Almanaque Raimundo Floriano
Fundado em 24.09.2016
(Cultural, sem fins comerciais, lucrativos ou financeiros)


Raimundo Floriano de Albuquerque e Silva, Editor deste Almanaque, também conhecido como Velho Fulô, Palhaço Seu Mundinho e Mundico Trazendowski, nascido em Balsas , Maranhão, a 3 de julho de 1936, Católico Apostólico Romano, Contador, Oficial da Reserva do Exército Brasileiro, Funcionário Público aposentado da Câmara dos Deputados, Titular da Cadeira nº 10 da Academia Passa Disco da Música Nordestina, cuja patrona é a cantora Elba Ramalho, Mestre e Fundador da Banda da Capital Federal, Pesquisador da MPB, especializado em Velha Guarda, Música Militar, Carnaval e Forró, Cardeal Fundador da Igreja Sertaneja, Pioneiro de Brasília, Xerife nos Mares do Caribe, Cordelista e Glosador, Amigo do Rio das Balsas, Inventor da Descida de Boia, em julho de 1952, Amigo da Fanfarra do 1° RCG, autor dos livros O Acordo PDS/PTB, coletânea de charges, Sinais de Revisão e Regras de Pontuação, normativo, Do Jumento ao Parlamento, com episódios da vida real, De Balsas para o Mundo, centrado na navegação fluvial Balsas/Oceano Atlântico, Pétalas do Rosa, saga da Família Albuquerque e Silva, Memorial Balsense, dedicado à história de sua terra natal, e Caindo na Gandaia, humorístico apimentado, é casado, tem quatro filhos, uma nora, dois genros e dois netos e reside em Brasília, Distrito Federal, desde dezembro de 1960.

José Domingos Brito - Memorial segunda, 02 de setembro de 2019

OS BRASILEIROS: BARÃO DE MAUÁ

 

 

OS BRASILEIROS: Barão de Mauá

Irineu Evangelista de Sousa nasceu em Arroio Grande, RS, em 28/12/1813. Comerciante, armador, industrial, banqueiro e político. Foi o primeiro grande industrial brasileiro, agraciado com os títulos nobiliárquicos de Barão, em 1854, e Visconde em 1874. Aos cinco anos teve o pai assassinado e foi criado pelo tio até os nove, quando foi morar com outro tio, José Batista de Carvalho, comandante de um navio da Marinha Mercante que transportava charque e couros para o Rio de Janeiro. Aí  começou a trabalhar como caixeiro de um armazém na Praça do Comércio.

 

Aos 11 anos foi trabalhar noutro armazém que vendia de tudo, de produtos agrícolas a escravos, a fonte de renda principal do estabelecimento. Tornou-se empregado de confiança e foi promovido a guarda-livros em 1828. Na crise do 1º Reinado, o comerciante faliu e indicou-o para trabalhar numa empresa de importação do escocês Richard Carruthers, em 1830. Com sua esperteza e disposição, conquistou a amizade do escocês, aprendeu inglês, contabilidade e aprendeu a ganhar dinheiro. A empresa não admitia o trabalho escravo e comprava trabalho pagando em dinheiro. Ou seja, fazia o oposto da maioria dos empresários. Em 1836, aos 23 anos, tornou-se gerente e, pouco depois, sócio da empresa. Percebendo seu potencial, Carruthers levou-o para a Maçonaria, onde os ideais de “Liberdade, igualdade e fraternidade” estabeleceram as bases de seu caráter. Pouco depois tornou-se um dos homens mais ricos do País.

Em 1839 o escocês retornou ao Reino Unido e ele assumiu os negócios da empresa. Comprou uma chácara no morro de Santa Tereza, onde foi morar e ajudou seus conterrâneos envolvidos na Revolução Farroupilha a escapar da prisão no Rio de Janeiro. Trouxe sua mãe, Mariana de Jesus Batista de Carvalho, a tia e uma sobrinha, Maria Joaquina de Sousa Machado, com quem se casou em 1841. Tiveram 18 filhos, mas apenas 11 nasceram vivos. Destes 11 filhos, apenas 5 sobreviveram após a morte do pai. A morte prematura dos filhos foi atribuída ao grau de parentesco dos pais. Em 1840 viajou pela Inglaterra em plena Revolução Industrial. Conheceu fábricas, a fundição de ferro e ficou convencido que aquele era o caminho a ser trilhado pelo Brasil. Na volta encontrou o café em alta no comércio internacional e decidiu tornar-se industrial. Em 1845 obteve junto ao governo a concessão do fornecimento de tubos de ferro para a canalização do rio Maracanã e no ano seguinte fechou a Casa Carruthers. Convenceu capitalistas ingleses a investirem na indústria metalúrgica, abriu uma fundição em Ponta da Areia (Niterói) e transformou-a num misto de metalúrgica e estaleiro de construção de navios.

Dois anos após, o empreendimento teve o patrimônio multiplicado por quatro, tornando-se o maior do País. Produzia navios, caldeiras para máquinas a vapor, engenhos de açúcar, guindastes, prensas, postes para iluminação e canos de ferro para água e gás. Deste complexo saíram 72 navios em onze anos, entre os quais as embarcações utilizadas na Guerra do Paraguai e no tráfego do Rio Amazonas. Em 1849 construiu o maior navio mercante – Serpente-, um navio negreiro rápido, que depois de realizar uma viagem à África, foi vendido à Marinha Mercante e rebatizado “Golfinho”. Em 1857 a empresa sofreu um duro golpe: um incêndio destruiu todas as instalações. Em três anos foi reconstruída, mas em seguida sofreu outro golpe e não resistiu. Em 1869, o Governo isentou de tarifas a entrada de navios construídos fora do País, levando a incipiente indústria nacional à falência. Seus outros empreendimentos continuam lucrativos, principalmente com o fim do tráfico de escravos, em 1850, quando os investimentos se deslocaram para a indústria. Na condição de precursor do liberalismo econômico no Brasil, criou diversas empresas impulsionando a navegação no Rio Amazonas, iluminação a gás e transporte urbano por bondes no Rio de Janeiro e a construção da primeira ferrovia brasileira,

No dia da inauguração, em 1854, recebeu do título de barão de Mauá. Pouco antes, em 1852, fundou o Banco Mauá & Cia. associado a Família Rotschild, com filiais em Londres, Paris e Nova Iorque. Em 1857 fundou o Banco Mauá Y Cia. em Montevidéu com uma filial em Buenos Aires. Em 1860, no auge da carreira, controlava 17 empresas no Brasil, Uruguai, Argentina, Inglaterra, França e EUA. No balanço consolidado em 1867, o valor dos ativos foi estimado em 115 mil contos de réis (155 milhões de libras esterlinas), enquanto o orçamento do império brasileiro contava com 97 mil contos de réis. Era o homem mais rico do Brasil. Foi pioneiro em diversos setores da economia, além dos já citados: exploração do transporte no rio Guaíba e afluentes e a instalação do cabo submarino telegráfico entre a América do Sul e a Europa, em 1874.

Tal envolvimento na área empresarial levou-o, inevitavelmente, à política. Com seu posicionamento de caráter liberal e contra a escravatura, fez-se deputado pelo Rio Grande do Sul em diversas legislaturas: 1856, 1859-60, 1861-64, 1864-66 e 1872-75. Exerceu influência política no Uruguai desde 1850 e foi contrário à Guerra do Paraguai. Não obstante pertencer ao Partido Liberal, apoiou seu amigo Visconde do Rio Branco no período 1871-75. Suas ideias e o agravamento da instabilidade política na região platina, tornou-o alvo das intrigas dos conservadores. Suas empresas passaram a sofrer sabotagens e os negócios foram prejudicados pela legislação favorecendo a importação de máquinas e ferragens. Em 1875, com a falência do Banco Mauá, pediu moratória por 3 anos e foi obrigado a vender grande parte das empresas a grupos estrangeiros. Teve, também, que se desfazer de alguns bens pessoais para liquidar as dívidas.

Doente e desiludido com os acontecimentos, foi obrigado a encerrar a carreira empresarial. Com o pouco que restou, passou a dedicar-se a corretagem de café até a morte, em 21/10/1889, pouco dias antes da queda do Império. Boa parte de sua biografia ficou conhecida através da“Exposição do Visconde de Mauá aos credores de Mauá & Cia. e ao público” Trata-se de um documento de 180 páginas, escrito de modo pungente movido pela necessidade de manter a dignidade de seu nome, conforme se vê na apresentação: “Na idade avançada em que me acho, em presença do acontecimento que motiva esta exposição, realizado pelo modo por que foi resolvido, não posso ter outro objeto em vista senão salvar do naufrágio aquilo que para mim vale mais do que quanto ouro tem sido extraído das minas da Califórnia – um nome puro…” (Souza, Irineu Evangelista de. Exposição aos credores e ao público. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 2001).

