A estreia de Carlo Ancelotti na altitude terminou também com sua primeira derrota pela seleção. O jogo contra a Bolívia não valia muito para o Brasil, mas o 1 a 0 acabou produzindo uma marca indesejada. Com 28 pontos, encerrou as Eliminatórias com sua pior campanha no torneio desde que ele passou a ser disputado no formato de todos contra todos, na edição para a Copa de 1998.
Não se pode colocar esta marca na conta de Ancelotti, claro. O Brasil terminou as Eliminatórias em viés de alta. Mas pagou pelo conturbado ciclo preparatório para 2026.
O jogo desta terça foi muito afetado pelo fator altitude. Além de nove mudanças na escalação, a proposta também foi totalmente diferente da adotada no Maracanã. A estratégia de se preservar fisicamente ficou clara desde os primeiros minutos. Na maior parte do primeiro tempo, os brasileiros se mantiveram compactados em sua própria metade do campo. Quando tinham a bola nos pés, procuravam girá-la de um lado para o outro e avançar em bloco.
Ainda assim, sofreram com a falta de ar. No primeiro pique, Samuel Lino sentiu o cansaço. Do outro lado, Luiz Henrique evitou dar arrancadas e jogou num ritmo bem abaixo do habitual. Mesmo assim, foi o jogador que mais incomodou a zaga boliviana. Atrás, Alex Ribeiro chegou a desabar no chão, sem forças, ainda no primeiro tempo.
Se levou muito pouco perigo, o Brasil ao menos passou quase toda a primeira etapa conseguindo se defender sem grandes sustos. A Bolívia só conseguiu chegar pelo lado direito, através da dupla formada por Robson Matheus e Miguelito, do América Mineiro.
Na maior parte do tempo a estratégia dos dois foi avançar pelo corredor, cortar para dentro e tentar abrir espaço para arriscar o chute de média distância. Num primeiro momento, obrigaram Alisson a fazer algumas defesas. Depois, a marcação brasileira passou a não dar espaço.
Tudo parecia administrado até o pênalti de Bruno Guimarães em Roberto Fernández. Aos 45 do primeiro tempo, o VAR recomendou revisão de uma disputa na área. Um lance duvidoso que o árbitro decidiu marcar. Na cobrança, Alisson tocou na bola, mas não evitou o gol de Miguelito.
Na etapa final, antes mesmo das substituições o Brasil já jogava de forma mais propositiva, tentando aproveitar o gás recuperado no intervalo. Com a entrada de quatro titulares (Marquinhos, Raphinha, Estêvão e João Pedro), Ancelotti abandonou de vez a estratégia inicial e pôs a seleção em busca do empate.
A diferença de postura nos dois tempos ficou expressa nos números. Enquanto na etapa inicial o time de Ancelotti teve 45% de posse na primeira etapa, na segunda teve 74%.
Este predomínio, contudo, não se refletiu numa melhora significativa da produção ofensiva. Foram quatro finalizações na primeira etapa contra seis na segunda. Mas o maior tempo de bola no pé dos brasileiros automaticamente fez com que os bolivianos ameaçassem menos (eles tiveram 15 conclusões nos 45 minutos iniciais e oito na metade final da partida). E, mesmo assim, as melhores chances foram dos donos da casa.
Pesou para isso também a mudança de postura da Bolívia. Como perderia a vaga na repescagem caso sofresse o gol de empate, a seleção andina também procurou se expor menos no segundo tempo e priorizou a defesa.
A necessidade de segurar o resultado levou a situações pitorescas, inclusive. Nos minutos finais, algumas bolas começaram a aparecer murchas. Certamente uma experiência que Ancelotti não irá esquecer — mais do que sua primeira derrota pela seleção.

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