Almanaque Raimundo Floriano
Fundado em 24.09.2016
(Cultural, sem fins comerciais, lucrativos ou financeiros)


Raimundo Floriano de Albuquerque e Silva, Editor deste Almanaque, também conhecido como Velho Fulô, Palhaço Seu Mundinho e Mundico Trazendowski, nascido em Balsas , Maranhão, a 3 de julho de 1936, Católico Apostólico Romano, Contador, Oficial da Reserva do Exército Brasileiro, Funcionário Público aposentado da Câmara dos Deputados, Titular da Cadeira nº 10 da Academia Passa Disco da Música Nordestina, cuja patrona é a cantora Elba Ramalho, Mestre e Fundador da Banda da Capital Federal, Pesquisador da MPB, especializado em Velha Guarda, Música Militar, Carnaval e Forró, Cardeal Fundador da Igreja Sertaneja, Pioneiro de Brasília, Xerife nos Mares do Caribe, Cordelista e Glosador, Amigo do Rio das Balsas, Inventor da Descida de Boia, em julho de 1952, Amigo da Fanfarra do 1° RCG, autor dos livros O Acordo PDS/PTB, coletânea de charges, Sinais de Revisão e Regras de Pontuação, normativo, Do Jumento ao Parlamento, com episódios da vida real, De Balsas para o Mundo, centrado na navegação fluvial Balsas/Oceano Atlântico, Pétalas do Rosa, saga da Família Albuquerque e Silva, Memorial Balsense, dedicado à história de sua terra natal, e Caindo na Gandaia, humorístico apimentado, é casado, tem quatro filhos, uma nora, dois genros e dois netos e reside em Brasília, Distrito Federal, desde dezembro de 1960.

Marcos Mairton - Contos, Crônicas e Cordéis domingo, 24 de novembro de 2019

CÃO DE GUARDA

 

 

O CÃO DE GUARDA

Em um tempo distante, que não se sabe precisar quando, em uma vila fictícia de um país imaginário, vivia um homem que frequentemente era vítima de furtos.

Pelo que indicavam as circunstâncias, esses furtos aconteciam à luz do dia, porque o homem morava sozinho, e sua casa era afastada do centro do povoado. Quando ele saía para trabalhar, a residência ficava desguarnecida. Ao retornar, era comum sentir falta de algum de seus pertences.

Tendo esses fatos ocorrido várias vezes, um amigo sugeriu àquele homem que adquirisse um cão de guarda. Assim, enquanto o homem estivesse fora, o cão intimidaria algum larápio que por lá aparecesse.

Havia, porém, um detalhe – e isso o amigo do homem furtado desconhecia – que gerava imensa dificuldade para a implementação daquela providência, aparentemente tão adequada ao caso: é que aquele homem, vítima de tantos furtos, detestava cães.

Durante toda a infância, ele ouvira a mãe dizer que cães, especialmente os de guarda, são animais perigosos, que se voltam contra os próprios donos, quando menos se espera.

– E tem outra coisa, – dizia frequentemente a mãe – basta um vento mais forte derrubar alguma coisa no quintal que o cachorro passa o resto da noite latindo. Aí ninguém dorme mais…

Tendo ouvido tantas vezes a mãe se referir aos cães de maneira depreciativa, o homem adquirira a antipatia materna aos cães, e resistia à ideia de ter em sua casa um habitante canino.

Mas, talvez pelo fato de os furtos continuarem, talvez pela insistência do amigo, com relação ao cão, o homem acabou tomando uma providência: comprou um gato persa, desses de aparência bem mal-humorada; pôs no felino uma coleira, com uma corrente fina, mas bem longa, e o prendeu na varanda, à frente da casa.

Alguns dias depois, o homem chamou o amigo que lhe sugerira o cão, e mostrou a ele o novo habitante da casa:

– Veja você mesmo: agora tenho um cão de guarda!

O amigo achou aquilo muito estranho. Considerou que o homem deveria estar brincando. Mas também admitiu que ele poderia estar enlouquecendo. Chegou a pensar em perguntar se o homem percebia que aquilo era um gato, mas achou a pergunta ridícula. Sem decidir se estava diante de uma piada ou de um caso de loucura, acabou por se limitar a um comentário em forma de pergunta:

– Interessante… Mas… está dando certo? Quer dizer… acabaram-se os furtos?

– Acabar, acabar mesmo… não. Mas… com o tempo o guardião aí vai aprendendo o serviço. Ele é inteligente. Vai aprender. Por enquanto, a grande vantagem dele é que não late à noite.

– Tenho certeza que não late nem de dia — completou o amigo, ainda com dificuldade para acreditar que o homem estava falando sério.

Inventou uma desculpa e foi embora, sem mais nada dizer a respeito do “cão de guarda”.

 


Marcos Mairton - Contos, Crônicas e Cordéis domingo, 27 de outubro de 2019

ARARAS

 

 

ARARAS

Por razões profissionais, vim morar em Brasília em 2016, logo no começo do ano. Na época, não imaginei que ficaria tanto tempo por aqui, mas o fato é que 2019 está terminando, e, com isso, estou prestes a completar quatro anos na Capital Federal.

Estava pensando nisso esta manhã, enquanto recolhia folhas secas no jardim. É um ritual que tenho repetido quase todas as segundas, quartas e sextas-feiras. Desde que passei a morar no Lago Norte, há quase um ano, acordo às seis da manhã, recolho folhas secas no jardim, ponho-as em um saco plástico preto e deixo tudo na lixeira da calçada. Por volta das nove da manhã, o caminhão da coleta de resíduos orgânicos passa recolhendo.

Praticamente todas (senão todas) as vezes em que estou me dedicando a essa atividade, ouço gritos de araras; em seguida, vejo-as passar voando.

É um casal de araras-canindé. Da posição em que me encontro, vejo mais facilmente suas barrigas amarelas, mas também consigo perceber o azul da parte externa de suas asas, que eu bem sei que se estende por todo o seu dorso.

Lindos animais! Demonstram certo esforço para voar — diferentemente das andorinhas e tesourinhas, que também costumam aparecer por aqui — certamente pelo seu peso, mas ainda assim são elegantes no voo, com suas caudas longas formando quase uma ponta no final.

Cada vez que elas passam, fico olhando, até que desapareçam por trás das árvores da vizinhança.

Hoje, porém, nesta manhã do dia 25 de outubro de 2019, ao ouvir a “voz” das araras, notei algo diferente. Pareciam em maior algazarra que a de costume. Não havia pausas entre um grito e outro. Ao contrário, chegavam a emitir sons ao mesmo tempo, em coro.

Olhei para o céu, tentando perceber de qual direção elas vinham, e, que surpresa agradável! Nada menos que oito araras-canindé aproximavam-se, voando baixo, emitindo seu som característico, como se quisessem avisar que passavam por ali.

Um verdadeiro espetáculo da natureza! Fiquei acompanhando o seu voo o quanto pude, admirado com a exuberância da sua beleza!

Um pensamento inesperado levou-me da contemplação à reflexão: se hoje, com toda a urbanização que há nesta área, situada na capital do país, ainda é possível ver espetáculos como esse, imagine-se o que encontraram aqui os europeus que chegaram alguns séculos antes!

Quanta fauna e quanta flora! Quanta riqueza de cores e formas, com toda a diversidade que o Brasil nos oferece, desde o litoral até as partes mais internas, como o cerrado e o pantanal!

Como disse Caminha, em sua carta ao rei, “enquanto andávamos nessa mata a cortar lenha, atravessavam alguns papagaios por essas árvores, deles verdes e outros pardos, grandes e pequenos, de maneira que me parece que haverá muitos nesta terra”.

Não duvido que muitos daqueles homens tenham acreditado haver encontrado aqui um recanto divino, um lugar de bem aventuranças, talvez o Jardim do Éden.

A frase anterior me lembra que a generosidade da natureza não tem sido suficiente para fazermos do Brasil um lugar onde prevaleça a paz e a harmonia, onde não haja tantas pessoas sujeitas à miséria e à violência.

Neste lugar de natureza paradisíaca, os homicídios de cada ano são contados em dezenas de milhares, o trânsito mata outras tantas pessoas, o dinheiro desviado pela corrupção é calculado em bilhões e o crime organizado atua dentro e fora dos presídios. A própria natureza, cuja generosidade acabei de destacar, é muitas vezes agredida ou explorada de maneira desordenada.

Em um país com tantas riquezas naturais, com água em abundância, com um clima tão favorável, que torna todo o seu imenso território utilizável pelos seres humanos, só consigo concluir que estes últimos são os causadores de seus próprios problemas.

Mas hoje não quero me alongar em reflexões sobre as mazelas do Brasil.

Hoje — pelo menos hoje — escolho ficar com sentimento que me causou a visão aquelas oito araras sobrevoando meu jardim.

Hoje, quero reter na memória a beleza e a alegria daquelas aves majestosas. Sem esperar nada do futuro, nem lamentar nada do passado.

Coincidência ou não, no momento em que me preparo para escrever as últimas linhas desta crônica, ouço novamente os gritos das araras. Dessa vez, não posso vê-las, porque estou dentro de casa, em frente ao computador. Mas sua imagem ainda está fresca em minha mente. Isso basta.

Fecho os olhos e vejo novamente o voo daquele bando de araras.


Marcos Mairton - Contos, Crônicas e Cordéis segunda, 14 de outubro de 2019

UMA CONVERSA SOBRE VIDA OU MORTE

 

 

UMA CONVERSA SOBRE VIDA E MORTE

Certo dia, dei carona a Shayeubad(*), em uma das muitas vezes em que dirigi meu carro no percurso de cento e poucos quilômetros entre Quixadá e Fortaleza. Depois de alguns quilômetros na estrada, encontramos um jumento que acabara de ser atropelado.

Parei o carro perto do animal e pudemos ver que ele ainda agonizava. Estirado ao chão, já não se debatia, apenas tremia. De vez em quando tinha espasmos. Permaneceu assim por alguns minutos, até que uma lufada de ar lhe saiu pelas narinas, levantando poeira do acostamento. A partir daí, ficou imóvel. Estava morto.

Depois de retomarmos a jornada, Shayeubad abriu o debate sobre o ocorrido:

– Para onde você acha que foi a vida dele?

– Como assim? – perguntei, preparando-me para o que viria a seguir. Shayeubad sempre faz reflexões interessantes sobre situações como aquela.

Ele prosseguiu:

– Antes de aquele animal ser atropelado e morrer, havia algo nele que o fazia se mover, se alimentar, buscar uma parceira para se reproduzir. Ele tinha vida. Mesmo depois de ferido, dava para ver sua luta para continuar vivendo. Mas, isso foi se apagando aos poucos, até o suspiro final. Para onde vai a vida de um animal que morre?

– Sabe, Shay, a impressão que eu tenho é a de que a vida é como o fogo… O fogo é uma combinação de calor, oxigênio e combustível. Se faltar um dos três, o fogo apaga. Penso que… quando um animal morre… a vida dele simplesmente acaba… não vai a lugar nenhum…

Percebendo que eu estava hesitante em minha argumentação, Shayeubad interrompeu o meu discurso, fazendo mais uma pergunta, que já era o começo de sua própria análise para aquela questão:

– E se eu lhe disser que não era aquele animal que tinha vida, mas a vida é que o tinha? Você já imaginou que a vida pode ser algo que fica disperso no universo, e, quando encontra uma estrutura molecular adequada, instala-se ali e faz com que essa estrutura funcione, com as características que identificamos nos seres vivos?

– Como uma espécie de energia, que seria captada pelos corpos dos seres vivos?

– Mais ou menos isso…

– É um ponto de vista interessante. Acho que ainda não havia pensado assim…

– Então, pensemos – prosseguiu Shayeubad. – Pensemos que a vida já vinha rondando a Terra há muito tempo, atuando sobre os elementos, até que algumas moléculas se uniram e formaram um todo em condições de ser animado por ela. Pode ter surgido assim a primeira célula, o primeiro organismo unicelular. Impulsionado pela vida, esse organismo dividiu-se, multiplicou-se, tornou-se mais complexo e passou a se reproduzir. Desse ponto para a multiplicidade das formas e a formação das espécies seria um pulo.

Já não me surpreendo quando Shayeubad, diante de um fato qualquer da vida, começa a refletir sobre a origem do universo ou os grandes desafios da humanidade. Mesmo assim, achei engraçado que a morte de um jumento o levasse a falar daquele jeito. Meio sorrindo, desafiei:

– Boa! Mas dá para avançar um pouco no tempo e chegar à morte do jumento que vimos na estrada?

– Claro! – continuou ele, animado. – Mas é que, para chegar a esse ponto, é preciso considerar que a própria vida, ao animar a matéria, passa a consumir a estrutura material que ocupa. Se quisesse ser dramático eu diria que a vida já traz em si a semente da morte. Pelo fato de estar se desgastando, o organismo animado precisa se alimentar, na tentativa da vida de mantê-lo apto a sustentá-la. Ocorre que a alimentação nunca é suficiente para manter o organismo perpetuamente em condições de acolher a vida. Por isso, ele envelhece e morre. Chegamos, assim, ao jumento, que, antes de sofrer o desgaste natural dos corpos vivos, teve alguma parte essencial a esse funcionamento inviabilizada pelo trauma sofrido. Conclusão: o corpo morre porque já não tem condições de abrigar a vida; assim, ela vai embora.

– Mas, nesse caso… – interrompi. – se um animal morrer asfixiado, por exemplo, não bastaria restituir-lhe o oxigênio, para que a vida voltasse a animá-lo?

– Não! A falta de oxigênio causa a morte dos neurônios. Os danos são irreversíveis. Mesmo assim, considere a possibilidade de a vida só conseguir se instalar em estruturas orgânicas mais simples, como corpos unicelulares. Isso explicaria porque ela se liga a um embrião, mas não a um animal com o corpo já completo.

– Verdade! Pensando assim, os chamados procedimentos de ressuscitação somente fazem sentido enquanto ainda há alguma vida no corpo. Pelo menos, algum resquício.

– Exato! E tem mais. Considere nossa premissa de que o fato de um corpo abrigar a vida faz com ele se desgaste; que, mesmo gerando novas células, a partir da matéria orgânica obtida pela alimentação, esse desgaste leva à destruição desse corpo; essa pode ser a causa para outro fenômeno vital: a reprodução!

– Como assim?

– Acompanhe meu raciocínio: a morte inevitável dos seres vivos acarreta a necessidade de se gerarem outros organismos vivos. É aí que entra a reprodução, sexuada ou não. Ou seja, se a vida está tendo sucesso em se manter em determinado organismo, ela, a vida, fará com que ele se mantenha, como indivíduo, mas também que se multiplique. Assim, à medida que esses organismos vão sendo usados e se esgotando, morrendo, a vida vai se instalando nos novos que vão sendo criados. Cada vez que um corpo está muito danificado, pelo esgotamento ao qual chamamos velhice, por um trauma, ou por uma doença qualquer, a vida o deixa e vai procurar outro. Como ela prefere, ou precisa, se instalar em um corpo simples, a vida faz com que os corpos usem suas células para criar embriões, ou sementes, no caso dos vegetais.

– Isso dá uma teoria realmente interessante – reconheci. – Mas, considerando que os micro-organismos que causam as doenças são também seres vivos, não estaria havendo um confronto da vida contra a vida?