Dentre suas biografias, cabe destacar: Besouchet, Lídia. Mauá e seu tempo, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978; Caldeira, Jorge. Mauá: empresário do Império, São Paulo: Cia. das Letras, 1995; Faria, Alberto de. Ireneo Evangelista de Souza, Barão e Visconde de Mauá. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1933. O espaço aqui não comporta relacionar todas as homenagens que lhe foram prestadas pós morte com monumentos e seu nome estampado em diversos logradouros, instituições e cidades. Porém, é preciso que se diga: se tivéssemos mais pessoas como ele, realmente interessadas no futuro do País, estaríamos hoje noutro patamar de desenvolvimento, conforme pode se ver no vídeo abaixo, apresentado por Eduardo Bueno, devidamente intitulado: Barão de Mauá: o homem que poderia ter mudado o Brasil.

 

 

 


José Domingos Brito - Memorial segunda, 26 de agosto de 2019

AS BRASILEIRAS: MARIA FIRMINA DOS REIS

 

 

AS BRASILEIRAS: Maria Firmina

Maria Firmina dos Reis nasceu em 11/3/1825, em São Luís, MA. Professora, poeta e escritora, é considerada a primeira romancista brasileira; a primeira mulher a passar num concurso público como professora; a escrever o primeiro diário de mulher, que se tem notícia e, também, a primeira a fundar uma escola mista. Negra e bastarda, filha de mãe branca e pai negro, foi prima do escritor Francisco Sotero dos Reis, por parte da mãe, que incentivou-a a estudar e escrever. Aos cinco anos foi viver na casa de uma tia, mais bem situada economicamente, na Vila de São José dos Guimarães, onde realizou os primeiros estudos e tomou gosto pela literatura.

Em 1847 foi aprovada num concurso à cadeira de Instrução Primária na atual cidade de Guimarães, onde foi professora de primeiras letras até 1881. Ao vencer o concurso, se recusou a desfilar pela cidade de São Luís, montada nas costas de um escravo. Afirmou que “escravos não eram bichos para levar pessoas montadas neles”. Ao se aposentar, em 1880, fundou uma escola gratuita e mista, para meninos e meninas, causando escândalo no povoado. Ao final, a escola teve que ser fechada em menos de três anos.

Tinha uma postura antiescravista bem definida e articulada: era conhecida e respeitada como professora e cronista; publicava artigos no jornal local e publicou seu primeiro livro em 1859, o romance Úrsula. Vale lembrar que nessa época a literatura brasileira dava os primeiros passos na prosa de ficção. Seu livro foi o primeiro a se posicionar contra a escravidão, antecipando a literatura abolicionista de Castro Alves, com Navio Negreiro (1869) e Bernardo Guimarães, com A escrava Isaura (1875). Além de primeiro romance abolicionista da literatura brasileira, é também o primeiro romance da literatura afro-brasileira, entendida esta como produção de autoria de uma afrodescendente, que tematiza o negro a partir de uma perspectiva interna e comprometida com a causa libertária.

No prólogo da obra, demonstra uma aguda consciência de sua condição naquela sociedade patriarcal e escravocrata e sua determinação em publicá-la, afirmando: “Pouco vale este romance, porque escrito por uma mulher, e mulher brasileira, de educação acanhada e sem o trato e conversação dos homens ilustrados… ainda assim o dou a lume”. Seu estilo e verve literária:

“Senhor Deus! Quando calará no peito do homem a tua sublime máxima – ama a teu próximo como a ti mesmo – e deixará de oprimir com repreensível injustiça ao seu semelhante!”

lembra muito bem a poesia de Castro Alves 10 anos depois, com O Navio Negreiro:

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura… se é verdade
Tanto horror perante os céus!?

Poderia se dizer que sua prosa exerceu alguma influência sobre o maior poema condoreiro? Pelo visto, parece que sim. Mas ninguém do métier literário até agora afirmou isto. Um dado que contribui para essa afirmação é que ela foi também poeta, com a publicação da coletânea Cantos à beira-mar, em 1871.

Foi também compositora do Hino à libertação dos escravos e autora da letra e música de outros cantos: Auto de bumba-meu-boi, Hino à mocidade, Valsa (com letra de Gonçalves Dias), Rosinha, Pastor estrela do oriente, Canto de recordação etc. Em 1887, no auge da campanha abolicionista, publicou o conto A Escrava, reafirmando seu caráter de abolicionista. Em outro romance, Gupeva (1870) chegou a abordar a temática indianista: um chefe indígena se apaixona por uma moça vinda da Europa, sem saber que se trata de sua meia-irmã. São histórias bem novelescas, com um pano de fundo que retrata a sociedade de maneira ferrenha imbuída de sentimentos antiescravistas e republicanos.

Foi mãe adotiva de 10 crianças na condição de solteira toda a vida. Morreu pobre e cega em 11/11/1917. Esquecida por décadas, sua obra só foi recuperada em 1962 pelo historiador paraibano Horácio de Almeida em um sebo do Rio de Janeiro. Até hoje seu rosto é desconhecido e o que consta nos registros da Câmara de Vereadores de Guimarães é uma gravura com a face de uma mulher branca, inspirada na imagem de uma escritora gaúcha, com quem ela foi confundida. Seu busto exposto no Museu Histórico do Maranhão também retrata uma mulher “embranquecida” de nariz fino e cabelos lisos. Assim, Pode se dizer que ficamos sem o seu retrato.

Em 1975 foi lançada sua primeira biografia – Maria Firmina: fragmentos de um vida, de José Nascimento Morais Filho, publicada pela Imprensa do Governo do Maranhão. Em 2017, no centenário de seu falecimento, a editora da Pontifícia Universidade Católica-PUC de Minas Gerais lançou a 7ª edição do romance Úrsula. Uma edição revista e ampliada com anexos de documentos históricos e reedição do conto “A escrava”, que tem ajudado a difundir sua obra. No entanto, pouco se sabe sobre outros possíveis textos, sobre os detalhes de sua vida ou sobre como uma mulher negra de origem pobre alcançou tanto sucesso em pleno regime escravocrata. É de se estranhar que até mesmo o “Movimento Negro”, tão atuante hoje em dia, dê pouca importância à esta ilustre personalidade da história brasileira.

 


José Domingos Brito - Memorial quinta, 22 de agosto de 2019

AS BRASILEIRAS: LUCIA MIGUEL PEREIRA

 

 

MEMORIAL DAS BRASILEIRAS: Lucia Miguel Pereira

Lucia Miguel Pereira nasceu em Barbacena, MG, em 12/12/1901. Escritora, tradutora e destacada crítica literária, integrante de uma família de escritores. “Carioca de Minas”, pois nasceu por acaso em Barbacena, numa das fugas de sua mãe, Maria Clara Tolentino Pereira, do calor do Rio de Janeiro. Ela estava grávida e não houve tempo para retornar ao Rio. Filha do conhecido médico Miguel da Silva Pereira, esposa do escritor Otávio Tarquínio de Souza, prima de Antônio Cândido e tia do poeta Bruno Tolentino. Durante as décadas de 1920 e 1930 constituiu-se numa referência do ensaísmo feminino e uma das principais biógrafas de Machado de Assis.

Escreveu muitos artigos e ensaios em revistas e jornais da época, e pediu à família que, em caso de morte, todos seus escritos inéditos só poderiam ser publicados com a autorização do marido. Na falta deste, deveriam ser incinerados. Como os dois faleceram num desastre aéreo, em 22/12/1959, a família atendeu seu pedido. Seus textos publicados foram reunidos na década de 1990 em dois volumes: A Leitora e seus personagens (1992) e Escritos da maturidade (1995) resgatando suas colaborações, entre 1931 e 1959. Um terceiro volume póstumo foi publicado em 2015: O século de Camus – Artigos para jornal, 1947-1955. São textos de crítica literária, que revelam uma aguda erudição e capacidade de percepção da arte e da vida.

Seu pendor ensaístico e biográfico foi despertado no Colégio Sion, onde, junto com as colegas criaram a revista “Elo” e passou a escrever artigos transmitindo suas impressões de leitura. Publicou o ensaio “Isabel, a redentora”, sobre a escravidão e outro sobre Euclides da Cunha: “Um bandeirante”, em 1927. Porém, foi no “Boletim de Ariel”, famosa revista literária dirigida por Gastão Cruls e Agripino Grieco, que saíram os primeiros artigos de crítica literária e permaneceu até 1937. Antes disso, publicou seus dois primeiros romances em 1933: “Maria Luísa” e “Em surdina”, editados por Augusto Frederico Schmidt e José Olympio, antigos amigos de seu pai. Em 1934, foi inaugurada a Livraria José Olympio no centro do Rio de Janeiro, que ela passou a frequentar e fazer amigas, como Adalgisa Nery, Dinah Silveira de Queiroz e Rachel de Queiroz, escritora já consagrada com o romance “O Quinze”.

