhas e os três galos estavam ocupando seus devidos e tradicionais lugares. Isso, era o que faziam, pela ordem natural da vida, a minha bisavó Naname, minha avó Raimunda, e minha mãe Jordina. Tradição familiar.

E, naquele começo de noite, após a contagem, o caixa não fechou. Os números não batiam, haja vista que dois lugares estavam “desocupados”. Mas, pelo menos naquela noite, quem estivesse fora do galinheiro continuaria assim.

– Tá fartando duas galinhas, Zezim! Amanhã bem cedim a gente percura elas!

Recolhemos a lamparina, fechamos a tramela do galinheiro e depois a porteira do chiqueiro, e voltamos para casa – pois agora precisávamos forrar o estômago antes de dormir. Foi, na volta para casa, que descobri que Vovó trazia numa das mãos, três ovos que havia pego no galinheiro.

– Zezim vá dizê pro seu Avô prumode não drumir, que vou fazê o dicumê!

Ovo cozido com a gema mole

O “dicumê” a caminho da preparação, era a famosa “crista de galo”, alimento emergencial que se consome há tempos em muitas casas desse país. E, não é “alimento” apenas para os pobres. Bem preparado, tem a preferência de muita gente.

Panela (no nosso caso, panela de barro) no fogo. Água, sal a gosto, pimenta do reino moída, coentro e cebolinha picados, uma colher de sopa de banha de porco ou manteiga real, ou, ainda, manteiga de garrafa.

Tão logo começa a fervura da água, com cuidado coloca-se um ovo sem casca e espera-se que a clara cozinhe. Em seguida, retira-se o ovo com cuidado para não “espocar” a gema. Separa-se, e repete-se a mesma coisa com quantos ovos forem necessários.

Cozidos os ovos, faz-se o pirão (angu, para muitos) e serve-se ainda quente. No prato, sobre o pirão, acrescenta-se os ovos, em seguida “espoca-se” os ovos permitindo, aí sim, que a gema cubra o pirão. Sirva-se!

Inhambu – ave da roça

Ao amanhecer do dia, tão logo o galo começa cantar, a rotina diária da casa recomeça. Café preto para uns, com leite para outros, batata doce cozida, cuscuz com nata de leite, abóbora cozida, à qual se junta o leite “vaquino” – eu sempre preferi o leite “caprino” – e vamos à luta.

Terminado o café, foice na mão, bornal no ombro, chapéu na cabeça e é iniciada a procura das duas galinhas poedeiras pertencentes ao “rebanho” da matriarca. A gente sabe que, “rebanho” é mais usado para os bois.

Poucos minutos de procura, e já se percebe que uma chuva fina caiu durante a noite, formando um orvalho poético aos olhos de quem gosta do verde das folhas, em detrimento do amarelado propício às queimadas, possibilitando que a brisa refrescante massageie o rosto e faz aspirar aquele cheiro gostoso e inconfundível da terra molhada.

Repentinamente, aquele momento poético de tantos versos gonçalvinos é interrompido na primeira curva que a vereda do caminho oferece na direção do mato à dentro, e do açude novo.

– Vrrrruuuummmmm!

– Vrrrruuuummmmm!

Provocando um grande susto, mas avisando que ali existia vida, um belo casal de inhambu levanta voo, transformando as asas em poderosas turbinas movidas pela natureza da vida e do universo.

O casal de inhambus aproveitava algumas sementes ainda em flor, que a neblina e o peso do orvalho haviam derrubado e apareciam limpas no caminho.

Andamos procurando a manhã toda. As duas galinhas poedeiras da Vovó não foram encontradas, sem deixar dúvidas que, mais uma vez, a raposa se fartara na preservação das espécies.

Ficava a certeza que, a partir daquele dia, o dicumê noturno feito com “crista de galo” teria alguns ovos a menos.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 04 de novembro de 2019

O RELÓGIO DE ALGIBEIRA

 

 

O RELÓGIO DE ALGIBEIRA

Relógio de algibeira presenteado ao meu pai

Nasci no dia 30 de abril. Na minha família, também nasceram no mês de abril, meu irmão João Hélio, no dia 8; minha Mãe, Jordina, no dia 14; meu irmão caçula, Jorge Luiz, no dia 23. Depois, chegaram minhas duas filhas do primeiro casamento. Ana Karina, dia 20; e Annya Karênina, dia 15.

De todos da família, apenas eu recebia presente de aniversário. Explico: dinheiro sempre foi fartura entre nós. “Fartava” sempre para tudo, incluindo as necessidades domésticas básicas. E, dinheiro de pagamento salarial sempre chegava no último dia de cada mês. Dia 30. Entenderam, tenho certeza.

