Almanaque Raimundo Floriano
Fundado em 24.09.2016
(Cultural, sem fins comerciais, lucrativos ou financeiros)


Raimundo Floriano de Albuquerque e Silva, Editor deste Almanaque, também conhecido como Velho Fulô, Palhaço Seu Mundinho e Mundico Trazendowski, nascido em Balsas , Maranhão, a 3 de julho de 1936, Católico Apostólico Romano, Contador, Oficial da Reserva do Exército Brasileiro, Funcionário Público aposentado da Câmara dos Deputados, Titular da Cadeira nº 10 da Academia Passa Disco da Música Nordestina, cuja patrona é a cantora Elba Ramalho, Mestre e Fundador da Banda da Capital Federal, Pesquisador da MPB, especializado em Velha Guarda, Música Militar, Carnaval e Forró, Cardeal Fundador da Igreja Sertaneja, Pioneiro de Brasília, Xerife nos Mares do Caribe, Cordelista e Glosador, Amigo do Rio das Balsas, Inventor da Descida de Boia, em julho de 1952, Amigo da Fanfarra do 1° RCG, autor dos livros O Acordo PDS/PTB, coletânea de charges, Sinais de Revisão e Regras de Pontuação, normativo, Do Jumento ao Parlamento, com episódios da vida real, De Balsas para o Mundo, centrado na navegação fluvial Balsas/Oceano Atlântico, Pétalas do Rosa, saga da Família Albuquerque e Silva, Memorial Balsense, dedicado à história de sua terra natal, e Caindo na Gandaia, humorístico apimentado, é casado, tem quatro filhos, uma nora, dois genros e dois netos e reside em Brasília, Distrito Federal, desde dezembro de 1960.

Jesus de Ritinha de Miúdo segunda, 08 de dezembro de 2025

AS TERRAS DO MEU AVÔ (CORDEL DO COILUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

Inspirado em foto de Jácio Mamede:

 

 

Meu avô me deu caminho,
Bom sangue, bom coração,
O amor por este chão,
De caatinga e tanto espinho.
Vai longe o meu carinho
Por esse céu azulado,
Esse pago, chão rachado,
Por esse meu pé-de-serra
E por esta boa terra,
Onde vovô foi criado.

Aqui eu também nasci,
Aqui também fui criado.

De vovô, abençoado,
Herdei fé, herdei coragem,
Por isso em sua homenagem,
Cavalgo o sertão amado.
Às vezes fico calado
Dentro da vegetação
Ouvindo um tal coração
Como se vovô vivo estivesse
Pedindo a Deus, numa prece,
Chuva para o seu sertão.

“Pai nosso que estás nos céus…”
Mande chuva ao meu sertão.

Uma sublime oração
Eu ouço sem ver ninguém
Seguindo e dizendo amém
Quero chuva em meu torrão.
Me invade a emoção
Na serra, sobre o platô,
Sol baixando, céu bordô,
E eu feliz cavalgando
Enquanto sigo amando
As terras do meu avô.

Natal-RN, na primeira Lua Cheia de 2015


Jesus de Ritinha de Miúdo segunda, 01 de dezembro de 2025

O GARGALHEIRA – Açude Marechal Dutra (CRÔNICA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

O GARGALHEIRA – Açude Marechal Dutra

Jrus de Ritinha de Miúdo

Artigo escrito por este colunista em 2008 para um trabalho da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, da disciplina Geografia Aplicada ao Turismo, cumprida como complementar do Curso de Administração. A foto que ilustra a postagem foi doada por Francisco de Hilda- Facso.

 

 

Em 1909, no governo de Nilo Peçanha (14/06/1909 – 15/11/1910) foi criado o IFOCS (Inspetoria Federal de Obras contra as Secas), tendo como subordinada a “Comissão de Açudes e Irrigação”. Depois O IFOCS foi transformado em DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas), subordinado ao Ministério da Viação e Obras Públicas, que tinha à sua frente o Ministro Miguel Calmon du Pin e Almeida, cuja pasta já havia ocupado no governo anterior de Afonso Pena.

Alguns acarienses apelavam com insistência junto aos órgãos estaduais e federais para a construção de um reservatório de água em nossa terra. Entre outros, podemos encontrar nomes como o do Coronel Silvino Bezerra de Araújo Galvão e seu irmão Coronel Cypriano Bezerra Galvão de Santa Rosa, mais Joaquim Servita Pereira de Brito, Antônio Basílio de Araújo e do Padre Francisco Coelho de Albuquerque.

Os primeiros estudos foram feitos para a construção da barragem, e no mesmo ano de 1909 a primeira planta topográfica do Gargalheira, assinada pelo Engenheiro Ignácio Ayres de Souza, e visada pelo Engenheiro Benjamim Piquet Carneiro, então chefe de seção da referida comissão, foi apresentada. Mostrava como principal finalidade o fechamento do boqueirão, a fim de acumular as águas. Na época foi consignada uma verba de 900.000$.000 (Novecentos contos de réis), do Orçamento da União, para o trabalho de construção do açude.

Em 1913, já no governo de Hermes da Fonseca (15/11/1910-15/11/1914), as obras começaram, a cargo da firma Saboia de Albuquerque, que concluiu em 1914 uma pequena barragem de alvenaria de pedra, cuja argamassa era composta de cal e óleo de baleia. Então, nada mais foi realizado até 1921. Esta primeira barragem, acabou sendo demolida em 1955, para que pudesse ser feita a construção definitiva.

Em 1922, ano do Centenário da Independência do Brasil, já no governo de Epitácio Pessoa (28/07/1919-15/11/1922), tendo como Ministro da Viação e Obras o Sr. José Pires do Rio, foi dado o maior impulso à construção do Gargalheira, quando as obras foram entregues à firma inglesa Wangler Walker, e já no final de 1923, por ocasião da visita ao local do governador do Rio Grande do Norte, Dr. José Augusto Bezerra de Medeiros, foram observadas a construção de grandes instalações, acampamentos, oficinas, residências para servidores, casa de hóspedes (chamada outrora de Casa do Major e onde atualmente se encontra o Hotel Pousada do Gargalheira), pavilhões administrativos, etc. De construções técnicas propriamente ditas, infelizmente nada ou quase nada havia sido feito. O chefe das obras nesta época era o Sr. Manuel Ubaldo da Silva (seu Neto).

Em 01/03/1926 é eleito o Sr. Washington Luiz à presidência da república (15/11/1926-24/10/1930). Na condição de presidente eleito, em 08/08/1926, Washington Luiz visitou as instalações do Gargalheira, encontrando-as abandonadas, tendo os ingleses se retirado, com um quadro evidente de muita festa feita pelos ingleses antes da partida. Conta-se que o presidente olhou tudo de forma sistemática, demorando-se em cada lugar e fazendo muitas perguntas, não escondendo a sua tristeza num lamento: “Os ingleses foram-se levando o ouro e deixando a ferrugem”. Em seguida deixou o lugar e foi visitar a Estação Experimental de Bulhões, projeto de 1922 do então deputado federal José Augusto Bezerra de Medeiros, agora governador do estado, cuja aprovação se dera pela portaria do Ministro da Agricultura, Indústria e Comércio, Sr. Miguel Calmon du Pin e Almeida, já no governo de Arthur Bernades, em 14/04/1924, passando a funcionar em 24/01/1925, tendo como seu primeiro agrônomo o jovem acariense Otávio Lamartine de Faria, que depois foi prefeito de Acari.

Um fato curioso: os ingleses iniciaram a construção de uma fábrica de cervejas, logo abaixo da casa de hóspedes, mas não chegaram a concluí-la. Segundo o saudoso Coronel Ary de Pinho, seria uma fábrica de gelos para refrigerar a água que seria utilizada no concreto.

Em 1950, já no governo de Eurico Gaspar Dutra (31/01/1946-31/01/1951), é feita nova tentativa, a pedido do deputado estadual, o acariense José Gonçalves Pires de Medeiros, que se deslocou para o Rio de Janeiro, então sede do Governo Federal, para pleitear várias obras para o seu amado Rio Grande do Norte.

Desta feita, sob a responsabilidade do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (ex-IFOCS), foram feitos vários reparos em parte das instalações, casa de hóspedes, construção de estradas, etc. Inicialmente, o Chefe da Residência (como era chamado o chefe geral das obras), subordinado ao 5º Distrito de Obras de Natal, foi o Engenheiro Leonardo Coutinho, sucedido pelo Engenheiro Geraldo Wamslay e Engenheiro Clóvis Gonçalves dos Santos, que não puderam muito realizar, em virtude da pouca verba destinada ao empreendimento principal, ou seja, a construção da barragem. O nosso saudoso Deputado José Gonçalves, ao ver os seus pedidos atendidos, propôs perante a Assembléia Legislativa do Rio Grande do Norte, que o nome oficial do Açude Gargalheira passasse a ser Açude Marechal Dutra, o que obteve aprovação unânime dos colegas parlamentares.

Em 1954 o presidente Café Filho (24/08/1954-09/11/1955, criou os Grupamentos de Engenharia. O Coronel Rodrigo Otávio Jordão Ramos, então Ministro da Viação e Obras Públicas, criou os Batalhões de Construção, um deles em Caicó – RN. Esses batalhões tinham a missão de realizar os trabalhos previstos para serem executados pelo DNER, DNEF e DNOCS. Também foi criado o 1º Batalhão Rodoviário, depois denominado 1º Batalhão de Engenharia e Construção, inicialmente com sede em Campina Grande – PB e depois transferido para João Pessoa, capital daquele estado. Foi esse batalhão que recebeu a incumbência de concluir Gargalheira. Isso só foi possível graças ao convênio firmado entra o 1º Grupamento de Engenharia e o DNOCS.

Em abril de 1955 o capitão Saint’Clair Abel Fontoura Leite chegou a Gargalheira. Seu primeiro ato foi derrubar as casas feitas de palha na entrada da área do açude, e as construir em alvenaria. No mesmo ano, no mês de agosto, chegou em Acari o Major Ary de Pinho, atendendo o convite feito pelo Coronel Rodrigo Otávio, à época comandante do 1º Grupamento de Engenharia. Com a chegada do Major Ary de Pinho, os trabalhos foram intensificados, inicialmente com a destruição da antiga barragem feita em 1914, e depois os esforços foram focalizados na construção da nova barragem, bem como nas obras que lhe dariam suporte, por exemplo: a vila operária, a escola, o hospital, o posto médico e dentário, o barracão, o açougue, o clube recreativo, o cinema a capela religiosa, etc. A capela que tem como padroeira N. S. De Lourdes, foi inaugurada em 16/07/1957, e foi o celebrante da primeira missa o Bispo D. José Adelino Dantas.

Em 29/10/1956 foi iniciada a concretagem da parede e no dia 20/10/1958 a obra foi dada como concluída. Neste dia a prefeitura de Acari ofereceu um almoço (churrasco) aos funcionários da obra e naquela ocasião o prefeito de Acari, o saudoso Dr. Paulo Gonçalves de Medeiros, irmão do Deputado José Gonçalves (que tanto esforços havia desprendido para a construção da obra), se fez representar pelo seu vice-prefeito, o Sr. Manuel José Fernandes (seu Bilé), que proferiu entusiasmado discurso.

No dia 27/04/1959 foi realizada a festa oficial de encerramento, exatamente cinquenta anos depois de feita a primeira planta topográfica. Durante cinquenta anos a natureza esperara que a boa vontade e a mão do homem fizessem a sua parte. Estava ali, de um estreito vale entre serras, o mais belo reservatório d’água do interior do Rio Grande do Norte e um dos principais pontos turísticos para quem percorre as sendas do Seridó: O Gargalheira.

A barragem, construída em concreto armado entre as serras do Abreu, da Carnaubinha, Olho d’Água e Gargalheira, tem uma altura que chega aos 25 metros e 250 metros de coroamento, a bacia hidráulica ocupa uma área de 780 hectares e a capacidade máxima de armazenamento chega aos 40 milhões de metros cúbicos.

José Pires Fernandes, (1997, p. 24; 25) dá a seguinte ficha:

“A parede é feita no estilo Arco Gravidade, com blocos de 12 metros de extensão a montante, com juntas horizontais espaçadas de 1,5m; a ligação dos blocos é feita através de superfícies endenteadas, providas de diversos elementos (chapas de cobre, chapas de ferro e furos para a injeção de asfalto), para assegurar a vedação e tratadas posteriormente com injeções de cimento, para assegurar o monolitismo dos blocos.”

Segundo o engenheiro da CHESF, o acariense Willian Ferreira da Silva, em entrevista concedida, a edificação em Arco Gravidade da parede é raramente encontrada, existindo pouquíssimas em nosso continente.

Gargalheira está situado na bacia do Rio Piranhas, sendo um represamento do Rio Acauã, no boqueirão que lhe deu o nome. Com a graça de Deus, Gargalheira sangrou pela primeira vez no dia 20/03/1960. A última sangria começou no dia 18/02/2004 e deixou de transbordar em março do mesmo ano.

A origem do seu nome é explicada do nome gargalho, gargalo+eira, ou seja, garganta, entrada, abertura estreita, desfiladeiro, loca, buraco, passagem estreita entre duas montanhas ou entre duas serras. FERNANDES (1997, p.9) diz que “como na área onde está situada a barragem existem muitas gargalheiras, o povo passou a chamá-las no plural, o que ficará para sempre”.

Entretanto, singular explicação nos deu doutor Paulo Frassinete Bezerra, escritor acariense se assinando como Paulo Balá, através de e-mail enviado particularmente a Jesus de Miúdo:

“Ora, pois, deu de cair em minhas mãos uma revista intitulada “Diálogo Médico”- ano 18 – número 2 – maio/junho/2003, editada por “Produtos Roche Químicos e Farmacêuticos AS”, com a seguinte matéria: “Exposição. NEGRAS MEMÓRIAS. Cerca de 500 objetos, do século 18 aos dias de hoje, fazem parte da exposição Negras memórias, Memórias de negros – O Imaginário Luso-Afro-Brasileiro e a Herança da Escravidão, sob a curadoria de Emanoel Araújo […] A matéria é ilustrada com duas gravuras […] E breve nota explicativa:

“GARGALHEIRA – usada para castigar os escravos”.

Assim, vem daí o nome do lugar com o seu verdadeiro sentido, ou seja: “gargalheira – objeto de tortura usado na escravidão” como fala o texto, conquanto ela – a escravidão – não tenha alcançado, entre nós, o significado que teve na zona canavieira. Aliás, a palavra está assentada em anotações antigas no singular, do mesmo modo como se escuta no linguajar diário até por ser vício de linguagem o de se engolir o plural das palavras.

Receba, pois, caboclo, deste já velho escrevinhador, por todo este mês de Santana que corre, fraternal abraço sertanejo.”

A estrutura deixada pelo DNOCS, no entorno da parede do açude, está sendo aproveitada como atrativo turístico. Mas tudo de forma amadora, ainda sem a preocupação de se oferecer um bom atendimento ao turista.

Faz parte das Sete Maravilhas do Seridó, em eleição realizada através de um respeitado jornal virtual, editado pela jornalista Suerda Medeiros, blog de notícias focando a região do Seridó. Em recente eleição das Sete Maravilhas do Rio Grande do Norte, foi eleito na terceira colocação. Fatos que corroboram a afirmação de Luiz da Câmara Cascudo quando, em conversa com algum amigo acariense, sempre chamava o lugar de “símbolo vivo do Seridó”.

A Serra do Pai Pedro, emprestando a sua base para a construção da parede, é um ótimo lugar para a prática de esportes radicais, tais como a escalada, trekking e rappel.

O antigo estreito, agora transformado em Gargalheira, volta a esperar pela boa vontade e pela mão do homem, para oferecer uma boa estrutura de lazer, aventura e diversão para quem visita aquela região.


Jesus de Ritinha de Miúdo quinta, 20 de novembro de 2025

CAÇA E CAÇADOR (CORDEL DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

CAÇA E CAÇADOR

Jesus de Ritinha de Miúdo

De mim mesmo sou um caçador feroz
Virei caça acuada sob uma grande planta
Tento esconder-me, mas pouco adianta
Pois quando corri em minha fuga veloz
Cansei meus pés, caí, presa do meu eu atroz.
Há nos galhos da árvore olhos arregalados
Bicos sedentos, como eu caça também calados,
Das aves de rapina espreitando a minha vida
Sou fera atocaiada e pronta para ser abatida
Oxalá meu algoz perdoe todos os meus pecados!
Eu miro em meu próprio rosto de vincos suados
Diviso o meu desgosto, aguardo o momento
Sob a dor do medo, vivo o meu sofrimento
Vendo-me mirado, são olhos esbugalhados
Do meu eu caçador, de dias tão cansados
Que logo se acabarão, porque serei vencido
Sou uma presa fácil, sou bicho sem bramido
Empunhando a arma da minha desolação
Carregada com os projéteis da minha aflição
Esperando o romper da carne, coração ferido.
(O que será de mim por mim?)
Paro de respirar por um momento
Fecho o olho, vejo a mim mesmo suando.
Sob a árvore.
Debaixo das aves de rapina.
Vejo nos olhos da minha caça, que sou eu
Em meu olhar temeroso, de bicho acuado
Miro.
Minha vida em minhas mãos, sem brilho
Puxo o gatilho
Fui atingido no peito.
(A carne rasgou. Meu coração atingido)
Cresci!


Jesus de Ritinha de Miúdo quarta, 12 de novembro de 2025

GALOPE CEGO, SURDO E MUDO (CRÔNICA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

GALOPE CEGO, SURDO E MUDO

Jesus de Ritinha de Miúdo

Já tive meus dias de admirador dos movimentos de esquerda, levado pela leitura da coleção Grandes Líderes, obra da Editora Nova Cultural, na segunda metade dos anos oitenta do século passado.

Eu sendo um jovem com pouco mais de quinze anos, antes ouvira do meu amigo Zé Lúcio – eternamente vestido com uma camiseta branca de estrela vermelha silkada na frente, com duas letras vazadas formando o desenho – das grandes lutas por igualdade social travadas mundo afora. Oito anos mais velho, Zé já havia andado pelo ABC Paulista, e me dava gosto ouvir seus depoimentos “da luta de classes”.

Aquilo fazia brilhar meu olhar de jovem inquieto e contestador de tudo.

Aqueles livros, cada um trazendo a biografia de um “grande líder”, contavam-me das lutas e galhardia de homens como Lênin, Trotsky, Stálin, Kruschev, Tito, Fidel, Guevara, Alende, entre outros.

Fascinou-me tanto os ideais do Comunismo, arrimados e reforçados nas conversas com meu amigo Zé Lúcio, que eu mandei pintar nas costas de uma T-shirt a figura de um soldado mascarado cuspindo na bandeira estadunidense.

Eu era um menino franzino de corpo e pequeno de ideias.

Dezesseis anos depois o mundo havia mudado em uma série de coisas. O Brasil principalmente!

Em setembro de dois mil e três, eu já era homem feito e estava assustado com o rumo da intolerância político-partidária vista por mim. Não se podia ser contra quem estava sentado na principal cadeira do país. Também me assustava categoricamente o fanatismo desacerbado em torno daquela figura.

Foi percebendo a religião se formando, que eu escrevi naqueles dias Galope cego, surdo e mudo.

Ei-lo, em letras itálicas para melhor destaque:

GALOPE CEGO, SURDO E MUDO

Galopando em prazeres não experimentados
Segurando as rédeas de um deleite mundano
Exalando brisa pérfida para todos os lados
Segurando o cetro da impiedade como um tirano
Emitindo hálito fétido e sentindo nele alegria
Sorrindo, gargalhando e se alto promovendo
Olhando para trás. Eis toda a cavalaria!
Em tudo muitos, por poucos morrendo.
E os cavalos, eles mais nobres que tudo
Mesmo marcados por ferro tão execrável
Levam guerreiros vendidos, tristes… mudos.
Sorriem da graça desse suborno lamentável.
E o que dizer daqueles que o adoram
Como um ser divino vestido de impurezas
Que de tão vendidos, loucos, imbecis… Por ti, até choram.
Não veem tua estupidez cercada de esperteza.
E de tão cegos, submissos beijam-lhe os pés
Pensam que são as mãos de um nobre santo
Não reconhecem na verdade, esse ser que tu és!
Esperam de ti um simples, um breve acalanto.
Mas em teu galope louco e desvairado
Que atropela até a tua própria moral
Sobre a besta da mentira, vais à frente montado
Desejando a todos, não o bem, mas o mal.
E os fiéis que te seguem sorrindo
Têm em seus rostos essa máscara profana
Por baixo dela um coração se partindo
Apegam-se à mentira que de ti emana
Confiam nela como uma salvação
Percebem o pouco valor que eles, para ti, têm
E o sentimento maléfico que vem do teu coração
Que são usados, abusados e subtraídos também.
Até imaginam a forma de se libertarem
Mas faltam-lhes força e coragem para tal
Pois sentiram dia a dia elas se minarem
Enquanto tu fortalecido, cultivavas o mal.
E mesmo babando cientes dessa triste condição
À qual se obrigaram edificando tua incondicional mordomia
Não enxergam sequer as grades de tão repugnante prisão
Que os cerca a todos, no cerne dessa pseudestesia.

“Ficarão de fora os cães, os feiticeiros, os adúlteros, os homicidas, os idólatras, e todo o que ama e pratica a mentira”. Apocalipse 22:15

Salvei-me!

Depois de haver mudado de ideias e ideais políticos o meu amigo Zé Lúcio deixou de falar comigo.

Ele ainda desfila com a mesma estampa em suas camisetas.


Jesus de Ritinha de Miúdo terça, 28 de outubro de 2025

É GUERRA! (CRÔNICA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

É GUERRA!

Jesus de Ritinha de Miúdo

É seríssimo este momento no mundo.

O Coronavírus veio para dar uma sacudida em tudo! Em todos!

Mudarão as respostas a partir da mudança dos questionamentos, da evolução dos princípios e conceitos, das práticas e dos métodos; pois, empresas e até países quebrarão.

Cresce cada hora mais a certeza de uma recessão mundial. E não falo aqui dos debates assistidos na mídia entre os apóstolos do caos. Falo dos fatos desencadeando prejuízos já incontáveis.

Para o nosso bem – quiçá sorte – moramos num país rico no setor primário.

Talvez saiamos fortalecidos no âmbito econômico. Será?

Se o Brasil entender de ampliar sua indústria de beneficiamento, quem nos segurará?

Poderíamos ser os novos EUA, em importância assumida, como foram os estadunidenses depois da Primeira Grande Guerra? Somos capacitados para tal?

Tudo dependerá de como se comportarão nossos governos – federal e estaduais – e de como os “Três Poderes” se entenderão entre si, depois da passagem desse tsunami viral. Também dependerá de como nós agiremos, enquanto cidadãos e nação. Principalmente nós!

Ninguém está dizendo, ou percebendo, e se está prefere não falar ainda.

Mas temos vivido dias angustiosos como se em guerra tivéssemos.