Em 1936 despontou no circuito literário com sua obra-prima: “Machado de Assis (estudo crítico e biográfico)”, publicada pela Companhia Editora Nacional. O livro foi um sucesso de público e crítica, agraciado com o Prêmio da Sociedade Felippe d’Oliveira. Provocou uma revirada na interpretação psicológica do autor e renovou o interesse pela obra de Machado. Até hoje seu trabalho é considerado um clássico da fortuna crítica do autor, contando com oito edições e integrando grandes coleções de estudos brasileiros. A carreira de crítica literária foi consolidada na “Revista do Brasil”, no período 1938-1943, e prosseguiu nos jornais “Correio da Manhã” e “O Estado de São Paulo”, onde pontificou no Suplemento Literário com excelentes textos e análises literárias. Foi na Livraria do seu amigo José Olympio que conheceu Octávio Tarquínio de Souza, quarentão desquitado, historiador e Ministro do TCU-Tribunal de Contas da União. Octávio ficou encantado com a morena atraente e intelectual sofisticada; conversa vai e vem, veio o namoro seguido de casamento em 1939. Foram morar no alto do bairro do jardim Botânico, onde ficaram até 1948.

Mudaram-se para a cobertura no recém-inaugurado e moderno conjunto do Parque Guinle, projetado por Lúcio Costa. Como o casal gostava de receber amigos, as reuniões que se davam na casa do Jardim Botânico foram intensificadas na cobertura, tonando-se ponto de encontro da então intelectualidade do Rio de Janeiro. Entre os frequentadores assíduos encontravam-se desde o pensador católico Alceu Amoroso Lima até o comunista Astrojildo Pereira, que chegou a se utilizar do apartamento como refúgio, diversas vezes, para não ser preso. Em 1945 foi convidada pelos portugueses para organizar “O Livro do Centenário de Eça de Queiroz”, publicado em Lisboa pela editora Dois Mundos. Em 1950 mergulhou na história e escreveu“História da Literatura Brasileira: Prosa de Ficção, de 1870 a 1920”, que veio integrar, como volume XII, a “História da Literatura Brasileira”, dirigida por Álvaro Lins.

Em seguida lançou mais uma biografia, “A Vida de Gonçalves Dias”. em 1952, dando um novo significado sobre o autor e o indianismo na literatura brasileira. Para ela, o gênero biografia tinha uma importância fundamental no momento em que o País carecia de boas referências para a construção de uma identidade nacional. Só assim, segundo ela o gênero seria “capaz de fazer com que os brasileiros se interessem pelas figuras de sua terra”. Sua competência como biógrafa foi ressaltada pela professora Maria Helena Werneck, no excelente ensaio “Lúcia Miguel Pereira e a tradição da biografia no Brasil”, publicado na Revista Semear, nº 9, 2003, da PUC/RJ.

Outro aspecto de sua personalidade é o pioneirismo ao enforcar o “Feminismo”, quando o termo ainda não estava em voga. Tratou do assunto no ensaio “A valorização da mulher na sociologia histórica de Gilberto Freyre”, inserido no livro “Gilberto Freyre: sua ciência, sua filosofia, sua arte”, publicado pela José Olympio Editora, em 1962. Quanto ao papel da mulher na literatura, ela achava que as escritoras tinham visão diferente da realidade que refletia em sua escrita. Não se trata de ser uma literatura melhor ou pior e sim de um olhar renovado, revelador e diferenciado trazido pelas escritoras. Tinha um grande senso de responsabilidade com a escrita: ”Penso que o intelectial tem obrigação de escrever limpa e conrretametne. Há uma grande distância, porém, entre bom estilo e o estilo enfeitado”. Inovou também na literatura infantil, publicando belos livros: A fada menina (1939), A floresta mágica (1943), Maria e seus bonecos (1943) e A filha do rio verde (1943), acrescentando conteúdo ao trabalho de Monteiro Lobato e colaborando com o empenho de Cecília Meireles na função de cristalizar uma literatura para crianças. .

O casal não teve filhos, mas na prática foram os pais de Antonio Gabriel de Paula Fonseca, neto do primeiro casamento de Octávio. Lúcia foi mais que avó postiça, cuidando do menino como verdadeira e devotada mãe. O rapaz soube retribuir tais cuidados cultivando sua memória. Em sua Fazenda Monte Alegre, no município de Paty do Alferes, ele criou um parque de esculturas que batizou com o nome de Lucia Miguel Pereira. A grande biógrafa também teve sua biografia publicada em 2017 pela Outubro Edições, de Brasília. “Lúcia: uma biografia de Lucia Miguel Pereira”, escrita por Fabio de Souza Coutinho, seu parente e “a pessoa ideal para levar a efeito essa grande navegação biográfica”, conforme o poeta Anderson Braga Horta escreveu no prefácio. A biblioteca do casal encontra-se hoje, e pode ser consultada pelo público, no acervo da Procuradoria Geral do Estado do Rio de Janeiro.

Numa época em que a mulher adquire empoderamento, como se diz hoje, seu nome anda esquecido no limbo da história brasileira. Foi uma mulher que não se prendeu as limitações impostas no seu tempo. Uma pequena lembrança ainda resta no nome da Escola Municipal Lucia Miguel Pereira, localizado no bairro de São Conrado, no Rio de Janeiro. Os interessados em conhecê-la melhor, numa conversa descontraída, podem acessar sua entrevista concedida a Homero Senna e publicada em 1944. Clique aqui para  ler.


José Domingos Brito - Memorial segunda, 19 de agosto de 2019

OS BRASILEIROS: ASSIS CHATEAUBRIAND

 

 

OS BRASILERIOS: Assis Chateaubriand

Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo nasceu em Umbuzeiro, PB, em 4/10/1892. Jornalista, advogado, empresário e político. O nome Chateaubriand é prenome e não sobrenome familiar. Seu avô paterno, apreciador do escritor François Chateaubriand, registrou os filhos com este prenome Teve uma infância difícil, com problemas psicológicos, devido a uma gagueira e uma grande timidez. A família mudou-se para Belém do Pará e deixou-o aos cuidados do avô materno. Na convivência com os avós, melhorou bastante e voltou a viver com seus pais, em 1901, quando se estabeleceram no Recife. Foi alfabetizado em casa, aos 10 anos, pelo tio, utilizando antigos exemplares do “Diário de Pernambuco”. O destino de jornalista e magnata da imprensa estava sendo traçado.

Em 1903, foi estudar em Campina Grande, PB, indo morar com o tio e padrinho Chateaubriand Bandeira de Melo. Em 1904, retornou ao Recife e prestou exame de admissão na Escola Naval. O curso secundário foi realizado no tradicional Ginásio Pernambucano. Por esta época passou a estudar alemão com os frades do convento de São Francisco e tornou-se um leitor compulsivo. Com o destino de jornalista traçado, seu primeiro emprego foi na “Gazeta do Norte”, recortando anúncios classificados. Em 1908, ingressou na Faculdade de Direito do Recife e, durante o curso, foi trabalhar como aprendiz de repórter no jornal “A Pátria”. Trabalhou também no “Jornal do Recife”, no “Diário de Pernambuco” e no “Jornal Pequeno”. Aos 21 anos, ao formar-se em Direito, já era editor e redator-chefe do “Diário de Pernambuco”, cujo proprietário era o conselheiro Rosa e Silva, influente político da época. Em 1915 foi para o Rio de Janeiro e fez amizades com pessoas influentes. Colaborou nos jornais “A Época”, “Jornal do Commercio”, “Correio da Manhã” e na edição vespertina d’ “O Estado de São Paulo”. Seu sonho era “adquirir um jornal, como primeiro elo de uma cadeia”. Para conseguir o dinheiro, instalou uma banca de advocacia e com seu bom relacionamento com pessoas importantes, conseguiu vários clientes e associados.

Chegou a trabalhar no Ministério das Relações Exteriores, como consultor para leis de guerra, no governo Nilo Peçanha, mas deixou o cargo para ser redator-chefe do “Jornal do Brasil”.A carreira de jornalista foi se consolidando até 1919, quando foi convidado pelo “Correio da Manhã” para ser correspondente internacional na Europa. De volta ao Brasil, adquiriu o “O Jornal” em setembro de 1924, dando início à cadeia nacional de jornal e rádio dos “Diários Associados”, que iria revolucionar o jornalismo brasileiro. Casou-se com Maria Henriqueta Barroso do Amaral, filha do juiz Zózimo Barroso do Amaral e teve três filhos: Fernando, Gilberto e Teresa. Em 1934 desquitou-se e uniu-se a jovem Corita, com quem teve uma filha. Logo depois, a jovem decidiu deixá-lo e levou a filha. Ele ficou enfurecido e sequestrou a própria filha. O caso foi parar na polícia e deixou-o acuado. Foi quando proferiu uma de suas frases célebres: “Se a lei é contra mim, vamos ter que mudar a lei”. Assim, conseguiu de Getúlio Vargas a promulgação de um decreto que lhe deu direito à guarda da filha.