Meu Pai aniversariava no dia 26 de outubro, e não fazia muita questão de receber presente de aniversário, até por que, para comprar esse presente, tínhamos que ter dinheiro. E, o dinheiro que tínhamos, era sempre Ele quem nos dava. Por esse ou aquele motivo, era Ele quem nos dava.

Do dia 30 de abril, até o dia 26 de outubro, se passavam seis meses, ou quase isso. Como eu era o único que recebia presente do meu Pai, eu também era o único a presentear-lhe. Nada mais justo. E, como eu não trabalhava, para presenteá-lo, precisaria “juntar os trocados” que ele próprio me dava. Era, digamos, como se Ele estivesse “poupando”.

Ele até me dava o porquinho de presente, e, às vezes, até depositava algumas moedas, daquelas antigas de cinquenta reis, dois mil reis, dinheiro corrente daqueles tempos antigos.

Tudo mudou quando a adolescência bateu à porta. As doações do meu Pai rarearam e, juntar trocados ficou mais difícil. Eu precisava dar o meu jeito, pois a mentalidade da retribuição permanecia, e eu continuava ganhando meu presente todo dia 30 de abril.

Lá pelos meados do mês de setembro, eu dava aquela sacudidela no porquinho, e podia perceber que ainda eram poucas as moedas. Insuficientes para comprar a tradicional “caixa de lenços Premier” que, aparentemente, meu Pai gostava tanto. Corria e quebrava o porquinho de cerâmica. Só então descobria que precisava “fazer dinheiro”.

E agora, o “fazer dinheiro” seria diferente daquele dinheiro que fazíamos com maços de cigarros vazios que tanto usávamos na infância. Tinha que ser, e precisava ser “dinheiro mesmo”.

Pegava as moedas do porquinho, comprava dois cocos e duas rapaduras. Corria à fazer cocadas. Cocadas das pretas. Aquelas preferidas da maioria.

A primeira leva das cocadas não dava para quem queria e já havia provado. Era de uma doçura incomparável, comprovando que havia componente mais doce que o açúcar ou a rapadura.

Cofrinho de cerâmica onde eu juntava os tostões e os milréis

O dinheiro produzido com a venda tinha uma destinação. Parte serviria para cobrir a despesa do investimento – uma espécie de capital de giro – e outra parte voltava para novo custeio. O que configurava “lucro”, era depositado em algum novo lugar, até que um novo porquinho fosse comprado.

Mais cocos. Mais rapaduras. Mais cocadas e mais possibilidades de novo faturamento. Por alguns dias, meses e anos, fui considerado o “Rei das cocadas pretas” – título e reconhecimento pomposo e provavelmente merecido.

Entre uma porção de cocadas e outra, nunca foram esquecidas as obrigações escolares, nem a premiação dos momentos de lazer que toda criança ou adolescente faz jus. Estudar, trabalhar e brincar – literalmente nessa ordem.

Finalmente, o dia 26 de outubro se aproximava. Sem shopping, sem lojas de vitrines bonitas, a solução era esperar a chegada de um sábado (dia sem aulas) para, finalmente, comprar aquela caixa de lenços que ficava escondida em lugar inacessível pelo aniversariante. No dia tão esperado, aquela novidade que se repetia a cada ano, era mais uma vez praticada.

Cocada das pretas – minha primeira impressão de empreendedorismo

Mas, de acordo com o ditado popular, “não há mal que dure para sempre, nem bem que nunca acabe” – e aquela alegria momentânea, simples, coroamento da relação de um Pai com um filho, também estava com as horas contadas.

A adolescência trouxe junto, o compromisso de servir à Pátria, e a responsabilidade de pensar num salto maior nas obrigações escolares: o Vestibular, com a chegada do curso científico no Liceu do Ceará.

O tempo passou, e surgiu a primeira namorada. Aquela que precisava ser visitada na própria casa, com assento em lugar de destaque na sala principal. Namoro firme, e o início do conhecimento prático da vida. Continua correndo o tempo. Célere. Como se fosse uma competição olímpica e a necessidade de superar recorde.

O primeiro emprego remunerado. Não tão bem remunerado, mas a recompensa do esforço para alcançar uma aparente independência.

O ingresso no curso científico arregalou os olhos para o mundo, e aguçou a sensibilidade para o que realmente é a vida. Novos amigos, emprego novo e agora ganhando o triplo do que ganhava no emprego anterior. Novo horizonte e um mundo que, se não era colorido, tinha tons firmes e definidos.

O bom salário trouxe o engajamento com a política estudantil, e novas ideologias. A coragem de participar politicamente das coisas da vida, e a ingênua perspectiva de consertar o mundo. A eleição para compor a diretoria do Sindicato dos Telegráficos, e a politização ideológica, até o envolvimento total na prática diária.