Elas, digo, as guerras, sempre serviram historicamente para alavancar as nações. Às vezes até as perdedoras saem fortalecidas, ou se fortalecem com o aprendizado da peleja. Por incrível que pareça.

Eu tenho um livro, cujo título é Civilização – Ocidente x Oriente, do historiador britânico Niall Ferguson.

Fruto de extensiva pesquisa, o livro é uma narrativa interessante demais, abordando o avanço social e tecnológico dos europeus sobre os chamados Reinos do Oriente, argumentando como um dos principais motivos desse desenvolvimento justamente as guerras na Europa e as duas grandes mundiais, além de outros aspectos menores.

Pois bem, estamos numa guerra!

Podemos sair fortalecidos?

Sim. Podemos!

O problema, porém, é justamente esse: somos um país dividido.

Após as grandes contendas ou crises mundiais, os povos dos países desenvolvidos realmente se uniram, cada um em sua nação. Aqui infelizmente se divide ainda mais.

Ontem tivemos um exemplo disso.

Agora, talvez caiba a nós, cada um por si, tentarmos não alicerçar essa disputa infame de “nós x eles” destruindo o nosso país.

No entanto, não obstante esse meu desejo e pensamento de um Brasil maior pós crise Coronavírus, infelizmente o primeiro exemplo de “Estado burro” já deu suas caras.

A Bahia que o diga.


Jesus de Ritinha de Miúdo terça, 14 de outubro de 2025

VÍRUS BRASILIS (CORDEL DO CLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚHO)

VÍRUS BRASILIS

Jesus de Ritinha de Miúdo

Um sábio me disse assim:
“Em toda grande nação
Existe um povo sabido
Vivendo em união
Mas no meu Brasil querido
O povo é dividido
E vive de confusão.”

Irmão briga com irmão
Até no meio da praça
Um defendendo ladrão
Ou um cão que nem tem raça
Cada um quer ter razão
E o Brasil na contramão
Vê que a política não passa.

Político ruim não se cassa
Sempre tem quem o defenda
Os que brigam não enxergam
Nos seus olhos essa venda
Que o vírus desta nação
É o vírus corrupção
E essa eterna contenda.

Enquanto existe essa briga, com cada um defendendo o seu deletério num fanatismo cego, o mundo pede socorro.

E o Brasil não avança.

 


Jesus de Ritinha de Miúdo quarta, 08 de outubro de 2025

XADREZ E TALVEZES (CRÔNICA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

XADREZ E TALVEZES

Jesus de Ritinha de Miúdo

No jogo do xadrez, assim como na vida real, muitas vezes você sacrifica peças para garantir o jogo.

Sei o quanto é difícil na vida real tal escolha. Afinal, passaria à infame decisão de escolher quem sacrificar. Isso é terrível do ponto de vista humano. Muito. Nem quero pensar.

Mas se não acabarmos com esse medo poderemos estar sacrificando uma geração inteira. Isso sob o ponto de vista das oportunidades.

A economia destruída fará um prejuízo sem tamanho.

Trará mortes em números incalculáveis!

Terça-feira cedinho vi um especialista falando “só no Brasil poderão ser 40 milhões de desempregados”.

Ora! Se temos doze milhões e não há um sinal de trânsito em Natal sem pedintes esmolando, imagine com três vezes mais.

Caso se confirme, as ruas ficarão intransitáveis. Haverão saques, o crime subirá sem igual, empresas fecharão aos montes, sem arrecadar os estados e prefeituras atrasarão ainda mais salários, o povo inteiro ficará num colapso de nervos, a intolerância no meio social subirá a níveis jamais vistos!

Nos EUA, cujo índice de desemprego ancorou na gestão Trump em 3,5%, ontem ouvi falar em 30% da população desempregada com uma possível recessão se confirmando. Só que lá eles têm lastro de fato em reservas de capital. Só para começar o FED destinou US$ 2.000.000.000.000,00 (dois trilhões de dólares) para salvar a economia. Um PIB anual do Brasil!

Ademais, a oposição nos EUA, salvo raríssimas exceções, aliou-se ao governo nessa batalha.

Eles sabem jogar o xadrez político.

Eu trabalhava num banco e sei dos danos de uma inflação de 80% ao mês, como vi na gestão Sarney. O Brasil hoje não tem “emocional” para viver 8%a.m, que dirá mais.

Então, não é um jogo fácil de ser jogado.

Eu não votei, tampouco simpatizo com o homem vestindo a Faixa Presidencial. Nunca enxerguei com bons olhos a forma fanfarrona e debochada de suas respostas. Não concordo com a sua percepção de levar tudo para o lado pessoal. Sinto falta de alguém mais diplomático na Cadeira Presidencial, cujo assento é o mais importante do país. Mas, convenhamos, a forma como a oposição o tem tratado, os métodos usados pela mídia na criação de armadilhas para ele se ferrar nas respostas (já que fala o que pensa), está se tornando algo que, em mim, dá ânsia de vômitos de tão eméticos e nojentos que são.

Estão conduzindo esse momento olhando apenas para o peito onde deita a Faixa Presidencial, e como são hipócritas fingem preocupação com o povo.

Tudo quanto o Brasil menos precisa neste momento tão delicado é uma nação dividida e os Três Poderes guerreando entre si.

Quanto ao nosso “Doido Presidente”, talvez ele esteja querendo olhar para os dois lados, não sabendo se expressar como um estadista. Não tem tato e, como falei acima, leva tudo para o lado pessoal.

Talvez se tivesse a postura de Mandetta diria o que realmente pensa, de outro jeito mais educado e menos debochado, e não seria tão atacado. Quiçá lhe falta a diplomacia dissimulada e demagógica da maioria dos políticos. Então, neste caso, eu prefiro o seu ego inflado e “doido”. Porém, sincero.

O Presidente estadunidense Donald Trump e o Primeiro Ministro japonês Shinzō Abe, falaram exatamente aquilo. No entanto, como o fizeram de uma forma mais séria, tampouco enfrentam uma oposição fixando o olhar apenas no poder, nem brigam com uma mídia vil e irresponsável como a que temos visto por aqui, não foram tão execrados como o nosso chefe.

Bolsonaro não tem acolhimento num momento como esse de incertezas. E os que o acolhem, na maioria, são fanáticos tão imbecis quanto os que o atacam pela ambição de mais poder, ou pelo simples prazer de ver o circo pegando fogo.

Uma coisa é certa. No jogo do xadrez ninguém – jamais! – sacrifica o rei.

Apenas a minha visão.


Jesus de Ritinha de Miúdo segunda, 29 de setembro de 2025

COISAS DIFÍCEIS DE SE VER (CORDEL DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

COISAS DIFÍCEIS DE SE VER

Jesus de Ritinha de Miúdo

Um enterro de anão
Pato dormindo em puleiro
Freira entrando em puteiro
Ateu fazendo oração.
Fazer sexo sem tesão
Ave alegre não cantar
Jumento não relinchar
Surdo numa cantoria
Palhaço sem alegria
E uma garapa azedar.

O sujeito não peidar
Depois de uma buchada
Gente rica aperreada
Pinto em merda não ciscar.
Um doido não endoidar
Se lhe disserem o apelido
Um velho não ter vivido
Seus dias de mocidade
Mentiroso amar verdade
E um poeta não rimar.

Um cantor pra não cantar
Um soldado não prender
E se o bandido recorrer
A Justiça não soltar.
Novela pra não passar
Sofrimento do mocinho
Amor grande sem carinho
Pedinte sem ter sacola
Futebol sem trave e bola
Estrada sem ser caminho.

Batizado sem padrinho
Lua cheia sem beleza
Cabaré sem safadeza
Xique xique sem espinho.
Homem rico andar sozinho
Um forró sem sanfoneiro
Porco limpo num chiqueiro
Banguelo roendo osso
Girafa sem ter pescoço
Compra à vista sem dinheiro.

Um filho de bodegueiro
Que não valorize o pai
Sofrimento sem ter ai
Segundo sem ter primeiro.
Vaquejada sem vaqueiro
E vaqueiro sem gibão
Fogueira sem ter tição
Guerrilheiro sem guerrilha
E político em Brasília
Cheio de boa intenção.

Crente que não seja irmão
Escola sem professor
UFC sem lutador
Jiu-jitsu sem ter chão.
Problema sem solução
Embolador sem repente
Um dentista sem ter dente
Pobre sem verme e lombriga
Gente falsa sem intriga
E careca andar com pente.

Um Natal sem ter presente
Uma Páscoa sem coelho
Sol se pondo sem vermelho
Um sinal sem um carente.
Alegria sem contente
Um morto que não viveu
Rapariga que não deu
Em troca de algum tostão
O Irã em união
Com todo o povo judeu.

Vencedor que não venceu
Orquestra sem instrumento
Um instante sem momento
Um bebo que não bebeu.
Injeção que não doeu
Trovão sem relampejar
Professor não ensinar
Mãe sem amor por seu filho
Dente de ouro sem brilho
Idoso não resmungar.

Gato novo não miar
Sertanejo preguiçoso
Menino não buliçoso
Curandeiro não rezar.
Bebo andando não tombar
Um bocado sem um tanto
Um milagre sem um santo
Um inferno sem ter cão
Banheiro sem ter sabão
E uma sala sem ter canto.

Uma santa sem um manto
Um toureiro sem espada
Uma rua sem calçada
Um choro pra não ser pranto.
Ocultismo sem quebranto
Pai-de-santo sem terreiro
Obra grande sem pedreiro
Cinema sem uma tela
Um pintor sem aquarela
Um açude sem barreiro.

Inverno sem aguaceiro
Verão sem nenhum calor
Outono com muita flor
Primavera sem ter cheiro.
Quem viaja ao estrangeiro
Não postar fotografia
A noite não virar dia
Um fogo que não aqueça
Prego novo sem cabeça
Neve que não seja fria.

Confusão sem arrelia
Junto que não seja perto
Um besta sem um esperto
Um corrupto que sabia.
Medo que não arrepia
Uma prisão sem bandido
Achado sem ser perdido
Time bom não ter ataque
Carioca sem sotaque
Um tiro sem estampido.

Uma ovelha sem balido
Vinte e nove em fevereiro
Jangada sem jangadeiro
Dono de banco falido.
Corno depois de traído
Não ficar desconfiado
Um baiano arretado
Não gostar de capoeira
E uma mulher chifreira
Sem um amigo viado.

Um bebim aterrissado
Na porta de uma igreja
Repentistas em peleja
Sem um verso malcriado.
LP todo arranhado
Na agulha não enganchar
A solidão não criar
Uma saudade danada
Uma noite enluarada
O poeta não inspirar.

Fofoqueira não passar
Um boato para frente
Lava que não seja quente
Fogo alto não queimar.
Quem gosta de estudar
Ser preguiçoso pra ler
Benzedeira não benzer
Quem lhe chega adoentado
E um brega bem cantado
Não fazer alguém sofrer.


Jesus de Ritinha de Miúdo sábado, 20 de setembro de 2025

INCONFORMISMO (CORDEL DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

INCONFORMISMO

Jesus de Ritinha de Miúdo

 

Eu ando revoltado com a fome no mundo.

O Coronavírus nos trouxe acesso a números que não tínhamos a mínima ideia.

Criei um mote e o debulhei sob letras inconformadas e sentimentos de pura resignação:

Cada fio perdido de esperança
É um dia a menos nesta vida.

 

Solidão e vergonha certamente
São parceiras do pobre flagelado
Pelo mundo egoísta abandonado
Já não tem mais futuro, só presente.
Sem poder respirar decentemente
Vai vivendo à margem, sem saída,
Traz nos olhos a expressão tão dolorida
Tendo a fome constante por herança
Cada fio perdido de esperança
É um dia a menos nesta vida.

Na ambição que está nos separando
Como um ato pensado esse acinte
Na tristeza do olhar de um pedinte
Vejo os olhos de Deus nos acusando.
E embora Ele siga nos amando
Precisamos fechar essa ferida
Do egoísmo sendo o grande homicida
Provocando com a fome essa matança
Cada fio perdido de esperança
É um dia a menos nesta vida.


Jesus de Ritinha de Miúdo quarta, 10 de setembro de 2025

ALCEU VALENÇA (CRRDEL DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

ALCEU VALENÇA

Jesus de Ritinha de Miúdo

Cante mais de girassóis
Das ruas todas andadas
Do amor de cem mil cães
Por cem mil onças pintadas
Fale da anunciação
De Inês com seu coração
Das tropicanas chupadas.

Quero ouvir das alvoradas
Da lua e da solidão
Daquele cavalo doido
Feito de pau e paixão
Boa Viagem, aquarela
Da tarde com sua bela
Pois, vem chegando o verão.

Me fale da procissão
Por qualquer uma senhora
Que seja novilha rara
De Olinda ou lá de fora
Fale de Belle de Jour
E seus beijos de uruçu
Que o tempo sempre melhora.

Diga sem muita demora
Desse seu peito atrevido
Encourado, cavalheiro,
Andante e destemido
Vaqueiro de mil canções
Curandeiro de emoções
Sentinela do sentido.

Violeiro enternecido
Agricultor de poesia
Diga “sou Alceu Valença!
Mago-cantor da magia
Prendendo o tempo no vento
Ruminando o sentimento
Do amor e da alegria.”

Depois respire fundo e grite: “Ah, hei! Ah, hei!”

 


Jesus de Ritinha de Miúdo segunda, 01 de setembro de 2025

REINADO DE TRISTEZA (CORDEL DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

REINADO DE TRISTEZA

Jesus de Ritinha de Miúdo

O Brasil foi muito negligente com o vírus, quando continuou com o carnaval.

O mundo já sinalizava o desmantelo.

Foram quatro dias de “alegria” que durarão muito tempo de “tristeza”.

Hoje é quarta-feira de cinzas eterna para muitos.

Agora choram as viúvas
De negro fantasiadas
Lágrimas inconsoláveis
Herança das gargalhadas
Pelas ruas e avenidas,
Nas negligências geridas
Por quatro noites danadas.

Se calaram as batucadas
O samba em luto entrará
O Mestre Sala, coitado,
De triste não dançará
E até a Porta-Bandeira
Antes tão linda e faceira
O estandarte fechará.

E a morte continuará
Cuíca e surdo calando
A Colombina em prantos
Com o Pierrot vai chorando
E o pobre do Arlequim
Empunhando o tamborim
Marcha fúnebre vai tocando.

E Momo antes reinando
Por quatro eternos dias
Com tanto luxo e riqueza
Nas mais lindas fantasias
Já vê seu vivo reinado
Em tristeza transformado
Sem prazer, sem alegrias.


Jesus de Ritinha de Miúdo terça, 12 de agosto de 2025

ORAÇÃO (CRÔNICA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DR MIÚDO)

ORAÇÃO

Jesus de Ritinha de Milho

Escrevi às 06:51h de um hoje triste pela imagem angustiante que acabo de ver na Internet. A foto não diz do seu autor, mas sei captada numa avenida no Rio de Janeiro.

 

Senhor, tem misericórdia
Da nossa brutalidade
Da nossa falta de fé
Da falta de caridade
Da nossa falta de amor
Das nossas falhas, Senhor
Da nossa pouca bondade.

Da nossa leviandade
Da nossa vil ambição
Dessa hipocrisia torpe
Da falta de compaixão
Dos nossos olhos fechados
Para os desesperados
Nos estendendo uma mão.

Lhes falta a alimentação
Sobrando em nossas mesas
Se alimentam da fé
Faltando em nossa riqueza
E nós, pobres, coitados
Somos mais necessitados
Do que a própria pobreza.

Porque nos falta amor. Amor ao próximo.


Jesus de Ritinha de Miúdo segunda, 23 de junho de 2025

DESIGUALDADE SOCIAL (CRÔNICA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

DESIGUALDADE SOCIAL

Jesus de Ritinha de Miúdo

O jornalista e eu

Ele:

– Vamos falar de afastamento social.

Eu:

– Vamos falar de distanciamento social?

Ele:

– … Pode ser… Mas… Se…

Eu:

– Agora ou esperamos mais dois anos?

Silêncio dele.

Eu:

A cada dia passando
Mais eu tenho consciência
Que o mundo vai caminhando
Para um quadro de demência:
O rico com mais riqueza
O pobre com mais pobreza
E a “humanidade” em falência.


Jesus de Ritinha de Miúdo quinta, 12 de junho de 2025

NOVE ME FAZEM SORRIR (CORDEL DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

NOVE ME FAZEM SORRIR

Jesus de Ritinha de Miúdo

Tenho aprendido da vida
Retendo sempre a lição
De não olhar para o mal
Jamais lhe dar atenção
Ouvindo a voz do que é certo
Seguindo sempre de perto
Quem tem paz no coração.

Que não devo abrir mão
Do bem sempre dividir
Cultivando amizades
Nunca cansar de servir
E jamais me impressionar
Pois, se um me faz chorar
Nove me fazem sorrir.

E são a esses que eu devo abraçar.


Jesus de Ritinha de Miúdo terça, 20 de maio de 2025

RAÍZES (CORDEL DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

RAÍZES

Jesus de Ritinha de Miúdo

Inspirado por foto do terreiro da casa da Fazenda Carnaubinha, de Jácio Mamede

Para cá dessa porteira
Plantei meu resto de vida
Fincando meu coração
Pondo em minh’alma uma brida
Fiz do futuro um mourão
Do meu corpo um matulão
P’ra guardar qualquer saída.

E não saio mais de mim!


Jesus de Ritinha de Miúdo quarta, 07 de maio de 2025

IRMÃOS DO SOL E DA LUA (CORDEL DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

IRMÃOS DO SOL E DA LUA

Jesus de Rtinha de Miúdo

Quem ao homem deu o direito
À estrada da intolerância
Com destino à ignorância
No vale do preconceito?
Qual livro traz o preceito
Dizendo que a pele escura
Faz menor a criatura
Ante uma pele mais clara?
É a estupidez que separa
E causa essa fratura.

Pele com outra pintura
Independente do tom
Não faz do homem um ser bom
Se ele não traz a alma pura
E lhe faltando a ternura
Com qualquer um semelhante
Esse homem no instante
É simplesmente uma fera
Indomável, vil, megera,
De espírito horripilante.

Todo homem é apavorante
Quando se enxerga melhor,
Mais capaz, e bem maior
E do ódio é praticante.
A humanidade é errante
Nessa vida passageira
E a ideia verdadeira
Prega vivamos em paz
No Cosmos somos iguais
Não passamos de poeira.

 


Jesus de Ritinha de Miúdo segunda, 21 de abril de 2025

MEUS DOIDOS (CORDEL DO COLOUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

MEUS DOIDOS

Jesus de Ritinha de Miúdo

Uns ricos e outros pobres
Acary e seus doidelos
Uns sem ter onde morar
Outros morando em castelos
Mas, ninguém pode negar
Que os doidos do meu lugar
São do Brasil os mais belos!

Com eles tenho mil elos
De prazer, de gratidão,
De alegria genuína,
De tanto aperto de mão
Em cada doido, um amigo,
Em cada doido, um abrigo,
Que abriga o meu coração.

E eu não vivo sem a lembrança deles.


Jesus de Ritinha de Miúdo quarta, 09 de abril de 2025

VIVER É FÁCIL (CRÔNICA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

VIVER É FÁCIL

Jesus de Ritinha de Miúdo

Por que há necessariamente o pensamento e a possibilidade da fuga quando nem sabemos o final da coisa?

Há tantas maneiras de partir sem precisarmos sair do lugar.

Não há cansaço que não passe com um banho, uma lavanda gostosa no corpo, uma cama confortável, uma xícara de chá ou café, e um livro de poesias para ser interpretado.

A janela aberta, ou o ar-condicionado no dezoito.

Viver é fácil.

Ouça mais, fale menos e, se possível, no intervalo de tudo dê vaga em seu pensamento para uma bela canção. A boa música expulsa pensamentos tolos, tirando a atenção das vontades torpes.

Ora, ora!

Por que essa demasiada necessidade louca de compreender o que existe para não ser entendido?

Eis a presunção humana em sua gênese: o homem nem compreende a si próprio e deseja desvendar os mistérios fora do seu eu.

Viver é fácil.

Implica em estar sempre com frescor no corpo, alma leve, coração em paz, nunca possuir mais que os olhos não possam cobrir e os braços abraçar de uma vez só. Sem almejar o que não se pode segurar nesse abraço.

Viver é fácil.

Envolve buscar tanto o riso quanto o amor em tudo. Isso sim é uma audácia vigorosa na arte de seu feliz.

Jamais esperar para fazer o bem amanhã, ou gozar apenas amanhã querendo ser dono exclusivo desse prazer.

Emprestar liberdade a tudo, e jamais cobrar a volta dela. Da liberdade.

Prender apenas a respiração quando algo for tão fantasticamente bom para nós, que queiramos eternizar o momento. O instante.

Mas, sempre ciente do amanhã vindo para ser outro dia. Embora mais uma vez seja um hoje. Saiba.

Banhos, perfumes, livros, chás ou café, música e sorrisos.

Um vinho? Quando merecer.

Isso basta.

Se somados a uma companhia não tratada como propriedade, para gargalhar da nossa gargalhada e podendo ser chamada de amor.

Isso é liberdade.

Não marque seu corpo nem a sua alma.

Marque os momentos.

Porque eles passam.

Viver não é apenas fácil. É simples.


Jesus de Ritinha de Miúdo sábado, 29 de março de 2025

PANO DE PRATO (POEMA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

PANO DE PRATO

Jesus de Ritinha de Miúdo

Quando a porta fechou e tu partiste
E eu fiquei afogada em solidão
Ruminando essa tua ingratidão
Um punhal com o qual tu me feriste
O meu peito era apenas ave triste
Sobre um galho de angústia abandonada
Sem cantar, sem voar, sem comer nada
De tristeza morrendo a toda hora
Desde que resolveste e foste embora
Na saudade vivendo engaiolada.

Cada cena da gente relembrada
Duas águas escorrem em meu rosto
Vão salgando os meus lábios de desgosto
Vão deixando minha alma ensopada
Tu serás pela vida alma penada
Que no amor cometeu assassinato
Enquanto eu voltarei ao meu recato
Pois, perdi pela vida seus encantos
E quando eu me cansar de tantos prantos
O meu lenço será um pano de prato.


Jesus de Ritinha de Miúdo terça, 18 de março de 2025

LOUCA VARRIDA (POEMA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

Desventura de Clarinha

Eu rasgo a roupa do corpo
Fico nua e enlouquecida
Grito coisas desconexas
Excomungando a vida
Eu fico descabelada
Me atiro pela estrada
Corro doida e esquecida.

Me chamam “Louca Varrida”
Gargalham do meu estado
Apontam dedos profanos
Não entendem o meu pecado
Que foi amar sem poder
Desejar e jamais ter
O querer do meu amado.

Que quando estava ao meu lado
Falava frases ditosas
Cantava tantas promessas
Sob juras amorosas
E eu, coitada, inocente
Como fui me tornar crente
Em falas tão mentirosas?


