Francisco Solano Trindade nasceu em 24/7/1908, no Recife, PE. Poeta, pintor, folclorista, ator, cineasta, teatrólogo e um dos nomes destacados na luta pela emancipação e valorização da cultura negra no último país das Américas, o novo mundo, a abolir a escravidão em 1888.
Filho de Emerenciana Maria de Jesus e Manuel Abílio Trindade, uma família humilde do bairro São José, onde realizou os primeiros estudos no Colégio Agnes Americano. O pai foi sapateiro e comerciário e participava das danças de Pastoril e Bumba-meu-boi em companhia do filho, que passou a apreciar a arte popular. Em 1934 idealizou o I Congresso Afro-Brasileiro, no Recife, e o II em Salvador, em 1936. A década de 1930 foi marcada por uma releitura da questão racial brasileira, ocorrida com o lançamento do livro Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, em 1933. O objetivo destes congressos foi incrementar e valorizar a contribuição cultural dos descendentes africanos.
Ainda em 1936, fundou o Centro Cultural Afro-Brasileiro e a Frente Negra Pernambucana, como extensão da Frente Negra Brasileira. Nesta época publicou seus primeiros Poemas Negros e viajou pelo País, visitando Minas Gerais e Rio Grande do Sul, onde criou o Grupo de Arte Popular, em Pelotas e pouco depois partiu para o Rio de Janeiro. Em 1944 publicou o livro Poemas de uma vida simples. No ano seguinte, junto com Abdias Nascimento, criou o Comitê Democrático Afro-Brasileiro. Em seguida, junto Haroldo Costa, fundou o Teatro Folclórico. Desde então, passou a atuar na política, filiado ao Partido Comunista e mantinha reuniões em sua casa.
Em 1935 casou-se com Margarida Trindade, com quem teve 4 filhos. Durante o Governo Dutra (1946-1953) foi preso político e pouco depois criou o Teatro Popular Brasileiro junto com a esposa e o sociólogo Edson Carneiro, em 1950. Em seguida, foi convidado a se apresentar na Europa, mostrando seu trabalho em diversos países. De volta ao Brasil, esteve em São Paulo e foi convidado pelo escultor Assis do Embu para uma apresentação naquela cidade, onde passou uma temporada. Na época Embu já se mostrava como uma cidade receptora de artistas. Seu grupo atraía grande número de espectadores com peças, tais como Gimba, de Gianfrancesco Guarnieri, em 1967. Por essa época conheceu e fez uma apresentação para Leopold Senghor, escritor e ex-presidente senegalês e um dos ideólogos do conceito de negritude.
Apaixonou-se pela cidade e mudou-se para Embu, tornando sua casa um núcleo artístico. Suas atividades, junto com Assis, resultaram no surgimento da feira de artesanato provocando uma transformação radical na cidade, com o aumento do fluxo turístico. Ele chegou a ser conhecido como o “patriarca do Embu”. Mais tarde a cidade passou a se chamar, por decreto, Embu das Artes (2011) e ele foi homenageado com o nome de uma escola, uma rua no centro da cidade e o Teatro Popular Solano Trindade. Sua poesia, carregada de sentimento, expressa uma identidade racial e social identificada com os negros e com as classes populares. O poeta Carlos Drummond de Andrade declarou “Há nesses versos uma força natural e uma voz individual rica e ardente que se confunde com a voz coletiva”.
Um de seus poemas mais conhecidos, Tem gente com fome, foi musicado e gravado por Ney Matogrosso. Trem sujo da Leopoldina correndo parece dizer “tem gente com fome, tem gente com fome, tem gente com fome”. O ritmo é acelerado, mas no final quando vai parando, uma voz sentencia: “se tem gente com fome, dá de comer”. Deixou uma expressiva obra ressaltando a cultura de seu povo: Poemas de Uma Vida Simples (1944), Cantares ao Meu Povo (1963). Em 2008, ano de comemoração do seu centenário foi lançada, pela Ediouro, uma coletânea de poemas, incluindo alguns inéditos, com um título apropriado: O Poeta do Povo. Em seguida foi lançada mais uma coletânea: Poemas Antológicos (2009), pela Editora Nova Alexandria.
A partir de 1970 a saúde foi se complicando e veio a falecer em 19/2/1974. No carnaval de 1976 foi homenageado pela Escola de Samba Vai-Vai, com enredo elaborado por sua filha Raquel. Os versos do samba de Geraldo Filme ecoaram pela avenida: “Canta meu povo, vamos cantar”, fazendo justiça a uma de suas máximas: “Devolver ao povo em forma de arte”. Pouco antes de falecer deixou um conselho ao seu povo: “tem de haver maior solidariedade entre os negros de todo o mundo, os quais deveriam se reunir aos brancos que são contra o racismo”.