Eis que chega o dia 31 de março de 1964. Tudo muda em pouco menos de 24 horas. Os céus ficam escuros e a chuva não cai. Nuvens negras. Nuvens pesadas.

Entre o dia 31 de março de 1964, e o próximo dia 26 de outubro, havia uma distância muito grande, e não havia mais dois cocos, duas rapaduras nem algumas boas cocadas das pretas. Com certeza, aquela caixa de lenços seria esquecida por algum momento.

Mudar para outro lugar, foi a ideia que veio à cabeça. Sem demora, um acordo para a demissão da diretoria do Sindicato, o que possibilitaria uma negociação com a Western, e o recebimento de todos os direitos trabalhistas. Tudo acertado e, enfim, um bom dinheiro na conta bancária.

Passagem terrestre comprada, pois não havia problema para uma viagem interestadual. Malas prontas, namoro desfeito, tudo encaminhado.

Era chegada a hora da despedida em casa. Uma lembrança forte e marcante substituiria aquela caixa de lenços. Fui a uma relojoaria e, com dinheiro suficiente, comprei um relógio de algibeira. Um dia antes da viagem, resolvi entregar o presente à quem só aniversariaria no dia 26 de outubro, muito distante. Mas a pressão das nuvens negras estava próxima.

Entreguei o presente e olhei firme nos olhos do meu velho Pai. Foi a primeira vez que vi lágrimas escorrerem pelos olhos dele, e a última vez que nos vimos e abraçamos fortemente.

 


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 28 de outubro de 2019

O TREM QUE TRAZIA – E O ÔNIBUS QUE LEVAVA

 

 

O TREM QUE TRAZIA – E O ÔNIBUS QUE LEVAVA

O trem avistado desde a Estação Barracão

Quando chegava o mês de dezembro, os alunos que compunham a série do curso ginasial se alvoroçavam. Uns, vibravam de alegria pela aproximação das provas finais do ano letivo e o início das férias escolares, outros, que haviam estudado pouco ou quase nada aprendiam, ficavam apavorados com possíveis reprovações. Provas escritas e orais, exigiam o somatório da média 5. Abaixo disso, era “reprovação consumada” e a certeza da repetição de tudo no ano seguinte. Nunca repeti e sempre alcancei nota acima da média. Mas, muito longe de ser “top” entre os melhores alunos da classe.

A última prova oral do ano letivo, tinha ares de verdadeiro “chute na bunda” e, em seguida, pernas para que te quero.

Neste exato momento, quando estou escrevendo este texto (dia 25 de outubro de 2019), me veio à lembrança uma dúvida: não lembro se, naquele tempo o meu pai se dirigia ao colégio “para renovar a matrícula”, como é feito hoje. A “rematrícula” era automática, diferente das muitas inovações imprestáveis dos dias atuais.

No dia seguinte era fazer a pequena mala de madeira forrada e coberta com papel parede, colocar a escova de dentes, o creme dental Eucalol, a baladeira, o pião e o bornal de carregar pedras, uma latinha de Vick Vaporub e uma “roupa de ir à missa aos domingos”, comprar o bilhete do trem e esperar aquele maravilhoso apito da partida. Os trilhos, mesmo existindo algumas paradas programadas ou desvios, só levavam à um destino: a Estação de Barracão, lugar que jamais será apagado da memória de muita gente.

Estação Barracão em abandono após anos de utilização

Quando a máquina que conduzia os oito vagões de carga e passageiros se aproximava da estação, longe ainda, mas na última curva antes dos duzentos metros de reta, muitos punham as cabeças para fora das janelas na tentativa de identificar a parentada que, atônita, esperava na estação. Acenos mil, beijos muitos.

A alegria da chegada era transformada naquele “ruge-ruge” de abraços e encontros com bagagens e fardos de encomendas para esse ou para aquele. Um momento ímpar de alegria e contentamento pelo reencontro – ainda que por apenas dois meses das férias escolares.

Hoje, lembro bem, a ansiedade que enfrentávamos quando faltavam três ou quatro dias para o início das férias, fazia a demora parecer um século – e era diferente, também, com a duração dos dois meses de férias que, parecia ser menos de uma semana.

Baladeiras, passarinhos, banhos no açude, assar castanhas de caju, defecar trepado na mangueira ou cajueiro, tudo contava pontos naquela curta vivência das férias. Quando menos esperávamos, faltava menos de uma semana para o final daquele período marcante.

As aulas recomeçavam sempre numa segunda-feira (por que????) e, no sábado já tínhamos que estar de volta em casa para a preparação da volta às aulas: cortar o cabelo, provar e aprovar o fardamento se fosse novo, e encapar os livros e cadernos novos.

A sexta-feira, ainda no interior, era estafante e cansava mais que os quase dois meses de brincadeiras. Caminhar até o rodovia para tomar o ônibus que levava de volta à casa.