Jesus de Ritinha de Miúdo quinta, 06 de março de 2025

TEMPO FELICIDADE (POEMA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

TEMPO FELICIDADE

Jesus de Ritinha de Miúdo

Inspirado nesta foto, feita pela lente sensível de Chrystian de Saboya

 

Lá onde o mundo parou
Embora haja noite e dia
Passa o tempo sem passar
No relógio da magia
Felicidade é uma bola
A vida é só uma escola
Ministrando a alegria.

O tempo se faz poesia
De versos muito suaves
Metrificados em tônicas
Como se fossem as chaves
Que a liberdade abrirão
Para cavarmos o chão
Onde varetas são traves.

E os meninos são claves
De uma estupenda canção
Correm no tempo parado
Notas de pura emoção
Na música do futebol
Depois de um lindo arrebol
Com os pés descalços no chão.


Jesus de Ritinha de Miúdo quarta, 19 de fevereiro de 2025

VAQUEIRO ALADO (CRÔNICA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

VAQUEIRO ALADO

Jesus de Ritinha de Miúdo

Partiu seu Hermes Medeiros
Pra aboiar no firmamento
Juntar gado nas estrelas
Nos vales do encantamento
Vaqueirando a eternidade
Encourado na saudade
Tão livre quanto o vento.

Por esse seu chamamento
Os céus todos se alegraram
Serafins bateram palmas
Querubins comemoraram
Nas veredas divinais
Dos campos celestiais
Os santos todos cantaram.

Com a sua chegada.

Vai! Planta um mourão lá no céu, macho bom e arretado, e instala nele uma porteira.

Qualquer dias desses eu abrirei sua tramela.

E espera por nós, bom amigo! Um dia chegaremos por aí também e a prosa continuará no mesmo gosto de sempre.

Ah! E obrigado pelo carinho, pelos conselhos e pelas boas risadas, Seu Hermes.

O senhor foi luz na vida de muita gente.

 

 


Jesus de Ritinha de Miúdo terça, 28 de janeiro de 2025

O ENCONTRO DA ÁGUA (CRÔNICA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

O ENCONTRO DA ÁGUA

Jesus de Ritinha de Miúdo

Eu tenho quarenta e nove anos de idade. Aos seis comecei a ter contato com o cinema.

Meu Tio Lolô era o porteiro do velho Cine São José, em Acary do Seridó Potiguar, interior de onde Natal está distante duzentos e dez quilômetros.

Nesses quarenta e três anos – de uma quase veneração pela arte de representar – já me vi emocionado ante tantas e tantas cenas que enumerá-las seria impossível.

Seja mesmo com atores desconhecidos no palco de um teatro amador, quiçá no tablado de um circo, na tela pequena das TV’s, ou na telona dos cinemas.

Ou, até, na declamação de uma poesia motivada na simples encenação de quem nasceu com o dom de decorar o belo.

Já chorei muito vendo atores se entregando no mais extraordinário exercício da transformação de um personagem, doando-se à cena com a fome e a sede pela busca da perfeição naquela chamada acima por mim de “a arte de representar”.

Eu poderia citar inúmeras.

Porém, em todas as oportunidades já me dadas de falar após o término da primeira parte da novela Velho Chico, quando cabe dizer uma cena me arrebatando pela capacidade do ator se separar da sua alma própria e assumir inteiramente a identidade do personagem, eu citei a fantástica cena na qual Belmiro dos Anjos encontra as águas do Rio São Francisco.

Que perfeição do ator em sua arte de representar!

A fotografia, o som da Oração de São Francisco tocando por trás do rosto do personagem e a interpretação ímpar do ator Chico Díaz.

Ali, naquela cena, por sua admirável vocação, digo, dele, do ator, por seu extraordinário talento e impecável representação, eu pude perceber todas as agonias do Sertão de todos nós.

Das nossas lutas e anseios, sonhos e esperanças, fé e gratidão.

Para mim, que nada tenho e nada sou, a cena que eu passei a chamar de “o encontro da água” é a mais perfeita interpretação que esses meus olhos sertanejos já puderam assistir até hoje, dentro de toda dramaturgia universal.

Daquela cena nasceram meus versos seguindo abaixo:

BOM CHICO, INESQUECÍVEL BELMIRO

Era um Chico e um Belmiro
Dois anjos num homem só
Um de verdade, outro não
Formando um belo rondó
Duas angústias unidas
Por duas almas, duas vidas
Dois homens que davam dó.

E na garganta um nó
Dois espasmos de emoção
Olhos de fé e esperança
Lábios tremendo, oração
Chico em Belmiro encarnado
Com as águas admirado
Dois em uma gratidão.

Era apenas um Sertão
Por eles vivenciado
Na saga do anjo Belmiro
Por Chico representado
Ante um rio de bonança
Renovando a esperança
De todo um povo cansado.

Da nação sertaneja por suas vivências.

* * *

 


Jesus de Ritinha de Miúdo terça, 31 de dezembro de 2024

ELUCUBRAÇÕES (CRÔNCA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

ELUCUBRAÇÕES

Jesus de Ritinha de Miúdo

Possivelmente eu não seja sequer desse planeta.

Às vezes não quero acreditar que faço parte dessa humanidade tão carente de bom senso. Tanto quanto de solidariedade.

Mas não tenho a presunção de me dizer um espírito evoluído, ou coisa semelhante, na petulância de me achar melhor que outrem.

Apenas não alimento o ideal humano egocentrista se achando melhor que uma flor, ou maior no valor de um inseto; por exemplos.

O mundo parece balançar entre a incerteza da racionalidade e a piegas demonstração de ser emocional.

Quando na verdade tudo é simplesmente um completar de dias em busca do penúltimo estágio da matéria visível: o pó.

A altura e o cumprimento das coisas, das pessoas e até dos sentimentos dizem muita coisa. Mas não falam tudo.

“Um copo” com um bom vinho ao lado de alguém falando sobre arte, independente da sala e da hora, traz mais satisfação que uma subida na Torre Eifell. Pode acreditar que sim.

Daí, se o vinho não está numa taça? Pouca importância tem.

O toque no paladar da bebida e a boa conversa não necessitarão das etiquetas convencionais na apreciação do momento. Tampouco no sabor da companhia.

São essas elucubrações fazendo eu me sentir sendo um ET, pois não vejo a necessidade humana do aparecimento social em suas superficialidades.

Porque a marca da camisa deve ser mais importante que o lugar onde eu irei, ou mais cuidada que as pessoas do encontro?

Devo arrumar a minha alma, vestindo-a com as etiquetas das melhores virtudes e curtir a melhor viagem: segurar na mão de quem eu amo.

Se eu fechar os olhos nesse instante, poderei me ver onde eu quiser estar. Até ao lado de Deus!

E até o tempo será vencido.


Jesus de Ritinha de Miúdo sábado, 21 de dezembro de 2024

BALADAS ENTRE CANTEIROS (CRÔNICA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

BALADAS ENTRE CANTEIROS

Jesus de Ritinha de Miúdo

A cara, o gosto, o cheiro e o toque de minhas melhores lembranças da Praça Thásia Luanna, no tempo que era apenas Pracinha dos Estudantes, lá no meu Acary do Seridó.

Eu ainda quase um menino, com minhas mãos enfiadas nos chinelos que serviam de baquetas batendo contra o banco de concreto – usado como bateria – no qual sentados, eu e o meu velho e eterno amigo, saudoso e caro, Silvano da Palhoça cantávamos sem a pretensão do sucesso, sem nos preocuparmos com futuro qualquer. Minhas chinelas no compasso de sua mão canhota fazendo vibrar as cordas de nylon do violão de Onavlis, nome artístico usado apenas pelos mais chegados, para tratar com carinho a figura de Pilpano.

Pilpano… Onavlis…

Ambos sendo o mesmo Silvano da Palhoça, risonho, afinado, amigo leal, desprendido do querer possuir e apegado apenas a uma verdade: ser feliz com um violão “embaixo do suvaco esquerdo”, colado ao peito que pulsa, para o som sair mais legal do coração.

“Hoje em sua casa eu não vou mais…”

Hoje tudo é tão diferente. No fundo tudo aquilo passou e aquele tempo, às vezes, é somente “a primeira lágrima” ao final de cada tarde.

Minha meninice é vista apenas nos meus meninos. Que nem tão meninos são mais!

Mudaram a praça, arrancaram os bancos, nos mudamos de cidade…

Cadê Silvano? Onavlis, onde você está? Pilpano? Não lhe vejo mais.

Partiu para tocar naquela praça onde todos nós sentaremos um dia, para cantar por uma eternidade toda.

E eu vou ficando por aqui, vendo-me menino vestido de chinelas nas mãos, ao lado de Silvano da Palhoça, nosso Onavlis, nosso Pilpano.

Duas figuras avistadas pelos olhos da minha saudade cada vez que eu passo ante aquela praça, hoje desfigurada. Duas figuras magras e até feias; porém, ambas belíssimas de felicidade. Dois amigos cantando entre os canteiros pouco cuidados da Pracinha dos Estudantes.

E assim eu sigo, “fecho os olhos e sinto” todas as saudades daqueles dias.

E a vida com todas as suas agruras ainda não me tirou a vontade de querer aquele “gosto de framboesa”; afinal, mesmo não sendo mais tão moço, continuo não sentindo tanta tristeza.

Alegria! Alegria! Cuidemos da vida!

Texto escrito agora mesmo, sob a emoção, após receber em um grupo de WhatsApp um vídeo com a balada A Irmã do Meu Melhor Amigo entre os áudios de outras tantas baladas do grupo Renato e Seus Blue Caps.

 

 

 

 


Jesus de Ritinha de Miúdo quarta, 11 de dezembro de 2024

UM POUCO DE DESABAFO. UM MUITO DE DECEPÇÕES (CRÔNICA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

Os argumentos convincentes não estão do lado de cá, digo, de um Zé Ninguém feito eu.

Eu já cantava na minha quase distante juventude que “aqui embaixo as leis são diferentes”. Eco para o resto daqueles dias, em ondas sonoras captadas das vozes dos meus ídolos. Seus discursos com compassos, tons e sons já contam três décadas e ainda são atuais, embora fora de moda pelos ritmos e rimas, frase feitas e perfeitas, embalando os nossos sonhos naquelas manhãs de esperanças frias e embotadas.

Minha geração – a parte aberta e não “cartilhada” – até hoje parece enxergar inclusive no escuro, de olhos fechados e coração aberto. Sempre foi assim conosco, pois somos marranos da educação artística com musicalidade e aprendemos sobre a vida pelas chibatas sociais contra as quais lutávamos naquelas tardes de liberdade morna e sem a mordacidade em seu estado mais malicioso. Nossos corações sempre aquecidos na corrida pelo que era bom.

Éramos uma multidão siamesa curiosamente saída da liquefação entre o criador e a criatura. Fomos produtos de nós mesmos, guiados pela busca do equilíbrio, da igualdade e, acima de tudo, orientados pelo senso comum presente em todos nós da coisa sendo bem praticada, senão em tudo, no que nos fosse possível fazê-la responsavelmente dentro dos nossos direitos, com amor, fé e determinação.

Daquelas noites de batalhas frias para cá o status quo não mudou tanto assim. Infelizmente as lições repassadas e aprendidas em nossa juventude, hoje são definidas como reacionárias, em um conceito requentado por muitos ouvintes das mesmas coisas ouvidas por nós, parceiros na mesma guerra, porém, eles, desertores dos princípios sociais norteando as nossas brigas antigas, travadas no calor daqueles dias idos.

Assim, uns muitos de quem nós saímos, outros tantos que de nós nasceram, têm hoje olhos abertos na luz do meio dia e, infelizmente, não conseguem enxergar o óbvio.

Embora hoje soframos também porque nos apresentam uma nova possibilidade – não obstante montada sobre alicerces tremendamente pavorosos – vamos sendo insultados por descobrirmos não tardiamente que os argumentos convincentes não estão do lado de cá, digo, de um Zé Ninguém feito nós. Já não temos mais razão alguma e o eco dos dias atuais são captados das ondas sonoras saídas dos ensaios elaborados entre quatro paredes de salas ricamente atapetadas, onde artistas de outro círculo fazem marketing e se divertem sozinhos. Nada cantam. Escrevem apenas atos de uma peça histórica temida por seu possível desfecho.

Os ídolos do meu tempo escreviam mais, cantavam melhor e morriam mais cedo.

A juventude deles eternamente em nós, os que ficamos para envelhecer contrariando, ainda, as coisas julgadas medonhas.

A ousadia deles eternamente em nós. Também.


Jesus de Ritinha de Miúdo sábado, 30 de novembro de 2024

RISCOS E TRAÇOS (CORDEL DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

RISCOS E TRAÇOS

Jesus de Ritinha de Miúdo

 

Risquei paredes, areias, papéis
Pintando poesia em todos os traços
E em cada traço deixei mil abraços
Escritos com lápis, canetas, pincéis.
A vida deixei nesses meus painéis
Buscando encontrar a felicidade
Falei de esperança, amor, caridade
Ensinei e aprendi sobre tudo um pouco
Porém, ao final, me vi como um louco
Sem nada entender além da saudade.

 


Jesus de Ritinha de Miúdo terça, 19 de novembro de 2024

ESPERANÇA PELO AVESSO – Aparências (POEMA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

ESPERANÇA PELO AVESSO – Aparências

Jesus de Rtinha de Miúdo

Foto: Obviousmag.org

 

 

Não tive pena quando a vi partindo
Fiquei apenas por dentro chorando
Entre outras cenas que eu ia lembrando
Eu em silêncio fui me despedindo.
Pedindo a Cristo que fosse medindo
Só a bondade que nós nos fizemos
As tantas vezes que nos maldizemos?
Esqueça aí, que eu daqui esqueço
Se a esperança pomos pelo avesso
Um novo começo nós não mais teremos.

Se nova chance nós não mais queremos
Todos os riscos você assumiu
Sumiu na rua e quando enfim partiu
Partiu toda jura que nós nos fizemos.
Se tudo aquilo que juntos vivemos
Foi somente eterno enquanto durou
E aquele encanto que você cantou
Eu vejo agora estava pelo avesso
Esperança em traço de um recomeço
Traçado no chão, mas o vento apagou.

 

 


Jesus de Ritinha de Miúdo sábado, 09 de novembro de 2024

BUMERANGUE (CORDEL DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDOo

BUMERANGUE

Jesus de Ritinha de Miúdo

Foto: Segredos do Mundo

 

A vida é um bumerangue
Que não se perde no ar
Tudo que você atira
Na certa vai retornar
Quem arremessa o amor
A vida faz o favor
De muito amor lhe voltar.

Mas, se acaso atirar
Qualquer um mal a alguém
Não espere receber
Do bumerangue um bem
Pois, o que vai tem retorno
E a vida em seu contorno
É um eterno vai e vem.

A quem carinho, carinho
A quem amizade, amizade
A que acolhida, acolhida
A quem desprezo… Bumerangue!
É a vida!


Jesus de Ritinha de Miúdo terça, 08 de outubro de 2024

ILUSÃO DESCOBERTA (CORDEL DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

ILUSÃO DESCOBERTA

Jesus de Ritinha de Miúdo

Este colunista glosa um mote de Constância Uchoa:

Quem se cobre de sonhos se descobre
Muitas vezes coberto de ilusão.

Eu pensando em você não me contento
Perco o tento de vez na madrugada
Enlouqueço a cada alvorada
Alvorando você no pensamento.
Vou criando penúrias de lamento
E mentindo ao meu próprio coração
Pra sonhar que não tem separação
Mas, não há nenhum sono que me sobre
Quem se cobre de sonhos se descobre
Muitas vezes coberto de ilusão.

Com sua volta vou sonhando acordado
Que um acordo faremos para a paz
Nossas brigas cessarão, não terão mais
E as intrigas do lar serão passado.
Se um amor em seu peito tem sobrado
Ou lhe resta uma réstia de emoção
Nos cubramos com o manto da paixão
Descubramos um amor ainda nobre
Quem se cobre de sonhos se descobre
Muitas vezes coberto de ilusão.


Jesus de Ritinha de Miúdo segunda, 07 de outubro de 2024

ABOIO DE BEATA (CORDEL DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

ABOIO DE BEATA

Jesus de Ritinha de Miúdo

Foto: página da CNM – Confederação Nacional de Municípios

 

 

Mote de Geraldo Amâncio:

Quem passar no sertão corre com medo
Das caveiras dos bois que a seca mata!

Na porteira o chiado está mais triste
O chocalho não tem voz, está calado
O gibão, coitadinho, abandonado
Só se apega a saudade que existe.
O acauã, bem magrinho, ainda insiste
Agourando a má sorte, vida ingrata
Toda cinza a caatinga, assim retrata
Falta chuva, e nesse pobre desenredo
Quem passar no sertão corre com medo
Das caveiras dos bois que a seca mata!

Moribundo, olho, pelo, carne e osso
O jumento foi jogado à própria sorte
Sem rinchar esperando só a morte
Já não tem mais nem força no pescoço.
Morreu tudo no caminho até o poço
E na sombra do mourão um vira-lata
Sob o choro, feito aboio, da beata
Vai morrendo num buraco desde cedo
Quem passar no sertão corre com medo
Das caveiras dos bois que a seca mata!


Jesus de Ritinha de Miúdo domingo, 06 de outubro de 2024

AMOR TEMPERO (CORDEL DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

AMOR TEMPERO

Jesus de Ritinha de Miúdo

Dona Pedrelina, de São Gonçalo do Rio Preto, no seio do Vale do Jequitinhonha.

Foto do retratista Tom Alves

 

 

Era o prazer de vovó
Enquanto a trempe esquentava
No velho fogão de lenha
Da comida ela cuidava
Mal saía da cozinha
Fazia tudo sozinha
Com prazer, não reclamava.

Quando mais gente chegava
Não havia reclamação
Pois, tinha lugar pra todos
Dentro do seu coração
Com imensurável alegria
Vovó do pote trazia
Mais água para o feijão.

Nunca fiz comparação
Ao sabor de sua panela
Acho até que era amor
Que vovó tirava dela
Agora resta, é verdade,
Só o gosto da saudade
De minha vovó tão bela!


Jesus de Ritinha de Miúdo sábado, 05 de outubro de 2024

ADAGA INFALÍVEL (CORDEL DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

ADAGA INFALÍVEL

Jesus de Ritinha de Miúdo

Foto de Marco Antônio Robert Alves

 

O Tempo não perde tempo
Nem para em qualquer segundo
Contando seus breves passos
Passa igual pra todo mundo
Tudo que é massa perece
Só o Tempo não envelhece
Em seu andar vagabundo.

Sequer fica moribundo
Ou com o tempo se estraga
Porque é o senhor de tudo
E tudo o Tempo apaga
Perde o belo a sua beleza
Perde o rico a sua riqueza
Na ponta da sua adaga.

Há quem diga ser uma praga
Essa justiça tão forte
Do Tempo girando imune
Que pra ele nada importe
Sem qualquer acepção
Só o Tempo em sua ação
Nunca encontrará a morte.

A tudo dá o passaporte
Pra o reino dos acabados
Os que eram já não são
Os que são serão passados
E para o tempo do além
Somente o Tempo não tem
Os seus segundos contados.


Jesus de Ritinha de Miúdo sexta, 04 de outubro de 2024

RISO LIVRAMENTO (CORDEL DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

RISO LIVRAMENTO

Jesus de Ritinha de Miúdo

Foto: site memoria.ebc

Quando escuto tua voz eu enlouqueço
Perco o senso e não sei mais o que faço
Sem poder receber o teu abraço
Em tua fala eu me acalmo e me aqueço.
É que ouvindo o teu tom eu esmoreço
Os teus sons me confundem o pensamento
Te escutando eu ligeiro me acorrento
Fico presa e me perco na paixão
Tua voz é cadeia e é grilhão
Mas teu riso é pra mim um livramento.

Eu já cumpro um breve juramento
De se eu ouvir tua voz ficar calada
Se eu pudesse viver aprisionada
Viver presa em ti seria alento.
Tua voz é também um sofrimento
Um tormento no qual eu vivo e luto
Mas, assim que o teu riso eu escuto
Livramento da loucura é pra mim
Ela põe nas cadeias todo o fim
Da paixão solitária que eu desfruto.


Jesus de Ritinha de Miúdo quinta, 03 de outubro de 2024

O CONTRÁRIO DO CONTRÁRIO (CRÔNICA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

O CONTRÁRIO DO CONTRÁRIO

Jesus de Ritinha de Miúdo

– Então? A experiência não foi boa? – perguntou Allan pondo o chá na xícara. A fumaça dançando estranhamente no espaço.

– Não. Nada boa – respondeu Kyra cabisbaixa.

– Mas vocês não apoiaram o movimento? Digo, sua família?

– Sim! Você sabe que sim. Quando retornei para lá papai inclusive havia feito de nossa fazenda uma espécie de quartel general em favor da causa. Ele também escrevia diariamente no jornal, com crônicas e artigos defendendo veladamente o movimento. Nosso armazém na cidade distribuía o saldo do estoque entre os camaradas – nesse ponto ela levantou a cabeça e olhou diretamente para o amigo, depois prosseguiu: – Antes mesmo da nossa vitória, papai fez oficialmente de cada empregado um sócio. Tanto do armazém, quanto das terras – falou pressionando o indicador esquerdo em dois pontos da madeira da mesa. Depois continuou: – Mas, pouco tempo depois de alcançarmos o nosso objetivo, já não éramos mais donos de nada – ela gesticulou levando as mãos a se afastarem bruscamente com as palmas viradas para o tampo do móvel.

– E por que já não eram mais os donos? Como assim?!

– Tudo foi mudando rapidamente. O povo estava insatisfeito, não se cumpriam as promessas de igualdade, senão nas obrigações de subserviência. Os líderes necessitavam mostrar controle da ordem e do poder. Dimitri um dia apareceu para agradecer pessoalmente o empenho de papai, mas aproveitou para nos comunicar que tudo, tudo, pertencia ao estado. Era do povo. Já não tínhamos direitos sobre nossas propriedades. Nos informou a nossa casa na cidade sendo desapropriada. Depois ele mesmo passou a ocupá-la. O armazém fechou há dois anos – respondeu com ar de decepção. Queria dizer que sequer sabia notícias do pessoal, mas calou-se.

– Lembra do que eu lhe…

Allan deteve-se coçando o queixo. Era melhor não falar.

– Do que você… o quê, Allan? Fale – pediu a moça.

Ele pigarreou e pôs a mão no ombro da amiga. Fechou os olhos e inspirou, quando olhou novamente para ela, respondeu:

– Bom… Em nossas discussões antigas eu lhe falava que a diferença entre ignorantes e estúpidos, é que os primeiros podem aprender.
Ele se arrependeu de haver dito aquilo.

– Entendi, Allan.

Ela falou com o olhar perdido por entre o espaço da janela aberta. Tinha os campos verdes da primavera inglesa à sua frente.

Allan lhe serviu o chá calado, pousando a xícara sobre o pires na mesa. Observou o olhar perdido da moça. Ela parecia assistir um filme através da janela.

– E o seu diploma? – ele perguntou relembrando a colega de faculdade, empolgada com os rumos políticos em seu pequeno país no leste europeu.