Em seguida, adquiriu o “Diário de Pernambuco”, ampliando o império jornalístico, Chatô, como alguns o chamavam, foi se tornando poderoso e temido pelos poderosos. A partir deste poderio, o “Cidadão Kane tropical”, teve enorme influência na política brasileira, sobretudo por ter apoiado a Revolução de 30, que levou Getúlio Vargas ao poder. Desenvolveu com Getúlio uma proximidade contraditória, de apoios e reveses, e agiu empresarialmente com uma ética própria, ameaçando ou gratificando inimigos e aliados, inclusive lançando campanhas contra ou a favor deles em seus jornais. Farto de ver seu nome na lista de insultos, o industrial Francisco Matarazzo ameaçou “resolver a questão à moda napolitana: pé no peito e navalha na garganta”. Chatô devolveu: “Responderei à moda paraibana, usando a peixeira para cortar mais embaixo”. Sua ligação com Vargas durou pouco; na Revolução Constitucionalista de 1932, tomou partido por São Paulo e teve que ser exilado por algum tempo. Reabilitado, promoveu a Campanha Nacional da Aviação, com o lema “Deem asas ao Brasil”, na qual foi criada a maioria dos atuais aeroclubes pelo interior do País.l

Além dos “Diários Associados” chegou a possuir 10 fazendas agropecuárias e laboratórios farmacêuticos. Seus empreendimentos abrangiam 34 jornais, 36 emissoras de rádio, 18 emissoras de TV, uma agência de notícias, uma revista semanal (O Cruzeiro), uma mensal (A Cigarra), várias revistas infantis e a editora O Cruzeiro. Comandava o império das comunicações com mão de ferro. Conta-se que seu funcionário, o escritor Joel Silveira, escreveu um editorial que ele não gostou e chamou-o ao seu gabinete. “Como é que o sr. escreve um negócio desse?” indagou. “Bem, é essa a minha opinião. O sr. não gostou?”. “Não, sr. Joel. Não gostei e vou lhe dizer uma coisa: se quiser ter opinião, o senhor adquira um jornal. Quem tem opinião aqui sou eu”. Ficou conhecido, também, como o cocriador e fundador, em 1947, do Museu de Arte de São Paulo (MASP), junto com Pietro Maria Bardi. Negociou belos quadros no mundo todo e depois pedia aos grandes empresários para pagarem. Dizia que eles estavam doando ao futuro museu. Se não quisessem pagar, poderiam sofrer uma campanha difamatória através de seus jornais e revistas. Essa é uma história que se conta a seu respeito. Outra mais real é que ele pedia aos empresários para pagarem os quadros e fazia contratos de publicidade no valor estipulado do quadro e as empresas passavam a ter anúncios nos jornais, rádios e TV com base naquele valor “doado”. Foram tantos quadros e negócios feitos nesta base que isto se constituiu num dos fatores que levaram seu conglomerado à falência. Os valores eram tão altos que a coleção de quadros foi colocada, na gestão do presidente Juscelino Kubitschek, sob a custódia de uma fundação, em troca de auxílio governamental ao pagamento de parte da astronômica dívida do Condomínio Diários Associados.

Seu maior feito na área das comunicações, foi trazer a televisão para o Brasil ao criar a TV Tupi em 1950. Na época o aparelho de TV era quase inexistente no Brasil e a criação da emissora representou uma revolução nas comunicações. No campo pessoal, serviu para alçar novos patamares, lançando-se na política. Em 1952, foi eleito senador pela Paraíba e, em 1955, pelo Maranhão, em duas eleições escandalosamente fraudulentas. Seu posicionamento político era controverso como tudo em sua vida. Embora fosse um representante típico da burguesia nacional emergente da época, tinha uma postura pró-capital estrangeiro e pró-imperialismo, primeiro o britânico, depois o norte-americano. Admirava tanto a Inglaterra que renunciou ao mandato de senador para se tornar embaixador naquele país. Era temido pelas campanhas jornalísticas que promovia, como a defesa do capital estrangeiro e contra a criação da Petrobrás. Na área literária não escreveu nada. Porém, publicou cerca de 12 mil artigos assinados em seus jornais. Não havia um dia sequer que não saisse um texto seu na imprensa. Na literatura e na pintura abriu seus jornais para nomes ainda desconhecidos, que depois se tornaram famosos: Graça Aranha, Millôr Fernandes, Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Cândido Portinari entre outros. Tal influência neste métier levou-o à Academia Brasileira de Letras, em dezembro de 1954.

Suas duas últimas criações foram o jornal “Correio Braziliense” e a TV Brasília, fundadas em 21/4/1960, no mesmo dia da fundação de Brasília. Meses depois, sofreu um derrame cerebral ficando paralítico. Mesmo assim, viajou muito dentro e fora do País, mantendo-se informado de tudo e dirigindo suas empresas e jornais. Comunicava-se apenas por balbucios e uma máquina de escrever adaptada. Suas últimas ações foram dirigidas a criação de um museu de arte em sua terra. Em agosto de 1967 entregou ao reitor da Fundação Universidade Regional do Nordeste (hoje Universidade Estadual da Paraíba- UEPB), o primeiro acervo do Museu Regional de Campina Grande, com 120 peças. Em seguida, o museu passou a ser chamado de “Museu de Arte Assis Chateaubriand”. Faleceu em 6/4/1968 e foi velado ao lado de duas pinturas dos grandes mestres: um cardeal de Ticiano e um nu de Renoir, simbolizando, segundo Pietro Maria Bardi, as três coisas que mais amou na vida: O poder, a arte e a mulher pelada. Junto com ele morria também seu império, que se esfacelava diante do surgimento do reinado de Roberto Marinho, com a rede Globo. Seu cortejo fúnebre reuniu mais de 60 mil pessoas pelas ruas de São Paulo, onde foi sepultado no Cemitério do Araçá.

Deixou os Diários Associados para um grupo de 22 funcionários, atualmente liderados por Álvaro Teixeira da Costa. O grupo Diários Associados é a terceira maior empresa de comunicações do país e mantém a Fundação Assis Chateaubrind, desde 1989, para atuar sem fins lucrativos na área de responsabilidade social. A memória de Chatô ficou registrada na biografia escrita por Fernando Moraes – Chatô, o Rei do Brasil – publicada em 1994, na qual são narrados os modos pouco ortodoxos que ele utilizou para construir seu império jornalístico. Foi retratado, também, no cinema. Marcos Manhães Marins escreveu, e dirigiu o filme Chateaubriand: Cabeça de Paraíba, em 2000, tendo sido selecionado para quinze festivais e mostras no Brasil e no exterior. Antes disso, o ator Guilherme Fontes decidiu adaptar a biografia escrita por Fernando Morais para o filme homônimo. O filme levou 20 anos para ser realizado, devido a interrupções decorrentes com problemas com a falta de verbas para sua conclusão, mas lançado em 2015.

 


José Domingos Brito - Memorial quinta, 15 de agosto de 2019

OS BRASILEIROS: SANTOS DUMONT

 

MEMORIAL DOS BRASILEIROS: Santos Dumont

 

Alberto Santos Dumont nasceu em 20/7/1873, em Palmira, MG, que atualmente leva seu nome. Foi aeronauta, alpinista, balonista e “Pai da Aviação”. Ainda hoje permanece a polêmica se foi ele ou os Irmãos Wrigth os inventores do avião. Com apenas um ano de idade, sua brincadeira era furar balõezinhos de borracha para ver o que tinham dentro. Oriundo de uma rica família de cafeicultores, seu pai – Henrique Dumont – era engenheiro formado em Paris e a mãe – Francisca de Paula Santos – teve oito filhos. Alberto era o sexto.

Em 1879 a família mudou-se para Ribeirão Preto (SP) e adquiriu uma fazenda de 1.200 alqueires, criou a empresa “Dumont Coffe Company” e passou a plantar, beneficiar e exportar café. Em pouco tempo tornou-se o maior estabelecimento agrícola do País. Na fazenda tinha ampla liberdade para criar engenhocas de todo tipo na oficina do pai. “Vivi ali uma vida livre, indispensável para formar o temperamento e o gosto pela aventura”. Aos sete anos guiava carroças; aos doze brincava nas locomotivas e ensaiava invenções. Ao tomar contato com as obras de Julio Verne, ficou entusiasmado. “Com o Capitão Nemo explorei as profundidade do oceano; com Fileas Fogg fiz em 80 dias a volta ao mundo…”. Era fascinado pela tecnologia: construía pequenos aeroplanos movidos por uma hélice acionada por molas de borracha torcida; nas festas juninas fazia pequenos balões e soltava sobre as fogueiras para ver sua subida aos céus.