– Veja bem: apesar de a vida ser um todo único, cada organismo funciona como uma unidade independente. Logo, confrontos entre esses corpos fazem parte da lógica do sistema, porque a vida contida em um ser vivo faz com que ele busque nutrientes em outro ser vivo. Para a vida, não há muita diferença entre um mosquito se alimentar do seu sangue ou um leão comer a sua carne. Ela fará com que tanto o mosquito quanto o leão busquem em outro ser vivo a matéria da qual precisam, para manter seus corpos funcionando, ou seja, podendo abrigar a vida, além de gerar outros corpos com essa possibilidade.

– Bom, pra mim faz muita diferença ser comido mosquito ou por um leão!
Rimos um pouco do que eu acabava de dizer. Depois, fui eu quem retomou a conversa:

– Mas, voltando ao jumento que estava morrendo na estrada, quer dizer então que não era o animal que lutava para se manter vivo, mas era a vida que tentava manter aquele corpo funcionando, para continuar instalada nele?…

– Exatamente! Ela faz isso até com um homem que tente prender a respiração para morrer asfixiado. Antes que o homem morra, a vida o obrigará a respirar. Você já ouviu falar de alguém que tenha cometido suicídio apertando o próprio pescoço com as mãos? Não. Mesmo em uma pessoa que dispara um tiro contra o próprio coração, a vida continuará fazendo aquele corpo lutar para se manter vivo. Porque mesmo corpos complexos como os nossos estão submetidos aos desígnios da vida. E a finalidade da vida é viver.

Tive que concordar com ele que todas as formas de eliminação da vida das quais já ouvira falar voltam-se contra o corpo, nunca contra a energia vital que o anima. Cogitamos de casos graves de depressão, quando a pessoa perde totalmente a vontade de viver, mas concordamos que, somente depois que o corpo se debilita e órgãos importantes param de funcionar, a vida o deixa.

A essa altura, já havíamos entrado em Fortaleza. Shayeubad avisou-me que desembarcaria em um shopping center, em frente ao qual passaríamos dali a alguns minutos. Antes de nos despedirmos, ainda intrigado com toda aquela conversa, levantei uma última questão:

– Shay… Você sempre me pareceu ser espiritualista. Essa teoria da vida, como algo disperso no universo, e que se apropria dos corpos, não seria um tanto materialista?

– Quem tem tendência para o materialismo sempre encontrará razões para ser materialista – respondeu ele, de imediato, como se já esperasse a pergunta. – Não será a ideia da vida como algo independente dos corpos que irá mudar isso. Quanto a você, que tem formação cristã, não esqueça que, segundo a Bíblia, depois de fazer o homem do pó da terra, Deus soprou em seus narizes o fôlego da vida.

– Gênesis!

– Capítulo dois, versículo sete.

E desembarcou.

(*) Shayeubad é um amigo que há muitos anos aparece para conversar quando estou sozinho, mas costuma dizer algumas coisas que não entendo direito. Quando eu era criança, minha mãe dizia que ele era meu amigo imaginário e antes do final da minha adolescência deixaria de aparecer.


Marcos Mairton - Contos, Crônicas e Cordéis terça, 24 de setembro de 2019

O EVANGELHO EM CEARÊS – ZAQUEU (Lc 19,1-10)

 

 

EVANGELHO EM CEARÊS – ZAQUEU (Lc 19,1-10)

Naquele tempo, Jesus entrou em Jericó e saiu varando a cidade, duma ponta a outra.

Tinha lá um elemento chamado Zaqueu, que era o manda-chuva dos cabra que cobravam os impostos da mundiça. O bicho tava por cima da carne seca. O problema dele não era dinheiro. Era liga.

E, além de estribado, o tal do Zaqueu era curioso. Quando viu a curriola de gente na rua, fazendo o maior enxame, foi pro meio do chafurdo, pra ver quem era Jesus.

 

Mas Zaqueu era um tronquim de amarrar onça; o chamado tamborete de forró. Desse povo batoré, que senta no fí-de-péda e fica balançando as pernas. Aí pelejava pra ver Jesus, mas não conseguia.

Se Zaqueu fosse algum mamanaégua, abria dos pau era cedo, mas ele era muito mala. Cheio de nó pelas costas. Saiu desembestado e, mais adiante, subiu num pé-de-pau e ficou cubando o movimento lá de cima, esperando Jesus passar.

Só que Jesus, desenrolado que só ele, viu a marmota de longe. Quando foi chegando perto do pé-de-planta onde o Zaqueu tava, disse logo:

— Zaqueu, macho véi! Deixa de fuleragem! Desce daí, que tua mulher te botou foi chifre, não foi asa não! Vai pra casa preparar o rango e o merol, que eu vou com um magote de caba esgalamido passar a hora da janta lá!

O Zaqueu desceu ligeiro, igual um azôgue. Alegre que só pinto em bosta, porque Jesus disse que ia jantar na casa dele.

Quando foi de noite, só se ouvia o leruaite do povo invejoso:

— Olhaí, macho, Jesus foi jantar na casa daquela carniça! Zaqueu veí, sujo que só pau de galinheiro… Diabeisso, macho?

— Sei lá, macho. Eles, que são branco, que se entendam…

Enquanto isso, Zaqueu, que tinha uma vocação danada pra puxa-saco, tentava tirar uma onda pra cima de Jesus;

— Mestre, eu tô pensando em dar metade das minha burundanga pra esses liso aqui da redondeza… Porque eu sou o tipo do cara que, se eu souber que fiquei com alguma coisa de alguém, vou devolver quatro tantos do que eu tenha ficado.

Mas, Jesus, que conhecia de mistério, e não se impressionava com conversa de alma, mostrou logo como é que a banda toca:

— Zaqueu, deixa de conversar miolo de pote! Eu vim na tua casa pra mostrar pra esse povo enxamista que qualquer cabra sem futuro é filho de Deus. Eu quero consertar é o que tá desmantelado mesmo, porque o que tá certo já tá bem feito.

Palavra da Salvação.


Marcos Mairton - Contos, Crônicas e Cordéis segunda, 26 de agosto de 2019

UMA MENTIRA DE VERDADE

 

UMA MENTIRA DE VERDADE

Ilustração da página Pixabay

Sabe o que eu gostaria de ouvir hoje? Uma mentira de verdade.

“Como assim, uma mentira de verdade?”, talvez pergunte o leitor.

E já respondo: uma mentira de verdade é uma dessas mentiras criadas com o sincero propósito de ser apenas uma mentira; dessas que alguém conta em um grupo de amigos, só para divertir quem conta e quem escuta.

Noutras palavras, uma mentira de verdade é uma mentira que não tem a menor pretensão de parecer uma verdade. Que não mereça sequer a acusação de ser uma meia verdade.

Lembro que, quando eu era criança, perto da minha casa morava um senhor, a quem todos chamavam simplesmente de Tio Américo. Não sei se ele tinha sobrinhos de verdade, mas isso não tem importância agora. O fato é que todos ali, crianças e adultos, o chamavam de tio.

Acredito que ele tinha, na época, entre sessenta e setenta anos. Não consigo ser muito preciso a esse respeito, porque, sendo eu um menino de oito ou nove anos, a imagem que tinha dele era de um velho, com seus cabelos grisalhos e a pele do rosto marcada por rugas.

Lembro bem que Tio Américo trabalhava como barbeiro. Não em uma barbearia de verdade, com cadeiras giratórias diante de espelhos, mas nas casas de seus clientes. Ou na rua mesmo, nas calçadas dos bares e mercearias do bairro. Onde houvesse alguém querendo fazer a barba ou cortar o cabelo, Tio Américo abria sua maleta, retirava as ferramentas de trabalho e prestava o serviço.

Era nessas horas, durante o atendimento aos clientes, que Tio Américo exibia o seu verdadeiro talento: contar mentiras; mentiras de verdade.

E como mentia bem! Acredito que muita gente cortava o cabelo com ele, só para ouvir suas mentiras.

Recordo uma vez em que ele, enquanto cortava o cabelo do meu pai, na calçada da nossa mercearia, contava uma aventura que dizia ter vivido em um tempo em que teria sido jogador de futebol.

— Nesse tempo eu jogava no Ceará — dizia ele, preparando o terreno para os eventos extraordinários que narraria a seguir.

Enquanto fazia uso da tesoura e do pente, mostrando destreza com as mãos, falava de sua habilidade com os pés.

— Pois, Mansueto — dizia Tio Américo, — o negócio apertou foi num dia em que nós fomos jogar contra o Guarany de Sobral, lá no Estádio do Junco.

Antes de prosseguir com a narrativa, um esclarecimento, especialmente para os leitores que não tenham muitas informações sobre a geografia e o futebol cearenses: no Ceará existe o time do Guarani Esporte Clube, da cidade de Juazeiro do Norte, onde o estádio de futebol se chama Romeirão; e o Guarany Sporting Club, da cidade de Sobral, que recebe as equipes visitantes no Estádio do Junco.

Feito o esclarecimento, sigamos ouvindo o Tio Américo, porque, àquela altura, já havia umas oito pessoas, entre adultos e crianças, prestando atenção à conversa.

— Rapaz… o jogo ia ser domingo de tarde. Cinco da tarde. Todo mundo foi avisado que nosso ônibus ia sair de Fortaleza seis da manhã, pra dar tempo da gente almoçar em Sobral, descansar um pouco e chegar no Junco às quatro. Mas aí, meu irmão, eu fui a uma festa, no sábado, e acabei perdendo a hora do ônibus. Quando acordei, já era bem umas dez horas. Imaginei que, mesmo que eles tivessem esperado uma meia hora por mim, àquela altura já estavam pra lá de Itapajé…

Enquanto ele falava, a quantidade de espectadores ia aumentando. Quem chegava com a história já em andamento ficava quieto, tentando pegar o fio da meada. Tio Américo prosseguia:

— Aí eu me conformei. Almocei, fiquei por ali, meio triste, em casa… Quando deu cinco horas, eu liguei o rádio e fui ouvir o jogo. Meu irmão, mal começou, o Guarany fez logo um gol. Com dez minutos, fez outro. Dois a zero. Aquilo me deu um remorso tão grande que veio uma ideia na minha cabeça. Nesse tempo eu morava perto da Praça da Estação. Aí eu vesti o uniforme do Ceará, calcei as chuteiras, peguei duas barras de sabão e fui pra estação do trem. Calculei qual era linha pra Sobral, que eu conhecia bem, cuspi nos trilhos; botei uma barra de sabão em cada trilho; fastei pra trás uns cinquenta metros, fiz carreira pra pegar impulso, e pulei em cima das barras de sabão. Rapaz… as travas da chuteira entraram no sabão que foi uma beleza! E eu fui escorregando pra frente! Fui pegando embalo, fui ganhando velocidade, com pouco tempo eu tava entrando na estação ferroviária lá de Sobral.

Gargalhada geral! Empolgado com a própria narrativa, Tio Américo havia suspendido até o corte de cabelo do meu pai. Mas não tinha ainda terminado a história. E prosseguiu:

— Quando eu fui saindo da estação, tinha um rapaz com um rádio, e eu perguntei pra ele de quanto tava o jogo. Ele disse “dois a zero Guarany; trinta do segundo tempo”. Aí eu pensei: “ainda dá”, e corri pro Junco. Cheguei no estádio, o treinador me mandou entrar ligeiro. Aquecimento, não precisava, que eu já vinha embalado.

Tio Américo fez uma pausa para temperar a garganta. Preparava o gran finale.

— Entrei em campo aos trinta e oito do segundo tempo e viramos pra três a dois. Ô jogo!

Nova bateria de gargalhadas ecoou. Ele próprio era um dos que mais ria.

Só meu pai, com o cabelo ainda por terminar de ser cortado, sorria de maneira contida. Não que não houvesse gostado da história, ou que estivesse incomodado com a demora de Tio Américo para terminar seu atendimento. É que o Seu Mansueto sempre riu pouco mesmo. Esperou que se fizesse silêncio e perguntou, demonstrando interesse:

— Tio Américo, e o senhor fez algum desses três gols?

— Fiz os três — respondeu o barbeiro, sem titubear. — No último minuto, ainda dava pra eu ter feito mais um. Passei por três zagueiros, fiquei cara a cara com o goleiro, mas toquei pra um rapaz que jogava de ponta esquerda, que era muito meu amigo. Eu quis dar a oportunidade a ele. Só que, pela posição que ele vinha, ele bateu com o pé direito e jogou por cima do gol. Não fosse isso, tinha sido quatro a dois.

O homem era — desculpe-me, leitor. o trocadilho — um craque! Na arte de mentir, claro.

Mas eram mentiras inofensivas, boas de ouvir. Diferentes dessas que encontramos hoje em dia, na TV, no rádio, nos sites de notícias e nas redes sociais, com o nome pomposo de fake news.

São umas mentiras pretensiosas essas tais fake news. Misturadas às verdades, com o propósito de enganar, para fazer prevalecer interesses nem sempre confessáveis.

Sim, eu sei que sempre houve mentiras escondidas em meio a verdades. Talvez o que haja de diferente hoje seja a quantidade dessas mentiras, aliada à velocidade com que elas percorrem o mundo. De tal modo que todos os dias recebemos uma quantidade enorme de informações, mas com baixíssima ou nenhuma confiabilidade.

Talvez o que esteja me acontecendo hoje seja o seguinte: tantas são as verdades mentirosas que nos chegam, que senti o desejo de ouvir ao menos uma mentira de verdade.

Como naquele dia, quando Tio Américo, após contar toda aquela história, enquanto cortava o cabelo do meu pai, desculpou-se por ter que ir logo embora:

— A essa hora, minha mulher já encheu minha banheira de água quente. Aí, chegando em casa, eu tomo banho, almoço… e vou tocar piano até umas horas…

Todos sabíamos que na casa do Tio Américo sequer caberia uma banheira, tampouco um piano. Mas ele estava sempre pronto para contar mais uma das suas mentiras. Que eram apenas mentiras. Mentiras de verdade.


Marcos Mairton - Contos, Crônicas e Cordéis quarta, 21 de agosto de 2019

UM CORDEL JURÍDICO (FOLHETO DE MARCOS MAIRTON, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

 

UM CORDEL JURÍDICO

Nos idos de 1997, tive a honra de exercer a advocacia na Superintendência Jurídica do Banco do Nordeste do Brasil.

Ali adquiri conhecimentos que utilizo até hoje em minhas atividades jurisdicionais. Também fiz grande amizades, que permanecem vivas até os dias atuais.

Um dos colegas com quem trabalhei, o advogado Isael Bernardo de Oliveira, tinha (e certamente ainda tem) habilidade para fazer versos de cordel, acontecendo muitas vezes de criarmos juntos várias estrofes jurídicas, quase de improviso, enquanto estávamos trabalhando.

Semana passada fui surpreendido, quando chegaram às minhas mãos versos que havíamos criado em uma daquelas ocasiões.

O portador da feliz lembrança foi o amigo-irmão Zico, também advogado do Banco do Nordeste, e que por mais de dez anos foi meu braço direito, trabalhando como diretor de secretaria na Justiça Federal.

Os versos recuperados daqueles tempos remotos são os seguintes:

Querido amigo Isael,
Antes de tudo, bom dia.
Vou lhe fazer um convite,
Com amizade e alegria:
Para estudarmos Direito,
Fazendo verso perfeito,
Direito com Poesia!

O convite do amigo
A mim muito satisfaz;
O Direito me afeiçoa,
Poesia me dá paz.
Se o Direito é sacerdócio,
Dele já me sinto sócio,
Da poesia ainda mais!