– Não me rendia absolutamente nada. Era como se o meu conhecimento adquirido na educação financiada por papai fosse patrimônio também do Estado. Se eu não tivesse fugido, estaria trabalhando obrigada e praticamente de graça em algum hospital.

Allan notou o tom de tristeza na voz de Kyra. Passou a mão suavemente em sua cabeça.

Ela já não tinha os cabelos soltos e caídos na cintura. Estavam mal cortados, mal cuidados, na altura dos ombros.

Allan deu a volta na mesa. Sentou-se à sua frente, puxando a cadeira mais para direita. Queria deixar a janela totalmente à vista da amiga.

Kyra levou a xícara à boca e soprou levemente no chá, bebericando alguma coisa em seguida. Estava com os olhos fixos no jardim. Lembrou de quando soube do suicídio do pai, divagando que o velho havia morrido bem antes. De tristeza. De falta de esperança.

A fumaça do chá parecia contornar objetos, em movimentos lentos.

– Sabe, Allan, há uma diferença enorme entre o Capitalismo que você sempre defendeu em nossas discussões e o Socialismo visto por mim como a solução para os conflitos sociais – ela falou após um breve silêncio.

Voltou a se calar. Bebeu mais um pouco do chá com os olhos fixos na primavera lá fora. Depois da janela.

O amigo observava a sua figura triste. Não enxergava mais a jovem de olhos vivos por quem se apaixonara havia quatro primaveras. A moça estava maltratada, magra, embora a beleza ainda fosse presente em seu rosto pálido.

Um vento entrou pela janela e trouxe os cabelos dela para cima do olho direito.

– Qual, Kyra? Qual seria essa enorme diferença? – quis saber Allan com um pouco de amargura na voz.

Ela segurava a xícara de chá com a mão direita. O cotovelo, ao lado do pires, apoiado na mesa.

– No Capitalismo os homens exploram desumanamente outros homens – ela respondeu. Apertou o lábio inferior com os dentes e tirou com a mão esquerda a franja do olho. Allan apenas a observava. Ela prosseguiu: – No Socialismo é o contrário.

Tomou um gole do chá e descansou a xícara no pires.

Allan segurou as mãos de Kyra sobre a mesa. Os olhos dela marejavam.


Jesus de Ritinha de Miúdo quarta, 02 de outubro de 2024

COLHERZINHA DE XAROPE (CRÔNICA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

COLHERZINHA DE XAROPE

Jesus de Ritinha de Miúdo

Seu Chico do Motor, alto, franzino, galego no bigode e nas sobrancelhas, voz de trovão, sem um cabelo sequer na cabeça; no RG setenta e oito e nas declarações apenas cinquenta e seis já havia vinte e dois anos; pois bem, duas semanas após ficar viúvo, sem filhos, com a aposentadoria dos cuidados com o velho motor recebida religiosamente em dia, deu de ir ao cabaré de Maria Caçamba, em Macaíba, numa segunda-feira depois do almoço, a fim de buscar uma mulher para quinze dias de companhia e favores de alcova.

 

 

– Lhe devolvo essa minina no outro domingo – prometeu gesticulando, como se a mão pulasse algo mais alto que ele próprio, após haver entregado um pequeno maço de notas de cinquenta reais amarradas com uma liga amarela.

Trouxe para Tangará uma moreninha atarracada, cabelo ruim cortado curtinho, beiços virados, olhos amiudados, nariz achatado e uma voz meio anasalada. Mas tinha um corpo de fazer inveja a qualquer atriz capa de revista. O nome para concordar com a diferença entre o rosto e a bunda? Raimunda. Por coincidência.

O velho Inácio Bico-de-Pato, vizinho de Seu Chico, amigo de infância e companheiro de farras na juventude, sabendo de onde o companheiro tinha trazido a menina, lhe fez uma visita assim que os dois chegaram e foi logo perguntando, sem o menor constrangimento:

– Chico, num tinha uma mais bunitinha não?

– Ter tinha – respondeu o amigo sem olhar sequer de lado. – Mas, Maria Caçamba disse qu’essa bichinha aí sabe fazer “colherzinha de xarope” como nenhuma outra.

– E o que danado é isso? – perguntou Inácio tirando o chapéu da cabeça para coçar o moleira com as pontas dos dedos rachados.

– E eu lá sei, Inaiço! Se tivesse trazido outra ia morrer sem saber.

Inácio quase não dormiu. A noite toda com o ouvido no fundo de um copo, o copo na parede-e-meia separando a sala de sua casa do quarto de Seu Chico do Motor. Ouviu até uns gemidos e foi só.

– Chico, hômi, me diga logo. O que é o negócio lá do xarope? Que troço é esse?! – perguntou assim que o vizinho puxou o ferrolho abrindo a parte de cima da porta, no outro dia de manhã.

Seu Chico, nu da cintura para cima, alisou os cabelos dos peitos com as duas mãos, e soltou sua voz de trovão:

– Inaiço é uma lambida entre o rêgo do boga e os ingiados dos zôvo, ali onde Nosso Senhor costurou para fechar o corpo de Adão – respondeu com ar solene, queixo para cima. E arrematou provocando inveja: – Hômi, se tiver coisa melhor, eu desconheço. Nem nunca provei nesses cinquenta e seis de vida.

No domingo Dona Anitinha, mulher de Inácio, religiosa, baixinha, gordinha, mulher do lar, branquinha feito uma santa europeia, rosto de bochechas rosadas, possuidora de um pigarro seguido de uma tosse seca desde menina, que aumentava em quantidade de vezes quando ela estava nervosa, reuniu os filhos e avisou solenemente entre pigarros e tosses:

– Estou deixando o pai de vocês – anunciou pigarreando. E emendou antes de se arrepender do discurso – De terça-feira pra cá, esse véi deu de se arreganhar pra mim, querendo que eu lhe lamba do cu pros ovos – tossiu com as costas da mão na boca.

– Painho?! Se explique! – pediu a filha mais velha, boquiaberta, olhos esbugalhados, com ar de quem não acreditava no que acabara de ouvir.

– Ô, minha fia, é só uma “colherzinha de xarope”. Se num curar a tosse de sua mãe, que matar é que num vai.


Jesus de Ritinha de Miúdo terça, 01 de outubro de 2024

À MARGEM (CORDEL DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

À MARGEM

Jesus de Ritinha de Miúdo

Versos desta colunista, revoltado por ainda existirem cenas como essa da foto abaixo:

 

 

 

A humanidade inteira
Perdeu de tudo a razão
O homem não evolui
Se não possui compaixão
Se lhe falta caridade
Se não enxerga a verdade
Na dor do seu próprio irmão.

Do que vale ter à mão
Tanta tecnologia
Discursar sobre direitos
Usando de hipocrisia?
Estamos todos doentes
De males nunca aparentes
Sofremos de “alma fria”.

Dia e noite, noite e dia
Há pessoas padecendo
De fome, sede e desprezo
Alguns vegetam vivendo
À margem da existência
E o deus homem (deus ciência)
Passa e finge não estar vendo.


Jesus de Ritinha de Miúdo segunda, 30 de setembro de 2024

…E VOCÊ NÃO CHEGA MAIS (CORDEL DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

…E VOCÊ NÃO CHEGA MAIS

Jesus de  Ritinha de Miúdo

Enquanto solto os meus ais
Sua chegada aguardando
Sinto o meu peito apertar
Sinto meus olhos chorando
Sinto que eu estou perdido
Porque não tenho sentido
Que você está chegando.

Enquanto fico esperando
Chegam dores abissais
Chegam tantos pesadelos
Chegam lágrimas brutais
Pois, dentro desse enredo
A saudade chega cedo
E você não chega mais.


Jesus de Ritinha de Miúdo sábado, 28 de setembro de 2024

OS TRAVESSEIROS DA GENTE (CORDEL DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

OS TRAVESSEIROS DA GENTE

Jesus de Ritinha de Miúdo

Quando se apagou a chama
E o nosso amor fracassou
Você sem pensar jogou
Meu sobrenome na lama.
A paixão ficou na cama
Acabrunhada e doente
Nos travesseiros da gente
Um sobre o outro colados
Respirando apaixonados
Desentendendo o presente.

Não entendem o presente
Porque são acostumados
A nos verem agarrados
Em um abraço envolvente.
Se de nós jorrava enchente
De suor, gozo em volume
Quando surgiu o ciúme
Restaram aos travesseiros
A presença de dois cheiros
Odorando um só perfume.

Se um único perfume
Perfumava a nossa cama
Nosso amor virou um drama
E o cheiro virou chorume.
Travesseiros sem queixume
Desconhecem nosso enredo
Não sabem que era cedo
Para eu chorando ceder
Se eu temia lhe perder
Te perdi perdendo o medo.


Jesus de Ritinha de Miúdo quarta, 25 de setembro de 2024

FLOR CAFÉ (CORDEL DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

FLOR CAFÉ

Jesus de Ritinha de Miúdo

 

És maravilha de encanto
Em canto, versos e prosa
Bebida maravilhosa
Para o meu paladar santo.
Quero cobrir-me com o manto
Do teu cheiro, teu sabor
Aquecer-me em teu calor,
Ao acaso fumaçando
E caso o caos ajudando
Quero te chamar de amor.

Quero sentir teu olor
Despertalar teu segredo
Um a um, logo!, bem cedo
Quero cheirar tua flor.
E se abençoado eu for
Tua pétala mais discreta
Guardarei na mais completa
E perfeita discrição
Pondo cor no coração
Deste teu pobre poeta.

 


Jesus de Ritinha de Miúdo terça, 24 de setembro de 2024

AOS POUCOS… (CRÔNICA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

AOS POUCOS…

Jesus de Ritinha de Miúdo

Aos poucos a gente vai percebendo que o muito importante é estar bem.

Que a verdadeira alegria traz sorrisos ao coração, e refrigera o espírito.

Que simples gestos são sofisticados demais para a compreensão de quem só acha a vida não seguindo além do último suspiro.

Que cheiros, sabores e lugares são elevados pelo poder de encantamento da pessoa nos acompanhando.

Aos poucos a gente vai percebendo que a vitória do time – ou do partido – não é nada diante do choro de muitos perdidos na possibilidade e na falta de esperança.

Que não é a cor da pele, ou a deidade adorada, a tradução da bondade e do caráter de alguém. Tampouco com quem ele deita à noite para sentir prazer.

Que não importa o bairro, o valor, ou o tamanho do apartamento. Mas se é um lar harmônico.

Que o valor de um carro pode ser medido pelas mentiras ocultadas em seu interior. Custa exatamente o valor moral do seu dono.

Que a dignidade é algo da alma, nunca da sala de estar atapetada, com móveis em madeira de lei, belas cortinas e quadros caros em suas paredes.

Que não importa o valor da mesa, da porcelana, do preço do prato, se a comida servida é fruto do desespero de alguém sem mesa, ou sem louça.

Que o lamento antecede o sorriso, mas que uma gargalhada pode vir antes de uma lágrima, e o tempo cura ambos: sorriso e lágrima.

Que o sobrenome importante não vale mais, se as atitudes praticadas exigem esconder o nome.

Que a embriaguez é tão saudável quanto a sobriedade, quando ambas nascem arrumadas na felicidade.

Que o tecido fino é a mesma coisa que o algodão trançado em grosso fio. Ambos encobrem intimidades.

Que uma légua andada por pés descalços, não tem a mesma distância se for vencida por pés em sapatos. Porém, ensina muito mais.

Que a loucura – ah, a loucura! – empresta à vida o que a lucidez dá de graça à arte, e a sanidade não pode ser contada maior que a loucura.

Que o perfume não é mais saudável que o banho.

Que o sonho não é produto do sono.

Que a paixão e o amor não vivem para a compreensão.

Que a vaidade é como uma armadilha projetada para quebrar a perna de quem a arma, ou como um fogo que só pode sair pela culatra.

Que a doçura não se perde por mais que possa ser desprezada por alguém.

Aos poucos…

Aos poucos a gente vai percebendo.

Aos poucos a gente vai percebendo que o muito importante é estar bem.


Jesus de Ritinha de Miúdo segunda, 23 de setembro de 2024

ROCK SOLO EM SOLOS FÉRTEIS (CORDEL DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

Dedicado ao meu amigo de infância Marcos de Totinha, patrimônio humano da nossa terra

 

Foto enviada por @luciaspeedwoman

 

Tua guitarra não tem braço, não faz solo,
Não tem casas, não tem trastes, nem pestana,
É sem corpo, sem escudo, mas se flana
Escorada no teu peito, em teu colo.
Se tu dizes “este som eu desenrolo”
Com certeza tua mente em melodia
Faz um solo de perfeita harmonia
Sonho acorde musical, de som divino
Dedilhado desde os tempos de menino
Na guitarra da inocência e da alegria.

Se há quem ouça nesse som uma heresia
Paradoxo da inocência contra fatos
E preferem te julgar por certos atos
Eu escolho te ouvir na apostasia.
Tua guitarra imaginária apenas guia
Os teus passos e compassos inocentes
Se teus solos não se fazem tão presentes
Certamente os teus sons contêm pureza
Da tua alma recheada de beleza
E das dores que eu sei ainda sentes.

Toca um rock, meu amigo, em tua mente fértil.


Jesus de Ritinha de Miúdo sábado, 21 de setembro de 2024

CAOS(OS) - (CRÔNICA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

CAOS(OS)

Jesus de Ritinha de Miúdo

 

Enfim…

Eu digo a vocês: quando todos estivermos amordaçados, será tarde demais para ouvirmos uma gargalhada ou, até, o som de um grito.

A beleza do canto será abafada e, talvez, vejamos todas as flores cinzas.

O alvorecer e o pôr do sol terão cores opacas. Ambos serão vistos por olhos tristes – quiçá esbugalhados – através de um quadrado enferrujado e sem sentido.

O vento não assobiará sobre os telhados. Mas, será calado por trás do mofo de algumas paredes; as dos quartos mal lavados.

O mar se transformará apenas em uma tênue lembrança, e o céu… Ah, o céu! O céu estará ainda mais distante. Tanto quanto o mar. Porque ambos, mar e céu, serão ferramentas inalcançáveis no desejo de fuga e na esperança da oração, sem que adiante sequer a tentativa da reza, ou algum lamento por nossos mortos; pois, as nossas vozes terão se perdido antes, barradas no tecido da mordaça.

E a liberdade sonhada para todos nós – para todos nós – será um benefício apenas para eles. Apenas para eles…

Os mesmos que deram os nós no tecido da mordaça, por trás das nossas nucas, transformando nossos gritos em inaudíveis sussurros cansados das nossas dores e os nossos risos em lágrimas.

As mesmas lágrimas salgando as nossas mordaças.

Mas eles não saberão do que sabemos nós: enquanto há lágrima, há também esperança.

Mesmo com uma mordaça apertada, longe do mar, distante do céu.

E já ninguém cita mais Bertolt Brecht (1898-1956), tampouco seus escritos.

É diante de tantas ações questionáveis ao direito da liberdade de sorrir e de pensar, de sentir e de falar, que eu invoco Brecht em seu poema sobre liberdade.

Ei-lo:

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.


Jesus de Ritinha de Miúdo quinta, 19 de setembro de 2024

NEGACIONISMO (CRÔNICA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

NEGACIONISMO

Jesus de Ritinha de Miúdo

Qual seria o conceito mais exato para “negacionismo”?

Negar a verdade contida naquele discurso contrário ao nosso, ou não aceitar o nosso próprio discurso estando caolho no debate?

Desde quando passamos a dar mais crédito à Ciência da Conveniência, e abortamos de fato a razão da verdadeira razão?

Por que as nossas meias verdades devem ser promovidas sobre a verdade factual?

Desde quando nos perdemos na necessidade de expormos nossos conceitos observando apenas um sentido do trânsito na avenida das informações?

De quem partirá a quebra do egoísmo e do infame propósito em se mostrar certo nessa tétrica queda de braços entre duas mãos agarradas sobre uma mesa de disputa se sustentando na força de meias verdades?

Como pode alguém ser presunçoso, de tal forma, a se achar verdadeiro quando segue movido pela emoção do fanatismo e na leitura incompletas?

Oh! Como é paradoxal se sentir verdadeiro, quando amparado e alocado também em meias mentiras.

Quem será humilde bastante para reconhecer que sua mão deve largar a outra nessa briga, esquecer e abandonar seus discursos quebrados e juntar a sua meia verdade à meia verdade da outra mão na construção de uma verdade completa?

Já não nos importa os velhos conselhos. A união deixou de fazer a força. O povo desunido está sendo facilmente vencido.

Cada um, no fundo, negando a si mesmo o direito à razão e ao debate pleno de conhecimento.

Eis o mais completo conceito de negacionismo.

Entretanto, uma coisa não poderemos negar no futuro: todos seremos cobrados por nossas falas, atos e, até, por nossas omissões.

Porque Deus não pode Se negar em cumprir Sua palavra. E quem O nega, no fundo se nega e sonega a Verdade.


Jesus de Ritinha de Miúdo quarta, 18 de setembro de 2024

MATA ALEGRE (CORDEL DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

MATA ALEGRE

Jesus de Ritinha de Miúdo

 

Mote e glosa deste colunista:

Toda mata festeja quando pinga
Uma gota de chuva no Sertão.

Num começo de noite abafada
Um clarão se acende sobre a serra
E dos céus, almejando essa terra,
Caem pingos descendo em disparada.
É o começo de uma invernada
Orquestrada no ronco do trovão
Alegrando com o som da explosão
Tudo quanto respira na caatinga
Toda mata festeja quando pinga
Uma gota de chuva no Sertão.


Jesus de Ritinha de Miúdo terça, 17 de setembro de 2024

CALÇADOS APAIXONADOS (CORDEL DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

CALÇADOS APAIXONADOS

Jesus de Ritinha de Miúdo

Eu e tu numa redinha
Num vai e vem compassado
Ouvindo o canto de um torno
Em um gemido arrastado
Enquanto pela janela
Vem beijar tua face bela
Um ventinho assoprado.

Assoprado do nascente
Depois de lamber o mar
Trazendo na brisa fria
Um quê de “te quero amar”
E o meu pé na parede
Empurra a nossa rede
Fazendo um torno cantar.

Cantar de pura alegria
Por nós dois ali deitados
Tu dormindo no meu peito
Eu com meus olhos fechados
Cheirando os teus cabelos
E todo ancho por tê-los
Sobre o meu peito assanhados.

Assanhados pelo vento
Entrando pela janela
Refrescando o fim da tarde
Enquanto o torno à capela
Vai seu lamento cantando
Gemendo e nos balançando
Numa cantiga singela.

Singela feito teu rosto
Tão belo sobre meu peito
Descansando do amor
Há pouco na rede feito
Invejado pelo vento
Que o torno sem movimento
Até chamou de perfeito.

Perfeito feito o quadro
Dos dois pares de calçados
Esquecidos sob a rede
Uns sobre outros deixados
Largados sobre o tapete
Ouvindo o torno em falsete
Como dois apaixonados.

Apaixonados!
Como eu e tu na redinha.

 

 


Jesus de Ritinha de Miúdo segunda, 09 de setembro de 2024

GLOSAS - 16.04.21 (CORDEL DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

GLOSAS

Jesus de Ritinha de Miúdo

Glosas deste colunista com o mote do poeta Du Leal:

Só quem é sertanejo tem noção
Da riqueza no tempo d’invernada.

O assobio do vento me chamou
D’entre as varas tiradas de um pereiro
Separando os limites do terreiro
Que papai, como cerca, amarrou.
Lá pr’as bandas da serra clareou
Uma tira de luz muito afilada
Precedeu ao senhor “pai da coalhada”
Expulsando no grito a aflição
Só quem é sertanejo tem noção
Da riqueza no tempo d’invernada.

Se o clima seguiu muito abafado
Num instante o calor senti passar
No segundo seguinte ouvi cantar
O encanto da chuva no telhado.
Todo ancho, bastante animado,
Me postei sob a lata arreganhada
Pelos anos já muito enferrujada
E que o tempo mudou-lhe a profissão
Só quem é sertanejo tem noção
Da riqueza no tempo d’invernada.


Jesus de Ritinha de Miúdo quinta, 29 de agosto de 2024

PAIXÃO DESPETALADA (CORDEL DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

PAIXÃO DESPETALADA

Jesus de Ritinha de Miúdo

 

Há muito não faço falta
No jardim da tua vida
Nos canteiros do amor
Abriu-se uma ferida
Da qual brotaram as flores
Nascidas dos dissabores
Da esperança perdida.

Nossa paixão ressentida,
Morreu, já foi sepultada
No dia do nosso adeus
Minha alma enlutada
Plantou num certo canteiro
O meu choro derradeiro
Da relação acabada.

Tu fostes rosa plantada
Com as raízes em mim
Sustentada com meus beijos
Mas, tudo chegou ao fim
Agora resta a verdade:
Não sinto a menor saudade
De quando fui teu jardim.


Jesus de Ritinha de Miúdo terça, 27 de agosto de 2024

CHORO E POEIRA (CRÔNICA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

CHORO E POEIRA

Jesus de Ritinha de Miúdo

Foto do Instagram

 

Ontem eu vi pelas redes sociais a queda de um casarão em Caicó. E lamentei. Eu lamentei.

E não compreendi como um ato igual aquele pode ser feito numa cidade pulsando cultura, cujo campus da Universidade Federal do Rio Grande do Norte oferece há várias décadas um curso de História. De História! E fico imaginando nas barbas de quantos Bacharéis em História aquele ato foi praticado.

Não questiono e nem argumento sobre a geração de empregos (eu serei sempre a favor da geração de postos de trabalho, e da criação de riquezas). Certamente será ali um ponto comercial.

Mas, há meios de se alcançar os objetivos de lucro preservando o patrimônio de uma cidade.

Em Assu, por exemplo, o grupo de Supermercado Queiroz, com sede em Mossoró, comprou de uma lapada só algumas casinhas e um velho teatro intencionando pôr tudo no chão.

Uma lei municipal impediu essa aberração. O resultado foi a fachada do teatro preservada e uma das frentes de supermercados mais bonitas do Brasil.

Então, por aquilo que assisti ontem nas redes sociais, nasceu a poesia abaixo:

CHORO E POEIRA

Seu doutor, não foi querela
Eu chorei foi por desgosto
Quando vi na mídia exposto
O caso da casa bela.
Uma máquina amarela
Um trator sem compaixão,
Tão frio, sem coração,
Sem passado, sem história,
Desprovido de memória
Botou a casa no chão.

Não sobrou sequer um vão
Um só, seu doutor, um só!
Menos lindo o Caicó
Ficou com a demolição.
Não quero argumentação
Com quem apaga o passado
Pois, um passado apagado
Faz se perder a riqueza
Da cultura, da beleza,
Da história e do legado.

Eu vi aquele sobrado
Sob a pá da escavadeira
Chorando um choro poeira
Por cada vão derrubado.
Era um choro abafado
Pela queda de um paço
Por cada baque do traço
Perdido da arquitetura
Poeira ganhando altura
E se perdendo no espaço.