Em 1891 viajou pela Europa com os pais e três anos depois retornou sozinho. Aperfeiçoou o inglês em Londres e na França escalou o Monte Branco, de 5.000 metros. Passou a se interessar pela mecânica, particularmente o motor de combustão interna, que estava surgindo. Viu que na França inventaram os balões a hidrogênio e que era ali onde a navegação aérea haveria de prosperar. Em 1897 mudou-se para Paris e dedica-se inteiramente à aeronáutica. Projetou, construiu e voou nos primeiros balões dirigíveis movidos à gasolina. Com isto ganhou o Prêmio Deutsche em 1901. Seu dirigível nº 6 contornou a Torre Eiffel e ele ficou famoso no mundo. Recebeu cumprimentos de altas personalidades e reportagens em diversas revistas. O presidente Campos Salles deu-lhe um prêmio em dinheiro e uma medalha com uma efígie e uma alusão a Camões: “Por céus nunca dantes navegados”; o príncipe de Mônaco fez um convite e ofereceu um hangar para suas experiências; foi convidado para viajar aos EUA, onde foi recebido pelo presidente Theodore Roosevelt. Em 1904 relatou suas experiências no livro “Dans l’air”, lançado no Brasil com o título “Os meus balões”, em 1938.

Em 23/10/1906 foi, de novo, o primeiro a decolar a bordo de um avião com motor à gasolina. Voou 60 metros a uma altura de dois a três metros com o “14 Bis” no Campo de Bagatelle, em Paris. 20 dias depois voou 220 metros a uma altura de seis metros com o “Oiseau de Proie III”, batendo o próprio recorde. Foram os primeiros voos homologados pelo Aeroclube da França. Foi a primeira demonstração pública de um veículo levantando voo sem uma rampa de lançamento. “O homem conquistou o ar!”, gritavam as pessoas em terra firme. Pela façanha, ele recebeu o prêmio de três mil francos da FAI-Federation Aeronautique Internationale. Nesta ocasião, os irmãos Wright mantinham em segredo sua invenção, apesar dos convites para que fossem demonstrá-la. Um dos motivos da recusa foi que seu avião usava uma catapulta que impulsionava o aparelho para o voo, o que estava fora dos parâmetros dos europeus.

Assim inicia a polêmica sobre quem inventou o avião. O fato é que a exigência da FIA era que o aparelho fosse mais pesado que o ar; que pudesse ser controlado por um piloto e que decolasse e pousasse sem a ajuda de nenhum outro equipamento. Os irmãos Wright alegaram que conseguiram esse feito em 1903. Eles pilotaram o “Flyer” por quase 37 metros e disseram que estavam alcançando distâncias maiores. O problema é que eles não deixavam ninguém ver esses voos, por medo de que copiassem a ideia. Tal demonstração só foi realizada em público em 1908, voando mais de 100 Km. na França. Foi nesse instante que eles mostraram a foto do primeiro voo em 1903. Porém, surge outro problema: os modelos dos irmãos Wright não atendiam a um dos critérios da FIA, que era decolar e pousar por conta própria. Eles utilizaram equipamentos como trilhos e catapultas, enquanto “14 Bis” não fez uso destes equipamentos, utilizando apenas um sistema de duas rodas. Para finalizar a polêmica, a FIA deu o crédito do invento aos irmãos Wright com o voo ocorrido em 1903 no Flyer. Mas a polêmica se mantém até hoje devido ao fato de o “14 Bis” ter uma decolagem autopropulsionada, reconhecida pelo público e jornalistas, e homologada pela FAI.

A tecnologia aeronáutica evoluiu e em 25/7/1909 Louis Blériot atravessou o Canal da Mancha num voo. Santos Dumont parabenizou-o numa carta: “Esta transformação da geografia é uma vitória da navegação aérea sobre a navegação marítima. Um dia, talvez, graças a você, o avião atravessará o Atlântico”. Recebeu como resposta: “Eu não fiz mais do que segui-lo e imitá-lo. Seu nome para os aviadores é uma bandeira. Você é o nosso líder.”. A partir daí passou a sofrer de esclerose múltipla, encerrou a carreira de inventor e afastou-se do convívio social. Outro de seus inventos foi o relógio de pulso, um recurso essencial para controlar o tempo de marcha sem desviar as mãos do comando. Outro dado, ainda menos lembrado, é sua importância na criação do Parque Nacional do Iguaçu e suas cataratas. Entre 24 e 27/4/1916 esteve lá a convite de Frederico Engel, Ao visitar o local ficou encantado com a paisagem e a queda d’água. Não se conformou com o fato daquele local ser uma propriedade privada: “Posso dizer-lhe que esta maravilha não pode continuar a pertencer a um particular”, disse ao anfitrião e na volta, “quando passei por Curityba, fui falar com o presidente do Estado [Afonso Camargo] sómente sobre o lguassú: pedir-lhe que se interesse pelo salto, o torne mais fácil e commoda a excursão… ” relatou mais tarde. Providências foram tomadas e, em 19/1/1939, um decreto do Governo Vargas criou o Parque Nacional do Iguaçu.

Em 1918 escreveu uma autobiografia e lançou o livro “O que eu vi, o que nós veremos”,relatando suas experiências e as perspectivas da tecnologia aeronáutica. Deixou registrado no livro suas cartas dirigidas ao Presidente sobre o atraso da indústria aeronáutica militar no Brasil. Porém, mais arrependeu-se dessa sugestão e apelou, em 1926, à Liga das Nações (futura ONU) para que se impedisse o uso de aviões como armas de guerra. Em 1928, de volta ao Brasil no navio Capitão Arcona, foi recebido festivamente. Um hidroavião que participava da solenidade sofreu um acidente ao sobrevoar o navio. Não restou sobreviventes entre os ilustres tripulantes. Abatido, ele suspendeu as festividades e retornou a Paris. Por essa época já apresentava um quadro de depressão profunda, que não foi atenuada nem com a condecoração que recebeu do Aeroclube de Paris como Grande Oficial da Legião de Honra da França, em 1930. No ano seguinte foi internado em casas de saúde no sul da França. Enquanto isso, a Academia Brasileira de Letras preparava-se para incorporá-lo ao seu quadro, como imortal em junho de 1931, mas não chegou a tomar posse da cadeira nº 38. De volta ao Brasil, passou alguns dias em Araxá, outros no Rio de Janeiro e instalou-se no Grand Hotel La Plage, em Guarujá, em maio de 1932. Dois meses depois estourou a Revolução Constitucionalista. Conta a história que os aviões de combate sobrevoaram o litoral paulista. Tal visão agravou seu estado depressivo, levando-o ao suicídio em 23/7/1932.

O espaço aqui não comporta todas as homenagens que recebeu, mas vale ressaltar que sete dias após o falecimento, a cidade de Palmira, onde nasceu, teve seu nome mudado para Santos Dumont. Em 1936 foi decretado o dia 23 de outubro (seu primeiro voo) como o “Dia do Aviador”. No mesmo ano o aeroporto do Rio de Janeiro foi batizado com seu nome. Em 1956 o correio do Brasil e Uruguai lançaram uma série de selos comemorativos e sua casa em Cabangu (MG) foi transformada em “Museu Casa de Santos Dumont”. Em 1959 foi condecorado como Marechal-do-Ar pelo Ministério da Aeronáutica. Em 1976 a União Astronômica Internacional deu seu nome a uma cratera lunar (27,7°N 4,8°E). A partir de 1984 passou a ser o “Patrono da Aeronáutica Brasileira”. Para finalizar esta concisa biografia e, talvez, a polêmica sobre quem inventou o avião, se foram os irmãos Wright ou Santos Dumont, o presidente dos EUA, Bill Clinton, esteve no Brasil em 13/10/1997, e discursou referindo-se a ele como o “Pai da Aviação”.

 


José Domingos Brito - Memorial segunda, 12 de agosto de 2019

AS BRASILEIRAS: PATRÍCIA GALVÃO (PAGU)

 

 

AS BRASILEIRAS: Patrícia Galvão (Pagu)

Patrícia Rehder Galvão nasceu em São João da Boa Vista, SP, em 9/6/1910. Escritora, poeta, dramaturga, jornalista, tradutora, cartunista e musa dos “modernistas”, quando ingressou no “Movimento Antropofágico”, em 1928. Filha de Thiers Galvão de França, jornalista e advogado, e Adélia Rehder Galvão, mudou-se para São Paulo, aos 3 anos. Aos 15 passou a colaborar no “Brás Jornal”, assinando “Patsy” em seus artigos. Foi diplomada professora pela Escola Normal Caetano de Campos, em 1928, enquanto estudava literatura e arte dramática no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, dirigido por Mario de Andrade.