Então, vamos ao trabalho!
Comecemos neste instante!
Escolhendo logo o tema,
Algum assunto importante.
Pela nossa formação,
Nossa Constituição
Parece um tema vibrante!

Nessa tema escolhido,
Nossa Constituição,
É como um leito sagrado
Dos direitos do cidadão.
Todos eles essenciais,
As garantias constitucionais
Me chamam mais a atenção.

De fato, em tempos remotos,
Norma assim não existia.
As leis que o rei aplicava,
Ele mesmo é que as fazia.
E o povo, sempre sofrido,
Espoliado e oprimido,
Não tinha essa garantia.

Esse poder do monarca
A um tal ponto cresceu,
Que um tal de Luiz XIV,
Que lá na França viveu,
Gostava de se gabar,
E vivia a proclamar:
“O Estado aqui sou eu!”.

Essa frase do monarca
Revela absolutismo,
Que deve ser combatido
Assim como o nepotismo.
Muito próprio das nações
Cujas Constituições
Contêm autoritarismo.

O tal autoritarismo
Se opõe à democracia,
Que a nossa Constituição
No preâmbulo evidencia,
Lembrando sempre que o lema
Que escolhemos como tema
É Direito com Poesia!

Não esqueço, meu amigo,
Pois tenho boa memória;
Porém a Constituição
Também tem a sua história.
Foi contra o absolutismo
Que o constitucionalismo
Conquistou sua vitória!

E essa conquista importante
Chegou até nossos dias;
No encarte desenhado
Das boas democracias,
Dando luz e proteção
Ao país e ao cidadão,
Com as suas garantias.

Por isso é que a Carta Magna
Vigente aqui, hoje em dia,
Impõe como fundamentos
Da nossa democracia
A forma republicana,
Com dignidade humana,
Trabalho e cidadania.

Direito com Poesia,
De uma forma natural,
Para o Homem que trabalha
Na zona urbana ou rural.
Parabéns ao cidadão
Que tem a Constituição
Por patrimônio nacional!


Marcos Mairton - Contos, Crônicas e Cordéis sábado, 17 de agosto de 2019

O MENINO QUE NÃO TINHA MEDO

 

 

O MENINO QUE NÃO TINHA MEDO

Era uma criança como qualquer outra, o Abel. Brincava, corria, jogava futebol… Não corria mais que os outros, nem era tão bom de bola, mas tinha uma coisa que fazia dele um menino que se destacava na turma: não tinha medo de nada.

Lembro que, quando foi morar na nossa rua, ele tinha uns onze anos de idade. Eu era um pouco mais novo, talvez menos de dois anos, mas, naquela época, isso fazia muita diferença. Até porque, muito me impressionava a autoconfiança com que Abel enfrentava qualquer situação na qual fosse preciso demonstrar coragem.

Se a brincadeira era subir em uma árvore, ele sempre chegava aos galhos mais altos. Se o desafio era cortar caminho atravessando o cemitério, quando voltávamos da escola, ele era o primeiro a entrar pelo portão macabro. Subia nos túmulos e corria entre eles, sem a menor cerimônia, enquanto os outros caminhávamos tensos. No final, quando chegava a hora de transpor o muro dos fundos do cemitério, para alcançar a rua do outro lado, ele primeiro ajudava todo mundo a subir. Só depois iniciava a própria escalada. Acabava sendo o último a sair dali.

Às vezes, jogávamos futebol na rua e a bola caía dentro do jardim da Dona Letícia, nossa vizinha. Ela odiava quando isso acontecia, porque a bola quebrava suas roseiras. Certa vez, ela deixou o cachorro solto no jardim, para que, caso a bola caísse lá dentro, não pudéssemos pegar de volta.

Mas a estratégia da vizinha malvada acabou não funcionando. Quando a bola passou sobre o muro, para se acomodar entre as roseiras de Dona Letícia, Abel nos chamou e disse baixinho:

– Fiquem perto do portão, chamando a atenção do cachorro, enquanto eu pulo o muro pelo outro lado.

Fizemos o que Abel pediu e ele pulou mesmo o muro. Pegou a bola, arremessou de volta para a rua e, no instante seguinte, já estávamos reiniciando o jogo. O cão de guarda nem notou que ele havia entrado e saído do jardim.

Para mim, que até hoje tenho medo de cachorro, aquele foi um gesto assustador, embora Abel houvesse feito tudo sorrindo, como se fosse apenas mais uma brincadeira qualquer.

O tempo passou. Eu e meus amigos crescemos respeitando aquele menino que nunca tinha medo de nada. Já éramos adolescentes quando seu pai arranjou um emprego no Rio de Janeiro e levou toda a família, fazendo com que perdêssemos o contato.

Vários anos depois (não lembro quantos), eu estava assistindo a um programa de televisão e vi um grupo de alpinistas que se preparava para escalar um vulcão, em um lugar chamado Cinturão de Fogo, no México, se não me engano. Lá estava Abel, entre os líderes do grupo, estampando no rosto o mesmo sorriso do menino que um dia desafiou o cão de guarda da Dona Letícia.

Comentei com alguns de meus amigos de infância aquela reportagem, e, a partir daí, sempre que um de nós encontrava alguma notícia das aventuras de Abel pelo mundo, mostrava para os outros.

Foi assim que, em 2008, quando todos nós já havíamos atravessado a barreira dos quarenta anos, aconteceu uma etapa do Campeonato Mundial de Motocross Freestyle em Fortaleza. Alguém trouxe a notícia de que Abel estava vindo para participar do evento. Ele já havia deixado de competir nessa modalidade, mas estava trabalhando na produção.

Reunimos vários amigos da época, descobrimos o hotel onde os organizadores da competição estavam hospedados e fizemos uma visita surpresa a Abel.

Foi uma festa! Uns casados, outros descasados, alguns com filhos adolescentes, outros com bebês de colo, o fato é que, mesmo sendo ele o aventureiro da turma, cada um de nós tinha alguma coisa para contar.

Como a competição aconteceria no sábado à noite, marcamos de ir à praia com as famílias no dia seguinte.

E assim fizemos. No domingo de manhã, lá estávamos nós, com as esposas e filhos, em uma praia muito conhecida nos arredores de Fortaleza, onde há também um famoso parque aquático. Meu filho Álvaro tinha acabado de fazer oito anos; Abelinho, filho dele, estava perto de completar onze. Num instante ficaram amigos, e logo estavam diante de nós, pedindo para ir brincar no parque aquático.

Mas, pela primeira vez, desde que o conheci, Abel pareceu vacilante:

– Meu filho, vá brincar na areia mais um pouco… depois nós iremos com vocês para os brinquedos…

Eu disse mais ou menos a mesma coisa para o Álvaro, e, com alguma relutância, os dois acabaram aceitando adiar as aventuras nos tobogãs aquáticos.

Quando se afastaram, perguntei a Abel:

– O que houve, amigo? Algum problema?

Ele coçou a cabeça, pensou um pouco e explicou:

– Olhe, pra lhe dizer a verdade… o problema é que o Abelinho é muito afoito, sabe? Quando ela entra nesses parques aquáticos, vai direto para os escorregadores mais altos. Aliás, é assim com tudo. Montanha russa, elevador que cai, trem fantasma, ele adora todos esses tipos de brinquedos. Você precisa ver o que ele faz com a bicicleta lá em casa…

– Não me espanta que ele seja assim – disse eu. – Você não fica feliz de ver que ele parece tanto com o pai?

– Eu fico mesmo é com medo – suspirou ele baixando os olhos. – Morro de medo que aconteça alguma coisa, que ele se machuque… Sei lá.

Percebi que o risco de o filho se ferir realmente deixava Abel com medo. E achei engraçado que aquilo acontecesse justamente com ele, sempre tão disposto a enfrentar toda sorte de perigos.

Nessa hora, senti que um sorriso se formou em meus lábios, mas, devo admitir que não foi por achar a situação engraçada que sorri. Era um sorriso que vinha de uma espécie de satisfação de, pela primeira vez na vida, me sentir encorajado a ir adiante, enquanto Abel vacilava.

– Deixa de besteira, rapaz! – disse eu, já me levantando. – Não tem nada perigoso aí, não! Vamos chamar os meninos, senão fica tarde e eles não vão poder aproveitar todos os brinquedos!

Minutos depois, os dois garotos deslizavam felizes pelos escorregadores. Fiquei orgulhoso de ver que, apesar de menorzinho, Álvaro acompanhava o Abelinho naquelas aventuras, sem vacilar, mesmo quando precisava se lançar dos pontos mais altos dos brinquedos aquáticos.

Ao meu lado, um Abel tenso acompanhava o filho com os olhos, até o final de cada descida.

Percebi sua tensão, mas não falei nada. Apenas reconheci para mim mesmo, depois de tantos anos, que, apesar da nossa amizade, sempre tive um pouco de inveja do Abel.

Porque ele era um menino que não tinha medo.


Marcos Mairton - Contos, Crônicas e Cordéis quarta, 31 de julho de 2019

GREVE DE ALEGRIA

 

GREVE DE ALEGRIA

Em 1999, escrevi um conto e depois apaguei o arquivo. Não quis mostrar o texto a ninguém. Achei que a história não merecia publicação. Mais que isso, achei que não deveria ser lida, porque estimulava sentimentos ruins, destrutivos.

No conto, uma quantidade imensa de brasileiros havia cansado dessa história de sermos um povo que enfrenta os problemas com alegria e bom humor, muitas vezes rindo de nós mesmos.

Dava-se, então, que vários grupos organizavam-se pelo país, em torno de uma mesma ideia. Como se houvessem combinado, decidiram protestar de um mesmo modo inovador: uma espécie de greve de alegria.

Parariam de rir, deixariam de festejar, evitariam demonstrar alegria, qualquer que fosse o motivo, enquanto o país não resolvesse seus principais problemas (que, naquela época, eram mais ou menos os mesmos de hoje).

Na ficção, os movimentos adquiriam um grande número de adeptos, de modo que as manifestações de apatia, tristeza e irritação espalhavam-se pelo país. É verdade que, como havia muitos grupos, independentes entre si, que organizavam os protestos, cada um se queixava por motivos diferentes. Na soma dos esforços, porém, o resultado era que o Brasil havia se tornado um lugar esquisitíssimo.

Continuava tendo carnaval, mas as músicas muitos blocos e escolas de samba eram tristes. E, ao invés de dançar, as pessoas andavam cabisbaixas ao lado de trios elétricos.

Continuava a haver futebol, mas, a cada gol, a reação de boa parte da torcida era fazer um minuto de silêncio. Se fosse um gol muito bonito, um golaço mesmo, era provável que recebesse uma sonora vaia.

E, assim, pela obstinação desses heróicos brasileiros em se mostrar insatisfeitos com seus problemas políticos, econômicos e sociais, o Brasil passava a ser, na minha ficção, um país movido pela tristeza, a indiferença, a raiva e quaisquer outros sentimentos que deixassem clara a infelicidade e a insatisfação do nosso povo.

Ocorre que, quando escrevo ficção, é como se eu acessasse um universo paralelo, onde as coisas que imagino acontecem de verdade. Assim, minha atividade de escritor limita-se a observar o que se passa nesses mundos imaginários, narrando-os, em seguida, na forma escrita.

Consequentemente, as situações que descrevo em meus contos são imaginárias, mas os sentimentos advindos da observação desses fatos são reais. E, nesse caso, eram sentimentos não eram nada construtivos (percebo-os novamente agora, enquanto escrevo esta crônica).

Eis o motivo pelo qual entendi, naquela ocasião, que não valeria a pena compartilhar com ninguém a história que acabara de escrever.

A par disso, hoje, vinte anos depois, lembro dela.

E o resultado dessa lembrança é a vontade de dizer aos meus leitores que, se alguém lhes propuser novas formas de protesto, que consistam em transformar momentos de diversão e entretenimento em protestos políticos, cuidado!

Cuidado para que essa suposta eficiente maneira de protestar não seja o primeiro passo para contaminar politicamente momentos das nossas vidas que poderiam ser bem mais divertidos.

Sim, a política é importante — é muito importante! — mas há outros aspectos da vida que precisam ser levados em consideração.

Temos a família, temos os amigos e temos ainda nós mesmos, que precisamos de momentos de leveza em nosso dia a dia. Ocasiões nas quais possamos apenas relaxar, nos divertir, sem transformar esses momentos de diversão em palanque político.

Manifestações artísticas, como a música, o cinema ou o teatro, sempre foram ferramentas para a manifestação política. A própria comédia é uma da mais eficazes maneiras de protestar. Mas, a arte também fala de amor, ternura e amizade.

Então, será que devemos ir ao cinema ou ao teatro com a predisposição de fazer daquele momento um ato político? E o churrasco com a família, no domingo? Será que é a ocasião adequada debatermos nossas preferências ideológicas?

Não tenho a resposta. Sequer estou dizendo que qualquer conduta nessas ocasiões seja certa ou errada. Estou apenas sugerindo ao querido leitor que reflita se vale a pena trocar a emoção do jogo de futebol (ou qualquer outro esporte de sua preferência) pela do protesto na arquibancada.

A questão é: vale a pena fazer de cada momento de lazer uma ocasião para proferir palavras de ordem?

Admito que, vinte anos atrás, quando escrevi aquele conto, eu até achava que sim. A par disso, ao fim do processo criativo, não gostei do estado de espírito em que me encontrava. Li o meu próprio texto e não gostei do que senti.

Felizmente, era apenas uma obra de ficção, com remotíssimas chances de se tornar realidade. Bastava apagar o arquivo e não haveria maiores consequências.


Marcos Mairton - Contos, Crônicas e Cordéis terça, 16 de julho de 2019

ÁGUA NO CHOPE

 

 

ÁGUA NO CHOPE

 

REFRÃO

Querem botar água no meu chope,
Mas eu não vou deixar,
Vou me defender como puder
Não me entrego sem lutar.

Querem botar água no meu chope,
Mas eu não vou deixar,
Vou usar as armas que tiver,
Até o jogo virar.

A gente, tentando vencer nessa vida,
Enfrenta batalhas com fé e destemor,
Jogando o jogo, em cada partida,
Buscando a felicidade e o amor.

Mas, tem uma coisa que, quando acontece,
É causa de muita preocupação.
É quando a ameaça ou perigo
Tem forma de fogo amigo,
E a gente descobre a armação. (Que decepção!)

REFRÃO

Se a gente consegue o que muito queria,
E põe, no domingo, o chope pra gelar.
Prepara o churrasco, com toda alegria,
E chama os amigos pra comemorar.

Periga que venha alguém nessa festa,
Com a alma repleta de má intenção.
Se pega você descuidado,
Põe água em seu chope gelado,
Fique sempre atento, meu irmão. (Não relaxa, não!)

 


Marcos Mairton - Contos, Crônicas e Cordéis sexta, 31 de maio de 2019

DIAGNÓSTICO PRECOCE

 

 

DIAGNÓSTICO PRECOCE

 

No consultório, sentado diante do médico, o paciente mantinha o olhar direcionado para o busto de Hipócrates posicionado sobre a mesa que havia entre eles. Um sinal de timidez, nada surpreendente em um rapaz tão jovem, mal saído da adolescência propriamente dita. Talvez indo pela primeira vez sozinho a uma consulta.