O ônibus da volta das férias era um verdadeiro luxo

Sem muita reclamação, a rotina das aulas no início do ano não mostrava diferença. Só mesmo nas caras dos professores, ou nas matérias que mudavam a cada ano. Química e Física só estudávamos a partir da terceira série ginasial e no científico. Antes, era Ciências Naturais. Cada final de mês, provas escritas. Provas orais só no final de cada ano, sempre após as provas escritas. E assim, aparentemente, tudo era igual até o final do ano. Exceção às férias do meio do ano, sempre em julho.

A ÚLTIMA: Minha santa Avó não era puta. É, puta, aquela que “renova o óleo masculino num cabaré” ou intramuros de quatro paredes. Mas, também não tinha nenhuma aproximação com a agora Santa Dulce dos Pobres. Mulher liberal e liberada antes mesmo do nascimento de Leila Diniz. E minha falecida e santa Avó tinha uma característica que, quiçá nunca tivesse sido só dela – ela, vovó, nunca usou calcinha, tampouco calçola. E, tirada da cabeça dela, tinha uma explicação para esse comportamento:

– “Calcinha ou calçola é algo que “guarda”. E por que diabos a gente tem que guardar alguma coisa que gosta e sente prazer em dar?”


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 21 de outubro de 2019

LICEU DO CEARÁ – 176 ANOS DE MUITA QUALIDADE

 

 

LICEU DO CEARÁ – 176 ANOS DE MUITA QUALIDADE

Liceu do Ceará chega aos 176 anos de existência

Fundado no dia 19 de outubro de 1843, o Liceu do Ceará é a quarta mais antiga instituição de ensino público do Brasil, país que já atingiu 519 anos desde a descoberta no dia 22 de abril de 1500.

De acordo com o livro “O Liceu do Ceará em Cem Anos”, do autor Hugo Vitor, a escola é a 4ª mais antiga do País, fundada no ano de 1843. A instituição foi criada pelo Marechal José Maria da Silva Bitencourt, que era “engenheiro militar e foi o 13º presidente do Ceará e Comandante das Armas”, e dessa fundação como legado, os muitos diretores que por ali passaram, mantiveram apenas a rigidez disciplinar para professores e alunos. Sem viadagens, sem baitolagens – aluno com “brinquinho” na orelha, não entra. Tem todo o direito de ser gay, mas vai ser gay fora do colégio.

Ainda hoje, usando a linguagem sem verniz, “o Liceu do Ceará é uma escola onde a frescura e a viadagem não entram”. É uma escola para macho. Disciplina rígida, sem aderir às frescuras atuais que permeiam na educação brasileira, o Liceu do Ceará é o principal formador de mais de 70% dos profissionais renomados do Ceará.

O primeiro diretor da escola foi o padre Thomaz Pompeu de Souza Brasil. Já o primeiro prédio do Liceu foi inaugurado em 1894, no Centro de Fortaleza, e lá permaneceu até 1937, quando se mudou para o seu atual endereço, na Rua Liberato Barroso, no bairro Jacarecanga. O diretor mais longevo e admirado por sua rigidez direcional, sem deixar de ser justo, foi Boanerges Cysne de Farias Sabóia. Admirado e respeitado até pelos mais “peraltas” alunos.

Professor Boanerges Cysne de Farias Sabóia com sua espoa – ele foi o mais longevo Diretor do Liceu do Ceará

Rigidez e disciplina suportáveis – Quem ler hoje nas redes sociais os pais que perderam o controle e o domínio sobre os filhos protestarem contra “escolas públicas com orientação militar” – sem que a matrícula de quem quer que seja venha ser algo obrigatório – reclamar da qualidade da escolarização apenas para
se parecerem “contra o Governo”, não tem a menor ideia de que um dia (e até hoje é assim!) foi a disciplina implantada no Liceu do Ceará.

Aluno que agride professor, no Liceu do Ceará, nunca foi “suspenso”. Sempre foi “expulso” e os pais nunca compareceram “armados de revólver” para reclamar isso ou aquilo. Dentro do colégio, a disciplina sempre foi rígida – sem ser “militarizada”.

Estudei no Liceu por 7 longos anos. Ali estudei Canto Orfeônico (Música), Latim, Desenho e até “Esperanto”, sem nunca ter sabido qual a utilidade dessa matéria. A média para “aprovação”, era 7. Quem ao final do ano, após as provas escritas e orais não alcançasse a média 7, estava “reprovado” e “c´est fini”!

Foto 3 – Veja a disciplina durante um café da manhã numa data comemorativa

A maioria que concluía o Terceiro Ano Científico (ou Clássico) no Liceu do Ceará, quase nunca era “reprovada” no Vestibular para qualquer universidade – por que, quem concluía, sabia o que fora ensinado. Estava preparado para enfrentar o Vestibular.