Aos 19 anos teve um de seus desenhos publicado na “Revista de Antropofagia” e conheceu seus editores, o casal Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral. O comportamento extrovertido encantou os intelectuais modernistas e ganhou o apelido “Pagu”, a partir do poema –Coco de Pagu- de Raul Bopp. Apesar da pouca idade, era uma mulher avançada para os padrões da época, dada a algumas “extravagâncias”, como fumar na rua, usar blusas transparentes, cabelos curtos e falar palavrões. O poema alavancou sua carreira artística, pois foi publicado em vários jornais, foi interpretado por ela mesma no Teatro Municipal, em 1929, e virou letra de uma toada gravada por Laura Suarez em 1930. Oswald de Andrade ficou entusiasmado com a moça e em pouco tempo estavam namorando, mesmo casado com Tarsila. Em seguida, ele rico, boêmio e famoso, causou um escândalo na sociedade conservadora de então. Em 1930 separou-se de Tarsila e casou com a bela jovem. Para melhorar (ou piorar) o escândalo, o casamento se deu no Cemitério da Consolação, diante do jazigo da família Andrade.

No mesmo ano nasceu o filho Rudá e pouco depois viajou para Buenos Aires, onde participou de um festival de poesia. Antes disso, o casal já era filado ao PCB-Partido Comunista Brasileiro e ela aproveitou a viagem para um contato com Luiz Carlos Prestes, que se encontrava exilado, mas só conseguiu o intento pouco depois em Montevidéu. Aproveitou, também, para contatar o pessoal da revista “Sur”: Jorge Luís Borges e Victoria Ocampo. Voltou ao Brasil entusiasmada com o ideal comunista e o casal funda o tablóide “O Homem do Povo”, em 1931, que dura apenas 8 números. Sua coluna -“A Mulher do Povo”- fazia duras críticas à burguesia paulistana. Nesta época tornou-se também cartunista e passou a ilustrar a “Revista de Antropofagia”. Em agosto de 1931, ao participar de uma greve de estivadores em Santos, foi presa inaugurando uma série de 23 prisões ao longo da vida. Solta 15 dias após, passou a dedicar-se a escrita de um romance – Parque industrial -, publicado em 1933, sob o pseudônimo de Mara Lobo. Trata-se de um dos 10 pseudônimos que usava em seus textos É considerado o primeiro romance proletário do Brasil, traduzido mais tarde e publicado nos EUA e na França.

Como jornalista escrevia sobre tudo, publicando em diversos jornais; opinava sobre política, classe operária, a sociedade, homossexualidade feminina e até histórias policiais para a revista “Detetive”, dirigida por Nelson Rodrigues. Foi correspondente de vários jornais de São Paulo e Rio de Janeiro, quando viajou pela Europa, EUA. Japão, União Soviética e países da Ásia, enviando reportagens. Na França, contatou André Breton e outros surrealistas; entrevistou Sigmund Freud e assistiu à coroação de Pu-Yi, o último imperador chinês, através do qual conseguiu sementes de soja, que foram enviadas ao Brasil. Quem poderia imaginar que tal façanha viria a ser incluída em seu curriculum: introdutora da soja no Brasil, tornando-o o segundo maior produtor do mundo. Em 1935 foi presa em Paris como comunista estrangeira portando uma identidade falsa e foi repatriada. De volta a São Paulo e após um período de brigas e ciúmes, separou-se de Oswald e retomou sua atividade jornalística e militante política. Com a “Intentona Comunista”, em fins de 1935, foi presa e passou 5 anos na cadeia, enquanto o filho Rudá era criado pelo pai. Sofreu torturas na prisão e ficou bastante debilitada, com 44 quilos e sequelas físicas e emocionais.

Ao sair da prisão, em 1940, rompeu com o PCB e passou a defender um socialismo de linha trotskista. A partir daí não quis mais ser chamada de Pagu, padecia de forte depressão e teve sua primeira tentativa de suicídio. Foi recompondo a vida com a ajuda do amigo Geraldo Ferraz, critico de arte com quem se casou em seguida. Desse casamento, nasceu o segundo filho –Geraldo Galvão Ferraz– em 1941 e passou a morar com os dois filhos e o novo marido. Foi uma feminista antes do tempo e se declarava uma “mulher de ferro, com zonas erógenas e aparelho digestivo”. Em 1945 começou a trabalhar na agência de notícias France-Presse, onde ficou por 10 anos, e passa a integrar a redação da revista “A Vanguarda Socialista”, junto com Mário Pedrosa e a nata da intelectualidade de esquerda anti-stalinista. No mesmo ano lançou novo romance: A famosa revista, escrito em parceria com o marido, denunciando as mazelas do PCB. Incentivada pelos amigos, tentou ingressar para valer na política. Nas eleições de 1950, tentou sem sucesso uma vaga como deputada estadual pelo Partido Socialista. Por esta época decidiu se dedicar mais ao teatro e passou a frequentar a Escola de Arte Dramática de São Paulo. Em 1954, o casal foi convidado para trabalhar no jornal “A Tribuna”, em Santos, onde passam a residir. Aí iniciou um movimento em prol do teatro amador, do qual participava o jovem Plínio Marcos. Montou peças e iniciou uma campanha para a construção do Teatro Municipal.

Sua preferência dirigia-se aos autores de vanguarda: Ionesco, Arrabal, Alfred Jarry, Nabokov, Becket, Ibsn, Octavio Paz etc e traduziu as peças A Cantora Careca e Fando e Liz, dos dois primeiros autores. Escrevia, também, sobre música de vanguarda nacional e estrangeira e chegou a registrar notas sobre televisão em seus primórdios. Além da profícua atividade cultural, não abandonou a participação política. Assumiu a coordenação do Teatro Universitário de Santos (1956), a presidência da União dos Teatros Amadores (1961) e fundou a Associação de Jornalistas Profissionais de Santos, incorporada ao Sindicato dos Jornalistas mais tarde. Em seguida foi acometida de um câncer. Foi se tratar em Paris, mas sem resultados positivos. Desiludida e desesperada, tentou de novo o suicídio. Sobre o episódio, escreveu: “Uma bala ficou para trás, entre gazes e lembranças estraçalhadas”. Pouco depois, ainda jovem, foi vitimada pela doença aos 52 anos, em 12/12/1962.

Passou uns 20 anos esquecida e a partir da década de 1980 foi adquirindo uma “tardia e crescente” popularidade com a ajuda dos filhos no resgate de seu legado. Surgiram diversas biografias, iniciando com Pagu: vida e obra, de Augusto de Campos (1982); Patrícia Galvão: livre na imaginação no espaço e no tempo, de Lucia Maria Furlani (1988); Pagu: literatura e revolução, de Thelma Guedes (2003); Pagu, de Lia Zatz (2005); Dos escombros de Pagu; um recorte biográfico de Patrícia Galvão, de Tereza Freire (2008). O resgate não ficou apenas nas biografias. Em 1988, sua vida foi contada no filme “Eternamente Pagu”, dirigido por Norma Benguell. Em 2001 Rudá de Andrade realizou o documentário “Pagu: livre na imaginação, no espaço e no tempo”. Na TV, foi personagem na minissérie “Um Só Coração” (2004), interpretada por Miriam Freeland. Em 2005, houve em São Paulo uma grande comemoração pelos 95 anos de seu nascimento, que incluiu lançamento de livros, exposição de fotos, desenhos e textos da homenageada, apresentação de um espetáculo teatral sobre sua vida e lançamento do site Pagu.

No dia exato de seu nascimento, os convidados compareceram com trajes de época a uma “Festa Pagu”, realizada no Museu da Imagem e do Som. No mesmo ano foi lançada sua autobiografia (texto inédito escrito em 1940): Paixão Pagu: A autobiografia precoce de Patricia Galvão. Em 2006, foi tema do samba enredo da Escola de Samba X-9, de Santos. Em 2010, ano do centenário de seu nascimento, foi encenado o espetáculo “Dos escombros de Pagu”, baseado no livro homônimo de Tereza Freire. A comemoração do centenário foi encerrada com a publicação do livro “Fotobiografia Viva Pagu”, de autoria de Lúcia Maria T. Furlani e seu filho Geraldo Galvão Ferraz. A Unicamp criou um centro de pesquisa sobre gênero que leva seu nome e edita os “Cadernos Pagu”. Em Santos, a Casa de Cultura também leva seu nome. Em São Paulo é mantido o Instituto Patrícia Galvão, que mantém serviços dirigidos à defesa dos direitos da mulher e uma agência de notícias. Lucia Maria T. Furlani, autora de livros e tese sobre Pagu costuma dizer que “Ela sempre foi vista como muito louca, e é essa Pagu que precisa ser desmistificada”.