Jesus de Ritinha de Miúdo quarta, 21 de agosto de 2024

HOMO HOMINI LUPUS (CRÔNICA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

HOMO HOMINI LUPUS

Jesus de Ritinha de Miúdo

 

Eu moro em Nova Parnamirim. Logo a Avenida Ayrton Senna é o meu melhor corredor.

Do penúltimo sinal para frente, sentido indo para o centro, é revoltante a quantidade de crianças nos sinais.

E cada dia elas estão em maior quantidade e menores no tamanho físico. Algumas de tão pequenas mal se equilibram sobre as pernas; porém, já aprenderam o símbolo universal do mendigar dinheiro: o polegar um pouquinho afastado do indicador.

Revolto-me não contra elas, ou contra seus pais escorados nos troncos de árvores, passivos e impotentes ante a fome, sob a miséria. Coitados! Essa gente é a verdadeira massa esquecida e vítima dos gananciosos e corruptos do nosso país. Dos assassinos e coveiros da esperança alheia.

Revolto-me na verdade contra os governantes nos três poderes: executivo, legislativo e judiciário.

Tanto municipais, quanto estaduais e federais.

Enquanto brigam pela razão e se acusam entre si para esconderem falhas e responsabilidades de seus governos, fazem vista grossa, desprezam e deixam à própria sorte aqueles por quem arrotam um cuidado mentiroso em seus discursos hipócritas.

Homo homini lupus” (O homem é o lobo do próprio homem). O dramaturgo romano Plautus (254-184 a.C.) já sabia disso há dois milênios! Thomas Hobbes (1588-1679), em seu clássico Leviatã, repetiu a sábia sentença milênio e meio depois. Nada havia mudado.

De Hobbes para os nossos dias o tempo contou três séculos e meio. E nesse ínterim, entre a pena de Plautus e o smartphone na minha mão, apenas a forma de saquear, escravizar e humilhar a dignidade do semelhante mudou.

E mudou para pior, porque agora é em silêncio.

LICANTROPIA SOCIAL

Enquanto o mundo caminha
De tristeza em tristeza
Eu sinto que a natureza
Do ser humano definha.
A humanidade mesquinha
Por terríveis divisões
Não procura soluções
P’ra fome do povo pobre
E ao mesmo tempo encobre
A ganância dos barões.

Eu encontro corações
Se dizendo preocupados
Com a dor dos desamparados,
Com a fome dos milhões.
Mas, de dentro das mansões
Nada fazem diferente
Eu tenho dó dessa gente
Sendo escrava da avareza
Vivendo a pior pobreza
De um coração prepotente.


Jesus de Ritinha de Miúdo segunda, 19 de agosto de 2024

TUDO QUE É SÓLIDO SE DESMANCHA NO AR (CRÔNICA DO COLUNISTA JESUS DEE RITINHA DE MIÚDO)

TUDO QUE É SÓLIDO SE DESMANCHA NO AR

Jesus de Ritinha de Miúdo

Inspirado em mensagem recebida e vinda da parte de minha professora, a Doutora Eva Barros, orientadora do meu TCC no Curso de Administração, desabafando comigo pelo Whatsapp, eu fiz uma breve análise do que se passa em Cuba, sob o que podemos de fato saber.

De tudo que já li sobre esses conflitos atuais em Cuba, e das mensagens que eu troquei com o meu amigo Ernandes (antes do sinal de Internet dele ser retirado do ar n’A Ilha), mais me vejo divagando sobre o verdadeiro sentido das palavras “honestidade e lealdade”.

Falo da honestidade comigo mesmo quando não me engano no que penso ser verdade ou mentira, e de eu ser leal aos princípios defendidos por mim como ideais para uma vida digna de um ser humano, em qualquer lugar deste planeta.

Depois desses conflitos atuais em Cuba, vez por outra eu me pego pensado na frase do atual ditador cubano: “Haverá uma resposta revolucionária.”

Aí, tanto Eva Barros quanto eu, imaginamos o destino dos pobres que se insurgiram movidos por nenhuma das alegações oficiais do seu governo; mas, sim, dos motivos que brotaram deles mesmos, espontaneamente, impostos pela história, pela falta de liberdade e pela vida vivida em privações das mais variadas.

A mesma liberdade aclamada e defendida em qualquer lugar deste nosso planeta.
Uma liberdade buscada por milênios em incontáveis sociedades organizadas, desde que o homem (gênero) resolveu abandonar a vida nômade e se juntar em territórios depois chamados de cidades, estados e países. Nações!

Lamento por todos os cubanos da minha geração, ou aqueles mais velhos que eu em uma dúzia de anos.

Uma geração nascida e criada no regime “dos Castros”.

Geração crescida sem saber o significado amplo e real da palavra liberdade. Uma geração “castrada” literalmente em seu direito de saber a verdade dos fatos.

O que pode ser mais fake new do que uma vida inteira vivida ante a ponta da lança do autoritarismo, e sob a quarta parte do significado real das palavras?

Uma mentira jamais será meia verdade. Será sempre e apenas uma mentira inteira.

O que é sólido se desmancha no ar“, já se dizia no famoso Manifesto Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels.

Nada eu discrimino. Mas tudo eu analiso.

Aprendi isso quando eu escrevia o meu TCC sob a orientação da Doutora Eva.

E os tempos nem eram lá tão diferentes dos atuais.


Jesus de Ritinha de Miúdo quinta, 15 de agosto de 2024

GLOSAS - 28.07.21 (CORDEL DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

GLOSAS

Jesus de Ritinha de Miúdo

Glosa deste colunista, baseada no mote do poeta do Manoel Filó, Afogados da Ingazeira-PE (1930-2005):

“A morte está enganada
Eu vou viver depois dela.”

Eu sei que chegando a data
Da minha volta pra Deus
Cessarão os dias meus
Nessa terra que maltrata.
Minha alma será grata
Quando transpor a janela
Para uma vida mais bela,
Eterna e abençoada
“A morte está enganada
Eu vou viver depois dela.”

* * *

E esta é a glosa original de Manoel Filó:

Quando eu partir deste abrigo
Seguir à mansão sagrada,
A morte está perdoada
Do que quis fazer comigo,
Quis que eu fosse igual ao trigo
Que ao vendaval se esfarela,
Mas eu vou passar por ela
De cabeça levantada
“A morte está enganada,
Eu vou viver depois dela”.

 

 


Jesus de Ritinha de Miúdo quarta, 14 de agosto de 2024

CIPÓ SAUDADE (CORDEL DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

CIPÓ SAUDADE

Jesus de Ritinha de Miúdo

A saudade é o açoite
De um cipó diferente
Dilacerando o espírito
Fazendo o tempo presente
Ser só um mero estado
Porque é lá no passado
Que o cipó bate na gente.

E quando o peito sente
Essa dor nunca passando
Às vezes os olhos fecham
A alma fica lembrando
E o cipó da saudade
Bate até com mais vontade
Só para nos ver chorando.


Jesus de Ritinha de Miúdo segunda, 12 de agosto de 2024

UMA GLOSA (CORDEL DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

 

UMA GLOSA

Jesus de Ritinha de Miúdo

 

Mote de Troya D’Souza:

O caderno do tempo é testemunha
Dos bilhetes que fiz pensando nela.

Ante o tronco de um velho umbuzeiro
Com o meu canivete numa mão
Desenhei com cuidado um coração
E pus dentro seu nome com o aceiro.
Logo abaixo escrevi um “xis” arteiro
Pra juntar o meu nome ao nome dela
Esse tronco até hoje é uma cela
Que traz preso o amor naquela cunha
O caderno do tempo é testemunha
Dos bilhetes que fiz pensando nela.

Inspirado em uma décima do Poeta Marcílio Pá Seca Siqueira


Jesus de Ritinha de Miúdo quinta, 08 de agosto de 2024

PRIQUITO DE PEDRA (CRÔNICA DO COLOUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

PRIQUITO DE PEDRA

Jesus de Ritinha de Miúdo

Ali pelos meados dos anos oitenta, passou pelo Cabaré da Rainha, propriedade de Maria Tamborete, uma menina – na verdade nem tão menina assim – que se chamava Aparecida da Glória dos Santos.

Atributos físicos desejáveis possuía poucos, fora a boca de Sophia Loren e os olhos azuis de Xuxa.

Mas, isso quase nada importava. Era requisitada por um exercício seu e inspirador, sendo por ele que eu lhe pus em nossa turma de adolescentes o apelido de Glorinha Priquito de Pedra, depois simplificado apenas para Gê-Pê-Pê.

Explico a alcunha: quando Gê-Pê-Pê queria, dava uma trancada no pé da pomba do camarada, sendo muito mais fácil arrancar a Excalibur da pedra, que tirar o ferro de dentro dela.

Porém, meu amigo Jânio Sebinho, então aluno de Medicina no Recife, bem menos leitor de romances que eu, dizia “o primeiro pê é de ‘prende’, e o segundo de ‘pica’.”

A fama desse aperto já corria o sertão.

Certa feita, numa tarde amistosa, quente e das conversas lacônicas do mês de novembro, o velho Mané de Toinho Queixada, que chegara viúvo do Sudeste havia apenas dois dias, sabendo da fama desafiou seu compadre Ciço do Serrote dizendo “agora pronto! Pois, eu tiro meu pau na hora que quiser tirar”.

A teima começou em uma roda à mesa de cachaça na Bodega e Bar Leve Mais, de Seu Tião Caristia.

Teima vai e teima vem, apostaram a quantia de cinco garrotes e tiraram para o cabaré de Maria Tamborete, rua principal abaixo. Os compadres e mais uma turma de uns dez bebinhos, todos torcendo por Mané de Toinho Queixada; afinal, ele prometera desmanchar o produto da aposta em aguardente com limão e queijo de coalho assado.

O cabaré nem tinha aberto de fato naquele dia – ainda estava no meio da tarde – quando a passeata barulhenta chegou com Mané e Ciço à frente.

Maria Tamborete, a Rainha, só concordou em abrir a exceção cobrando uma taxa extra.

Dinheiro da aposta casado dentro de um chapéu, sobre a mesa e sob a atenção da dona do cabaré, mandaram chamar Gê-Pê-Pê.

Glorinha chegou ainda ajeitando os cabelos assanhados. Estivera dormindo desde um pouquinho depois do almoço.

Ciço lhe contou o caso da aposta e Maria Tamborete autorizou, já lhe entregando o valor extra cobrado.

– Se eu vencer a aposta, lhe pago outro extra – prometeu Ciço para ouvir um “pode deixar” de Glorinha.

Assim entraram num quarto Mané de Toinho Queixada e Simão dos Bodes, escolhido por Ciço como “inspetor da foda”.

Gê-pê-pê entrou uns quatro minutos depois.

De fora se ouvia Mané falando alto “tome rola, danada! Tome rola!”

Os bebinhos apreensivos exultaram quando ouviram o grito de Simão:

– Parece que Mané gozou!

Ciço não contou conversa e gritou de volta “agora tire o pau, que eu quero ver”, e arrematou:

– Segure aí, Glorinha, que tu num vai se arrepender.

– Agora não, que isso aqui ‘tá bom demais – gritou Mané de dentro do quarto.

E haja o tempo passar, o tempo passar, o tempo passar…

Lá para as oito da noite Ciço resolveu entrar no quarto na companhia de Maria Tamborete.

Encontraram Mané sobre Gê-Pê-Pê subindo e descendo, feito um menino de primeira foda.

– Que porra é essa, cumpádi Mané? Se não consegue tirar a pomba diga logo. Você perdeu a aposta.

– Na aposta eu disse que tirava quando eu quisesse, e eu ainda não quis – o compadre respondeu sem olhar sequer de banda.

– Glorinha, minha fía, você tá bem? – perguntou Maria Tamborete.

– Rainha, eu pensei que era para segurar só uma vez. Mas já vai bem numas cinco gozadas desse corno – respondeu meio angustiada, e acrescentou depois:

– Mas o pior nem é apertar o priquito quando noto que ele quer fugir – confessou fazendo uma caretinha.

– E o que é o pior? – quis saber a dona do cabaré.

Glorinha fez uma cara de tédio misturado com tristeza e choramingou:

– É esse outro batendo punheta quase na minha cara.

Quando disse isso deu uma relaxada e na displicência de Gê-Pê-Pê, Mané puxou a pomba para fora dizendo “eu também não aguento mais essas siriricas de Simão. Retiro-me”.

Ganhou a aposta.

Deixou o cabaré nos ombros dos bebinhos rua principal afora.

(De coisas que eu ouço sobre fatos do meu Sertão do Seridó)

 


Jesus de Ritinha de Miúdo terça, 06 de agosto de 2024

TIRANDO DA ORFANDADE (CRÔNICA DO COLUNISTA JESUS DE RITIJNHA DE MIÚDO)

TIRANDO DA ORFANDADE

Jesus de Ritinha de Miúdo

Na tarde do dia 16/12/2013 eu recebi por e-mail – não me lembro mais da parte de quem – a fotografia de uma moça vestida com interessante biquíni.

Na mesma hora salvei o conteúdo no meu computador pessoal e escrevi uma glosa fescenina, tendo a foto como inspiração.

O segundo passo foi enviá-la, junto com os versos para o Jornal da Besta Fubana, a fim de ser publicado na minha coluna. O que foi feito

Cerca de meio ano depois eu recebi num grupo de WhatsApp a foto com a glosa, editadas em uma montagem. Só que a autoria dizia apenas se tratar “de um poeta da Internet”.

Não sei se por displicência, ou por má vontade, quem a copiou não citou o verdadeiro autor, tampouco o lugar da Internet de onde havia copiado.

Daqueles dias de lá para os dias de cá, eu perdi as contas de quantas vezes recebi a mesma foto/montagem sem os créditos devidos.

Inclusive até no nosso grupo do Cabaré do Berto ela já foi veiculada, sendo que na oportunidade eu consegui o link da postagem original e desfizemos o mal entendido sobre “o poeta da Internet”. Infelizmente quando foi trocada a plataforma de armazenamento do JBF, tal link se perdeu.

Ontem à noite, domingo quente nesta capital potiguar, outra vez a dita foto/montagem bateu em minha porta pelo WhatsApp.

Resolvi desfazer o mal entendido de uma vez por todas, para tirar da orfandade intelectual essa glosa filha minha.

Apesar de não ser nenhuma obra prima, sinto-me no dever de esclarecer para fazer jus também ao JBF – essa gazeta dita escrota e tão amplamente acessada – que tem me dado voz e vez, mesmo eu sendo um rabiscador de versos limitado.

Fica, portanto, esclarecido de uma vez por todas.

 

 

 


Jesus de Ritinha de Miúdo segunda, 05 de agosto de 2024

PONTA VIRADA (CORDEL DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

PONTA VIRADA

Jesus de Ritinha de Miúdo

 

 

A saudade é como um prego
Fincado em madeira dura
Com a ponta virada atrás
Dificultando a soltura
Quanto mais enferrujado
Mais na madeira é colado
E com ela se mistura.

Pois, quando a saudade fura
O coração de um sujeito
Sentimento martelado
Com a ponta atrás do peito
É como um prego virado
Que enferrujou no passado…
Tirá-la não tem mais jeito.


Jesus de Ritinha de Miúdo sábado, 03 de agosto de 2024

ABSOLVIÇÃO (POEMA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

ABSOLVIÇÃO

Jesus de Ritinha de Miúdo

Não me venha pedir nenhum perdão
Prometendo voltar ao nosso leito
Penetrando de novo em meu peito
Ocupando outra vez meu coração.
Eu queria sair da solidão
Esquecendo os seus dias de errada
E dizer “volte a ser a namorada
Com quem sempre sonhei um casamento
Se você vacilou foi um momento
E merece por mim ser perdoada”.

Não consigo, no entanto, dizer nada
Nem fingir que não vivo magoado
Olvidar o seu erro no passado
Que deixou minha vida revirada.
Sua carta eu trago bem guardada
Na gaveta da minha ilusão
Hoje enxergo você sem compaixão
No instante que quase me fez morto
Vá atrás de quem só lhe deu conforto
Que eu não posso lhe dar sequer perdão.


Jesus de Ritinha de Miúdo quinta, 01 de agosto de 2024

DE VERSOS FEITOS (CORDEL DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

DE VERSOS FEITOS NO WHATSAPP

Jesud de Ritinha de Miúdo

Eu recebi do poeta Marcílio Pá Seca Siqueira:

Jesus Cristo sem máquina de lavar
Sem ter cândida, sem água, sem sabão
Tem a fórmula secreta pra limpar
Impurezas do corpo do cristão
É só ter a coragem de pedir
Que recebe de Deus o seu perdão

E lhe respondi no mesmo estilo:

Quem recebe de Deus o Seu perdão
E por Ele se encontra abençoado
Deve ser a Jesus agradecido
Por viver em um mundo renovado
Que o calvário da cruz não foi em vão
Já que pode apagar qualquer pecado.


Jesus de Ritinha de Miúdo quarta, 31 de julho de 2024

DUAS GLOSAS - 16.11.2021 (CORDEL DO COLUNISTA JESUS DSE RITINHA DE MIÚDO)

DUAS GLOSAS

Jesus de Ritinha de Miúdo

Baseada no mote:

Quem passar no castelo da saudade
Dê lembrança ao amor que já foi meu.

recebi por WhatsApp, vindo da parte do meu amigo e poeta Marcílio Pá Seca Siqueira, de quem sou fã confesso, a seguinte glosa em décima:

Tinha um jarro com flores na janela
Da casinha na beira da estrada
Uma penca de rosa perfumada
Num presente de amor que dei a ela
Mas o tempo passou e a donzela
No segundo seguinte me esqueceu
Meu sorriso alegre entristeceu
Nossa história findou bem na metade
Quem passar no castelo da saudade
Dê lembrança ao amor que já foi meu.

Aí, eu lhe respondi no mesmo estilo, seguindo o mote de domínio público:

O espelho de um velho camiseiro
Tantas vezes foi nossa testemunha
Do amor que do quarto se transpunha
E ganhava as veredas do terreiro.
Viajava depois o mundo inteiro
Mas, voltava ao quarto onde nasceu
Com o tempo cansou, parou, morreu
Ante o espelho chorando essa maldade
Quem passar no castelo da saudade
Dê lembrança ao amor que já foi meu.


Jesus de Ritinha de Miúdo terça, 30 de julho de 2024

DUAS POESIAS SE COMPLETANDO (POSTAGEM DO COLUNISTA JESUS DE RITINNA DE MIÚDO)

DUAS POESIAS SE COMPLETANDO

Jesus de Ritinha de Miúdo

 

 

O poeta tabirense Marcílio Pá Seca Siqueira enviou:

Já dizia o poeta sertanejo
Que no mesmo sertão ainda mora
A saudade é cruel e dolorida
Como a lágrima no rosto de quem chora
Mas também é delgada e passageira
Como o pingo da lágrima que se tora.

Este colunista, seridoense de Acary, no mesmo estilo lhe respondeu:

Se a saudade na gente se demora
As areias do rosto viram um leito
Para as águas correndo das cacimbas
Cada olho vertendo um rio estreito
E esses rios salgados divididos
Lacrimejam enchendo o mar do peito.

 

 


Jesus de Ritinha de Miúdo segunda, 29 de julho de 2024

FELIZ NATALzheimer! (CRÔNICA DO COLUNISTA JESUSX DE RITINHA DE MIÚDO)

FELIZ NATALzheimer!

Jesus de Ritinha de Miúdo

O Alzheimer de Papai em par com os seus oitenta e quatro anos tem lhe tirado os prazeres da vida.

 

Já não joga futebol, craque de bola que foi; nem desfila pelas ruas do nosso Acary com o seu trombone de vara, ou marcando o compasso na tuba ou, ainda, por último atendendo as ordens médicas estalando os pratos, presente lá atrás na bateria da filarmônica; tampouco grita mais os leilões em benefício da padroeira de sua devoção; não “canta” mais um bingo, esperando entregar a melhor premiação para alguém mais necessitado…

Na verdade Papai tem esquecido o meu nome frequentemente, e aquele prazer de nos sentarmos à calçada para prosearmos sobre o passado tem ficado cada vez mais raro de memórias.

À medida que Papai vai saindo do nosso mundo, eu escolhi ir entrando no dele.

O dele!

Cada vez mais restrito de emoções, e se recheando dos vácuos em suas lembranças.

Puro paradoxo.

Papai vai virando garoto na mesma pressa e proporção que eu vou envelhecendo augurando ser para os meus aquilo que ele sempre foi para mim: um exemplo.

De uma coisa, no entanto, Papai não esquece: do seu “pão italiano” como sempre chamou panetone.

Nas nossas despedidas, quando eu lhe peço a bênção para voltar à capital Natal, tantas vezes ele não lembra o meu nome. Não esquece, porém, de pedir:

– Quando vier de novo, traga meu pão italiano – e completa – o amarelo!

Querendo dizer Bauducco.

Dessa vez eu trouxe o maior dos pães italianos amarelos para ele.

A sua alegria em abrir o pacotão (“ô, pacotão!”), seu sorriso infantil denunciando a felicidade, seu olhar de menino recebendo o presente esperado… Ah! Não tem dinheiro que pague.

E eu fico pensando que não há Alzheimer conseguindo separar o mundo de Papai do meu, ligados que são pelo sangue e por esse prazer que ele chama simplesmente “pão italiano amarelo” e eu sei na verdade se chamar divinamente Panetone Bauducco.

Feliz Natal? Eu tive!

Vivido na alegria de Papai.


Jesus de Ritinha de Miúdo sexta, 26 de julho de 2024

ZÉ BRABO (CRÔNICA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

ZÉ BRABO

Jesus de Ritinha de Miúdo

Zé Brabo (foto), caboclo sincero, honesto, sertanejo trabalhador e sem papas na língua, cujo apelido escondia a pessoa mansa e cordial que era na verdade, um dia me deu um belo ensinamento.

 

Eu gostava de conversar com Seu Zé, pois ele tinha expressões engraçadas e as mantinha em uso em seu linguajar simples de sertanejo arretado. Era o sertanejo em seu fiel estilo sertanejo. Não se envergonhava de ser o que era, um sujeito autêntico e de raízes fincadas no solo da, digamos, impaciência com certas coisas, para não dizer ignorância. Afinal, seu Zé fazia o melhor ícone do tipo “pergunta imbecil, tolerância zero!”.

“Eu num fico de prosa com gente que não sabe conversar as sabenças do sertão, ou com sujeito metido a doutor”, me disse certa vez.

Mas com Zeca de Seu Aurino ele se superava. Ia dizendo certos nomes de doenças e seus sintomas e gostava de ouvir do amigo médico os nomes científicos. A cada nova palavra, que ele nem sempre conseguia repetir, Seu Zé perguntava “e é?”. Mas depois falava que era muito mais fácil dizer como ele dizia e pronunciava a forma popular do nome da patologia. “Infecção generalizada, e é? Num é mais fácil dizer macacoa, não?”.

Avaliando hoje em dia aquele seu jeitão, Seu Zé não era nada de nada ignorante, ele era muito sabido e, com sua forma de tratamento, atraía para si a admiração de todos!