Por isso, nenhum pai saía de casa para agredir Professor, pois sabia que aquela rigidez tinha um objetivo: o aprendizado, sem frescuras, sem qualiragens.

Era terminantemente proibido a qualquer aluno de qualquer série, vestir o uniforme do colégio fora do horário de aulas. Quem fosse flagrado usando a calça (cáqui, com duas listas azuis em cada perna) com o objetivo de pagar meia passagem nos transportes coletivos ou nos cinemas, era punido.

Os “bedéis” – funcionários que fiscalizavam as possíveis indisciplinas de alunos pelas ruas nas saídas dos horários de aulas – eram temidos e respeitados.

Outros tempos!

Parabéns ao Liceu do Ceará pelos 176 anos de excelentes serviços prestados à escolarização do Ceará e do Brasil.


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 07 de outubro de 2019

A VIDA COMO TEM SIDO E COMO TEM NOS LEVADO

 

 

A VIDA COMO TEM SIDO E COMO TEM NOS LEVADO

Sem que possamos assegurar que a vida em sociedade teve algum tipo de progresso ou evolução, podemos garantir, isso sim, que muita coisa já não é como era cinquenta anos atrás.

Houve mudança, sim. Num somatório, algumas eram necessárias, outras nem tanto. Um exemplo perceptível, é que, com o progresso das pesquisas e da ciência em todos os mais evoluídos rincões do mundo, há quase um século se tenta descobrir a cura do câncer, e não se consegue.

A praticidade de algumas coisas melhorou. Alguns direitos foram conquistados – mas ainda não conseguiram descobrir “por que um ser humano precisa matar outro”. Os irracionais não se matam entre as espécies semelhantes.

Torçamos para que, pelos muitos dias que ainda teremos pela frente, as coisas e as relações humanas continuem melhorando.

Deixando a ansiedade de lado, trato hoje de dois momentos diferentes enfrentados pela sociedade vivente, que se dilacera, que se entretém das mais diferentes e estapafúrdias formas – mas diz ao mundo que se ama.

I – A CACIMBA

A cacimba e a tradição familiar da roça

Em muitos desses grotões interioranos Brasil à fora, uns chamam de cacimba, outros de cacimbão, e outros tantos de cisterna. Na realidade, é um buraco cavado no chão, que vai encontrar o lençol freático e um veio contínuo d´água. Me acostumei chamando de cacimba, embora Vovó quisesse que chamássemos “poço”. E ela “mandava” em nós. Sem reclamações, ou as frescuras atuais. Quem não obedecesse, estaria comprando uma briga que, no futuro, acabaria perdendo. Nem que fosse um gostoso pedaço de rapadura, ou algumas colheradas a mais, daquele gostoso caldo do almoço dominical , colocadas com carinho no prato de barro.

O que sabemos mesmo, era que, ficávamos horas e horas “puxando água” para encher os tonéis que os jumentos carregariam. Eram os “caminhos d´água” que tornavam o nosso trabalho uma poesia da eficiência, dizendo da nossa importância ao som do “roém, roém, roém” provocado pelo contato do breu com a madeira desgastada e da corda de sisal com o carretel (roldana).

Algum dia, na minha infância, puxar água para encher o pote de alguém, já foi uma forma de trabalhar para ganhar umas moedas de mil réis. Era comum faltar água em algum lugar, e as donas das casas da vizinhança nos pagavam para enchermos os potes. Com a merrequinha que ganhávamos, comprávamos revistas, íamos ao cinema, e comíamos pipocas antes do início da sessão da tarde. Era, digamos, o colorido da vida.

II – A DIFERENÇA – ÀS VEZES, “A FAMÍLIA” DESEDUCA!

Alojamento de um “Colégio Militar”

Volto a bater na tecla em caixa alta. Educar é uma coisa, e cabe à família. Entre as muitas tarefas pertencentes à família, está o “impor limites” (com o peso da palavra, mesmo: “impor”) e, nos dias atuais, os pais aprenderem e terem que dizer “não”.

As gerações passadas foram criadas de formas diferentes, sem a obrigatoriedade de dizer sempre o “sim”, como acontece nos dias de hoje. Era o “não” – e estamos conversados! Adota quem quer. Mas, quem não adotar, vai correr o risco de se dar mal. E, quase sempre, isso acontece.

Escolarizar compete à escola – neste caso, algumas escolas, inadvertidamente, estão tomando para si o papel de educar. E é aí que mora o perigo, e nisso residem os mais catastróficos conflitos no dia a dia do jovem.

Entre os primeiros sinais dessa tentativa de inversão dos papeis, está a quase imposição de que os jovens estudantes tratem as(os) professoras (es) como “tia” (tio). Ora, “tio”, é o irmão do pai ou da mãe – e nem vamos caminhar por ali, pois seria discutir a mediocridade ou o sexo dos anjos.