 

 

 


José Domingos Brito - Memorial quinta, 08 de agosto de 2019

AS BRASILEIRAS: NISE DA SILVEIRA

 

AS BRASILEIRAS: Nise da Silveira

 

Nise Magalhães da Silveira nasceu em Maceió, AL, em 15/2/1905. Médica psiquiatra e revolucionária dos métodos de tratamento de doenças mentais. Filha do professor de matemática Faustino Magalhães da Silveira e da pianista Maria Lídia da Silveira. Realizou os primeiros estudos no tradicional Colégio Santíssimo Sacramento e ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia aos 21 anos, a única mulher entre os 157 homens de sua turma. Foi uma das primeiras mulheres médicas do Brasil.

Na faculdade, já no 1º ano, conheceu um rapaz, com quem se casou e fizeram um acordo de não ter filhos, para poderem se dedicar exclusivamente a medicina. Ele, o sanitarista Mário Magalhães da Silveira, paralela a carreira de médico, publicava artigos, ressaltando as relações entre pobreza, desigualdade, promoção da saúde e prevenção da doença no Brasil. Após a formatura, o casal mudou-se para o Rio de Janeiro em busca de melhores oportunidades de trabalho. Em 1933, no fim da especialização em psiquiatria, estagiou na clínica do Prof. Antonio Austregésilo, pioneiro no estudo da neurologia no Brasil. Em seguida foi aprovada num concurso público e foi trabalhar no Serviço de Assistência a Psicopatas e Profilaxia do Hospital da Praia Vermelha. Durante essa época, manteve contatos com a elite intelectual carioca e ingressou no PCB-Partido Comunista Brasileiro, onde encontrou a amiga Rachel de Queiroz, junto com quem assinou o “Manifesto dos trabalhadores intelectuais ao povo brasileiro”.

A militância no Partidão durou pouco e acabou sendo expulsa, sob a acusação de ser “trotskista”. Durante a “Intentona Comunista” (1935), foi delatada por uma enfermeira pela posse de livros marxistas e ficou presa por 18 meses no presídio Frei Caneca. Ali dividiu cela com Olga Benário e se encontrava preso o escritor Graciliano Ramos, que deixou relatado o encontro no seu livro Memórias do cárcere: “Noutro lugar o encontro me daria prazer. O que senti foi surpresa, lamentei ver a minha conterrânea fora do mundo, longe da profissão, do hospital, dos seus queridos loucos. Sabia-a culta e boa, Rachel de Queiroz me afirmara a grandeza moral daquela pessoinha tímida, sempre a esquivar-se, a reduzir-se, como a escusar-se de tomar espaço. Nunca me havia aparecido criatura mais simpática. O marido, também médico, era o meu velho conhecido Mário Magalhães. Pedi notícias dele: estava em liberdade. E calei-me, em vivo constrangimento”.

Ao sair da prisão, ficou na semiclandestinidade e afastada do serviço por razões políticas até 1944. Aproveitou esse período para conhecer o filósofo Spinoza, que lhe rendeu mais tarde a publicação do livro “Cartas a Spinoza” (1995). Retomou seu trabalho no Centro Psiquiátrico Nacional Dom Pedro II sempre discordando das técnicas agressivas aplicadas aos pacientes. Tais discordâncias levaram a sua transferência para o trabalho de “terapia ocupacional”, menosprezado pelos médicos. Desse modo, ela fundou uma seção dedicada a esta atividade. No lugar das tarefas de limpeza e manutenção que os pacientes exerciam sob o título de terapia ocupacional, ela criou ateliês de pintura e modelagem com a intenção de possibilitar aos doentes reatar seus vínculos com a realidade através da expressão simbólica e da criatividade, revolucionando a psiquiatria então praticada no país.

Esta experiência possibilitou um vôo maior: em 1952, fundou o Museu de Imagens do Inconsciente, um centro de estudo e pesquisa destinado à preservação dos trabalhos produzidos nos estúdios de modelagem e pintura que criou na instituição, valorizando-os como documentos que abriam novas possibilidades para uma compreensão mais profunda do universo interior do esquizofrênico. Entre outros artistas-pacientes, encontramos Adelina Gomes, Carlos Pertuis, Emydio de Barros e Octávio Inácio entre outros. Entre 1983 e 1985 o cineasta Leon Hirszman realizou o filme “Imagens do Inconsciente”, mostrando obras realizadas pelos internos a partir de um roteiro criado por ela. O sucesso dessa iniciativa levou-a a criação de outro projeto revolucionário: fundou a “Casa das Palmeiras”, uma clínica voltada à reabilitação de antigos internos de instituições psiquiátricas. Este projeto constituiu-se no alicerce do movimento contra os hospícios, que chegaria ao seu ápice com a Lei Antimanicomial, de 2001.

Foi pioneira também no emprego de animais em auxílio aos pacientes, prática hoje empregada em todos os tipos de doenças. Percebeu essa possibilidade de tratamento ao observar a melhoria de um paciente a quem delegara os cuidados de uma cadela abandonada no hospital, tendo a responsabilidade de tratar deste animal como um ponto de referência afetiva estável em sua vida. Chamava os animais de “co-terapeutas”. Seu interesse pela simbologia expressa nas “mandalas” desenhadas pelos pacientes, levou-a a entrar em contato com o psiquiatra Carl Gustav Jung, em 1954, iniciando uma proveitosa troca de correspondência. Assim, foi introduzida a psicologia junguiana no Brasil. Do mesmo modo, foi introduzida a psiquiatria de Nise da Silveira na Europa, estimulada por Jung. Em 1957 ela apresentou uma mostra das obras de seus pacientes – “A Arte e a Esquizofrenia” – no II Congresso Internacional de Psiquiatria, em Zurique. Em seguida, passou a estudar no “Instituto Carl Gustav Jung” em dois períodos: 1957-58 e 1961-62, sob a supervisão de Marie-Louise von Franz, assistente de Jung.

De volta ao Brasil, montou em sua casa o “Grupo de Estudos Carl Gustav Jung”. Em 1974 se aposentou e fundou a Sociedade de Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente, para garantir a permanência da instituição, ainda não integrada na estrutura do Ministério da Saúde. Carlos Drummond de Andrade deu uma força nesse sentido e publicou a crônica – A Doutoura Nise – no Jornal do Brasil, em 2/1/1975: “Não é comum ver-se um funcionário que se aposenta suscitar iniciativa desta ordem para preservar-lhe as realizações no serviço público. Deve ser mesmo caso único. Para se justificarem como entidade, os amigos do Museu, que são os amigos de Nise, precisam ficar atentos e ativos, não deixando que tal instituição seja roída pela indiferença burocrática”. Ferreira Gullar foi outro admirador e, na condição de crítico de arte, ficou emocionado quando conheceu o “Museu”. Adorava seu caráter rebelde e publicou seu perfil – Nise da Silveira: uma psiquiatra rebelde -, em 1996. Foi amiga também de Mario Pedrosa, outro crítico de arte e dizia: “Tive excelentes aliados na literatura e na imprensa. No entanto, poucos médicos foram meus aliados”. Ledora voraz de Machado de Assis, gostava de lembrar sua frase no conto O Alienista: “De médico e louco todo mundo tem um pouco”, para emendar outra de sua lavra: “Não se curem além da conta. Gente curada demais é gente chata. Todo mundo tem um pouco de loucura. Felizmente, eu nunca convivi com pessoas muito ajuizadas.”

Seu trabalho inspirou a criação de instituições similares em outros estados e no exterior: Museu Bispo do Rosário (RJ), Centro de Estudos Nise da Silveira (Juiz de Fora, MG), Espaço Nise da Silveira, do Núcleo de Atenção Psicossocial (Recife, PE), Núcleo de Atividades Expressivas Nise da Silveira, do Hospital Psiquiátrico São Pedro (Porto Alegre, RS), Associação de Convivência Estudo e Pesquisa Nise da Silveira (Salvador, BA), Centro de Estudos Imagens do Inconsciente, da Universidade do Porto (Portugal), Association Nise da Silveira – Images de l’Inconscient (Paris), Museattivo Claudio Costa (Genova, Itália). Societé Internationale de Psychopathologie de l’Expression (Paris). O psicólogo Gonzaga Leal conta que ela gostaria de passar seus últimos dias num mosteiro. “Ela dizia sempre que queria morrer como um gato, que se recolhe e morre sozinho.”. De fato, seu último livro foi “Gatos: a emoção de lidar”, publicado em 1998. Pouco depois veio a falecer em 30/10/1999. Foi homenageada em vida por diversas entidades: “Oficial da Ordem do Rio Branco”, pelo Ministério das Relações Exteriores (1987); “Prêmio Personalidade do Ano de 1992″, da Associação Brasileira de Críticos de Arte; “Ordem Nacional do Mérito Educativo”, pelo Ministério da Educação e do Desporto (1993) entre outras. Em 2014, Luiz Carlos Mello, curador do Museu do Museu de Imagens do Inconsciente, publicou uma alentada biografia Nise da Silveira: caminhos de uma psiquiatra rebelde.