Eu gostava de ficar lhe enchendo o saco até ele se chatear e me mandar ir caçar “nin de avião”, uma vez que comigo ele não chamava palavrões. No máximo ele dizia comigo “fela da gaita”, não obstante, em alguma distração chamar logo era de “fela da puta” mesmo. Mas duvido que tenha ocorrido uma vez sem um pedido de desculpas quando já nos despedíamos.

Pois bem, quando nos encontrávamos, e ele me perguntava como eu estava, queria sempre ouvir um “muito bem”. Outra resposta e ele soltava quase uma ladainha perguntando se eu estava com saúde, se ainda tinha mãe, se ainda tinha pai… essas coisas.

E como eu sabia que ele não gostava de receber outra resposta? Uma vez, avistando-o ali pelo coreto da praça, fui ao seu encontro e lhe cumprimentei:

– Como vai, Seu Zé?

– Muito bem – respondeu-me seco com o vozeirão rouco. – E você, esse menino, como está?

Eu inventei de responder, não sei o porquê, que ia tudo mais ou menos. Ora, ele arregalou os olhos, agitou-se e me ensinou:

– Menino! Mais ou menos é medida de cu!

E eu lá ia pedir a fórmula da equação provando a sua tese? Preferi acreditar na sabença do velho sertanejo Zé Brabo. Se ele falou, estava falado.

Aprendi!


Jesus de Ritinha de Miúdo quinta, 25 de julho de 2024

PEDRO BELUGA (CRÔNICA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

PEDRO BELUGA

Jesus de Ritinha de Miúdo

Final da tarde de ontem, após uma passagem rápida no Sebo Vermelho e um aperto de mão caloroso no meu amigo Abimael, eu procurei um lugar no centro de Natal para merendar.

Partindo da larga avenida Rio Branco, fui entrando e saindo de ruas, vielas e becos, entre gritos de vendedores, pedintes e outras pessoas existentes e fazendo do centro de qualquer capital um ambiente, por si, atraente do ponto de vista humano em suas variedades, dificuldades, lutas, perseveranças e – por que não? – alegrias de viver.

Daí, nessa minha caminhada, fui me ver em uma rua sem trânsito de carros, muito mais um beco aberto que rua propriamente dita, com algumas lanchonetes bem arrumadinhas, limpas e organizadas.

Ante uma delas, a que escolhi e sentei para merendar, essa figura do vídeo acima me despertou a atenção.

Ora! Como eu aprecio o artista!

O artista jovem sem nome e sem sobrenome piscando em grandes painéis. O artista cujo palco é a rua, a praça, um beco! O artista quase invisível, se avistado, olhado e admirado não fosse por passantes. O artista sem espaço na grande mídia e sem direito real ao Real dos incentivos dos governos. O artista digno da real apreciação no Real de moedas e cédulas de pouco valor deixadas em sua “caixa da bondade”. O artista fazendo de sua arte a realidade do seu ganha pão honesto. O artista também, sem a vergonha de se mostrar artista. É a simplicidade desse artista que me enche especialmente os olhos!

Eu fui me aproximando para deixar cair na “caixa da bondade” a minha contribuição.

Depositada lá a quantia muito menor que a minha boa vontade, inquieto que sou, perguntei logo ao artista após lhe desejar boa tarde:

– Qual o seu nome?

– Pedro – ele respondeu quase comendo a minha última palavra.

– Pedro – eu repeti.

E novamente ele engoliu parte da minha voz para se corrigir.

– Pedro não! Beluga!

E rimos juntos apertando as mãos.

– Pedro é o homem. O artista. Beluga o personagem. A criação de Pedro – eu falei.

– Desse jeito – ele assentiu.

Voltei e sentei à mesa enquanto a minha Vigélia lá dentro fazia o pedido da merenda.

Fiquei observando aquele rapaz encantando crianças, rodopiando sobre seus patins, indo numa mesa, noutra, e transmitindo alegria para quem passava, quem estava sentado… Principalmente às crianças por perto.

Até o casal que brigara havia poucos minutos, pela demora da senhora em chegar ao lugar combinado, sorria esquecido das farpas trocadas.

E assim o meu final de tarde foi mais colorido e musical.

Beluga deixou minha alma em paz.

– Beluga, toca Czardas, de Vittorio Monti? – perguntei esperando a minha mulher terminar de merendar.

Pedro arregalou os olhos.

– Um pouco, senhor – ele me respondeu já arrumando novamente o violino, como se dissesse que para Czardas o instrumento deveria estar mais perto do rosto, alinhado ao coração. E completou: – Faz tempo que não toco.

Ajeitou-se todo quando eu perguntei se podia lhe filmar, dando permissão através da linguagem corporal.

Tocou um pouco, e eu gravei a metade.

Depois Pedro me confessaria:

– Estranhei alguém aqui conhecer Czardas pelo nome – e acrescentou: – Grata surpresa.

Nos despedimos com um “boa sorte” gritado por ele, e um “Deus te abençoe” como minha resposta.

Quem quiser ver Beluga introduzindo Czardas, assista ao vídeo abaixo:

 

 

 

 


Jesus de Ritinha de Miúdo quarta, 24 de julho de 2024

UM PRESENTE ESPECIAL DE DEUS (CRÔNICA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

UM PRESENTE ESPECIAL DE DEUS

Jesus de Ritinha de Miúdo

 

Gostei de ver essa imagem. Juro!

Fui seu vizinho durante três anos. Tempos da fábrica de camisas.

Um dia de manhã, quando eu já havia falido literalmente, estava sozinho sentado no meio fio. Uma vontade imensa de chorar, pensando em minha Vigélia e nos quatro menores lá em casa. Um ainda de braços.

Feira por fazer, energia cortada, banco me ligando, ex-funcionários me pondo na justiça, cobranças e pensamentos desalinhados pelas tantas preocupações, dissabores, aperreios… Desespero!

Eu estava praticamente para enlouquecer de tristeza, de falta de ânimo e de desesperança. Não tinha ninguém a quem recorrer. Sentindo-me abandonado não apenas pelos amigos, mas também por Deus.

Tudo que eu via naquele momento de cabeça baixa, literalmente, era uma folha seca entre a minha alpercata e o paralelepípedo da rua.

Mas Deus não havia me esquecido.

De repente senti um toque em minha orelha. Um toque delicado, batendo compassada e carinhosamente.

Alguém havia deixado a porta aberta, enquanto voltou para pegar algo esquecido dentro de casa e Matheus saiu na frente. Se aproximou pelas minhas costas e fez o carinho.

Eu olhei para cima e o vi. Especialmente gigante. Um anjo sem asas, de carne, de osso, de sentimentos puros, tocando em minha orelha em contatos rápidos com a ponta de algum dedo.

Sério como se quisesse dizer em seu silêncio e olhar sereno “Deus me enviou para lhe dizer que você não está só.”

De fato. Deus havia enviado Matheus. Para mim. Enviou para nós.

Matheus!

Matheus cujo significado é “presente de Deus”.

Assim ficamos nos encarando. Eu chorando em silêncio, ele tocando minha orelha. Calado. Compreendendo e me auxiliando em minha dor. Alheio ao milagre se realizando.

Quando o levaram dali, de mim, entrei no prédio da fábrica e chorei tudo quanto podia chorar.

Mas agradeci a Deus por seu presente.

Os toques leves de Matheus em minha orelha haviam tirado toneladas dos meus ombros.

Deixaram apenas um riacho de lágrimas e um mar de esperança que dias melhores viriam. E vieram!

Essa lembrança sempre me enche os olhos.

Agora, vendo sua imagem e lembrando daquela manhã, me faço em riachos novamente. No entanto, hoje as lágrimas são de alegria e gratidão – por que não? – primeiramente a Deus, depois a Matheus.

Por sua saúde. Por vê-lo bem.

Por tudo!


Jesus de Ritinha de Miúdo segunda, 22 de julho de 2024

DUAS GLOSAS - 07.02.22 (CORDEL DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

DUAS GLOSAS

Jesus de Ritinha de Miúdo

A poetisa Constância Uchoa, caicoense de Mossoró, sempre muito inspirada e gastando o dom de usar as palavras como poucas pessoas, criou e me enviou há cerca de ano o seguinte mote:

“Quem se cobre de sonhos se descobre
Muitas vezes coberto de ilusão.”

Por acaso ontem eu voltei a ter contato com os versos do mote, e desenvolvi duas glosas a partir deles.

E nelas eu disse bem assim:

Seu amor foi quimera, pouca chama,
Assombrando um pouquinho, nada além
Foi faísca apagada, fogo sem
O poder de queimar lençóis de cama.
Acendeu labareda só da fama
De ser mais que o calor na combustão
Seu desejo é pavio de lampião
Sem o gás alcançar, é fogo pobre
“Quem se cobre de sonhos se descobre
Muitas vezes coberto de ilusão.”

Foi um facho de luz a incomodar
Prometendo esquentar, não esquentando
Que jurou me abrasar, não abrasando…
Se apagou muito antes de queimar.
Seu amor foi somente um debochar,
No desdém esfriando essa paixão,
Num problema de amar, sem solução,
No desejo de gozo em falso exprobre
“Quem se cobre de sonhos se descobre
Muitas vezes coberto de ilusão.”

 

 


Jesus de Ritinha de Miúdo sábado, 20 de julho de 2024

VIDA EM MOVIMENTO (POEMA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

VIDA EM MOVIMENTO

Jesus de Ritinha de Miúdo

 

São duas crianças minhas
Visão que o meu peito aquece
Se meu pai me deu seu colo
Meu neto em meu colo cresce
No movimento da vida
Um me serviu de guarida
Do outro sou alicerce.

Se o neto de mim carece
Vou usando o tempo meu
Para lhe dar as lições
Que um dia papai me deu
E a vida segue assim:
Um aprendendo de mim
O que o outro já esqueceu.


Jesus de Ritinha de Miúdo sábado, 13 de julho de 2024

A MÍDIA QUE PRENDE E ABATE (CRÔNICA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

A MÍDIA QUE PRENDE E ABATE

Jesus de Ritinha de Miúdo

As palavras, caríssimo leitor, quando intencionadas ao caos, ou são mal interpretadas, conduzem apenas ao abismo. A multidão já não interpreta mais; nem palavras, nem números.

As palavras gentis e disfarçadas de uma hoste manobrando uma massa nesse país virtual, para mim, é um crime contra o patrimônio moral da nossa sociedade – falando em nação brasileira.

E o nosso povo – essa é uma impressão minha, que nada sou e nada tenho – jamais foi tão conduzido ao pasto deficiente de nutrientes cognitivos, ou encurralado para o abate quanto hoje. O mugido de suas vozes, embora a deficiência do pasto seco e a eminência do tiro na testa, mescla um quê de satisfação e de impotência.

E a voz desse povo, arrimada nas palavras ouvidas dos seus condutores – por certo! – não é a voz de Deus.

As palavras e os cânticos desse povo nos passam a impressão da aquiescência e a visão dessa realidade como boa. Já o ferro dos seus chocalhos parecendo mais sábio que eles, entretanto, chega a nos enviar um “tengo-lengo-tengo” dolente e sem esperança.

E enquanto houver o desrespeito ao ser humano, mormente pelas mentiras levadas ao povo, os índices nos envergonhando serão menos debatidos. Eles, os ditos índices, estão sob uma camada pulverulenta da mais vil tirania: aquela se apossando da consciência dos homens.

Há de se debater as estúpidas paixões e o fanatismo desenfreado, envolvendo os três pilares do ópio e vício do povo mais paupérrimo de bom senso: política, futebol e religião. Alinhados e aliados dos condutores, são como um complemento jogado para emprestar gosto ao pasto. Mas, vão cegando até alguns nominados inteligentes. E o pior! Muitos nesse rebanho ousam pensar em si como vaqueiros.

Nós observamos de fora esse quadro tétrico e temos um mugido diferente. Nós os estarrecidos, no entanto, somos marginalizados e rebaixados à burrice. Somos como carne de quinta, sem gosto, sem serventia, prurida… que em se degustando mata!

Somos gado naturalmente morto.

Quanta inversão de valores. Aliás, de palavras.

Sem palavras!


Jesus de Ritinha de Miúdo terça, 09 de julho de 2024

O NASCER DE UMA ESTRELA (CRÔNICA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

O NASCER DE UMA ESTRELA

Jesus de Ritinha de Miúdo

A crônica abaixo é da pena sensível de Teresa Oliveira, escritora lançando sua primeira obra, advogada, ativista da causa autista no RN, humanista e funcionária do Tribunal de Justiça da Paraíba.

Será parte das quarenta e cinco crônicas alicerçadas na saudade da autora no livro “Gentil, verás que um filho teu não foge à luta”, contando a história do pai dela, Dr. Gentil Oliveira, médico e político potiguar, assassinado em 1989.

O livro será lançado no dia 27/Maio/2022, conforme informações que estão no final desta postagem.

* * *

O INÍCIO DO INÍCIO – Teresa Oliveira

O quarto era iluminado por um abajur de renda francesa. Entre a mobília, toda em estilo Luiz XV, reinava soberana uma penteadeira cheia de significados. Sobre ela ficava o talco usado pela minha avó Elita, cujo cheiro ainda familiar, me causa uma das melhores saudades olfativas. Fecho os olhos e sinto!

Alta, magra, elegante e de uma fidalguia peculiar à sua figura, assim era ela, a mãe do meu pai.

Nas minhas doces e ternas lembranças, eis que ela aparece magnífica. Ao acariciar os meus cabelos, não titubeava em lamentar a velhice e a impossibilidade de me ver adulta.

Chamava-me carinhosamente de “mulher bonita”; pois, segundo ela, eu era dona de traços afilados e rosto de boneca.

Tantas vezes vejo-me nela, seja na luta, na coragem, na forma de enfrentar a vida, sem medo e sem melindres, seja na velha penteadeira herdada por mim e guardada com o zelo dos objetos, senão santos, com significados inenarráveis.

Felipe Alves de Oliveira e Elita de Paiva Barreto viveram uma história de amor ímpar, e não é segredo para ninguém: eles são para mim uma fonte inesgotável de inspiração. Eles eram os pais de Dr. Gentil.

Meu avô era agricultor, homem calmo, prudente, paciente e muito trabalhador. Com suas mãos calejadas pela labuta diária construiu as cercas do velho Sítio Carnaubau, manuseando o arame farpado com a mesma maestria que um poeta manuseia uma caneta.

Da união vieram cinco filhos. Todos nascidos no sítio. No entanto, tão logo precisavam estudar, eram enviados para a cidade com esse fim.

De Alexandria à Natal, de Natal à Recife, os irmãos desbravaram o mundo e venceram na vida.

Hoje, conversando com o primogênito, Francisco Paiva de Oliveira, gozando ele de saúde e lucidez no auge dos oitenta e tantos anos, senti a alegria de um homem se orgulhando em relembrar o passado de lutas, conquistas, lágrimas e vitórias.

Definiu a mãe como uma mulher justa, que, sem meias palavras ou meias verdades, lhes ensinou o valor do trabalho honesto na vida de qualquer ser humano.

Em relação ao pai, Chico Paiva relembrou o esforço e a luta de um agricultor nunca admitindo seus filhos segurando sequer o cabo de uma enxada. Meu avô agricultor sonhou plantar grande. Colheu grande.

Naquela época, onde só os filhos de famílias tradicionais tinham condições de estudar na capital, filho de agricultor ser doutor era um desacato.

Pois bem, o filho mais velho abriu os caminhos e cuidou dos demais. Fez o serviço completo, incluindo até o caçula.

Quando fala no assunto, Chico Paiva se vê emocionado e diz que tinha meu pai como um filho.

Francisco fixou residência no Recife, vivendo na Veneza Brasileira até os dias atuais.

Com o peito estufado de orgulho, me disse que o meu pai passou no primeiro vestibular na melhor faculdade de Medicina do Nordeste.

Perguntei o que ele sentia quando se lembrava do irmão caçula e, com a voz ainda embargada pela saudade, respondeu-me: “Ele era inteligente, tinhoso, gostava de política e tinha uma bondade imensa. Me obedeceu em quase tudo, só me faltou com respeito quando teimou em morrer antes de mim.”

As últimas palavras precederam um soluço. O meu.

 

  • * *

 

 


Jesus de Ritinha de Miúdo segunda, 08 de julho de 2024

LOUVOR ÀS MÃES (CRÔNICA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

LOUVOR ÀS MÃES

Jesus de Ritinha de Miúdo

Neste dia de louvar todas as mães, eu trago do livro Gentil, verás que um filho teu não foge à luta – que eu tive o prazer de organizar os textos – da escritora potiguar Teresa Oliveira, uma das crônicas mais belas que li nos últimos tempos, quando o amor é evocado através de gratidão e saudade.

No texto que seguirá abaixo, Teresa Oliveira nos traz aquele olhar apurado sobre a mãe. Um olhar maduro com a mais genuína sinceridade.

A crônica é, na verdade, além da comprovação do talento natural da autora para a literatura, uma leitura de agrado à alma. Também mostra através da personalidade forte deixada em cada entrelinha pela autora, a fortaleza moral que todas as mães possuem em suas gêneses. Porque não existe mãe diferente, todas as formas morais são iguais. Salvo as experiências pessoais da autora e sua mãe, todo o texto é um louvor magnífico à alma de qualquer mãe responsável no ambiente familiar.

Voltando um pouco ao livro em si, não me furto em dizer, foi escrito com o coração de uma filha devotada à família. É emoção, saudade e lirismo desde o título na capa, até o ponto final da última frase.

* * *

A saudade dela também dói em mim

O tempo é amigo de sua memória e a sua história ficou gravada no coração do seu povo.

Com Dr. Gentil na retaguarda, peço licença ao meu pai para quebrar o protocolo desta obra e oferecer a minha eterna saudade por aquela que me ensinou a transformar luto em luta: Maria Teresa Fernandes de Sousa Paiva, minha amada mãe.

Mulher guerreira, destemida, buscou pautar sua existência em valores e princípios maiores do que os desafios impostos pela árdua jornada de uma viuvez na casa dos trinta anos e, por outros trinta anos, ocupou o duplo papel de pai e mãe da forma mais sensata e equilibrada que alguém pode fazê-lo.

Viveu intensamente um testemunho de fé e humildade, confiando sua vida e a vida dos seus nas mãos do Pai Celestial. Ajoelhada aos pés do altar do Senhor, sempre nos manteve de pé.

Nós duas travamos muitas batalhas juntas, ela no silêncio que lhe era peculiar e eu na coragem alicerçando-me das minhas entranhas. Sabíamos as entrelinhas e os avessos de tudo que fazíamos e planejávamos.

Falsa modéstia colocada totalmente à parte, se hoje me considero uma das mulheres mais destemidas que conheço, certamente devo ter aprendido muitas lições com mainha. Muitas coisas, decisões e atitudes tomadas por ela entre sorrisos, hoje eu as faço sangrando. Mas, seus ensinamentos me dando resiliência estão valendo. É o que importa. É o que eu tenho no passar das horas diariamente.

Em 11 de abril de 2019, estávamos nos despedindo, tempo que deixamos a vida seguir seu curso e seu custo. A resiliência veio do alto e a coragem de continuar a luta vem daquilo aprendido com ela, engolir o choro, erguer a cabeça e olhar o futuro.

Confesso andar fraquejando vez por outra, não se fazem mais mulheres como antigamente, isso é fato! Amanhã, quem sabe eu consiga caminhar com passos mais firmes porque hoje, só ficou a certeza de que nunca mais seremos os mesmos sem a presença física de quem demonstrou atos de extrema bravura até na hora de morrer.

Nos corredores do Hospital Esperança, em Recife – PE, conversamos pela última vez. Na porta da UTI, com meus dedos entrelaçados aos dela, rezamos juntas uma Ave Maria.

Percebendo a minha voz cortando e as minhas mãos geladas, engoliu a dor mais uma vez. Segurou-me pelo pulso e olhando para mim, sem derramar uma lágrima sequer, pronunciou suas últimas palavras:

– Deixe de choro, minha boneca. Vai dar tudo certo. Deus lhe faça feliz e Nossa Senhora da Conceição lhe acompanhe. Vá para casa descansar e não esqueça de cuidar dessas olheiras.

Com o polegar estirado para cima, foi-se UTI adentro. As portas fechadas sinalizaram a minha orfandade pela segunda vez. O chão se abriu, o mundo caiu, as luzes se apagaram e eu me quebrei em infinitos pedaços. Roguei aos amigos para que me sustentassem em orações.

Mulher forte, árvore frondosa com raízes pautadas no bem e na paz. Tive que reaprender a caminhar.

Em meio ao caos, tentei ressignificar aquele momento que tão somente a dor era minha fiel escudeira. Chorava, rezava e perguntava a Deus como seria a minha vida dali em diante. Até agora, não tive as respostas para os meus questionamentos e a minha inquietude permanece latente até nos domingos mais serenos.

Dias difíceis, mãe! A certeza é só uma, a saudade não é amenizada pelo tempo e o coração aperta quando me lembro que não estaremos juntas na missa de Sábado de Aleluia, esperando o acender das velas para fazermos nossas promessas no altar da Matriz de Nossa Senhora da Conceição.

Ao pé do meu ouvido, fiz uma tatuagem em sua homenagem, uma flor do deserto, já que as duas guardam a semelhança de florescer em todas as estações do ano.

Antes de fazer esse desenho, pensei em colocar a inicial dela junto com a de painho, que tatuei no pulso esquerdo quando conseguimos da justiça dos homens o papel de Justiça, e assim, fechamos esse ciclo em nossa vida. Mas, escrever a inicial dela, junto ao nome de Dr. Gentil não seria justo.

Maria Teresa, mulher que, por mais de três décadas, viveu e sobreviveu sem o marido, numa missão triplicada, injusta, cruel, indócil e hercúlea para uma mulher tão jovem. Mainha subsistiu com maestria e, fazendo de sua existência um tributo à maternidade responsável, criou e formou três filhos, enfrentou a viuvez de cabeça erguida, ensinando-nos que a felicidade plena está em nós mesmos.

A ela, ainda tão viva em minha memória e em meu coração, hoje mando as flores mais lindas, seguidas da saudade mais profunda e da admiração que enquanto vida eu tiver, escreverei com A maiúsculo, porque o amor só sobrevive de forma legítima quando tem a admiração como pré-requisito indispensável.

A saudade vez por outra se descortina me fazendo chorar. Saudade acumulada é sinônimo de coração doído, lágrimas entrelaçadas de dor descendo face abaixo sem sequer me dar a chance de enxugá-las.

Não dá tempo, é choro demais da conta. Certo dia, vesti uma roupa dela para trabalhar, sempre que faço isso, recebo elogios por estar elegante e por me parecer cada vez mais com ela.

Desde que ela se foi, uso um anel de cruz que ela não tirava do dedo, mulher que materializava a fé até nos adereços. Normalmente não sofro quando me arrumo igual a ela, mas hoje foi diferente, olhei o anel no meu dedo e imaginei quantas cruzes carregadas com a leveza de um olhar sereno seguido da coragem de enfrentar a vida na sua mais profunda desordem.