Quarto de dormir de jovens “educados” pelas famílias brasileiras

Mas, o que nos traz aqui, nestes poucos parágrafos é a acirrada discussão da sugestão e não da obrigatoriedade de matricular ou não, o(a) filho(a) numa escola com “orientação militar.” Como se isso estivesse sendo uma determinação. E não é.

Quem matricula o(a) filho(a) numa escola Adventista?

Alguém é obrigado matricular o(a) filho(a) numa escola adventista?

Sabe qual é mesmo o grande problema? É que a ideia vem do Governo Bolsonaro. E muitos que não votaram no 17, simples e ridiculamente, para mostrar que “são do contra”, estão tentando desconstruir a proposta. Repetimos: “proposta”! Não orientação.

É quase que a mesma babaquice (repito o termo chulo: “babaquice”) de ficar dizendo que “homossexualidade” é “orientação”, e não opção. Alguém orienta outrem para que escolha ser homossexual, para queimar a rosca?

Vai longe a pendenga. Duvido que, descumprindo as “regras” dos colégios com orientação militar, algum aluno se atreva a sair da cama sem deixa-la arrumada com os lençóis sem uma única rusga.

Diferente das camarinhas onde dorme e vivem os(as) filhos(as) de muitos dos pais atuais. Alguém vai querer exigir que o(a) filho(a) alinhe o quarto pessoal antes de sair de casa? Du-vi-d-ó-dó!


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo terça, 01 de outubro de 2019

AS OCUPAÇÕES DE UM TRIBUNAL SUPREMO

 

 

AS OCUPAÇÕES DE UM TRIBUNAL SUPREMO

Tem quem garanta que, a fala creditada anos atrás à Monsieur Charles De Gaulle (“O Brasil não é um país sério”), não seria de sua lavra. Mas, neste momento, isso não interessa.

A fala também não é tão importante, por ser algo que sempre soubemos. Sempre soubemos que o Brasil é o verdadeiro cocô do cavalo do bandido. Pior, não quer mudar esse status quo.

Duvidam? Pois sim. Jânio Quadros, durante a campanha para a Presidência da República, garantiu que, se eleito fosse, “varreria do País os corruptos e os ladrões”. Forças ocultas “obrigaram Jânio” a renunciar de livre e espontânea vontade.

E aí aconteceu o que muitos sabem. Passamos 21 anos num período de exceção, e dele saímos para uma democracia de araque – corroborada por uma ditadura jurídica praticada pelas instituições superiores. Manda quem pode, obedece quem tem juízo.

Eis que, de uma hora para outra surge Collor de Melo, garantindo que tomaria providências e, entre outras coisas, acabaria com os marajás. Dançou o bolero de Ravel, errando todos os passos.

E aí, após Itamar e FHC vieram os 16 anos de convivência com a merda. Merda vermelha – sem que jamais as instituições superiores do País tenham deixado de contribuir com percentual de pelo menos 90% para a situação. Todas as instâncias, sem exceção.

Hoje estamos num caminho bifurcado. E não adianta continuar dizendo que o “povo brasileiro não sabe votar”. Eu, com certeza, votei certo: não votei em ninguém!

O então presidente do STF – Joaquim Barbosa

Em 2009, o presidente do STF (Joaquim Barbosa) voltou a protagonizar uma dura discussão no tribunal, uma das mais acaloradas da história do plenário do Supremo. Durante o debate, Barbosa acusou o ministro Gilmar Mendes de manter “capangas” no Mato Grosso.

“Vossa excelência não está na rua, não. Vossa excelência está na mídia, destruindo a credibilidade do Judiciário brasileiro. É isso. […] Vossa excelência quando se dirige a mim não está falando com os seus capangas do Mato Grosso, ministro Gilmar. O senhor respeite.”

Ministro do STF Luís Roberto Barroso

O ministro Luís Roberto Barroso e seu colega de Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes protagonizaram um bate-boca, numa sessão que teve de ser interrompida pela presidente da Corte, Carmen Lúcia. Barroso disse a Gilmar que ele tem leniência com corruptos poderosos, principais protagonistas dos crimes de colarinho branco. O magistrado ainda disse que Gilmar não costuma trabalhar com a verdade, mas com ódio.

A discussão começou quando Gilmar desvirtuou o debate para dizer que Barroso mandou soltar José Dirceu, lançando suspeição sobre a decisão.

Após explicar o procedimento jurídico que levou Dirceu à prisão domiciliar, Barroso disparou: “Não transfira para mim esta parceria que Vossa Excelência tem com a leniência em relação à criminalidade do colarinho branco.”

