Sempre que Neymar estiver em campo pelo Campeonato Brasileiro, a tentação será medir, a cada 90 minutos, o quanto ele poderá ser influente daqui a pouco menos de um ano, na Copa do Mundo de 2026. Não parece recomendável esquecer que Neymar vive um processo ainda cercado de incertezas, e que os sinais emitidos por ele, até aqui, ainda são um tanto conflitantes. A pressa não costuma combinar com alguém que ficou quase dois anos sem ter continuidade na carreira.
Tampouco é interessante esquecer que cada jogo oferece circunstâncias muito distintas, e que o Santos é um time que, tantas vezes, dá a Neymar um contexto pouco favorável. Apesar da virada em Belo Horizonte, passou 45 minutos com baixa produção ofensiva e dificuldade para competir.
Todas estas ponderações pertencem a um mundo racional. Ocorre que a seleção brasileira volta a jogar em 23 dias, o que significa dizer que a convocação está próxima. Pela primeira vez, Ancelotti terá que tomar uma decisão sobre um Neymar em atividade, com sequência de jogos. A expectativa será natural.
Se a régua para medir Neymar for apenas o recorte atual de suas atuações, comparadas com jogadores como Matheus Cunha, Vinícius Júnior, Raphinha, Estevão ou João Pedro, naturalmente a conclusão será a de que o melhor jogador surgido no futebol brasileiro nos últimos 20 anos está abaixo dos concorrentes. Neymar cresceu desde que voltou a jogar com regularidade pelo Santos. Mas ainda é pouco para, numa análise meramente técnica, passar a sensação de que pode oferecer mais do que as outras opções ofensivas da seleção.
No entanto, não parece possível olhar para o campo e analisar o camisa 10 do Santos como se o nome Neymar não estivesse escrito às costas da camisa. Muito menos riscar da análise sua qualidade técnica sem igual no país. Não que o atacante vá impor sua convocação apenas com o nome, é que craques assim colocam na mesa outros argumentos. A começar pela idolatria, o simbolismo, o respeito dos companheiros. Mas, principalmente, paira a permanente expectativa de que, quanto mais jogar, Neymar estará mais perto de produzir lances que, em boa parte dos jogos, nenhum dos demais 21 jogadores em campo é capaz de realizar.
Se for essa a expectativa da comissão técnica da seleção, pode haver aí um argumento para convocá-lo. Ou mesmo se Ancelotti quiser conviver com o craque para avaliá-lo de maneira mais próxima. No entanto, o jogo do Mineirão reforçou a impressão de que, numa análise apenas técnica, a volta é precipitada.
O jogo de Belo Horizonte era especialmente útil por colocar o Santos, e Neymar, diante de um time intenso ao pressionar, que nega espaços e reduz o tempo para que qualquer ação seja executada. E, neste cenário, Neymar sentiu muito — sempre ponderando que, especialmente no primeiro tempo, o Santos não o ajudou. Quando recebeu de costas como um “falso 9” e foi acossado, acabou desarmado. Quando precisou correr contra Fabrício Bruno, foi superado. Na segunda etapa, foi pouco influente na virada do Santos.
Claro que há momentos em que protege a bola, realiza ações técnicas que lembram seu nível. Mas o desenrolar do jogo ainda mostra alguém de baixa competitividade para enfrentar a elite do jogo. Sim, Chile e Bolívia não são tal elite, e Neymar pode até estar em uma destas partidas. Mas se o projeto da seleção é o Mundial, este deve ser o parâmetro.
Claro que houve jogos em que o Santos se apresentou melhor, passou mais tempo no campo ofensivo, e neles Neymar jogou em bom nível. Mas ainda há um caminho a percorrer. Nas próximas semanas, saberemos o que pensa Ancelotti. Se o italiano vai querer incorporar já o astro ao seu grupo, sinalizando a ele portas abertas. Ou se manterá um sarrafo alto, exigindo que Neymar suba mais alguns degraus.
Dois Vascos
Após outro jogo sem vitória, resta um alento ao torcedor do Vasco: que as semanas livres permitam ao time chegar fisicamente mais inteiro aos jogos. O time do primeiro tempo executou com mais clareza dinâmicas habituais nos times de Fernando Diniz e teve equilíbrio para controlar um jogo em que saíra perdendo no primeiro minuto. No segundo tempo, pareceu esgotado e não produziu quase nada. Menos mal que o Atlético-MG tampouco criou.
Dois Botafogos
A goleada em Fortaleza, dias após a classificação na Copa do Brasil, indica que o campo, aparentemente, se isolou das incertezas que cercam a gestão do Botafogo. O time consegue competir e, no Brasileirão, seu maior adversário foi a largada ruim de um elenco montado tardiamente — efeito de um projeto instável de clube. A demora implica em jogadores ainda em adaptação e algumas oscilações, algo que pode custar as chances título.
Intolerância
O Palmeiras, que não consegue jogar bem, venceu o Ceará enquanto parte da arquibancada protestava. A forma agressiva como Abel e jogadores foram xingados, sem falar no atentado contra o CT na madrugada de domingo, refletem como o futebol virou o depositário das frustrações de uma sociedade intolerante. Há uma dificuldade na aceitação da derrota, e tornou-se fácil voltar-se contra profissionais que colecionam conquistas no clube.

/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/A/O/AjUBhWQ0uuU3Q1po585Q/54712893665-af73fb51c5-c.jpg)