Refletindo sobre o calvário de minha mãe em plena quaresma de 2022, tenho cada vez mais forte a certeza do caminho dela sendo repleto de muitas pedras; mas, foi perfumado com as flores exaladas pela sua alma.

Como diz o poeta: “Mulher, Mulher, da escola em que você foi ensinada, jamais tirei um dez, sou forte, mas não chego aos seus pés.”


Jesus de Ritinha de Miúdo sábado, 06 de julho de 2024

AH, SE DEUS… (POEMA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

AH, SE DEUS…

Jesus de Ritinha de Miúdo

Por que eu não nasci flor
Pequena e delicada
De pétala fina e rosada
E de singular olor?
Se Deus fizesse o favor
De em flor me transformar
Quem sabe eu fosse ficar
Em tua orelha, bem presa,
Usando a tua beleza
Para a minha enfeitar.

Ah, se Deus…

E quem pudesse olhar
Eu por trás da tua orelha
Perceberia a parelha
Que só Deus pôde criar.
Talvez fosse divagar
A história que ali se dava
Eu de ti me aproveitava
Inalando o teu bom cheiro?
Ou tu vieste primeiro
E com prazer me cheiravas?

Ah, se Deus…


Jesus de Ritinha de Miúdo quinta, 04 de julho de 2024

DÊ-ME ATENÇÃO (POEMA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDOo

DÊ-ME ATENÇÃO

Jesus de Ritinha de Miúdo

Não me mate aos pouquinhos de saudade
Nem me deixe morrer de solidão
Tenha pena de mim, dê-me atenção,
Me dirija a palavra por bondade.
Se ainda lhe resta caridade
Se por Deus você tem qualquer temor
Deixe eu ver o seu rosto, por favor,
Ou ouvir sua voz num simples oi
Não evite falar com quem já foi
Tantas vezes chamado meu amor.

Tantas vezes chamado meu amor.

Mande logo notícias para mim
Vem matar toda minha ansiedade
Pois, se for pra viver nessa saudade
Eu prefiro morrer, não vivo assim.
Se você não mandar será meu fim
Na tristeza, no choro, no clamor,
Minha vida tem sido um dissabor
Pouco a pouco morrendo desprezado
Me lembrando que fui lá no passado
Tantas vezes chamado meu amor.

Tantas vezes chamado meu amor.


Jesus de Ritinha de Miúdo quarta, 03 de julho de 2024

NÃO É POESIA. NÃO É POEMA. É APENAS UMA BREVÍSSIMA CONSTATAÇÃO SOBRE A VIDA (CRÔNICA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

 

A vida sempre é melhor sob os delírios da alma.
Sob a certeza de que nada é certo. Nem errado. Tampouco feio. Ou bonito.
Saber que no tudo há muitos nada. Que o nada muitas vezes é o tudo na vida.
Que a loucura nada mais é que um sobejo da lucidez. Um sopro do extraordinário.
E que a simplicidade é o limite mais próximo de uma vida feliz.
Nada melhor que sonhar que se vive o impossível. No pódio do inalcançável.
Nada mais fascinante que viver sem existir. Algo. Alguém. Tudo é como um conto bem escrito.
Às vezes…
A vida é um delírio fantástico das reticências. Bom é acreditar nela. Na vida. Com pontos finais. Com reticências.

Bom é acreditar que se é capaz. E ser.
E que o caos de vez em quando se organiza em nosso favor.


Jesus de Ritinha de Miúdo quarta, 26 de junho de 2024

APAREÇA (CORDEL DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

APAREÇA

Jesus de Ritinha de Miúdo

Se você não aparece
Que graça tem o meu dia?
Vai-se embora a esperança,
Leva junto a alegria,
Foge também a vontade
E fica só a saudade
Do tempo que eu lhe via.

De quando aparecia
E sorrindo me olhava
Era como uma chuva boa
Todo feliz me deixava
Sua menor atenção
Enchia meu coração
De poesia me encharcava.

Enquanto você passava
Meu olhar lhe acompanhando
E seu nome bem baixinho
Eu ficava só chamando
Pedindo no pensamento
Que você por um momento
Para trás ficasse olhando.


Jesus de Ritinha de Miúdo terça, 25 de junho de 2024

O TEMPO É UM CAMINHO DE IDA (CRÔNICA DO COLUNISTA JOESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

O TEMPO É UM CAMINHO DE IDA

Jesus de Ritinha de Miúdo

 

Se acreditou quando falaram para você que “a vida dá muitas voltas”, você não passou de um tolo.

Se ainda acredita, continua tolo. Desculpe-me.

A vida é um processo em linha reta, sem curvas, sem bifurcações reais, sem voltas. Porque até o que se repete nela, retorna à existência em um espaço temporal diferente.

E o tempo, esse senhor de todas as coisas, de toda a razão e verdade, é um elemento sem voltas, sem curvas, sem marcha à ré, e seus círculos fechados não passam jamais da visão acompanhando os ponteiros consultados em um relógio analógico. E só.

São as únicas voltas do tempo, essa conotação usada no pulso dos homens, nas paredes das salas ou nas torres dos templos, medindo e informando sobre o caminhar à frente da humanidade em algum espelho das horas.

E nesse andar tenha todo cuidado com suas palavras e promessas.

Dê aos seus semelhantes, mormente aos próximos, o beneplácito da confiança mútua.

O que prometeu, você cumpra. Não piore para os outros essa viagem sem voltas chamada de vida, dando-lhes falsa esperança, e iludindo-os com mentiras, porque você não quis se calar quando o silêncio pediu passagem através do tempo.

Seja tolo sozinho. Se quiser. Mas não entregue ninguém à tolice.

Não compre amizades. Conquiste-as. Depois lhes seja leal cuidando em não perdê-las por negligenciar a confiança em você depositada.

E já que a vida não dá voltas, tampouco possui curvas, adiante-se ao tempo todas as vezes necessárias, desde que seja para um pedido de desculpas. O solicitar ou o conceder de um perdão.

Quiçá a inteiração da verdade.

Saiba: os dias não se repetem em absolutamente nada. Nada!

Portanto, não deixe arestas para aparar depois.

Você não terá tempo de voltar às sobras das coisas, simplesmente porque a vida não dá voltas.

E o tempo nunca retrocede.

(A foto acima mostra parte da Highway 10, estrada que tem a mais longa reta do mundo. Está na Arábia Saudita, entre a cidade de Haradh e a fronteira com os Emirados Árabes, próximo dos limites com o Catar. Este trecho compreende uma reta de 260 km, em um espaço plano do deserto Saudita, sem curvas no caminho).


Jesus de Ritinha de Miúdo segunda, 24 de junho de 2024

À DERIVA (POEMA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

 

À DERIVA

Jesus de Ritinha de Miúdo

Eu busquei por você desesperado
Encontrei só vazio e muito medo
A procela da angústia logo cedo
Tomou conta de mim, pobre coitado.
O meu mar sem você anda agitado
Eu buscando singrar nessa paixão
Já icei minhas velas, foi em vão,
Esperei pelo vento, não ventou
“Sou um barco largado que ficou
Atracado no cais da solidão.”

Já dei voltas tentando reencontrar
Um amor que perdi lá no passado
Vou correndo, voando… vou a nado
Eu não acho, nem paro de buscar.
Já me dói não poder lhe abraçar
Desse amor infeliz eu sou cativo
Sua fuga eu não sei qual o motivo
Aceitá-la, meu bem, eu não aguento
Abandono de amor é sofrimento
Neste mar de revoltas no qual vivo.

* * *

Observação:

Na primeira parte da poesia deste colunista encontramos os versos “Sou um barco largado que ficou / Atracado no cais da solidão”, sendo eles um mote criado pelo poeta Júnior Monteiro.


Jesus de Ritinha de Miúdo sexta, 21 de junho de 2024

DUAS GLOSAS - 10.07.22 (CORDEL DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

DUAS GLOSAS

Jesus de Ritinha de MIúdo

Bebo, fumo, jogo e danço
Sou perdido por mulher.

Mote de Moyses Sesyom, seridoense potiguar de Caicó

Pra quatro coisas balanço
Com coração peregrino
É que desde bem menino
Bebo, fumo, jogo e danço.
No mundo assim avanço
Até onde eu puder
E enquanto o dinheiro der
Não deixo a putaria
Nem essa vida vadia
Sou perdido por mulher.

A vida não tem remanso
Entre o sonho e o real
E eu tendo o capital
Bebo, fumo, jogo e danço.
À noite chega, eu me lanço
Numa vereda qualquer,
Se de grana dispuser,
Para um baixo meretrício
Pois, tenho um quinto vício
Sou perdido por mulher.


Jesus de Ritinha de Miúdo quinta, 20 de junho de 2024

ORLANDO TEJO E LIMEIRA - DOIS ABSURDOS NO CÉU (CRÔNICA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

 

Até hoje há certa dúvida se o Zé Limeira retratado pelo jornalista, escritor e repentista Orlando Tejo em seu livro “Zé Limeira – O Poeta do Absurdo” viveu de verdade, ou era criação de sua cabeça fértil de versos, rimas e poesia.

 

 

 

É certa a existência de um violeiro com o mesmo nome, nascido em Teixeira (PB) por volta do ano de 1886, e falecido na mesma cidade na data de 24 de dezembro de 1954. Mas não é unanimidade desse artista sendo o mesmo abordado por Orlando em seu livro, embora ele tenha ganhado notoriedade pós publicação.

No documentário “O Homem que Viu Zé Limeira”, dirigido por Maurício Melo Júnior, Orlando se esquiva e não responde a pergunta cujo sentido era “quanto de Tejo tem em Zé Limeira do livro?”, num risinho de canto de boca ele apenas bafora do seu cachimbo, com ar de menino feliz por saber que sua arte fez alguém se divertir.

Eu sei por tudo que pesquisei sobre Orlando Tejo, pelos depoimentos colhidos de pessoas do seu convívio, principalmente nas conversas com Luiz Berto, por exemplo, é que era homem de mente brilhante. Acima da média. Um QI invejável.

Final de semana passado eu fui acordado outra vez nesse meu fascínio por Orlando Tejo através de uma publicação no Instagram do poeta Rainilton de Sivoca, glosando este mote do também poeta Kydelmir Dantas:

“Orlando Tejo e Limeira
Dois absurdos no céu.”

Daí resolvi escrever uns absurdos em homenagem a Orlando Tejo e a Zé Limeira, sendo esse último personagem ou não.

Assim fiz a brincadeira:

Zé Limeira muito artista
Montou num foguete branco
O bicho pegou no tranco,
Subiu… se perdeu de vista.
Orlando ‘tava na pista
Montando uma cascavel
Vendo aquele fogaréu
Seguiu na mesma carreira
“Orlando Tejo e Limeira
Dois absurdos no céu.”

Orlando cortou bigode
Tirou barba, fez cabelo,
Depois levou todo pelo
Pr’uma roda de pagode.
Limeira fez uma ode
Depois criou um cordel
Dos pelos do menestrel
Fez um samba pra Mangueira
“Orlando Tejo e Limeira
Dois absurdos no céu.”

Limeira cabra da peste
Sem ter medo de altura
Com mil quilos na cintura
Escalou o Everest.
Orlando fazendo o teste
P’ra se tornar bacharel
Escreveu lá no papel
Do Brasil a lei inteira
“Orlando Tejo e Limeira
Dois absurdos no céu.”

No vídeo a seguir, o vemos o Editor Luiz Berto contando um causo e declamando.

Assim o leitor poderá tirar a prova dos nove sobre a genialidade de Orlando Tenho.

 


Jesus de Ritinha de Miúdo terça, 18 de junho de 2024

A M(A)UDERNIDADE (CRÔNICA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

 

A M(A)UDERNIDADE

Jesus de Ritinha de Miúdo

Eu hoje trago para os leitores do JBF o pensamento de Derosse Barbosa Júnior, nordestino arretado, entusiasta da cultura popular, observador do mundo, discípulo de Ariano Suassuna, apaixonado pelo Nordeste e gênio da raça:

O maior de todos os democratas e o primeiro, aliás, foi Deus Nosso Senhor; quando deu ao homem o livre arbítrio, o direito de viver e fazer o que quiser de sua própria vida. Até de se auto-destruir.

Portanto, o Nordeste no meu vê corre atrás de recuperar um prejuízo incalculável: o abandono de suas raízes e de sua cultura, de todo o seu conhecimento empírico, acumulado em mais de duzentos anos de convivência e observação de seu habitat, sob o pretexto da “modernidade”, adotando hábitos enlatados; tornando-se nada mais nada menos do que um escravo do consumismo e do modismo do mundo “moderno”!

O pior ainda é ter se tornado um preguiçoso contumaz. Não mexe o corpo nem para ligar uma TV, e depois vai gastar dinheiro com um tal de “treinador pessoal”, chamado por um nome em “Ingrês” – que eu graças a Deus não sei escrever na língua deles – o tal do “personal treiner”.

Até o nome é sem sentido.

Mas cada um tem o direito de viver como bem entender.

Afinal, Deus lhes deu esse direito.


Jesus de Ritinha de Miúdo sábado, 15 de junho de 2024

GLOSAS (21.08.2022) CORDEL DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

 

GLOSAS

Jesus de Ritinha de Miúdo

Toda chuva que vem leva um pedaço
Da tapera a herança dos meus pais.

Mote de Antônio Poeta

O poeta Marcílio Pá Seca Siqueira, pernambucano de Tabira, desenvolvendo o mote acima, enviou-me a seguinte glosa:

Casa velha de taipa abandonada
Já não és tão bonita como era
Nem de longe tu lembras a tapera
Que serviu pra meu povo de morada
Vejo o tempo cruel dando pancada
Na madeira ruída dos portais
Os morcegos pousando nos frechais
Cada qual ocupando seu espaço
Toda chuva que vem leva um pedaço
Da tapera a herança dos meus pais.

Este colunista, acaryense do Seridó Potiguar, respondeu-lhe com duas glosas no mesmo estilo.

Ei-las:

A madeira que um dia pai subiu
Para ser o sustento do telhado
Sobre o chão é somente um pau quebrado
Sob o pó do telhado que caiu.
A coluna do centro se partiu
Arrancaram as portas dos umbrais
Nem a cor das paredes se vê mais
Do reboco não resta nenhum traço
Toda chuva que vem leva um pedaço
Da tapera a herança dos meus pais.

Sem soltar dessa velha cumeeira
Com as pontas olhando para o alto
Num lugar muito triste de ressalto
Restam só alguns tocos de madeira.
Nos tijolos da frente a trepadeira
Já subiu agarrando por detrás
Se expandiu pelas partes laterais
Sufocou a casinha nesse abraço
Toda chuva que vem leva um pedaço
Da tapera a herança dos meus pais.


Jesus de Ritinha de Miúdo quarta, 12 de junho de 2024

SER(A)REIA (POEMA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

 

SER(A)REIA

Jesus de Ritinha de Miúdo

Recolhi minha mão para escrita
Ante o mar, e na faixa de areia
Versejei a beleza da sereia
Que deixava a praia mais bonita.
E a vida ficava mais bendita
Cada vez que a sereia me sorria
Com encanto num canto de magia
O silêncio entre nós era um mar
De paixões, de mistérios, um calar
Inspirando mil versos de alegria.

Cada letra compondo essa poesia
Era um mantra, num manto de paixão
Pra falar da beleza da sereia
Enfeitando meu campo de visão
E n’olhar da sereia, eu poeta
Já risquei um poema de ilusão.


Jesus de Ritinha de Miúdo segunda, 10 de junho de 2024

CONTÍCULO DE PRAZER (CRÔNICA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

 

CONTÍCULO DE PRAZER

Jesus de Ritinha de Miúdo

Sob o sol escaldante eu beijei seus lábios e o mar nos cobriu com uma onda grande. O sabor do teu beijo doce misturou-se com o sal da água e as nossas línguas ficaram como as ondas: não contavam quantas vezes ultrapassaram os limites formando espumas, num vai e vem sem fim.

Depois a vi adormecer sob o calor do mesmo sol.

Havia um quê de paz em seu sorriso recém beijado e a terra…

Bem…

A terra me soprava aos ouvidos “acorde o seu amor. Beije-o outras vezes mais.”


Jesus de Ritinha de Miúdo quinta, 06 de junho de 2024

SEPARAÇÃO E DOR (CRÔNICA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

 

SEPARAÇÃO E DOR

Jesus de Ritinha de Miúdo

O café à mesa soltava ao ar uma fumaça tênue em movimentos não ensaiados, subindo numa dança do ventre orquestrada nos compassos da brisa entrando pela janela semiaberta da cozinha.

Lá fora o tempo estava frio.

Dois biscoitos de canela, deitados sobre um guardanapo de papel, observavam os movimentos da fumaça alinhados ao parsianismo da brisa fria.

Sobre a mesma mesa, sob o pote com açúcar demerara, uma folha de papel retirada da agenda presenteada pelo banco, trazia o nome dele escrito no topo. Um bilhete que a caneta esferográfica azul, repousando destampada e exausta sobre o papel, tentara escrever; mas não encorajara com eficiência a mão trêmula que a segurava havia duas horas.

Lá dentro tudo era silêncio.

Sentado de pernas cruzadas, a coxa direita sobre a coxa esquerda, ele olhava para o infinito pela brecha da janela.

O ritmo do seu coração parecia ditar os ensaios e requebrados da fumaça subindo em câmera lenta.

Nele tudo era tristeza.

Sentada num banco da estação de trens, ela observava a fumaça de uma fábrica se espalhando rápida, volumosa e negra pelo espaço aberto.

Quase nada ali parecia ter vida.

Limpou outra vez as águas dos olhos.

A tampa da caneta, no escuro de uma bolsa de couro preto, chorava a dor da separação.

O próximo trem seria o dela.


Jesus de Ritinha de Miúdo quarta, 05 de junho de 2024

O POETA E A SAUDADE (POEMA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

 

O POETA E A SAUDADE

Jesus de Ritinha de Miúdo

Saudade ninguém explica
Embora o poeta tente
Junta palavras em versos
Falando da dor que sente
Às vezes é aplaudido
Noutras mal compreendido
Não se abala e segue em frente.

Em sua verve plangente
Impõe ao mundo beleza
Sentindo dor de saudade
O poeta com grandeza,
Enfermo do coração,
Dá asas à emoção
Pra dissertar a tristeza.

Vivendo essa crueza
Com sua face molhada
O poeta junta as letras
Da saudade escancarada
Faz mil versos num segundo
Fingindo pra todo mundo
Que no fundo sente nada.


Jesus de Ritinha de Miúdo sábado, 01 de junho de 2024

HÁ DIAS QUE NÃO TE VISTO (POEMA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

 

 

HÁ DIAS QUE NÃO TE VISTO

Jesus de Ritinha de Miudo

A luva disse à mão
Fazendo-lhe um pedido:
“Se encontrar pelo chão
Algum corpinho caído
Preste alguma atenção
Não olhe com má vontade
Nem passe com brevidade
Pode ser que seja o meu
Que por ter tanta saudade
De saudade esmoreceu.”

 


Jesus de Ritinha de Miúdo terça, 28 de maio de 2024

VILANOVA AGORA É DO ACARY DO MEU AMOR (CRÔNICA DO COLUNISTA JESUS DE RITNHA DE MIÚDO)

 

VILANOVA AGORA É DO ACARY DO MEU AMOR

Jesus de Ritinha de Miúdo

Da esq. para dir: Este colunista segurando a viola, Felipe Pereira, a primeira dama Renata Aquino, o prefeito Fernando Bezerra e o antológico poeta-cantador Ivanildo Vilanova

 

Na noite da última sexta-feira (04/11), eu estive presente no Largo do Museu do Sertanejo, na abertura do II Encontro de Genealogia de Acary, evento acontecendo dentro da Semana Cultural da minha cidade querida.

A noite começou com uma palestra sobre a influência dos usos e costumes judaicos herdados dos nossos antepassados, ministrada pelos professores Fabiana Agra e Janduih Medeiros, e foi encerrada com a apresentação de dois poetas violeiros repentistas: o jovem natalense Felipe Pereira e o monstro sagrado da viola Ivanildo Vilanova, pernambucano de Caruaru.

 

 

Felipe eu vejo como o mais promissor poeta violeiro repentista do Brasil. E digo sem medo que será o maior nome de sua geração nessa arte (foi uma honra tê-lo entre nós).

Pois bem, para a minha surpresa, eu descobri ao final do evento da noite de sexta que Ivanildo Vilanova escolheu Acary para morar.

Há quinze dias ele se fixou em nossa terra.

Para nós acarienses, que conhecemos sua importante obra e a envergadura do seu nome dentro do universo da arte, e até da MPB, esse fato muito honra o nosso torrão.

Poderá nascer agora um intercâmbio fantástico de conhecimentos, gerando a aproximação dos nossos jovens com a poesia extraordinária de Ivanildo Vilanova e, assim, introduzir as novas gerações no fantástico ambiente da arte escrita e cantada.

Por exemplo, a música “Nordeste Independente” (sobre o mote Imagine o Brasil ser dividido / E o Nordeste ficar independente), eternizada na voz de Elba Ramalho, é uma composição dele em parceria com o também poeta Bráulio Tavares.

Para mim, fã de sua obra, foi a surpresa mais agradável e a melhor descoberta da noite. Pude abraçá-lo e falar de minha admiração.

Uma honra enorme e uma satisfação sem tamanho poder dizer, doravante, que Acary também é de Vilanova. Que Vilanova também é de Acary. Do Acary do meu amor. Do amor de todos nós.

Seja bem-vindo, Ivanildo Vilanova!

* * *

PS.: Na manhã de ontem, em parceria com Dra. Kyvia Motta, falei na importância para a sociedade brasileira da judia sefardita Branca Dias. Grande mulher e matriarca, denunciada, condenada e presa pela Inquisição. Um mito tema de músicas, peças teatrais, documentário e lendas.

Mas, sobre ela falarei na próxima oportunidade.

* * *

Elba Ramalho interpretando “Nordeste Independente”, de Ivanildo Vilanova.

 


Jesus de Ritinha de Miúdo segunda, 27 de maio de 2024

CÁLICE CAÍDO (POEMA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO(

 

CÁLICE CAÍDO

Jesus de Ritinha de Miúdo

Da mesa, do outro lado,
Vi um cálice caindo
Vi quando bateu no chão
Nesse choque se partindo
Em não sei quantos pedaços
Mas um desses estilhaços
Pulou do chão, me ferindo.

Era aquilo me atingindo
E eu vendo que fui ferido
Me veio a compreensão
Dos cálices, o seu sentido:
Um deles caindo ao chão
Esteja distante, ou não,
Você será atingido.


Jesus de Ritinha de Miúdo sábado, 25 de maio de 2024

PAPEL FLAGELANTE (POEMA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

 

PAPEL FLAGELANTE

Jesus de Ritinha de Miúdo

Foi um tiro, um só, no coração
As palavras que ela me enviou
Num bilhete escrito, me deixou
Sem juízo, sem lugar ou direção.
Redigido na força da emoção?
Eu não sei. Só sei que me destruiu
Que acabou o meu mundo, que caiu
Num buraco a vontade de viver
Prometi a mim mesmo esquecer
A autora da dor que me afligiu.

