A dor da caminhada sem destino
A parada, seguida de mais um olhar – sempre na mesma direção: o céu e o seu azul mais azulado, sem nuvens que continuassem a acalentar um sonho. O sonho do vento, e, mais tarde, o milagre da chuva.
A ausência da chuva doía mais que o sol causticante assando a pele enegrecida, ressequida, elevando-a a uma temperatura, que, nem os mais fortes conseguem suportar.
Doía!
Doía muito mais que um corte fazendo sangrar em qualquer local do corpo.
Hoje, mais de sessenta anos depois, ainda que, num ambiente climatizado, percebo que aquela dor doía muito. Doía na alma e transcendia para a vida que se pretende eterna.
Doía muito. Doía mais que a sede, ou o martírio de sonhar com a água.
Eu não sabia que doía tanto.
A seca dói.
Dói ainda mais, na alma – e perpetua essa dor – que no corpo.
Até as lágrimas ficam escassas, porque são líquidas e o corpo faminto as absorve. Não há força nem sofrimento que as façam sair olhos à fora.
Não há poesia nesse sofrimento.
Só dor!
Dor que dói.
A fome acompanha a dor, mas a dor continua doendo mais.
A fome, eventualmente, pode ser saciada, mas, a dor não.
A dor dói.
A fome desaparece com qualquer coisa que a mão leve à boca – “qualquer coisa” mesmo. Não há direito de escolher o cardápio, porque a fome é analfabeta, não escreve nada, e tampouco consegue ler. Mas, a dor dói porque está na mente, na alma.
A seca dói.
Pena que os homens ou as mulheres que podem resolver o problema – nunca a tenham sentido.
Só sabe o gosto e o prazer de comer “qualquer coisa”, quem um dia já comeu barro ou folha seca. E quando tem isso para comer sem que esteja posto à mesa.
Hoje percebemos o quanto as pessoas trocam essa dor que dói por aleivosias, futilidades, mi-mi-mis ou os idiotas “je suis”. Coisa de gente que nunca sentiu dor.
* * *
A DOR ESPECIAL – A DA AUSÊNCIA
Minha querida mãe
Peço licença hoje aos leitores, para render homenagem (e dedicar essa simbólica crônica de fuga das dificuldades dos dias vividos no sertão onde nasci) à minha Mãe.
Se viva fosse, dona Jordina, nascida no dia 14 de abril de 1917, estaria completando 107 anos.
Espero que esteja partindo o “bolo de carimã” (que ela tanto gostava) enfeitado com estrelas e nuvens brancas, e ofereça o primeiro pedaço à Deus – o Nosso Criador.
Hoje, “siora”, divido o meu “dicumê” consigo e sou todo gratidão pelas vitórias conseguidas no viver e na vida iluminada por Deus, para que tenhamos suportado e superado, juntos, tantas dores.


