
Em 15 de agosto de 1965 foi fundado o terreiro mais antigo ainda em funcionamento no Distrito Federal e Entorno, o Centro Espírita Assistencial Nossa Senhora da Glória (Ceansg). Para marcar a data e também o dia em que o espaço comemora Iemanjá, o centro promoveu uma celebração que reuniu médiuns e frequentadores da casa. O Correio relembra a trajetória e o legado da instituição, que chega a receber, em média, cerca de 300 pessoas nos dias de atendimento ao público.
"Uma das nossas maiores conquistas é conseguirmos nos manter abertos e em atividade até hoje, prestando a nossa caridade espiritual e material também", celebra o ogã-chefe do centro, Edinho da Silva, 61 anos. "Nós nunca fechamos as portas, nem mesmo na pandemia", acrescenta o filho de Edson da Silva, o primeiro ogã do Ceansg e hoje ogã ad perpetuam rei memoriam.
O local foi fundado pelo casal Jorge da Costa Faria, já falecido e hoje presidente espiritual ad perpetuam rei memoriam, e Jurema Pituba Faria, 95 anos, atual presidente espiritual e conhecida carinhosamente como Mãe Jurema ou Vó Jurema. Em setembro, haverá uma celebração especial em homenagem aos 100 anos de nascimento de Pai Jorge, como o marido dela ficou conhecido na comunidade.
O Ceansg é reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (Iphan-DF) entre os 26 terreiros inventariados no DF, que foram mapeados e registrados em livro publicado em 2009. Durante a jornada de 60 anos de funcionamento do centro, muitos desafios foram superados. "Nos tempos de ditadura, o Juizado de Menores não permitia crianças em nossas atividades. Em todas as igrejas podia, mas no centro era proibido, pois os trabalhos aconteciam sempre à noite", relembra Edinho. "Nessa época, começamos a fazer giras de criança durante o dia", acrescenta.
A hierarquia do terreiro conta também com os chamados pais pequenos: Celso e Ricardo Faria, filhos de Vó Jurema, e Gilberto Marcos, médium do centro.
Braço social
Dentro da estrutura do Ceansg, existe a Sociedade Assistencial Recanto da Mãe Jurema (Sarema), fundada há 30 anos. Um dos pais de santo do terreiro, Gilberto Marcos, 63, também é o presidente da Sarema e falou ao Correio sobre o trabalho desenvolvido. "Agregamos uma comunidade imensa, sem distinção de raça, cor ou poder aquisitivo. O que fazemos aqui é recolher e doar o que as pessoas mais precisam, como cestas básicas, remédios, roupas, além de toda assistência espiritual que prestamos. Nossa porta é aberta a todos e nossa maior missão é ajudar o próximo", descreve Gilberto.
Segundo o presidente, a Sarema pretende expandir o acolhimento social para além do trabalho que já é feito. A ideia é montar uma creche dentro da estrutura do centro. "Estamos batalhando por isso há um tempo, aguardamos um apoio do governo. Mas já temos espaço, estrutura e gente querendo ajudar", relata Gilberto. "É um desejo da Vó Jurema. Nós temos a arquitetura, os móveis, e a estrutura, mas a burocracia do governo não nos permitiu abrir ainda", completa Edinho.
O nome do Ceansg foi dado em homenagem à Nossa Senhora da Glória, celebrado também em 15 de agosto. Nesse dia, muitos centros de matriz afro também comemoram Iemanja, por força do sincretismo com Nossa Senhora, embora a maioria o faça em 2 de fevereiro.
O centro trabalha com dois tipos de atividades espirituais voltadas ao público em geral, as giras de caridade, que são aquelas de consulta individual com os guias espirituais e que ocorrem, usualmente, às segundas e sextas-feiras, e as giras festivas, que são aquelas que acontecem pela passagem do dia de algum dos Orixás ou outras datas comemorativas.