Só Deus sabe – só Deus! – o que sentiu
O meu peito na hora da leitura
Invadiu-lhe a flecha da amargura
Numa força tão bruta, quanto ardil.
O meu senso na hora se partiu
Os meus pés vacilantes me pararam,
Minhas mãos tremulantes seguraram
O papel flagelante à minha vista
Meu olhar lacrimante foi basista
E dois rios pujantes me inundaram.


Jesus de Ritinha de Miúdo quinta, 23 de maio de 2024

“QUEM É DO MAR NÃO ENJOA.” (CRÔNICA DO9 COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

 

“QUEM É DO MAR NÃO ENJOA.”

Jesus de Ritinha de Miúdo

O título deste texto é o da canção de Martinho da Vila

Cada um fazendo o que gosta.

Eu gosto de conversar.

De ouvir pessoas.

De saber histórias.

Ontem conheci Seu Chagas. Sessenta e três anos. Cinquenta e quatro de mar. Primeiro como pescador de jangada e hoje, mais maduro, “fichado como Marinheiro de Convés. Tenho até carteira”, falou-me orgulhoso.

Semianalfabeto das letras, “mas sei ler o mar e o tempo do céu”. Na verdade eu o vi como um doutor do oceano, para onde começou a sair com o pai “ainda menino, quando troquei a bola nos pés na areia firme, pelas cordas nas mãos no balanço das águas”, foi me contando com seu lirismo puro de quem enxergou mais da vida nas tempestades enfrentadas, que muitos de nós na segurança dos nossos empregos e apartamentos.

“Escute bem: o mar é um professor e ‘de’ noite o céu ensina muito.”

Mãos calejadas, dedos deformados – um deles faltando a falange digital, revelou-me não possuir muito. Mas o bastante: “minha família. Criei meus filhos tirando o sustento no vai e vem das ondas, como meu avô criou meu pai e como meu pai me criou; e todos deram para gente. Nenhum quis viver do mar como eu”.

Fizemos uma amizade rápida. De apertos de mãos firmes. De sincera satisfação.

Um em falar. O outro em ouvir.

Possivelmente eu nunca mais o verei. Mas, doravante, levarei Seu Chagas comigo por uma de suas últimas frases.

“O mar não é para quem quer. É para quem é.”

Como tudo na vida, Seu Chagas.

Afinal, “quem é do mar não enjoa”.

Eu não enjoo de ouvir pessoas.

Este colunista e Seu Chagas, Fortaleza, dezembro de 2022

 

 

 


Jesus de Ritinha de Miúdo quarta, 22 de maio de 2024

VAR DE ANTIGAMENTE E REGRA NOVA (CRÔNICA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

 

VAR DE ANTIGAMENTE E REGRA NOVA

Jesus de Ritinha de Miúdo

Pela primeira vez nesses meus cinquenta e um ano de vida, eu não estou sentando ao lado de papai ante uma TV para acompanhar os principais jogos de uma Copa do Mundo de Futebol. Minhas obrigações não me permitiram – ainda – correr para o sofá de Dona Ritinha, lá no Acary do meu amor.

 

Não obstante a distância, fiz uma chamada de vídeo para papai após o jogo do Brasil contra os suíços, a fim de comemorar a nossa vitória. Ele ainda vestido com a camisa da Seleção, já não lembrava, no entanto, que acabara de assistir ao jogo. O alemão que vai derrotando-o lentamente faz um estrago pior que aqueles sete a um de dois mile e quatorze. O Alzheimer é uma falta desleal que nem o mais avançado VAR consegue reverter em favor de quem a sofre.

Bom, como os dias são de futebol, alegria do povo, eu vim aqui hoje foi deixar duas histórias interessantes.

Contaram-me que lá no começo do século passado, dias do Coronel José Bezerra “d’Aba da Serra” (1843-1926) como líder absoluto em Currais Novos, quando o coronelismo arbitrava e os coronéis decidiam até sobre o jogo da vida dos seus conterrâneos, criou-se um time de futebol por aquelas ribeiras. O nome da equipe certamente se perdeu no tempo. Mas não o fato que passarei a narrar.

Organizaram um jogo e convidaram especialmente o Coronel José Bezerra para assistir ao grande evento. A intenção era despertar no comandante político a mesma paixão pelo futebol alcançada Brasil afora e, assim, conseguir dele alguma ajuda para a manutenção da equipe.

Tudo arrumado, equipe visitante em campo, puseram em um lugar alto e de destaque uma cadeira confortável, à beira do campo de terra batida, e nela sentaram o homem. Falaram sobre o objetivo, explicando-lhe sobre o gol e as regras principais, duração da partida, o goleiro, os defensores de linha, os atacantes, o poder do árbitro etc.

O jogo seguiu sem a bola passar por entre os paus, encaminhando-se ao final sem gol, num empate que parecia não estimular a atenção do coronel. Porém, aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo, o árbitro marcou um pênalti contra Currais Novos. Houve um verdadeiro alarido. A multidão gritava revoltada. “Por que o jogo está parado”, perguntou o coronel. Alguém lhe respondeu “foi pênalti”. E ele sem entender perguntou “o que é isso?”

Pediram silêncio e calmamente alguém lhe explicou: “Coronel, é um gol certo. Mas, contra Currais Novos!”

O coronel alisou a barba e decretou calmamente: “Então mande bater do outro lado.”

Quase um VAR que arruma a jogada e interfere no resultado do jogo.

O estádio de Currais Novos leva o seu nome.

Tempos depois, já nas terras da Fazenda Soledade, entre as cercas de José Braz Filho (1925-1996), bisneto do Coronel Zé Bezerra d’Aba da Serra, ajeitaram um terreno, jogaram a cal traçando linhas na terra, fincaram quatro madeiras no chão em dois pares, norte e sul, amarraram um travessão em cada par, e estava criado um campo de futebol, no lugar onde a vaquejada era de fato o esporte mais praticado poucos metros à frente.

Obra de dois dos três filhos machos de Zé Braz “Novo”, José Braz Neto (1953), o Dedé de Zé Braz, e Jarbas Braz (1956), o caçula de todos; um se aventurando na linha e o outro debaixo dos paus, no “Campo da Soledade”.

Conta-se que num domingo de clássico o time de Dedé de Zé Braz perdia pelo placar mais magro, e o sol já era um fiozinho de luz quase apagada, quando o árbitro recebeu a ordem “não acabe ainda”.

Descambava o segundo tempo para uma hora e quinze minutos, céu escuro, jogadores de ambas as equipes exaustos, quando houve um escanteio em favor do “time da Soledade”.

Batido na área adversária, novo escanteio se deu. O segundo seguido.

Bola levantada no tumulto outra vez, a zaga cortou jogando pela linha de fundo. O terceiro escanteio consecutivo.

Foi quando Dedé de Zé Braz correu atrás da bola e, segurando-a entre os espinhos das juremas atrás do campo, decretou a décima oitava regra do futebol:

– Três escanteios é pênalti.

Bateu, converteu e a partida terminou empatada.

Nem o emir do Catar tem tanto poder de mudar ou criar regras no futebol. Né não?

 

 


Jesus de Ritinha de Miúdo terça, 21 de maio de 2024

LEMBRAR DE NÃO ESQUECER (CRÔNICA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

 

LEMBRAR DE NÃO ESQUECER

Jesus de Ritinha de Miúdo

O Alzheimer de Papai o faz esquecer de muitas coisas. De alguns nomes, de muitos momentos, de pessoas… Até deste filho que, para ele, aos poucos, tem virado o seu irmão Chaguinha, falecido em 1978.

“Ô Chaguinha, chegou agora de onde? Passou por Acary? Foi lá em casa?”

Cada vez mais alheio à realidade, Papai vai se distanciando de suas lembranças e dos seus prazeres.

A maior parte do tempo, não reconhece sequer a casa onde mora há mais de meio século.

Dia após dia, reclama de não viver mais em nossa amada Acary.

Hoje, me fez prometer que amanhã iremos por lá, digo, visitar Acary.

Depois da promessa, eu tive a curiosidade de lhe perguntar como se chama a cidade (de sua imaginação) onde ele está vivendo. Para minha surpresa, ele respondeu: “Rockefeller”.

Meu Deus! De onde surgiu esse nome na memória de Papai?

Aí, se pôs a comparar a sua megalópole Acary “com essa porcaria de cidade, que nem igreja tem”.

Papai vai esquecendo das coisas. No entanto, eu ainda lembro de não esquecer alguns prazeres dele. E, como não podia deixar de ser, não esqueci de trazer o seu “pão italiano da Bauducco” para o Natal.

Aliás, o Alzheimer não conseguiu ainda fazer com que Papai esqueça essa satisfação. Esse sabor da vida.

Amanhã, nosso café em Rockefeller será mais gostoso. E com esse prazer na alma iremos, ele e eu, à Acary que Papai não esquece.

PS.: Com a satisfação de viver o prazer de Papai, desejo a todos os melhores votos de Boas Festas.

Um Feliz Natal. Um Próspero 2023.

Que Deus nos abençoe sempre.


Jesus de Ritinha de Miúdo segunda, 06 de maio de 2024

APRESENTAÇÃO, CRÔNICA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

 

APRESENTAÇÃO

Jesus de Ritinha de Miúdo

Eu tive a grata e honrosa satisfação de ser a ponte entre o Jornal da Besta Fubana e um dos seres humanos mais humanos que conheço em vida minha: o Padre Gleiber Dantas, de Caicó.

O mesmo padre que ganhou o mundo pela Internet por promover um leilão, em prol de sua paróquia, se balançando animado numa rede.

Padre Gleiber é gênio da raça. É poeta, cronista, contista… ele escreve como um santo. Um santo!

Uma santidade vista em seu próprio estilo de vida, alicerçada na simplicidade do cotidiano humilde, sem as estolas ricamente adornadas por bordados em fio de ouro que afastam alguns mensageiros de Deus das pessoas. Padre Gleiber é, antes de qualquer título, um homem do povo. Do povo que se identifica com sua alegria contagiante, e lota sua igreja.

Antes de batizarmos sua coluna – aqui Jesus não é João Batista, mas batiza também – escolhendo um nome que esteja à altura do Padre Gleiber, trago no espaço que o Papa Berto gentilmente me cede a primeira participação do homem; e estou com o sentimento que não falta ao JBF gente ligada a Deus: um papa, um Jesus e doravante um padre de batina e tudo.

Eis abaixo o estilo lírico do meu amigo Gleiber, o padre:

* * *

QUEM É ESSE PADRE?

Quem não conhece meus pais me conhece muito menos do que pensa. Sou filho de Djalma da TELERN, Djalma de Neuza de Chico Mello, e Marlene de Djalma, Marlene de Maria de Zé Bernardo. Penso que um dos piores defeitos do ser humano é ter vergonha de seus pais. Cada um de nós é fruto do encontro de muitos vínculos. Somos muito mais do que dizem as informações de nossos documentos de identificação. Existimos há muito mais tempo do que calculam nossos aniversários, pois já estávamos em cada um de nossos antepassados e deles herdamos mais que cromossomos, fenótipos e genótipos.

Como sou feliz em ser filho de quem eu sou! Não sou mais feliz porque não puxei mais a eles e bem que poderiam ter exigido mais de mim. Mamãe nasceu no município de Serra Negra do Norte (RN) e estava em São Bento (PB) quando, em 1965, veio morar em casa de Zé Patrício e Ana, primos de Papai, no Caicó. Papai tirou a sorte grande duas vezes: uma, quando tio Zé Vicente deu a um dos filhos de Neuza aquele trabalho na TELERN. A inteligência e a responsabilidade de Papai lhe renderam muitos frutos em prol dos que precisavam dos serviços telefônicos de então; outra, quando casou.

Somos descendentes da Mãe Dondon da Timbaúba, que faleceu em companhia de sua filha Enedina e seu genro Bembém, que mantinha alambique em sua fazenda Oiticicas. Mãe Dondon que ainda pediu uma chamadinha de cana, na hora da morte. Papai espontaneamente deixou de beber há exatos 10 anos; senão, já era defunto há muito tempo. Eu morava no Recife. Mamãe, um dia, me liga e o diálogo foi, mais ou menos, assim:

– Meu filho, seu pai deixou de beber.

– Sim, Mamãe, eu sei. E não era isso o que a gente queria?

– Era, meu filho, mas quem vai morrer agora sou eu.

– Por que, Mamãe?

– Porque agora eu vou ter que beber por mim e por ele!

Papai sempre disse que, para se divertir, a pessoa não precisa beber. E assim ele continua se divertindo com Mamãe; ela, às vezes, tomando uma; às vezes, tomando umas e outras; e, às vezes, tomando todas, sempre conosco e com essas pessoas amigas que nos enriquecem tanto com seu bem-querer.

Padre Gleiber Dantas – Caicó, 28/12/2022.

 


Jesus de Ritinha de Miúdo quinta, 02 de maio de 2024

APENAS MAIS UMA SAUDADE (POEMA DO COLUNISTA JESUS DE RITIHA DE MIÚDO)

 

APENAS MAIS UMA SAUDADE

Jesus de Ritinha de Miúdo

Fiz do sofá minha cama
Sofrendo de madrugada
À mesa nem sento mais
Não consigo comer nada
Sem ter mais o que fazer
Vivo só de padecer
Com saudade da amada.

Quem não sabe o que é sofrer
Diz logo que é um drama
Por certo nunca sentiu
Da saudade a sua chama
Queimando o peito da gente
Como uma brasa bem quente
No coração de quem ama.


Jesus de Ritinha de Miúdo terça, 09 de abril de 2024

FANÁTICO (CORDEL DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

 

FANÁTICO

Jesus de Ritinha de Miúdo

Cada vez que eu te vejo
Dispara meu coração
Em virtude da beleza
Ante a minha visão
E se não posso tocar-te
Deixa apenas mirar-te
Com minha admiração.

Se acaso disseres “não”
Respeitarei teu querer
Prometo cegar meus olhos
– Sofrendo não sei viver –
Melhor ser cego de guia
Do que não ter a alegria
Por não poder mais te ver.

Porém, se eu merecer
De ti, essa permissão
Seguirei com mais respeito
E sem perder a razão
Louvar-te-ei em meus versos
De sentimentos dispersos
Em disfarçada paixão.


Jesus de Ritinha de Miúdo segunda, 11 de março de 2024

SONHO E REALIDADE (POEMA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

 

SONHO E REALIDADE

Jesus de Ritinha de Miúdo

Eu me deixei escondido
Numa esquina da rua,
Te vi sob a luz da lua
Sem por ti ser percebido.
O teu vestido comprido
De um tecido encarnado
No teu corpinho colado
Prendeu mais minha visão
Me fez perder a razão
No singular rebolado.

Meu olhar admirado
Te acompanhou na calçada
Com minha vista vidrada
Em cada passo, teu, dado.
Para ficar complicado
Chegou-me a inspiração
Atiçou meu coração
Por toda beleza tua
De vermelho, sob a lua,
E ante a minha visão.

Se isso tudo é paixão
Não divulgada, vivida,
Se sempre correspondida
Eu não sei te dizer não.
Só sei que perco a razão
Quando te vejo passando
Na realidade, ou sonhando,
Em teu vestido encarnado
De longe teu rebolado,
Segue assim me inspirando.

E eu sigo preso em ti.


Jesus de Ritinha de Miúdo terça, 06 de fevereiro de 2024

CAVALO ALADO (POEMA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

 

CAVALO ALADO

Jesus de Ritinha de Miúdo

Ah, se desse d’eu voar
Com você em mim montada
Cruzando os céus do espaço
Dando no ar rabeada…
Você agarrada em mim
Subindo e descendo assim
Num voo, em galopada.

E nessa viagem alada
Eu feito aquele pavão
Mysterioso e formoso,
Fogoso nessa ação,
Fazendo um voo dos sonhos
Dando razantes medonhos
Co’as asas dessa paixão.

Se tudo isso é ilusão
Eu não quero acreditar
Que sou como um passarinho
Que se cansou de voar
E por delírio me faço
Cavalo alado, de aço,
Para você cavalgar.

Sem temer tempo no ar
Sem respeitar o espaço.


Jesus de Ritinha de Miúdo segunda, 22 de janeiro de 2024

UMA GLOSA - 26.03.23 (CORDEL DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

 

UMA GLOSA

Jesus de Ritinha de Miúdo

Sobre este mote criado por meu amigo Manoel Pinheiro Netto

“A saudade é a dor que faz doer
E que marca em meu peito a cicatriz”,

e lembrando de uma pessoa muito querida que perdeu sua filhinha aos quatro anos de idade, eu escrevi a seguinte glosa:

Num minuto se foi minha alegria
Meu tesouro, meu tudo, meu amor,
O meu ar se perdeu, restou-me a dor
No lugar onde ela me sorria.
Minha vida tornou-se agonia
Num instante, fiquei tão infeliz
Que estar no lugar dela eu quis
Mas foi ela que Deus quis recolher
A saudade é a dor que faz doer
E que marca em meu peito a cicatriz.


Jesus de Ritinha de Miúdo domingo, 07 de janeiro de 2024

MINHA AGONIA (ÚLTIMOS VERSOS) - (POEEMA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

 

MINHA AGONIA (Últimos versos)

Jesus de Ritinha e Miúdo

Eu vivo lá no passado
Meu futuro se perdeu
Não tenho sequer presente
– Este tempo não é meu –
Parece que a natureza
Gerou-me para a tristeza
Quando o amor floresceu.

Sem luz, vivendo um breu,
Minha alma inquieta
Não crê mais que o tempo passa
Virou alma abjeta
Não sonha, não sente dor,
Hoje não crer mais no amor
Deixa aqui de ser poeta.

O silêncio me completa
De agora em diante
Os versos se calarão
Não falarão do instante
De quando nos misturamos
Do quanto nós dois gozamos
No tempo pouco distante.

Porque nós passamos do tempo.


Jesus de Ritinha de Miúdo sábado, 30 de dezembro de 2023

LEMBRANÇAS DO MEU AVÔ CHIQUINHO (CRÔNICA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

 

LEMBRANÇAS DO MEU AVÔ CHIQUINHO

Jesu de Ritinha de Miúdo

Sempre invejei quem na vida teve a figura dos avós.

Eu não tive.

Aliás, tenho o infortúnio de haver nascido treze anos depois da exata data em que minha avó paterna Norinha partiu deixando dez filhos. O mais velho contando quase vinte e três anos, o caçula contando sete meses incompletos.

Daí fui em segredo compartilhado apenas comigo mesmo na hora de dormir, quando rezava em sussuros pelos de minha família, adotando os avós dos amigos mais chegados: Birina e Seu Ciço Muniz avós de Tunéa, D. Perpétua avó dos meninos de D. Miriam, D. Ana avó dos meninos de Dodó; além do casal de vizinhos Baixinho e Toinha, que de fato nos ensinaram, a nós lá de casa, a chamá-los de avô e de avó.

Meu avós maternos morreram bem antes de eu nascer. Vovó Maria Pequena nos meados dos anos cinquenta, vovô Chico Ciano em sessenta e dois.

As únicas lembranças que ainda carrego de um avô de sangue são as lembranças de Vovô Chiquinho. Elas são apenas três. Uma delas eu já lutei para apagá-la.

Eu cheguei na casa do meu tio-avô Zeca Sapateiro, e vovô conversava com sua irmã Mariana. Uma perna estirada e a outra dobrada. Sentava-se “à meia bunda” numa balaustrada.

– Tome a bença do seu avô – ordenou-me a tia-avó.

–  Abença vovô?

Ele assanhou meus cabelos sorrindo, abençoou-me e perguntou por papai.

–  ‘Tá trabalhando – respondi. E essa lembrança acaba aqui.

A outra memória são apenas de suas calças azuis, para lá e para cá em um dia de festa. Eu sob a mesa do seu café, brincando com meu tio caçula, fruto do segundo casamento, mais velho que eu alguns meses.

A terceira lembrança, triste memória, traz Vovô Chiquinho deitado em seu último leito, não acordando para me dar a benção que eu, inocentemente, lhe pedi segurando o caixão com minhas duas mãos.

Eu tinha apenas três anos e nove meses.


Jesus de Ritinha de Miúdo quarta, 27 de dezembro de 2023

ÂNGELO E AUGUSTO (CRÔNICA DO COLUNISTA JESUS DE RITINHA DE MIÚDO)

 

ÂNGELO E AUGUSTO

Jesus de Ritinha de Miúdo

Eu tenho buscado, a fim de não parar ante os diários com notícias tétricas da atualidade, agarrar-me nas coisas trazendo alegria e sensação de paz.

Nessa busca encontrei o perfil do Instagram da pedagoga @lucigmaia.

Mãe de autistas, gêmeos, Luci (imagino que os próximos a chamem assim) é uma mulher além do seu tempo. Não se prendeu às dificuldades dos filhos, tampouco aos preconceitos certamente muito mais fortes e latentes na sociedade dos anos oitenta, e criou seus filhos Ângelo e Augusto com o verdadeiro amor e zelo que de uma mãe se espera.

Não se absteve da responsabilidade de mãe, nem parou nos reclames e mi-mi-mis dos que se fazem coitados, quando poderiam se fazer vencedores.

Uma mulher que passei a admirar com toda a minha devoção.

Parece-me que, altruísta social, Luci nos entrega diariamente vídeos dos seus filhos com a finalidade de “educar” e incentivar outros pais. Não sei se ela tem consciência, porém, os vídeos vão além desse papel. Eles alegram, divertem, emocionam demais e trazem paz na alma de quem os assiste, independentemente se temos anjos como os dela.

Ângelo e Augusto nos transmitem algo recheado de muita pureza. Não obstante suas limitações, ensinando-nos uma lição sublime: a felicidade reside no lugar onde a alma é mais simples.

Obrigado, Luci!

Portanto, quero dividir com vocês, queridos leitores deste JornaL da Besta Fubana:

ÂNGELO E AUGUSTO

São dois anjos na terra encarnados
Dois presentes de Deus para este mundo
Que num ato de amor firme e profundo
Nos mandou esse par de abençoados.
Já cresceram por muitos sendo amados
Cada dia despertam mais paixão
No sorrir de um irmão para outro irmão
Aprendemos a arte da bondade,
Inocência, pureza, sem maldade,
Como sermos melhor de coração.

Vão prendendo a nossa atenção
Na inocência, crianças já crescidas
Alegrando decerto outras vidas
Lhes enchendo de paz e emoção.
Nesses gêmeos já vemos a ação
De um Deus muito bom e provedor
Por usar Seu poder de criador
E fazer na candura dois tão belos,
Nos trazendo gigantes tão singelos
Deus mostrou o Seu mais perfeito amor.

Outra vez obrigado, Luci.


Busca


Leitores on-line

Carregando

Arquivos


Colunistas e assuntos


Parceiros