 

Depois de fazer as perguntas iniciais de praxe, e de digitar no computador algumas anotações, o médico indagou:

– Bem, meu caro J*, eu vou me permitir lhe chamar de você, por causa da sua idade. Há algum motivo especial para você ter vindo se consultar com um psiquiatra?

O rapaz respondeu rápido. Como se ansiasse por aquela pergunta:

– Doutor, eu queria saber se tem algum remédio pra não ter raiva. Pra eu queria nunca sentir raiva de ninguém.

– Pra raiva?… por quê?… você tem sido agressivo com as pessoas?

– Não, doutor! Deus me livre!… É por causa de um poder que eu tenho… que é muito perigoso…

– Um poder? – interessou-se o médico. – que tipo de poder?

– É porque eu tenho o poder de matar uma pessoa, só com o olhar. Basta eu ter uma raiva. Se eu olhar com raiva pra pessoa, ela morre na hora.

O psiquiatra olhou detidamente para o rapaz franzino, carente de melanina e sol, e foi difícil imaginar aquela criatura tirando a vida de um semelhante. Tampouco considerou provável que daqueles olhos, fixos no busto de Hipócrates, pudesse sair algum raio mortífero.

Depois de refletir sobre a melhor forma de levar aquela conversa adiante, prosseguiu:

– E… como foi que você ficou sabendo que tem esse poder? Até agora seu olhar ainda não matou ninguém… eu espero…

– Faz tempo que eu sei, doutor. Tem uns seres de outro planeta que me acompanham desde pequeno. Eles me disseram.

– Ah, sim! De outro planeta… – comentou o médico, tentando demonstrar naturalidade. Nem precisaria, no entanto, preocupar-se com isso, porque, a essa altura, o paciente estava mergulhado em seus próprios pensamentos.

– É… Parecem com os humanos, mas são mais altos. Têm as mãos grandes… Eles controlavam meu poder… Mas já vinham me avisando, que quando eu fizesse 18 anos, eu ia ficar por minha conta. Aí, ano passado, eu completei 18… e não tenho mais coragem de olhar pra ninguém…

– Bem, J*, nós precisamos investigar isso, talvez com sessões de psicanálise, se você concordar. Por enquanto, eu vou receitar um estabilizador de humor, pra você já ir tomando, mas é importante a gente buscar a causa desse seu sentimento de que pode matar as pessoas.

– Investigar, doutor? – perguntou o jovem, surpreso, olhando pela primeira vez para o médico.

– Sim, investigar, no sentido de buscar as causas, a origem… a psicanálise pode ajudar muito… Uma das linhas que nós podemos considerar, é a possibilidade de você ter um transtorno psicótico. Talvez até uma psicose crônica, já que você relata que desde criança tem o mesmo tipo de… digamos… delírio… Então, pode ser que, durante a adolescência, com as variações hormonais, isso tenha se agravado…

– Como assim, delírio, doutor?

– Bem… é como eu digo… precisamos averiguar… Mas, o delírio, assim como a alucinação, seria mais ou menos como a pessoa tratar como realidade uma coisa que só existe pra ela… Aí a pessoa acredita naquilo… vive como se aquilo fosse realidade…

– Então, doutor… o senhor quer dizer que esse meu poder, de matar as pessoas com o olhar, pode ser só coisa da minha cabeça?

– Bem… pode! O mais provável é que seja isso mesmo.

E o corpo do médico pendeu para a frente, até o rosto se chocar com o tampo da mesa. Estava morto.


Marcos Mairton - Contos, Crônicas e Cordéis quinta, 16 de maio de 2019

O JUIZ E O CANOEIRO

 

O JUIZ E O CANOEIRO

 

Muito antes de os países existirem na forma atual, com suas fronteiras bem definidas e os poderes do Estado bem delimitados, já havia reis que delegavam a cidadãos de sua confiança a tarefa de julgar as questões entre seus súditos.

Assim acontecia entre os Destros, um povo antigo, que vivia em algum ponto às margens do Mediterrâneo, antes de serem submetidos ao Império Romano, como tantos outros.

Era uma grande honra ser incumbido da função de julgador, porque todos ali sabiam que seu exercício exigia equilíbrio e sabedoria. Juízes insensatos, ou que se deixassem levar por interesses pessoais, acabavam gerando descontentamento entre a população, contribuindo, assim, para o descrédito do próprio soberano.

Sabendo disso, o destro Átrion sentiu um misto de alegria e preocupação, ao ser nomeado juiz. Afinal, tinha pouco mais de trinta anos de idade, e todos os juízes que ele conhecia eram homens de cabelos grisalhos, alguns ostentando longas barbas brancas.

É fato que havia estudado filosofia, na Grécia, e que, há mais de dois anos, era membro do Conselho de Sábios da sua aldeia, mas estaria pronto para a missão de julgar?

Durante os dias que se seguiram à sua nomeação, Átrion refletiu muito sobre isso. Por um lado, sentia-se honrado, com o reconhecimento que o rei lhe havia demonstrado; por outro lado, questionava-se se estaria preparado para decidir sobre a vida das pessoas.

Foi assim que, certa manhã, poucos dias antes da cerimônia do recebimento de sua Vara da Magistratura – um cajado que os juízes portavam, como símbolo da sua função – Átrion foi à casa de um experiente magistrado, conhecido como Mestre Aluk, cuja sabedoria era reconhecida por todos os seus pares. Buscava uma palavra que lhe acalmasse o espírito.

Mestre Aluk morava em uma chácara, em uma das muitas montanhas que havia nos arredores da aldeia onde Átrion exerceria suas funções de julgador. O velho magistrado recebeu o jovem com respeito e alegria, e o tratou com as honras de um juiz que já estivesse no exercício da jurisdição.

Encorajado pelo tratamento cordial do experiente julgador, Átrion foi o mais direto possível ao assunto:

– Mestre Aluk, tenho estado atormentado, desde a minha nomeação para o corpo de magistrados do Reino. Não questiono a escolha do Rei, nem nego os conhecimentos que adquiri ao longo de anos de estudo, e de outras funções que tenho exercido. Mas sei que sou o mais jovem dos juízes já nomeados por Sua Majestade. Tenho receio de me faltar a experiência necessária à atuação do julgador.

A partir daí, Átrion passou a tecer uma série de considerações a respeito do estudo, da experiência e da responsabilidade dos juízes.

Mestre Aluk ouviu tudo com atenção, sem demonstrar surpresa. Agradeceu a deferência de Átrion, por buscar seus conselhos, mas, sobre as preocupações expostas pelo futuro colega de magistratura, nada disse. Ao contrário, mudou de assunto e convidou o neófito para uma caminhada.

Depois de quase um quilômetro andando por um caminho aberto na floresta, falando sobre outros assuntos, chegaram a uma clareira, na margem do rio que descia do topo da montanha. Naquele ponto, a água formava ondas e fazia barulho ao se chocar com as pedras, devido à forte correnteza.

Mestre Aluk sentou-se em uma pedra grande, arredondada, e orientou Átrion a sentar-se em outra, semelhante. Parecia ser um lugar para onde o velho magistrado costumava se retirar, quando queria refletir sobre algum assunto.

Depois de uns instantes em silêncio, observando a correnteza, Mestre Aluk retomou a palavra:

– Meu caro Átrion, você sabe que esse rio deságua em um lago, em cujas margens está a aldeia onde você vai morar. Se você fosse contratar um canoeiro, para levar um saca de sal, deste ponto até alguém que mora na aldeia, que comportamento você esperaria do canoeiro?

Átrion percebeu que aquela não era uma simples pergunta sobre o transporte de sal. Pensou por alguns segundos e tentou ser objetivo em sua resposta:

– Mestre Aluk… essas águas são um tanto revoltas. Eu esperaria que o canoeiro conduzisse a embarcação em segurança, sem a deixar virar. Mas também que ele usasse da necessária habilidade para, nos momentos certos, aproveitar a força da água corrente para impulsionar a canoa. Evitando encalhar em algum ponto das margens, ou demorar demais no percurso até o lago.

Mestre Aluk sorriu. Parecia satisfeito com a resposta:

– Então, meu caro Átrion, você sabe como um juiz deve se conduzir. Porque o juiz deve ser como esse canoeiro, transportando o sal. No alto dessa montanha, nasce o rio, que serve de caminho até o lago e a aldeia. As leis do nosso povo, nossos costumes e valores, são como as pedras dessa montanha, de onde brota o rio do Direito. Por ele o juiz deve conduzir sua canoa, transportando a decisão que irá resolver a controvérsia. Observe que, assim como o canoeiro, o juiz não é um ser inerte, que deixa a embarcação ser levada pelas águas, à deriva. Não! Ele atua, com seu remo, corrigindo o rumo, evitando choques com as pedras… trabalhando para que o rio do Direito o conduza ao lago da Justiça. Mas o condutor da embarcação deve ter consciência de que não pode fazer prevalecer a sua vontade sobre a força do rio. Se tentar agir assim, provavelmente naufragará. Ou, talvez, entrará tanta água na canoa que dissolverá o sal. Assim, tal qual o canoeiro, que deve usar o poder das águas no cumprimento da sua missão, o juiz deve conhecer as correntes do Direito, para as usar na busca da realização da Justiça. Jamais deve fazer isso por interesse pessoal ou de terceiros, ou mesmo para tentar impor ao povo a sua própria noção do justo. O sal da Justiça deve ser entregue ao seu destinatário, na aldeia, e não deixado nas margens do rio, ou dissolvido em suas águas.

Após ouvir aquelas palavras, Átrion olhou detidamente para o rio, imaginando-se conduzindo a embarcação sobre as águas. Vários pensamentos vieram-lhe à mente, mas se limitou a dizer:

– Espero ter a humildade necessária, Mestre Aluk, para saber conduzir minha pequena canoa, entregando o sal da Justiça às pessoas da aldeia.

– Você a terá. Tenho recebido notícias de sua conduta no Conselho de Sábios. Muitos comentam do seu equilíbrio, sua humildade e seu senso de Justiça. Agora, vamos voltar à minha casa. Deve haver um bule de chá quentinho à nossa espera.


Marcos Mairton - Contos, Crônicas e Cordéis sexta, 22 de março de 2019

AS REGRAS DE TRANSIÇÃO PROPOSTAS NA REFORMA DA PREVIDÊNCIA E A PACIÊNCIA DE JÓ

 

 

AS REGRAS DE TRANSIÇÃO PROPOSTAS NA REFORMA DA PREVIDÊNCIA E A PACIÊNCIA DE JÓ

 

Imagem:  Bússola Literária

Não, eu não tenho nada contra uma reforma da previdência.

Pelo contrário, sou inteiramente a favor de uma reforma que venha para o bem do Brasil, resolvendo todos os seus problemas estruturais de déficit público e possibilitando ao país a retomada do crescimento econômico.

Ocorre apenas que, estando no serviço público federal desde janeiro de 1998, e já enquadrado em uma regra de transição, da reforma de 2003, é muito frustrante ver que a nova reforma propõe o desrespeito àquelas regras de transcrição, atualmente em vigor.

Afinal, são dezesseis anos acreditando nas normas fixadas para minha aposentadoria. Agora, que se aproxima o tempo de me beneficiar dessas normas, o Estado Brasileiro ameaça jogar tudo no lixo.

Diante dessa ameaça, sinto-me tentado a discursar sobre segurança jurídica, credibilidade do Estado brasileiro e coisas afins.

Mas não o farei. Sem qualquer intenção de me opor à reforma da previdência em curso, embora sentindo na pele os seus possíveis efeitos, busquei na Bíblia doses extras de resignação e paciência.

E minha fonte de inspiração foi Jó.

Não sei como é na Bíblia dos meus queridos leitores, mas, na minha Bíblia, o Capítulo 1, do Livro de Jó, diz o seguinte, a partir do versículo 23:

LIVRO DE JÓ, Capítulo 1

23 Satisfeito com a lealdade e a serenidade de Jó, o Senhor disse a Satanás: “Que belo exemplo de paciência é Jó! Ainda era praticamente uma criança quando começou a cuidar de suas tamareiras. No entanto, só colherá seus primeiros frutos daqui a cinco anos.”

24 “Para quem cultiva tâmaras, Jó não tem do que reclamar” — respondeu Satanás. “Fará a colheita com 53 anos de idade, quando muitos morrem de velhice sem colher fruto algum.”

25 “Verás que não é assim” — replicou Deus. “Farei com que os frutos de suas tamareiras só possam ser colhidos quando ele tiver 60 anos”.

26 E assim foi feito. Passaram-se os cinco anos que faltavam para as tamareiras de Jó darem frutos, e mais os sete que foram acrescentados para que ele alcançasse a idade mínima para a colheita.

27 Totalizando assim doze anos de espera para Jó, encontraram-se novamente Deus e Satanás em suas terras. Aos 60 anos, preparava-se Jó para colher os frutos de suas tamareiras, que estavam quase maduros. Sua fisionomia expressava a calma e a serenidade de sempre.

28 “Vês como Jó aguardou pacientemente a colheita, apesar dos anos extras que foram acrescentados à sua espera?” — disse Deus.

29 Mas Satanás fez novo desafio: “Aumente a idade mínima da colheita para 65 anos. Quero ver se restará nele alguma fé!”.

30 “Que assim seja!” — concordou Deus, confiante na paciência e lealdade de Jó. Imediatamente, todas as tâmaras de Jó murcharam.

31 Vendo aquilo acontecer, Jó olhou para o céu e disse: “Senhor, vejo que terei que esperar mais alguns anos para colher os frutos que venho cultivando a minha vida inteira. As tâmaras estavam quase maduras. Mas não me revolto contra Ti, porque sei que isso deve ser obra de Satanás!”.

32 E voltou Jó para casa, como fazia todos os dias, sem praguejar, sem lamentar e sem maldizer a própria sorte.


Marcos Mairton - Contos, Crônicas e Cordéis domingo, 10 de março de 2019

VIRTUDES E VÍCIOS NA GRAMA DO JARDIM

 

 

VIRTUDES E VÍCIOS NA GRAMA JARDIM

 

Aproveitando o domingo de céu nublado, tirei parte da tarde para cuidar da grama do jardim. Arrancador de mato nas mãos protegidas por luvas, lá fui eu separar as plantinhas desejáveis das indesejáveis.

Habituado a observar o que se passa ao meu redor – para depois transformar tudo em contos e crônicas – logo vieram as reflexões sobre a vida. É impressionante o quanto podemos aprender, com uma atividade aparentemente tão simples.

Primeiro, o necessário gesto de se ajoelhar diante da natureza (ou do seu Criador). Arrancar mato é um trabalho que requer concentração, paciência e algum conhecimento do que deve ou não ser arrancado. Mas, sem se pôr de joelhos, sua execução fica bem difícil. O gesto adquire, assim, um simbolismo de humildade.

Joelhos no chão, comecei a ver semelhanças entre nossas virtudes e a grama. E entre as ervas indesejáveis e os nossos vícios.

Lembrei que a grama nós precisamos plantar, adubar, regar, até que ela se fixe e estabilize na terra. O mato não. O mato simplesmente aparece, sem qualquer esforço nosso. E, se não cuidarmos da arrancá-lo regularmente, ele cresce e sufoca a grama.

É assim, por exemplo, com o egoísmo. Se não cultivarmos o altruísmo e a solidariedade, ele vai achando em nós o seu espaço. E aos poucos nosso estímulo para pensar no outro, para abrir mão de algo em favor do outro, parece desaparecer completamente.