Depois, Barroso ainda disse que Gilmar age como um juiz partidário e muda a lei de acordo com o réu, favorecendo aliados. “Vossa Excelência muda a jurisprudência de acordo com o réu. Isso não é Estado de Direito, isso é estado de compadrio. Juiz não pode ter correligionário.”


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 30 de setembro de 2019

TRUNFO É COPAS – NO JOGO DE SUECA

 

 

TRUNFO É COPAS – NO JOGO DE SUECA

Baralho de cartas COPAG o melhor mais tradicional

Parecia a repetição de uma peça teatral escrita por Plínio Marcos. Num cenário mental estabelecido, gravado até hoje. No alpendre lateral da casa, estavam armados uma mesa, quatro tamboretes com assentos de couro de bode, e, ao lado, o “reserva” balançava na rede, tocando o pé na parede para a tijubana pegar impulso. Esse “reserva” dificilmente entrava no jogo – a não ser que alguém precisasse ir ao banheiro e demorasse bastante.

– Corta!

Era o sorteado para embaralhar a primeira partida de sueca das dez ou mais, que seriam jogadas naquela tarde de domingo, logo depois da madorna pós-almoço, quem daria as cartas pela primeira vez.

– Qual é o trunfo?! Perguntavam os três jogadores.

– Copas!

Respondia o responsável pela distribuição das dez cartas para cada um dos jogadores.

Mancheia de “trunfos” (copas) – se fosse ouros tava lascado

A sueca é um jogo de cartas, jogado por quatro jogadores. À cada um serão distribuídas dez cartas. É hábito no Nordeste, jogar sueca em parceria de dois pares, e ganha o jogo, quem somar mais de 60 pontos – não entram no jogo as cartas 8, 9 e 10. A “sueca” é dada quando uma das parcerias não consegue somar nenhum ponto.

A cada início de partida, o baralho é “traçado” (misturado) e posto ao “corte” para que seja conhecido o “trunfo” – naipe que dará privilégios para “cortar” qualquer carta de alto valor que não seja “trunfo”. A ordem de distribuir cartas e cortar o baralho, é sempre no sentido horário.

O Às e o sete são as cartas de maior valor do baralho no jogo de sueca. Como “regra do jogo”, se não for do “trunfo”, o Às e o sete podem ser “cortados” até mesmo pelo 2 de trunfo.

Parcerias

Existem pessoas que gostam de jogar sueca em parcerias com outras. Na maioria dos lugares onde se joga sueca, essas parcerias não são aceitas, haja vista que, desconfia-se da prévia combinação de sinais no procedimento das jogadas. Tipo: coçar o olho direito; pigarrear uma ou duas vezes; fingir coçar o nariz, etc.

A sueca é um jogo secular, que mantém entretidos diferentes faixas etárias das famílias. Os idosos não são muito adeptos de jogar contra os jovens – preferem a seriedade dos da mesma faixa etária durante as partidas.

Mesa de idosos jogando sueca


José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo segunda, 23 de setembro de 2019

SÃO COSME E SÃO DAMIÃO

 

 

SÃO COSME E SÃO DAMIÃO

Foto 1 – São Cosme e São Damião

Cosme e Damião

“Os Santos Cosme e Damião, irmãos gêmeos, morreram por volta de 300 d.C. Crê-se que foram médicos, e sua santidade é atribuída pelo motivo de haverem exercido a medicina sem cobrar por isso, devotados à fé. Na Igreja Católica sua festa é celebrada no dia 26 de setembro, de acordo com o atual Calendário Litúrgico Romano do Rito Ordinário, e no dia 27 de setembro, pelo Calendário Litúrgico Romano do Rito Extraordinário. Na Igreja Ortodoxa são celebrados no dia 1 de novembro e também em 1 de julho pelos ortodoxos gregos. Nas religiões afro-brasileiras, onde são sincretizados como entidades infantis, também são festejados em 27 de setembro.

Os gêmeos nasceram em Egeia (agora Ayas, no Golfo do İskenderun, Cilícia, Ásia Menor), e tinham outros três irmãos. O pai foi mártir durante a perseguição dos cristãos na era de Diocleciano. Cosme e Damião eram médicos que curavam os enfermos não só com seu saber mas através de milagres propiciados por suas orações. Seus nomes verdadeiros eram Acta e Passio. Sua mãe se chamava Teodata, e também é venerada como santa pelos ortodoxos.

Brasil – O culto aos gêmeos mártires foi trazido para o Brasil em 1530 por Duarte Coelho Pereira e tornaram-se padroeiros de Igarassu, em Pernambuco. No nordeste brasileiro passaram a ser invocados para afastar o contágios de epidemias. Os negros bantos identificaram Cosme e Damião como os orixás Ibejis em um sincretismo religioso.