Talvez seja assim também com a raiva, o ressentimento e tantas outras ervas daninhas que parecem nascer espontaneamente em nosso ser. Ao contrário da serenidade e da compaixão, que precisam ser plantadas e cuidadas.

Não vejo isso como uma falha nossa, mas como um efeito colateral do nosso instinto de sobrevivência, vindo lá dos nossos primórdios, quando a necessidade de cuidar primeiro de si mesmo era bem maior que a disposição para ajudar o outro. Isso ainda acontece hoje, felizmente com menor frequência.

Estamos aprendendo, evoluindo, nos aperfeiçoando, mas ainda temos muito a caminhar.

Segui com meu trabalho dominical e observei que algumas dessas ervas indesejáveis são mais fáceis de arrancar, enquanto outras misturam suas raízes de tal forma às raízes da grama, que é impossível extraí-las sem arrancar um pouco de grama junto. E acaba ficando um buraco no lugar. Uma ferida aberta que somente com o tempo poderá cicatrizar.

No caso do jardim, esperamos que a grama renasça naquele espaço vazio, ou a replantamos, mas sempre há o risco de ali brotar novamente o mato. Porque basta ficar uma semente, ou um pouco da raiz da erva daninha, para que ela renasça. Como os nossos vícios.

Depois de algumas horas de trabalho, minha principal conclusão foi a de que precisamos observar constantemente o que sentimos, pensamos e fazemos, para irmos nos livrando dos nossos vícios e reforçando nossas virtudes. Porque em nosso jardim há sempre um matinho para arrancar e algum trechinho de grama para repor.


Marcos Mairton - Contos, Crônicas e Cordéis sexta, 08 de fevereiro de 2019

UMA FÁBULA SOBRE LOBOS, OVELHAS E PASTORES (EM DOIS ATOS)

ÁBULA

UMA FÁBULA SOBRE LOBOS, OVELHAS E PASTORES (EM DOIS ATOS)

Marcos Mairton

Imagem de Fábulas Edificantes

PRIMEIRO ATO

Em uma noite fria e úmida – dessas em que só sai de casa quem tem algum motivo muito forte – um lobo solitário vagava na floresta, quando viu, em meio às árvores, a silhueta de uma ovelha.

A noite era de lua cheia, mas a visibilidade estava prejudicada pelas muitas nuvens que havia no céu. As copas das árvores, frondosas naquela época do ano, também formavam sombras que atrapalhavam a visão, mesmo para os olhos de um caçador noturno.

O lobo, então, moveu-se furtivamente – como bem sabem fazer os lobos – até chegar o mais perto possível do seu alvo. Sua boca já salivava, diante da possibilidade de uma refeição fácil, mas estava desconfiado com a presença da ovelha naquela parte da floresta. Ainda mais àquela hora da noite.

E foi-se o lobo, esgueirando-se nas sombras, o mais silenciosamente possível, até chegar a uma distância da sua potencial vítima, que seria facilmente transposta por um de seus poderosos saltos.

 

Naquele exato momento, o animal aparentemente indefeso virou-se para o lado onde o lobo estava, ficando frente a frente com ele. Estavam a menos de três metros um do outro. Olhos nos olhos. Imóveis, como duas estátuas.

Mas essa imobilidade durou apenas alguns segundos. Logo, o caçador abaixou a cabeça, soltou um breve grunhido, e sumiu novamente na floresta, tão silenciosamente como havia chegado. Acabara de perceber que não havia ali ovelha alguma.

O que ele havia visto era outro lobo, apenas estava sob uma pele de ovelha.

Mais interessado em comer que em brigar, o lobo em pele de lobo preferiu sair dali o quanto antes.

Moral do primeiro ato: Um lobo é capaz de reconhecer outro lobo, mesmo quando ele está sob pele de ovelha.

* * *

SEGUNDO ATO

Os dois pastores pretendiam sair de casa no começo da tarde, com destino a uma fazenda vizinha, onde iriam buscar algumas de suas ovelhas que estiveram pastando ali nos dias anteriores.

Acabaram, no entanto, saindo com muito atraso, e, no meio da noite, ainda atravessavam a floresta que havia entre as duas fazendas. Estavam nessa travessia, quando avistaram um lobo esgueirando-se em meio às árvores, como se tentasse surpreender alguma presa.

Com receio de tornarem-se, eles mesmos, comida de lobo, subiram em uma árvore para se proteger. Foi então que, do alto, puderam observar o feroz animal a se aproximar de uma ovelha, que displicentemente circulava por ali.

Ao ver aquela cena, o pastor mais jovem, esquecendo-se de sua própria segurança, chamou o colega mais experiente para ir em socorro da pobre ovelha. O pastor mais velho, no entanto, segurou o mais jovem pelo braço e disse:

– Espere.

– Mas o lobo vai pegar a ovelha, se ficarmos aqui! Somos pastores!

Falou com impaciência, mas baixando o máximo possível a voz, para não serem descobertos antes que pudessem organizar o resgate da ovelha.

– Espere – insistiu o mais velho. – E observe.

O pastor mais velho falou com tanta firmeza que o jovem acabou obedecendo e ficando por ali mesmo. E, qual não foi a sua surpresa, ao perceber que, após estar frente a frente com a ovelha, à distância de menos de um salto, o lobo havia simplesmente sumido na floresta, deixando a presa escapar.

– O que houve? – perguntou o pastor mais jovem.

– Eram dois lobos. Um deles estava sob pele de ovelha.

– E como você percebeu?

– Não sei dizer exatamente, mas desconfiei da maneira confiante como aquela ovelha andava na floresta. Sozinha, a essa hora da noite. Depois, no último momento, o jeito como ela olhou nos olhos do lobo… Ali, tive certeza do que estava acontecendo.

Moral do segundo ato: Pastores também podem reconhecer um lobo sob pele de ovelha. Mas isso requer certa experiência.


Marcos Mairton - Contos, Crônicas e Cordéis domingo, 06 de janeiro de 2019

AS PROVAS

 



Um amigo perguntou: – Cadê as provas?
E eu, então, lhe respondi: – Meu caro amigo,
Fique certo que elas não estão comigo.
Tenho aqui só uns sonetos e umas trovas.

E, acredito, não estão também contigo,
Nesse assunto, eu e tu somos incautos.
Se há provas, elas devem estar nos autos,
Com quem deve decidir crime e castigo.

Para isso há os juízes, afinal,
Dedicados a aplicar a lei penal.
Em qualquer democracia é desse jeito.

Se negarmos tal mister aos tribunais,
Por temermos que eles sejam parciais,
Quem irá dizer o Justo e o Direito?


Marcos Mairton - Contos, Crônicas e Cordéis domingo, 23 de dezembro de 2018

A CARTOMANTE COLOMBIANA

 



Em outubro de 2005, estive nos Estados Unidos por razões profissionais. Terminados os trabalhos, adiei a viagem de retorno ao Brasil e passei uma semana em Miami. Depois quinze dias de trabalho, em ritmo intenso, queria passar uns dias descansando.

Aproveitei a ocasião para visitar um amigo – a quem chamarei aqui de Ricardo – que há anos morava naquela cidade da Flórida.

Conhecendo Miami como se houvesse vivido ali desde a infância, Ricardo levou-me para visitar muitos lugares e encontrar gente nova. Um dos lugares visitados foi um restaurante cubano, onde almoçamos certa vez. Como de costume, havia ali vários amigos dele, que nos receberam calorosamente.

Todos no lugar falavam espanhol. Despertou-me especial atenção uma colombiana, chamada Vera, que aparentava uns sessenta anos de idade e vestia roupas de cores aberrantes. Na cabeça, usava uma espécie de lenço vermelho, que prendia apenas parcialmente seus cabelos, dando-lhe a aparência de algumas ciganas de filmes e novelas.

À medida que a conversa avançava, percebi que ela frequentemente se referia a um certo Pablo, como sendo alguém conhecido das outras pessoas que estavam ali. Narrava fatos pitorescos envolvendo o tal Pablo, e todos riam.

Tentando compreender melhor o que se passava, perguntei:

– Con su permiso, señora, ¿quién es Pablo?

Ao ouvir minha pergunta, Vera deu uma sonora gargalhada. Mas não respondeu. Simplesmente lançou um olhar para meu amigo Ricardo e fez um movimento com a cabeça, como se o autorizasse a me responder. Ele entendeu o sinal e me disse, sorrindo, mas baixando a voz:

– A Vera é cartomante do Pablo Escobar. Cartomante só, não. É uma espécie de conselheira, guia espiritual, essas coisas …

– Cartomante de quem? – perguntei. Não por não haver entendido o que Ricardo me dissera em claro português, mas por achar que havia ali alguma espécie de brincadeira.

– Do Pablo Escobar. O colombiano.

– Então, ela foi cartomante dele, não? Porque, se o cliente dela for o Pablo Escobar que estou pensando, já morreu há uns dez anos.

Foi a vez de Ricardo olhar para Vera, como a lhe pedir autorização para seguir na explicação até o final.

Antecipei-me, porém, ao diálogo mímico dos dois e perguntei diretamente a ela, em espanhol:

– ¿Entonces usted fue cartomante de Pablo Escobar?

– En español, se habla “usted fue” o “yo fui” para hechos pasados – respondeu ela falando lentamente. – En el presente decimos: “usted es” o… “yo soy”!

– Sí, claro! Pero Pablo Escobar ha muerto desde hace más de 10 años…

Nova gargalhada de Vera. E continuou falando, agora, em um espanhol rápido e misturado a sorrisos, que, pelo que entendi, significava o seguinte:

– Não morreu nada! Armou toda aquela história de ter sido morto. Depois, se escondeu aqui, em Miami. Tudo combinado com o governo dos Estados Unidos. Fez parte do acordo para ele se entregar.

A essa altura, tive certeza de que ela realmente estava brincando comigo. O Pablo de quem falava era certamente algum amigo íntimo, a quem ela acrescentava o sobrenome Escobar, apenas como uma “broma”. Sorri e fiz um ar de quem havia acreditado no que acabara de ouvir, dando o caso por resolvido.

A partir daí, a conversa prosseguiu até nos despedirmos, sem mais nada digno de relato.

Ocorreu, porém, que, na noite daquele mesmo dia, Ricardo me levou a conhecer uma movimentada boate de Miami. O lugar estava lotado, com muita gente ocupando toda a calçada e parte da rua. A bilheteria já estava fechada e os seguranças, atentos para não permitirem a entrada de mais ninguém.

Falei para Ricardo que não havia problema. Que poderíamos ir embora e voltar no dia seguinte, mais cedo. Mas ele respondeu apenas:

– Espera, aí. Deixa eu ligar pra Vera, que ela dá um jeito.

Ligou, disse algumas palavras em espanhol que não entendi e deu uma gargalhada. Depois, desligou e falou para mim:

– Pronto. Resolvido!

Minutos depois, dois homens enormes, vestindo paletó, gravata e camisa pretos, saíram da boate e vieram em nossa direção. Dirigiram-se ao Ricardo e falaram com ele, em inglês, parecendo-me que pediam uma confirmação de que ele era mesmo quem procuravam. Em seguida, pediram-nos que os acompanhassem e conduziram-nos para a entrada da boate.

Lá dentro, Vera nos aguardava com um sorriso e um abraço. Estava em uma área restrita do lugar. Uma espécie de camarote, guardado por vários seguranças, semelhantes aos que nos foram buscar lá fora.

Acomodei-me por ali e fiquei observando o movimento. A todo o momento passavam garçons com bandejas repletas de latas de cerveja e drinks coloridos. Sem saber que tipo de bebida os tais drinks continham, preferi a segurança da cerveja.

Algum tempo depois, o fornecimento de cerveja foi suspenso, chegando a mim a informação de que, em toda a Flórida, a venda de bebidas alcoólicas era proibida de zero hora ao meio dia do domingo (nunca tentei confirmar isso).

A partir daí, o lugar começou a esvaziar-se lentamente. Vera já tinha ido embora bem antes. Ricardo sinalizou para irmos também. Pedi a um dos garçons que me orientasse sobre como fazer o pagamento das cervejas que havia consumido, mas ele me respondeu que eu não precisaria pagar nada. Falando em inglês, disse algo que me pareceu significar:

– Não precisa pagar nada. Todos aqui são convidados do Chefe!

Apontou para um homem ao fundo daquele espaço VIP e disse:

– Look there! He’s The Boss!

Em seguida, talvez por ter percebido meu sotaque e minha aparência latina, completou:

– Un gran hombre. El Patrón! – e afastou-se.

Como o tal “Patrón” estava cercado por muita gente, não consegui ver seu rosto. Reparei bem que era o único usando roupas de cor clara, provavelmente branca, nada mais que isso. Em meio àquele aglomerado de pessoas, a aproximação, para colher mais detalhes, era difícil. A iluminação também não ajudava.

Fomos embora e nunca perguntei nada a Ricardo sobre aquela noite, mas até hoje me pergunto se aquele homem da boate, chamado “The Boss” ou “El Patrón”, tinha alguma relação com a nossa conversa do almoço.

Alguns dias depois, retornei ao Brasil.

(*) Esta é uma obra de ficção. Tanto as datas como os nomes verdadeiros de pessoas e lugares foram incluídos para dar mais apelo dramático ao conto.


Marcos Mairton - Contos, Crônicas e Cordéis sexta, 14 de dezembro de 2018

O CARCARÁ E AS CORUJAS

 

 
O CARCARÁ E AS CORUJAS

Foto do colunista

Certa manhã, um casal de corujas estava tomando sol na entrada de seu ninho. Um carcará conversava com elas, e queixava-se da maledicência das outras aves.

– Dizem por aí que eu sou malvado. Que eu pego, mato e como. Falam que não respeito meus semelhantes, porque como filhotes de outros pássaros. Mas não tenho culpa de ser carnívoro. Até prefiro cobras e lagartos, mas, na falta deles, posso ter que procurar o almoço em algum ninho. Por necessidade.

– Não dê ouvidos a esse povo, compadre carcará! – respondeu a coruja macho, como quem queria animar o colega de rapina. – Eles têm inveja, por causa do seu voo elegante. Veja só: nós também somos carnívoros e sabemos como são essas coisas. Preferimos nos alimentar de ratos, mas, se a necessidade for grande, podemos comer filhotes de outras aves também. A natureza é assim mesmo!

– É bom saber que vocês me entendem. Por causa dessa falação, às vezes fico muito sozinho.

Fez-se um breve silêncio antes de o carcará retomar a conversa:

– Mas, vejo que vocês estão de saída! Por favor, não façam cerimônia por minha causa. Podem ir cuidar de seus afazeres, que eu vou já embora.

Ao ouvir o carcará falar daquela maneira gentil, a coruja fêmea olhou para dentro do seu ninho – que era apenas um buraco no chão – e viu os seus filhotes, ainda quase sem penas, amontoados lá no fundo. Depois, dirigiu seus grandes olhos amarelos para o carcará e falou, o mais cordialmente possível:

– De saída?! Impressão sua, compadre carcará! Já viu coruja sair de dia? Vamos ficar por aqui o dia todo.

– Bem… então… fiquem à vontade – disse o carcará, esticando as asas. – Vou voar um pouco.

E foi embora.


Marcos Mairton - Contos, Crônicas e Cordéis domingo, 25 de novembro de 2018

DIZ A LENDA (CURTA METRAGEM DE MARCOS MAIRTON)


Marcos Mairton - Contos, Crônicas e Cordéis sexta, 16 de novembro de 2018

OLHANDO EM VOLTA

 

OLHANDO EM VOLTA

Todos os dias, olho em volta e estranho esse mundo em que vivemos.

Esse barulho, essa imensidão de automóveis amontoando-se nas ruas, nas avenidas. Essa música desagradável tocando no rádio, cada vez que entro em um táxi. Ou um Uber.

Essa multidão de gente em todo lugar para onde se vá. Gente apressada, nervosa, impaciente. Muitos parecendo zumbis, de olhos fixos na tela de seus computadores de bolso. Smartphones, iPhones. Gente que anda por aí, sem olhar onde pisa, como se um piloto automático lhes guiasse os passos.

As praças de alimentação dos centros comerciais – nem sei escrever o plural de shopping center – sempre lotadas. Comida feita às pressas. Fast food.

“Parecemos uma nuvem de gafanhotos em um milharal”, disse-me alguém, certa vez. Concordei.

Um mundo estranho. Ou um mundo no qual me sinto estranho. Se é que há alguma diferença entre uma coisa e outra.

A par disso, não sinto saudade de nada.

Nem de outra época, nem de outro lugar.

Olho em volta e acho tudo muito estranho.

Mas é o que temos: o aqui e o agora.

E sigo vivendo.


Marcos Mairton - Contos, Crônicas e Cordéis domingo, 04 de novembro de 2018

O PROFESSOR E O FLANELINHA

 



Foto: Lago Ribeiro. Blog do Labjor

Quando ingressei no Curso de Direito da Universidade de Fortaleza, em 1986, estava com vinte anos de idade, mas já trabalhava no Banco do Nordeste. Um bom emprego, que me permitia pagar com tranquilidade as mensalidades do curso, além de assistir às aulas sem o estresse de quem ainda busca uma vaga no mercado de trabalho.

O curso era noturno. Lembro que, no primeiro dia de aula, cheguei quando o sol ainda nem havia acabado de se por e deixei o carro no estacionamento externo do campus. Naquela época, não havia muita preocupação com assaltos ou furtos.

Um rapazinho, de uns quatorze anos que estava por ali, com uma flanela no ombro, prontificou-se a cuidar do carro até que eu voltasse:

– Posso ficar “pastorando” aí, Louro? – perguntou.

“Pastorar” é um verbo que no idioma cearês significa “cuidar de uma coisa alheia, sem tocar nela; manter sob vigilância”. A palavra consta dos dicionários de língua portuguesa como sinônimo de “pastorear”, que vem a ser a atividade do pastor ao cuidar do rebanho. O sentido é praticamente o mesmo.

“Louro” é uma das muitas maneiras de se tratar alguém cujo nome se desconhece.

– Pode! – respondi, de pronto, imaginando que ele pretendia receber alguma paga pelo serviço de vigilância, mas tendo certa dúvida se um jovenzinho daquela idade estaria a postos quando eu retornasse, lá pelas dez da noite.

E fui para minha aula. Quando retornei ao estacionamento, ao final, lá estava ele. Não pediu nada. Seu cumprimento – “Diz aí, Louro!” – foi o sinal para que eu lhe desse algum dinheiro.

A partir daquele dia, deixava costumeiramente o carro naquela área do estacionamento, sob os cuidados do jovem que passei também a chamar de “Louro” – o que fazia até mais sentido, porque, diferentemente de mim, ele tinha os cabelos loiros.

Foi assim durante todo o meu curso de Direito. Estacionava, cumprimentava o Louro e ia assistir às aulas. Ao voltar, encontrava-o esperando o pagamento, ou, o “trocado”, como ele preferia chamar.

Mas nem sempre ficava nisso. Várias vezes dei-lhe camisas e sapatos, em bom estado de conservação, que não mais usava. Era quase uma amizade. Não chegava a tanto, porque a conversa nunca passou de “Diz aí, Louro!”, “Beleza, Louro!” e coisas assim. Logo, nunca fiquei sabendo onde o Louro morava ou quem seria sua família, se é que tinha família e casa. Tampouco ele mostrava interesse na minha vida pessoal.

A par disso, recordo que muitas vezes cheguei a me questionar sobre o rumo que toma a vida de uma pessoa, conforme ela tenha oportunidade de estudar. E conforme faça uso dessa oportunidade.

Imaginei que o Louro, apenas uns cinco anos mais jovem que eu, deveria ter nascido em uma casa não muito mais pobre que a minha, na periferia de Fortaleza. Talvez tenha frequentado os primeiros anos do ensino fundamental em uma escola pública, como eu. Mas, em algum momento da vida, perdeu o interesse pelos estudos ou a condição de lhes dar sequência. É possível – talvez provável – que tenha sido incentivado pelos próprios pais a deixar o colégio, para contribuir com a renda da família. O contrário do que acontecera comigo, sempre estimulado a buscar nos estudos o caminho para melhorar de vida.

Independentemente dessas conjecturas, o fato é que, durante alguns anos, frequentamos a mesma universidade. Eu assistindo às aulas, ele “pastorando” meu carro. E, ao final daquele período, eu iria receber meu diploma de bacharel em Direito, enquanto ele continuaria sendo um “pastorador” carros, um “flanelinha”.

Passou o tempo. De bacharel em Direito, fiz o exame da Ordem dos Advogados do Brasil e tornei-me advogado; comecei a advogar no escritório de um amigo, e depois, no próprio departamento jurídico do banco onde trabalhava; entrei para o Mestrado em Direito Público da Universidade Federal do Ceará; passei em concurso para Procurador do Banco Central do Brasil; e concluí o mestrado.

Em 1999, já com o título de mestre, voltei à Universidade de Fortaleza, agora como professor do Curso de Direito, do qual fora aluno.

As aulas começavam às sete da noite, mas, no meu primeiro dia, cheguei à UNIFOR um pouco antes de anoitecer. Talvez por nostalgia, abri mão do estacionamento dos professores e deixei o carro na mesma área onde estacionava quando aluno.

Mal acabava de desembarcar, quando ouvi uma voz:

– Diz aí, Louro!

– Fala, Louro! – respondi com entusiasmo. – Tu ainda tá por aqui?

– Todo dia!

– Vai “pastorar” o meu?

– Claro!

– Tô de novo na área – falei sorrindo. – Mas agora como professor.

– É isso aí! Fez bonito! O senhor sabe que o estacionamento de professor é lá dentro, né? Mas, se quiser deixar aí, ninguém “bole”, não.

“Bole” é a terceira pessoa do singular do verbo “bulir”, que tem muitos significados na língua portuguesa. No idioma cearês é sempre utilizado no sentido de “tocar ou mexer em alguma coisa”.

Mas a palavra usada por ele que me chamou mais a atenção foi “senhor”. Era a primeira vez que se dirigia a mim daquela maneira. Certamente por respeito à minha, agora, condição de professor, demonstrando que, apesar de continuar frequentando a universidade apenas para vigiar os carros, reconhecia o valor dos que se dedicam ao ensino.

Iniciava-se, assim, mais um período de vários anos em que frequentei a Universidade de Fortaleza. Todas as noites, de segunda a sexta-feira. Raramente via o Louro, porque, como ele mesmo havia me alertado, o estacionamento dos professores ficava do lado de dentro do campus.

Nessa mesma época, fiz outros concursos. Fui advogado da União e juiz federal. Deixei de ensinar em 2005, quando me afastei de Fortaleza, para assumir a primeira vara federal de Juazeiro do Norte. Depois passei por Mossoró, Sobral e Quixadá. Até retornar a Fortaleza, em 2012.

Não voltei mais a ensinar, mas alguns anos depois do retorno a Fortaleza, fui convidado a dar uma palestra em um seminário na Unifor.

Um carro da universidade foi me buscar no fórum. Terminada a palestra, caminhei até a área externa, onde minha mulher me esperava em nosso carro. Passando pelo local onde costumava estacionar, lembrei dos tempos de aluno do curso de Direito.

O relógio marcava vinte e duas horas e mais um punhado de minutos. Alguns estudantes transitavam por ali, andando apressados em direção ao ponto de ônibus ou ao local onde haviam estacionado seus carros. Formava-se um engarrafamento na avenida que passa em frente à universidade. Alheio a todo aquele movimento, um homem de cabelos grisalhos estava sentado no meio-fio, demonstrando cansaço. Os braços apoiados nos joelhos, a testa apoiada nos antebraços.

No instante em que eu passava por ali, ele ergueu a cabeça e falou sorrindo:

– Diz aí, professor!

Era o Louro.


Marcos Mairton - Contos, Crônicas e Cordéis sexta, 02 de novembro de 2018

COMPARAÇÕES

 

COMPARAÇÕES 

Foto: Alamy

Quando saí de casa, o dia ainda não havia clareado totalmente. Como se o sol já estivesse acordado, mas resistisse à ideia de sair da cama.

Logo que cheguei à praça onde costumo fazer minhas caminhadas, vi passar uma jovem.

Andava rápido, como um praticante de marcha atlética, mas, com tanta suavidade, que os pés pareciam não tocar o chão.

Tinha as feições delicadas, como uma fada de livros infantis. E usava um vestidinho tão curto, que parecia uma blusa, deixando à mostra as pernas brancas, como se fossem de mármore.

De repente, ela parou perto de um carro estranho. Parecia saído de um filme de ficção científica. Entrou nele rapidamente, olhando para os lados, como se o furtasse.

No instante seguinte, o veículo flutuou no ar, como uma pluma erguida pelo vento, e partiu em direção ao espaço. Rápido e silencioso, como uma flecha.

Permaneci ainda alguns minutos olhando para o céu. Movimentando-me tanto quanto a estátua que há no meio daquela praça.


Marcos Mairton - Contos, Crônicas e Cordéis domingo, 28 de outubro de 2018

ESCREVENDO EM ESPANHOL

 

 
ESCREVENDO EM ESPANHOL

Tive a ousadia de participar de um concurso de contos promovido pelo site espanhol Microcuento. Nessa pretensiosa empreitada, fui estimulado por dois motivos.

O primeiro deles foi o desafio de escrever em outro idioma, concorrendo com nativos. Assim, fiz questão de escrever direto no espanhol, ao invés de fazê-lo em português e traduzir depois.

O segundo, o fato de o tema proposto ser muito presente na minha maneira de ver e viver a vida: O AGORA. Ou, como proposto no concurso “vivir con el ahora”.

Como era de se esperar, sequer fiquei entre os finalistas. Mas também não fui desclassificado, o que, para mim, é um tipo de vitória.

E ainda posso compartilhar com meus leitores a ideia do AGORA, de maneira lúdica. Uma parábola, talvez.

Chega de conversa. Segue o texto com o qual participei do concurso, seguido de sua tradução para o português.

Só mais um detalhe: a extensão do texto era limitada a 250 palavras.

EL GATO DE PORCELANA

En un reino imaginario, el rey era un hombre muy sabio y tranquilo, pero se estaba cansando de tantas tareas administrativas. Entonces decidió elegir a un Primer Ministro entre las personas más inteligentes del país.

Después de muchas pruebas de conocimiento, quedaron diez candidatos a quienes el rey propuso un desafío:

– El vencedor será el que me traiga un gato de porcelana.

– ¿Cuándo? – preguntaron en coro algunos competidores.

– ¡Ahora!

Los candidatos se quedaron sorprendidos. Nadie sale de casa con un gato de porcelana en el bolsillo.
El rey mandó que se fueran. Deberían volver al día siguiente para el desempate.

A la hora señalada, los candidatos se reunieron en el salón real. Pero antes de que el rey hiciera un nuevo desafío, uno de ellos, que traía consigo un paquete, pidió la palabra.

– Majestad, traigo al gato de porcelana que usted requirió.

– Admiro tu esfuerzo. Pero ya pasaron veinticuatro horas desde el desafío del gato.

– Sin duda, mi señor. ¿Y vuestra majestad se dio cuenta de que traigo el gato hoy y no ayer?

– ¡Claro!

– Y tampoco lo estoy trayendo antes o después de este momento.

– Es verdad.

– Entonces creo que traigo al gato en el momento exacto que vuestra majestad determinó: ¡ahora!

– ¡Muy ingenioso! Pero ¿es posible que el ahora se haya prolongado desde ayer hasta hoy?

– El ahora es infinito, majestad. En él todas las cosas suceden. Nunca antes, nunca después. Siempre ahora.
Y el rey sonrió satisfecho. Había elegido a su Primer Ministro.

O GATO DE PORCELANA

Em um reino imaginário, o rei era um homem muito sábio e tranquilo, mas estava cansado de tantas tarefas administrativas. Ele então decidiu escolher um primeiro-ministro entre as pessoas mais inteligentes do país.

Depois de muitos testes de conhecimento, sobraram dez candidatos a quem o rei propôs um desafio:

– O vencedor será aquele que me trouxer um gato de porcelana.

– Quando? – perguntaram em coro alguns dos concorrentes.

– Agora!

Os candidatos ficaram surpresos. Ninguém sai de casa com um gato de porcelana no bolso. O rei então ordenou que eles saíssem. Deveriam voltar no dia seguinte para o desempate.

Na hora marcada, os candidatos reuniram-se no salão real. Mas antes que o rei fizesse um novo desafio, um deles, que trazia consigo um pacote, pediu para falar.

– Majestade, eu trouxe o gato de porcelana que o senhor pediu.

– Admiro seu esforço – respondeu educadamente o rei. – Mas já se passaram vinte e quatro horas desde o desafio do gato.

– Sem dúvida, meu senhor. E vossa majestade percebeu que estou trazendo o gato hoje e não ontem?

– Claro!

– E eu também não trouxe o gato antes ou depois do momento em que estamos.

– É verdade.

– Então me parece que eu trouxe o gato no exato momento que vossa majestade determinou: agora!

– É um ótimo raciocínio! Mas seria possível o agora durar desde ontem até hoje?

– O agora é infinito, majestade. Nele todas as coisas acontecem. Nunca antes, nunca depois. Sempre agora.

E o rei sorriu satisfeito. Acabara de escolher seu primeiro-ministro.


Marcos Mairton - Contos, Crônicas e Cordéis domingo, 14 de outubro de 2018

SALTOS IMPOSSÍVEIS

 

 
SALTOS IMPOSSÍVEIS

Deixando o Rio de Janeiro, em um ensolarado final de tarde, com destino a Brasília, desci do táxi e entrei no Aeroporto Santos Dumont. Não havia pressa alguma. O voo estava previsto para largas três horas depois. Teria tempo de sobra para fazer um lanche e observar o movimento, nessa fonte inesgotável de histórias que são os aeroportos.

Todos os dias é um vaivém…”, diz a canção. E foi como se as vozes de Simone e Maria Rita disputassem um lugar em minha memória musical. É fato que a música fala de uma estação de trem; mas, de certa forma, dá no mesmo: os aeroportos são as novas plataformas para tantas chegadas e partidas, e outros tantos encontros e despedidas…

Decidido a não ter qualquer preocupação com o tempo, segui direto para o salão de embarque. Na fila do raio X, à minha frente, uma jovem tirou a jaqueta e a pôs na esteira, junto com a bolsa e o telefone celular. Usava uma calça um tanto quanto engraçada, para meus padrões estéticos, talvez desatualizados: colada ao corpo, do joelho para cima, e abrindo-se em formato de cone, do joelho para baixo.