Relação com as religiões afro-brasileiras – O dia de São Cosme e Damião é celebrado também pelo candomblé, batuque, xangô do Nordeste, xambá e pelos centros de umbanda onde são associados aos ibejis, gêmeos amigos das crianças que trazem bem estar por onde passam , possuem conhecimento de desfazer feitiços e auxiliam na cura de enfermidades e trazem alegria , deixando harmonia e felicidade no ambiente a sua volta ,(descarregando o ambiente de energias densas), trabalham na caridade , auxiliam principalmente , pessoas em situações de desamparo, fragilizadas , como crianças , idosos , enfermos e como trazem a energia alegre leve e inocente das crianças consigo , gostam de doces , frutas doces e guloseimas. O nome Cosme significa “o enfeitado” e Damião, “o popular”.

Estas religiões os celebram no dia 27 de setembro, enfeitando seus templos com bandeirolas e alegres desenhos, tendo-se o costume, principalmente no Rio de Janeiro, de dar doces e brinquedos às crianças que lotam as ruas em busca dos agrados. Na Bahia, as pessoas comemoram oferecendo caruru, vatapá, doces e pipoca para a vizinhança.

São considerados no Brasil os Santos padroeiros dos Farmacêuticos e Médicos. A bonita história de São Cosme e São Damião — que por sua vez é marcada por visões diferentes, dependendo da crença de cada religião — demonstra a complementaridade e interdependência que as profissões irmãs, a medicina e a farmácia, possuem. Talvez o sucesso atribuído às curas milagrosas dos irmãos gêmeos, na idade média, nada mais fosse do que a antecipação da divisão do trabalho, ocorrida apenas no século XIII, onde a farmácia foi separada oficialmente da medicina e considerada uma profissão.” (Informações transcritas do Wikipédia)

Pois sim. Dito e mostrado isso, a data serve de motivação para nos transportar de volta à infância, mais uma vez. E, como parte da nossa infância foi vivenciada ao lado dos avós, como poderia eu “deixar de fora” minha inesquecível Dona Doca Buretama?

Nossa casa, mais dela do que nossa – tanto que herdamos apenas os maravilhosos momentos vivenciados juntos – era grande e cheia de cômodos, cada um com sua utilidade. Eram mantidas duas “camarinhas”: uma, onde ela e Vovô dormiam e provavelmente faziam traquinagens antes de dormir; e outra, onde ela escondia as cumbucas cheias de ovos de galinha caipira, das patas e das peruas e nacos generosos de rapaduras.

Cocadas brancas e pretas – as verdadeiras cerejas do dia

A gente nunca sabia o motivo, mas via que, no dia 26 de setembro Vovó pegava alguns cocos, abria cada um em duas quengas, pegava o raspador manual (uma concha dentada) e se punha a preparar os ingredientes das cocadas. Para a cocada branca usava o açúcar branco e, para a cocada preta, usava a rapadura. Não dava para dispensar.

Em vez de distribuir senhas para entregar os doces, avisava aos gritos para que todos os netos e demais parentes viessem no dia seguinte, 27, participar da distribuição das guloseimas em comemoração ao dia de São Cosme e Damião. Eram para nós, santos desconhecidos, haja vista que, para aquelas bandas só se ouvia os nomes de São José, o santo das chuvas; São Francisco de Canindé, o milagreiro da cidade próxima; e, claro, Jesus Cristo, a quem adorávamos e até jejuávamos por uma semana na Semana Santa.

Adolescentes felizes com sacolas de bombons

A mudança para a chamada cidade grande não mudou muito nossa rotina quando se aproximava esse dia. Apenas perdemos o incentivo à curiosidade de tentar descobrir quantos pedaços de rapadura e quantas cocadas Vovó daria para cada neto. Nosso foco passou a ser uma tal distribuição de senha, um papelucho que nos garantia receber chocolates batom, maria-moles, pirulitos e jujubas.

Era uma correria danada e desenfreada no fim da tarde do dia 26. Os mais organizados e respeitosos formavam fila para a recepção da senha. Uma senha por família – não havia necessidade de enganar o benfazejo doador dos doces. Todos se respeitavam e se conheciam dos encontros de tantas tardes e noites brincando na ruas.

Em que pese ser o dia de São Cosme e Damião um festejo pagão que todos respeitavam, não se tinha notícia de missas ou outros tipos de celebrações. Era apenas a festa dos doces. Nada mais.

Maria-mole, uma verdadeira maravilha

Hoje, ao que se sabe, apenas as pessoas que frequentam candomblé, umbanda e outras crenças continuam distribuindo doces – mas há quem afirme que, em muitos locais onde há grande frequência, também se distribui, além de doces para as crianças, são postas fartas mesas de distribuição gratuita de comidas da culinária africana e nordestina.


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