Chamou-me a atenção, ainda, o fato de ela ser mais alta que eu – característica pouco comum entre as mulheres que costumo encontrar cotidianamente –, apesar da minha estatura de apenas um metro e setenta e dois centímetros. Se essa observação decorre de alguma admiração especial por mulheres mais altas, ou de eventual resquício de influências machistas em minha formação, é avaliação que deixo a cargo de quem se ocupar desta leitura.

Chegada a minha vez de passar os pertences pela máquina de raio X, pus a mala na esteira e o paletó em uma bandeja de plástico. Costumo tirar o paletó e pôr no raio X porque, assim, vão em seus bolsos meus dois telefones celulares, as chaves e outros objetos metálicos, como moedas. O notebook vai em outra bandeja, devidamente retirado da mochila e apoiado sobre ela.

Estava nessa fase do procedimento – tirando o notebook da mochila – quando ouvi uma voz feminina, logo à minha frente, demonstrando irritação.

Era a jovem de quem falei antes. Reclamava com o funcionário do aeroporto por ter que voltar e passar, novamente, pelo detector de metais. Uma luz vermelha piscava na parte inferior do portal a cada vez que ela transitava por ali.

O rapaz que controlava o equipamento tentava ser gentil, mas a moça queixava-se de já haver tirado todas as pulseiras e, até mesmo, o cinto.

– O problema é nos pés – explicava o rapaz. – Deve haver metal nos seus sapatos. Acontece muito isso…

O desentendimento entre os dois atrasava minha passagem, mas isso não chegava a ser um incômodo. Afinal, ainda restavam duas horas e quarenta e cinco minutos para o meu embarque.

Apesar dos protestos e da impaciência cada vez maior, a viajante acabou aceitando tirar os seus sapatos. Acomodou-se em um banco – aparentemente, posto ali para aquela exata finalidade – e acabou se descalçando, ali mesmo.

Foi, então, que contemplei os maiores saltos de sapatos que já pude ver em toda a minha vida!

A parte da frente, onde se apoiam os dedos e os metatarsos, devia ter uns vinte centímetros de altura; o salto propriamente dito – que, em condições normais de temperatura e pressão, serve para apoiar o calcanhar – chegava, facilmente, a uns trinta centímetros.

Não sei se a irritação da moça tinha alguma relação com o fato de ela ter que circular por ali, exibindo sua altura real. Aos meus olhos, a redução da estatura era algo que não a diminuía em nada – perdoem-me o trocadilho. Mas as pessoas têm suas preferências estéticas e, no caso, a diferença era bem grande.

Com os pés descalços, ela cruzou o portal do detector de metais, agora, sem acionar qualquer alarme. Pegou de volta seus sapatos com saltos gigantes, que haviam sido postos na esteira do raio X, e os calçou novamente. Ocultos sob sua calça engraçada – de pernas com bocas de sino –, ninguém suspeitava que eram eles que faziam a jovem ficar mais alta.

Se alguém me houvesse mostrado aqueles calçados na vitrine de uma loja, acharia que era apenas uma peça decorativa, como aqueles calçados conceituais criados por grandes estilistas para lançarem suas coleções, mas que são de uso improvável. Teria certeza de que ninguém seria capaz de andar equilibrando-se naquelas coisas. Mas, ela andava. E rápido.

O tempo que gastei repondo o notebook na mochila e vestindo novamente o paletó foi suficiente para que a moça dos saltos impossíveis sumisse na multidão.


Marcos Mairton - Contos, Crônicas e Cordéis domingo, 07 de outubro de 2018

15 ANOS DO ESTATUTO DO IDOSO

 

 
15 ANOS DO ESTATUTO DO IDOSO

Esta semana, além dos 30 anos da Constituição brasileira, houve o aniversário de 15 anos da Lei 10.741, de 1º de outubro de 2003: o Estatuto do Idoso.

No Superior Tribunal de Justiça, tivemos a honra de participar da comemoração da data, promovida pelo pessoal do “Programa Sociedade para Todas as Idades”, com a presença de mais de 100 idosos.

Escrevemos dez estrofes, que os dedicados organizadores do evento transformaram em um pequeno folheto, impresso com nossos próprios recursos.

Depois, foi só comparecer, declamar e esperar os aplausos. Que vieram generosos e emocionados!

CORDEL DO ESTATUTO DO IDOSO

Em qualquer sociedade
Que se diz civilizada,
A pessoa que é idosa 
Deve ser valorizada.
Pois quem mais tempo viveu,
Trabalhou, lutou, sofreu
Nas batalhas dessa vida,
Merece a nossa homenagem
Por estar, nessa viagem,
Com a missão sendo cumprida.

Às vezes o jovem falha
Nesse reconhecimento,
Por não ver que a juventude
Não é mais que um momento.
E esquecer, por um instante,
Que alguns anos adiante,
Será idoso também.
Pois o tempo sempre avança,
E a todos nós nos alcança,
Não discrimina ninguém.

A não ser que o indivíduo
Morra cedo, em tenra idade,
Os anos passam depressa,
E, depressa, a mocidade
Por eles é consumida.
E o que levamos da vida
São nossas experiências.
Do que de bom nós fizemos
E os erros que cometemos,
Com as suas consequências.

Por isso que é importante
Que sempre se incentive
O jovem a dar valor
A quem há mais tempo vive.
E que o corpo mais cansado
Possa ser recompensado
No convívio social,
Recebendo atendimento,
Em qualquer departamento,
Sempre preferencial.

No Brasil, há 15 anos,
Nosso sistema legal
Teve um avanço importante.
Um passo fundamental
Nessa valorização
Das pessoas que estão
Com a idade avançada.
Outubro era aquele mês
Do ano 2003,
Quando a lei foi sancionada.

Estatuto do Idoso.
Foi o nome que se deu
À lei que foi publicada
E então estabeleceu
Um conjunto de medidas
Em benefício das vidas
Dos idosos do país.
Por isso passo a citar,
Para exemplificar,
Um pouco do que a lei diz.

Diz o Estatuto que é
Dever da sociedade,
Da família e do Estado,
De toda a comunidade,
Ao idoso assegurar
Saúde, cultura e lar,
Lazer e cidadania,
O respeito, a dignidade,
E toda a prioridade
Nas coisas do dia-a-dia.

Na fila da padaria,
Do banco ou supermercado,
O atendimento do idoso
Tem que ser priorizado.
Não tem que pagar passagem
Para fazer a viagem
No ônibus, pela cidade.
E, na hora do embarque,
E também do desembarque,
Sempre tem prioridade.

O Estatuto do Idoso,
Em 118 artigos,
Prevê muitas outras coisas,
Que nesta hora não digo,
Para não me alongar.
Porque não quero cansar
Essa bela assistência.
Mas é lei que favorece
Quem realmente merece
Em vida e experiência.

É claro que o Brasil
Ainda pode avançar.
E o cuidado com os idosos
Tem muito o que melhorar.
Mas, nesta celebração,
É justo fazer menção,
Em um tom elogioso,
À lei aqui destacada,
Há 15 anos lançada:
O Estatuto do Idoso.


Marcos Mairton - Contos, Crônicas e Cordéis sábado, 22 de setembro de 2018

HOMENAGEM A ORLANDO TEJO

 

 
HOMENAGEM A ORLANDO TEJO

Disse Zé Limeira:

Um dia o Rei Salamão
Dormiu de noite e de dia.
Convidou Napoleão
Pra cantá pilogamia.
Viva a Princesa Isabé,
Que já morô em Supé
No tempo da monarquia.

(Do livro “Zé Limeira, poeta do absurdo”, de Orlando Tejo)

Digo eu:

Dom João VI pretendia 
Conhecer a Amazônia,
Mas Dom Tiradentes teve
Um problema de insônia.
Enquanto Pedro II
Gritava pra todo mundo:
Viva o Rei da Macedônia!

Um dia fui à Polônia,
Só pra ver a Torre Eiffel.
E encontrei Napoleão 
Brincando num carrossel.
Fernando Pessoa ria,
Na mesma hora que lia
Um folheto de Cordel.

Certa vez, Dom Manoel
Que pensava que era rei,
Amarrou quatro jumentos
Em frente à casa de um frei.
O povo se revoltou,
E, como a briga acabou,
Eu até hoje não sei.

Esse versos que criei,
São somente uma maneira
De aplaudir Orlando Tejo,
Que nos legou Zé Limeira.
Tendo talento de sobra,
Foi-se o homem, fica a obra,
Pela eternidade inteira.

 

Orlando Tejo (1935-2018)


Marcos Mairton - Contos, Crônicas e Cordéis domingo, 16 de setembro de 2018

UM PAÍS DE FAZ DE CONTA

 

UM PAÍS DE FAZ DE CONTA

O bom de contar histórias é que não precisamos falar apenas das coisas do mundo real. De vez em quando, soltamos a imaginação e nos ocupamos daquilo que não existe, mas que fazemos de conta que existe.

Assim, inventamos um mundo paralelo, fruto da nossa imaginação. O chamado mundo do faz de conta, onde nos permitimos criar coisas, pessoas, lugares e o que mais vier à mente.

Podemos imaginar, por exemplo, um país de faz de conta, onde aquilo que é, fazemos de conta que não é; e aquilo que não é, fazemos de conta que é.

Esse país de faz de conta teria governantes que fazem de conta que governam para toda a população, mas, na verdade, cuidam apenas dos seus próprios interesses.

Ao realizar obras ditas públicas, o governo faz de conta que pretende trazer algum benefício ao público, mas os principais interesses são privados. Empresas fazem de conta que concorrem pela execução dessas obras, fazendo de conta que oferecem os melhores preços e condições, mas já está tudo combinado: quem será a empresa vencedora, qual o preço dos serviços e até o percentual da propina que irá abastecer contas bancárias e campanhas eleitorais.

Sim! Campanhas eleitorais! Porque, nesse país de faz de conta, as campanhas eleitorais são caríssimas. Afinal, nelas, os candidatos fazem de conta que defendem ideias e ideais, mas não têm qualquer compromisso com o que afirmam e prometem. Querem apenas poder, cargos e recursos públicos. Existe até uma figura ilustre chamada marqueteiro, que ganha muito dinheiro, cuja função é treinar o político para fazer de conta que diz o que pensa, quando, na verdade, tenta apenas dizer o que os eleitores parecem querer ouvir. Um jogo de faz de conta, no qual um faz de conta que diz a verdade, e o outro faz de conta que acredita.

Nesse país, podemos fazer de conta que o parlamento é formado por representantes do povo, mas qualquer cidadão sabe que, em sua grande maioria, os congressistas são representantes apenas de si mesmos. Além dos interesses daqueles que patrocinaram suas campanhas eleitorais, é claro.

Isso talvez jamais pudesse acontecer em um país de verdade. Mas, em um país de faz de conta, grande parte do eleitorado faz de conta que participa do processo político, enquanto troca seu voto por pequenos benefícios pessoais ou quantias irrisórias.

Em um país de faz de conta, como esse que imaginamos, podem-se criar leis diariamente, a pretexto de resolver os mais variados problemas, mas elas nunca resolvem nada. E, eventualmente, criam problemas novos. Até porque sempre haverá muita gente fazendo de conta que cumpre essas leis, mas dando um jeito – um jeitinho – de escapar delas.

Sim, o Poder Judiciário deveria zelar pela efetiva aplicação dessas leis! Mas, há aí pelo menos dois problemas.

O primeiro é que, nesse país de faz de conta, os juízes são muito hábeis em julgar conforme suas convicções pessoais, apenas fazendo de conta que aplicam as leis. Para justificar suas decisões, há sempre um direito fundamental ou um princípio constitucional do qual podem lançar mão.

Isso não chega a ter maiores consequências, por causa do segundo problema: o sistema processual desse país de faz de conta é tão complexo que os julgamentos praticamente não terminam nunca. Há sempre um recurso a mais a postergar o resultado final da causa. Então, cada sentença é um mero faz de conta, já que não resolve nada.

Esse é um país tão de faz de conta que, nele, muita gente vai parar na cadeia, mas apenas faz de conta que está presa, porque, de dentro dos presídios, continua praticando seus crimes. Outros nem precisam sair de casa para fazerem de conta que estão presos. É a chamada prisão domiciliar.

Nesse país de faz de conta, faz-se de conta que existe escola pública em todos os níveis. Mas é uma escola de faz de conta, mal construída, mal aparelhada e com professores mal treinados e mal pagos. O resultado é que muitos professores fazem de conta que ensinam, e muitos mais alunos que fazem de conta que aprendem. Além daqueles que fazem de conta que vão à escola, mas sequer aparecem lá.

Segurança pública? Faz-se de conta que tem, apesar dos milhares de homicídios, assaltos e tantos outros crimes que se cometem impunemente. Saúde pública? Um verdadeiro faz de conta. No papel, um sistema quase perfeito; na prática, gente morrendo nos corredores dos hospitais, sem atendimento. Transporte público? Não é lá dos melhores, mas todo mundo se aperta um pouco e faz de conta que é bom.

A imprensa faz de conta que noticia essas coisas, mas ninguém leva as notícias muito a sério, porque os fatos são frequentemente manipulados, conforme a linha ideológica do jornal ou da revista.

E, assim, cada um segue seu destino nesse país de faz de conta. Às vezes tem umas festas grandes, com muita música e dança, o que mostra ao menos que o povo é feliz. Ou faz de conta que o é.

Só mesmo em um país de faz de conta, nascido na cabeça de um contador de histórias, as coisas poderiam ser assim. Porque, em um país de faz de conta, as pessoas reclamam um pouco, maldizem a própria sorte, trocam ofensas nas redes sociais, mas apenas fazem de conta que estão indignadas.

Afinal, tem muita gente nesse país que faz de conta que gostaria de ter um país de verdade, mas já se acostumou a viver em um país de faz de conta.


Marcos Mairton - Contos, Crônicas e Cordéis segunda, 10 de setembro de 2018

POESIA NO TRIBUNAL - LANÇAMENTO DO LIVRO BREVES ANOTAÇÕES DE UM ANDARILHO NO STJ

 



No dia 5 de setembro deste ano de 2018, por ocasião da apresentação do meu livro “Breves Anotações de um Andarilho”, declamei o poema “Poesia e Magistratura”, no Espaço Cultural STJ.

Acompanhou-me, ao violão de sete cordas, o também juiz federal Márcio Barbosa Maia.

 

 

POESIA E MAGISTRATURA

Certa vez, fui perguntado
Sobre como eu conseguia
Dedicar-me à poesia
Sendo eu um magistrado.
Vivendo tão ocupado,
Com as questões do Direito,
Como é que dava jeito
Para escrever rimando,
E também metrificando,
Fazendo verso perfeito?

 

Eu, antes de responder,
Calado, pensei assim:
Quem pergunta isso pra mim
Não conhece o “métier”
De quem tem que resolver
Toda sorte de conflito.
Que de perto escuta o grito
Da nossa sociedade
Clamando por igualdade,
Pedindo pena ao delito.

Ser poeta e ser juiz
O que há de estranho nisso,
Pra quem tem o compromisso
De ouvir a parte o que diz?
Que vê o olhar feliz
De quem ganhou a questão
E tem a satisfação
De sentir que fez Justiça
Reparando a injustiça
Que atingiu o cidadão?

Eu penso que a poesia
Está em todo lugar,
E quem vive a julgar
A encontra todo dia:
Quando o parquet denuncia
Quando o réu faz sua defesa
Quando a polícia traz presa,
Gente por ela detida,
É a poesia da vida
Que me chega de surpresa!

A poesia aparece
Quando o advogado
No pedido formulado
Diz: – Doutor, ela merece,
Todo dia sobe e desce
A ladeira da “Queimada”
Carregando uma enxada
Para trabalhar na roça
Não é justo que não possa
Ser agora aposentada.

A poesia é presente
No olhar do acusado
Seja quando é culpado,
Seja quando é inocente.
Na testemunha que mente,
E na que fala a verdade.
Na imparcialidade
Que todo juiz queria.
Veja quanta poesia
Em nossa realidade.

Por isso eu acho normal
Que todo bom magistrado
Venha a ser considerado
Poeta em potencial.
Incorre em erro fatal
Quem quiser fazer sentença
Somente com o que pensa
Sem revelar o que sente.
Um juiz desse, é urgente
Que se afaste, de licença.

Tulio Liebman lecionava,
Que a sentença é assim,
Vem de “sentire”, em latim,
E, dessa forma, ensinava:
Que na sentença se grava
Não somente o pensamento,
Mas também o sentimento
Do juiz que a profere.
Que ninguém desconsidere
Esse grande ensinamento.

Se o poeta, realmente,
Não é mais que um “sentidor”.
Que chega a sentir que é dor
“A dor que deveras sente”,
Juiz não é diferente
Quando cumpre sua função.
Mesmo quando a decisão
Em versos não se transforma
Na aplicação da norma
Há uma carga de emoção.

Fique tranqüilo, portanto,
Meu colega, magistrado,
Se, agora, aí sentado,
Lhe surpreender o pranto.
Pois não será por encanto,
Magia ou maldição.
É só manifestação,
Que nesse instante sentiste,
Do poeta que existe
Dentro do seu coração.


Marcos Mairton - Contos, Crônicas e Cordéis sábado, 08 de setembro de 2018

A FLECHA

 

 
A FLECHA

Crédito: DreamTime

Dário acordou inquieto, naquele sábado, sentindo uma espécie de angústia, que lhe apertava o peito. Levantou-se da cama silenciosamente, para não acordar Marta, a esposa, e foi até a cozinha, onde tomou um copo de leite gelado com dois biscoitos de água e sal, a título de café da manhã.

Depois de verificar algumas mensagens no celular, tentou adiantar o trabalho da semana, no computador de casa, mas sem sucesso. Precisava fazer alguns cálculos complexos, para o projeto da construção de um prédio, mas lhe faltava concentração para realizar o serviço.

O raciocínio não fluía, o pensamento era disperso. Lembrava de cenas da sua adolescência, da casa onde morava com seus pais, durante a infância, de um gato que lá havia… Pensamentos em profusão que o afastavam daquilo que pretendia fazer.

Sem nada produzir de relevante, desistiu de continuar com o trabalho; já perto do meio-dia, foi almoçar, deixando o computador ligado e alguns papéis sobre a mesa. Talvez retomasse à tarde.

Mal falou com Marta, durante o almoço. Ela não estranhou, porque imaginou que ele estava apenas preocupado com o trabalho. Apesar de serem casados há apenas dois anos, já se acostumara a vê-lo assim, quando estava pressionado pelo prazo de entrega de um projeto.

Eram quase três da tarde quando ele se acomodou em uma poltrona, na varanda de sua casa, diante do amplo jardim, aproveitando a companhia daquele que considerava ser seu melhor amigo.

Parecia que, a partir daí, encontraria alguma paz interior, mas isso não aconteceu. Permanecia incomodado pela agitação que o afligia, desde as primeiras horas da manhã. Desta feita, passaram a povoar sua mente imagens de situações desconhecidas, mas tão nítidas que não pareciam pensamentos e, sim, registros de sua memória. Lembranças.

Atormentado com aquilo, Dário olhou para o amigo, e falou. Primeiro lentamente, como se se esforçasse para encontrar as palavras; depois, rapidamente, como se não precisasse pensar no que dizia:

“Houve um tempo em que avançávamos juntos no campo de batalha. Lado a lado, ombro a ombro. O meu escudo era o teu escudo, como o teu era também o meu. E o inimigo que surgisse pela frente seria destroçado pela ponta de nossas lanças, como se essas fossem as presas de um animal feroz.

Éramos um bloco, um todo, uma unidade.

Crédito: Pinterest.com

Mas, sabíamos que, se um de nós caísse ferido, era dever do outro seguir em frente, sem olhar para trás. Até o fim da batalha. Ou, até, também cair. Porque, assim como nós, a vida e a morte andavam lado a lado.

Lembro-me de que, certa vez, num desses dias de luta, algo me atingiu na cabeça. Caí atordoado. Meu capacete, amassado, rolava pelo chão. E tu, ao invés de continuares combatendo, vieste me ajudar.

Meu coração encheu-se de gratidão, porque, graças a ti, pude levantar e continuar vivo. Mas, te repreendi pelo gesto em meu favor. Com ele, puseste todo o pelotão em risco. Abriste uma brecha em nossa defesa, que poderia ter sido explorada pelo inimigo.

– Nunca mais faças isso! – disse eu, enquanto me erguia, amparado por ti. – E nem esperes que eu faça o mesmo por ti!

Foi nesse exato momento que uma flecha atingiu o teu peito.

E eu, fiel às minhas palavras, determinado no cumprimento do meu dever, simplesmente, continuei lutando, enquanto agonizavas no chão, em meio ao sangue e à lama.

Vencemos aquela batalha. Fui condecorado por bravura. Nunca tive dúvida de que fiz o que deveria ter feito. Ou, pelo menos, o que acreditava ser a atitude correta.

Mas, a lembrança de não te ter apoiado, nos teus últimos momentos, sempre me doeu na alma.

E dói, até hoje. Mesmo muitos séculos depois.”

Emocionou-se ao dizer essas palavras. Mas o amigo nada respondeu, pois era apenas um bebê, que havia adormecido, enquanto ouvia seu pai contar histórias de outros tempos, de outras vidas.


Marcos Mairton - Contos, Crônicas e Cordéis quinta, 06 de setembro de 2018

ANIVERSÁRIO EM FESTA

 



Republicado em celebração aos meus 52 anos nesta existência

Aos dezessete de agosto,
Registro no calendário
O dia em que comecei,
Na vida, o itinerário.
Mas, não trago na lembrança 
De em meus tempos de criança
Festejar aniversário.

Fiz quarenta e nove anos
Sem nunca ter perguntado
Ao meu pai ou minha mãe
Por que não tenho guardado
No arquivo da minha mente
Um aniversário, somente,
Na infância celebrado.

Eu vejo que, hoje em dia,
A família é reunida
Sempre que um de nós completa 
Mais um ano nessa vida.
Seja de adulto ou criança
Tem sempre alguma festança
E animação garantida.

Por isso que eu me pergunto:
“E naqueles tempos idos?
Quando menino eu sonhava
Com brinquedos coloridos?
Festejar meu nascimento
Não seria fundamento
Para estarmos reunidos?”

Mas, antes dos meus cinquenta,
Aos meus pais eu perguntei:
“Por que é que, até hoje,
Eu jamais me recordei
De alguma celebração,
Festa ou comemoração 
Do dia em que aqui cheguei?”

O que eu perguntei a eles
Não causou muita surpresa.
O meu pai me respondeu,
Com a habitual franqueza,
E puxou pela memória
Para explicar a história 
Com detalhes e clareza.

Disse: Meu filho, está certa
A sua observação.
Pois, festa de aniversário,
Nós nunca fizemos, não.
Nem em casa, nem na rua,
Nunca teve festa sua
Nem também de seu irmão.

 

E a causa de ser assim,
Passo agora lhe dizer,
E, saiba que ela surgiu
Antes de você nascer.
Aconteceu à noitinha,
Em uma simples festinha
Que nós tentamos fazer.

Pois saiba que o seu irmão,
Que é mais velho que você
Quando completou um ano,
E era apenas um bebê,
Preparamos a comida
E até alguma bebida
Pra fazer um balancê.

Uma festinha bem simples,
Para a família, somente,
O povo mesmo de casa,
Algum amigo ou parente,
Pois sua mãe não gostava,
E nem o dinheiro dava,
Pra convidar muita gente.

Mas, com jeito e alegria,
Tudo ali se acomodava.
E, lá pelas seis da noite
A gente se preparava,
E em casa se reunia,
Quando ouvi que alguém batia
Palmas na porta e chamava.

Fui atender, e um rapaz,
Com outro a lhe acompanhar,
Perguntou: “É uma festa?
Se for, vou querer entrar.
Somos eu e meu amigo,
Ele veio aqui comigo
Para essa festa animar”.

Naquele tempo existiam
Os chamados valentões,
Que saíam a beber
E arranjar mil confusões.
E os dois eram conhecidos,
Noutras brigas envolvidos
Em muitas ocasiões.

De imediato, eu senti
Que a coisa ia complicar.
Porque, se eu não permitisse
Que eles pudessem entrar,
Naquela hora, ou depois,
Com certeza, aqueles dois,
Tentariam me pegar.

Mas, deixar eles entrarem,
Também nada resolvia,
Porque, já dentro de casa,
Um deles arrumaria
Com certeza, alguma intriga,
E, logo, logo, uma briga,
Na certa começaria.

E, como naquele tempo,
Eu era jovem e disposto,
Também não queria abrir
Minha casa a contragosto.
Em vez de me intimidar
Tratei logo de mostrar
Que o resultado era oposto.

Então, disse logo a eles:
– Sua entrada não convém.
Nem você foi convidado,
Nem seu colega também.
Os que aqui estão presentes,
São amigos ou parentes,
E não entra mais ninguém.

Depois de falar assim,
Tratei logo de fechar
A porta da nossa casa
Para ele não entrar.
Mas, sentindo que eu estava
Dando o que ele procurava:
Um motivo pra brigar.

Mas, preciso esclarecer,
Nesse ponto, uma questão.
As casas daquele tempo
Não eram juntinhas, não.
Todo mundo ali sabia
Que entre elas existia
Um beco, chamado “oitão”.

E, seguindo pelo oitão,
Se chegava no quintal.
Do quintal para a cozinha,
O acesso era total.
Então, fui me prevenir
Pois, por lá podia vir
O bandido, o marginal.

E, assim pensando, corri
Para a porta da cozinha,
Mas, quando me aproximei,
O desgraçado já vinha.
Tinha entrado pelo oitão
E chegava feito um cão,
Feito um galo em uma rinha.

Vinha de faca na mão
Disposto a sangrar alguém,
E, vendo a faca, eu tratei,
De me preparar também,
Pois nunca fui encrenqueiro,
Mas, dentro do meu terreiro,
Eu nunca temi ninguém.

Em um canto da cozinha,
Eu sempre deixava lá,
Uma vara de um metro
De madeira sabiá.
Não era bem um porrete,
Mas era um duro cacete,
Que se chama de jucá.

De jucá na mão eu fui
Em direção ao bandido,
E meti a cacetada
Por cima do pé do ouvido,
Que se tivesse pegado,
Sei que ele tinha ficado
Por ali mesmo caído.

Mas o cabra era ligeiro,
E depressa se esquivou.
Com dois passos para trás,
Para o quintal recuou,
Aí eu ganhei moral,
E ali mesmo, no quintal,
A batalha começou.

Fui pra cima do sujeito,
Com uma vontade danada,
De pegar ele de jeito,
E acertar uma paulada,
Mas, sabendo do perigo
De que aquele inimigo
Me acertasse uma facada.

Continuei avançando,
Enquanto ele recuava,
E, atravessando o oitão,
Depressa a gente chegava,
Na rua, onde muita gente,
Se juntou rapidamente,
Pra ver o que se passava.

E, chegando ali, na rua,
Foi que a chibata cantou,
E o amigo do bandido,
Na briga também entrou.
E, talvez por não ter faca,
Me atacou com uma estaca,
Que quase me acertou.

Eu, que estava decidido
Ao problema resolver,
Parti pra cima dos dois,
Sem vacilar nem tremer.
Distribuindo paulada,
Parti para o tudo ou nada
Era matar ou morrer.

Foi assim que, com destreza,
Ou, talvez, com muita sorte,
Acertei uma paulada,
Mais certeira do que forte,
Na testa do desgraçado,
Que de faca estava armado,
Abrindo um profundo corte.

Mas o cabra era valente,
E, mesmo estando sangrando,
Não se dava por vencido
E continuou brigando.
E tinha o outro bandido
Também muito destemido,
Todo o tempo me atacando.

Ele até me acertou
Na costela, uma pancada,
Que mais de um mês depois
Inda estava meio inchada, 
E a camisa que eu vestia
Não teve mais serventia
Pois ficou toda rasgada.

Aquela situação 
Só viria a melhorar
Quando o pai da sua mãe
Correu para me ajudar.
Quando o seu avô chegou,
Depressa o jogo virou,
Pra nos beneficiar.

O seu avô, João Domingos,
Você deve lembrar bem,
Sorria e falava pouco,
Não mexia com ninguém,
Também, quando se irritava,
Nada mais lhe segurava,
Não abria nem pro trem.

Naquele dia, ele veio,
Para a nossa residência,
Festejar o seu irmão,
Por um ano de existência,
Mas, naquele aniversário,
Logo se fez necessário
Partir para a violência.

Foi pra cima do sujeito
Que já estava sangrando,
Depressa tomou-lhe a faca,
E foi logo derrubando,
De repente, o valentão,
Estirado ali no chão,
Mal estava respirando.

Com o da faca dominado,
O da estaca quis correr,
Mas tinha aquela paulada,
Que eu queria devolver.
Acertei o infeliz,
Bem no meio do nariz,
E vi o sangue descer.

Nessa hora apareceu
A polícia militar,
E acabou a confusão
Que já ia terminar.
Levaram os dois malfeitores
Pra cuidar das suas dores
Na assistência popular.

Depois de encerrada a briga
Com aqueles dois marginais,
As pessoas retomaram
Seus afazeres normais.
Ficou só o comentário,
E a festa de aniversário,
Que ia haver, não houve mais.

E nem nos anos seguintes
Houve comemoração,
Celebrando aniversário,
Nem seu, nem do seu irmão.
Só muitos anos depois,
Já rapazes, vocês dois,
Passaram a organizar
Suas comemorações,
E, sem haver valentões,
Para vir atrapalhar.


Marcos Mairton - Contos, Crônicas e Cordéis quarta, 05 de setembro de 2018

NO TRÂNSITO DA VIDA, POEMA DO CEARENSE MARCOS MAIRTON

 

 
 
 
NO TRÂNSITO E NA VIDA

É no trânsito, é na vida:
Quando encontra alguma norma
O brasileiro, em geral,
Com ela não se conforma.
Se a placa está a indicar
PROIBIDO ESTACIONAR,
Dizemos: “Só um minutinho!”.
Outra placa: CONTRA MÃO.
“Mas é meio quarteirão
E eu vou bem pelo cantinho”.

É assim em muitas coisas
Que se vê, no dia-a-dia.
“Mas é pra fugir do imposto!”
“Driblar a burocracia!”
“Se eu não fizer outro faz!”
“Já acertei com o rapaz,
Que tem acesso ao sistema”.
“No Brasil a luta é dura,
Só com jogo de cintura
Que se resolve o problema”.

E, de jeitinho em jeitinho,
Vai vivendo o brasileiro,
Sem ver que o erro de um
Atrasa o país inteiro.
E, ao invés de corrigir
Nossas falhas e seguir
Uma nova direção,
Ficamos estacionados,
Esperando acomodados,
Um salvador da nação!

 


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