 


José Domingos Brito - Memorial segunda, 05 de agosto de 2019

OS BRASILEIROS: ANTÔNIO CONSELHEIRO

 

 

OS BRASILEIROS: Antônio Conselheiro

Antônio Vicente Mendes Maciel nasceu em Quixeramobim, CE, em 13/3/1830. Líder messiânico, conhecido como “Antônio Conselheiro”. Autodenominado “o peregrino”, atraiu para o arraial de Canudos milhares de sertanejos, escravos recém libertos e índios sem aldeia. Atraiu, também, a ira dos latifundiários carentes de mão-de-obra barata; da Igreja Católica carentes de fiéis e do Exército Brasileiro, que o acusava de monarquista, que após quatro expedições militares, exterminou toda a população do arraial num combate desigual com mais de 20 mil mortos, a chamada “Guerra de Canudos”, em 1896. Segundo alguns historiadores, ali foi cometido um genocídio.

 

Estava destinado a seguir a carreira sacerdotal. Porém, com morte da mãe, em 1834, o sonho de se tornar padre foi preterido. Aos 25 anos, com o falecimento do pai, assumiu o pequeno comércio de secos & molhados mantido pela família. Em 1857 casou-se com uma prima e muda-se para Sobral, onde passou dar aulas no curso primário. Exerceu, também, a função de “Rábula” (advogado prático). Vagueou por alguns povoados buscando melhores condições de vida e passou a residir na Vila de Ipu. Em 1861 flagrou a esposa numa traição conjugal. Abatido e envergonhado, saiu pelo mundo e encontrou abrigo nos sertões do Cariri, uma região seca, mas fértil de penitentes e flagelados em busca de alguma esperança. Aí inicia a vida de “peregrino”, conselheiro dos pobres, construtor de casebres, capelas e cemitérios. Além do carisma, conhecia as leis e a religião, e acolhia bem os necessitados. A primeira notícia de sua aparição pública se deu em 1874, no jornal “O Rabudo”, de Sergipe. A notícia ridicularizava sua figura: “Esse misterioso personagem, trajando uma enorme camisa azul que lhe serve de hábito a forma de sacerdote, pessimamente suja, cabelos mui espessos” e desfazia seu caráter religioso: “Chegado (diz ele) do Ceará, infesta um aventureiro santarrão que se apelida por Antônio dos Mares. O que, a vista dos aparentes e mentirosos milagres que dizem ter ele feito…”. A notícia ampliou sua fama e chegou até a Bahia.

O ano de 1877 foi marcado como uma das maiores secas na história do Nordeste. Era grande o número de flagelados perambulando pelas estradas É nesta situação de desespero que sua figura de “santo” e “milagreiro” se agiganta, pois acolhia a todos, sabia conversar, dar-lhes conselhos e a promessa de um mundo melhor, mais justo e, sobretudo, cristão. Em pouco tempo, passou a ser chamado de “Bom Jesus” e “Antônio Conselheiro”, um profeta enviado por Deus. Em 1888, com o fim da escravidão, ex-escravos sem meios de subsistência e os índios com suas aldeias desfeitas, passam a vagar pelos sertões, onde vão encontrar aconchego com o “enviado” de Deus. Assim, a figura do “Conselheiro” e seu movimento vão tomando vulto. Em 1893, em Massaté, BA, seus seguidores entraram em conflito com a polícia local, pois se recusavam a pagar impostos à recém-criada República. Neste ano, decidiu se fixar nas margens do Rio Vaza-Barris, no vilarejo de Canudos. Ali os desabrigados constituíram uma comunidade, onde tinham a propriedade comum da terra, tida como um “lugar sagrado”. Em pouco tempo o local foi tomado por mais de 20 mil habitantes. Não foram apenas pequenos jornais, como “O Rabudo”, que denegriam sua imagem. A imprensa em geral dos primeiros anos da República, segundo Walnice Nogueira Galvão, em sua tese de livre-docência e publicada no livro No calor da hora: a Guerra de Canudos nos jornais, todos os jornais adotaram a versão do militares e as reportagens desconheciam a humanidade do “inimigo”. Desse modo e querendo ou não, justificavam o genocídio ocorrido em seguida.

O Arraial de Canudos passou a preocupar o poder da recente Republica e o clero que perdia fiéis. Em 24/11/1896, o Exercito enviou uma expedição militar para acabar com o “movimento”. A tropa foi surpreendida num combate corpo a corpo, onde foram mortos mais de 150 conselheiristas. O Exército achou que tinha vencido a guerra, mas venceram apenas uma batalha. Em 29/12/1896 uma segunda expedição militar foi debelada pelos fiéis. A terceira expedição, comandada pelo capitão Antônio Moreira Cesar, foi reforçada, mas o capitão foi abatido logo no início da batalha e sua tropa fugiu em disparada, deixando armamentos e munição à disposição dos beatos. O fato reforçou a convicção da santidade e do poder do seu líder. Em 5/4/1897 inicia a quarta e última expedição. Desta vez, munidos de canhões, cercaram o povoado e foram implacáveis. Até mesmo muitos dos que se renderam foram mortos. Eliminar Canudos e abater o “Conselheiro”, tornou-se uma questão de honra para o Exército. Em outubro de 1897 foram mortos os últimos defensores do povoado. No dia seguinte encontraram seu cadáver enterrado no Santuário de Canudos.

Convenhamos que o Conselheiro era um “louco” bem diferenciado, conforme pode se ver nos seus manuscritos encontrados em Canudos “Apontamentos dos Preceitos da Divina Lei de Nosso Senhor Jesus Cristo, para a Salvação dos Homens”, uma coletânea de reflexões e relatos diversos sobre como proceder na vida. Só mais tarde este documento foi transcrito e divulgado, possibilitando novas interpretações sobre o fato. Em 1986 a Fundação Casa de Rui Barbosa publicou “Canudos: subsídios para sua reavaliação histórica”, de José Augusto Vaz Sampaio Neto, citando os “Apontamentos” e reivindicando a necessidade de uma revisão na história da Guerra de Canudos. Tal revisão foi ampliada pelo prof. Pedro Lima Vasconcellos no livro “Antonio Conselheiro por ele mesmo”, publicado pela É Realizações em 2017. São dois volumes, onde o primeiro traz os “Apontamentos” na íntegra e o segundo – Arqueologia de um monumento: os apontamentos de Antonio Conselheiro – apresenta um estudo sobre o conteúdo das reflexões mostradas no primeiro volume.

Euclides da Cunha não teve acesso a este documento e escreveu uma série de reportagens n’O Estado de São Paulo assumindo o ponto-de-vista republicano, de combate ao Conselheiro. Só mais tarde, quando foi enviado à Canudos, no final do combate, é que se inteirou da situação e, conforme o historiador Jorge Caldeira, ‘convenceu-se de que tinha defendido uma posição errada”. A partir daí, ele “obriga-se a escrever um livro no qual a versão dos derrotados pudesse ser mostrada”. Cinco anos depois foi publicado “Os Sertões”, um clássico da Literatura Brasileira e pioneiro do que chamamos hoje “Jornalismo Literário”. O livro tornou-se um best-seller imediatamente e até hoje sua história tem atraído o interesse publico, dos literatos e cineastas. Atraiu, por exemplo, Mario Vargas Llosa, Prêmio Nobel de Literatura, a visitar o local, consultar arquivos históricos e escrever “A guerra do fim do mundo”, em 1981, dando uma nova dimensão à figura de Antônio Conselheiro.

Vale lembrar que uma das primeiras revisões históricas do conflito não se deu com os estudiosos da história. Em 1976 a Escola de Samba “Em cima da hora” desfilou com o enredo “Os Sertões”, contando a história do massacre e lembrando a frase de Euclides da Cunha: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”. Hoje existem dois centros culturais referentes ao ocorrido em Canudos. Um em Quixeramobim, na casa em que o beato nasceu e outro em Canudos, o Memorial Antônio Conselheiro, criado em 2002, mantido em parceria com a UNEB-Universidade do Estado da Bahia, com a finalidade de preservar e difundir a memória da Guerra de Canudos. Segundo o historiador José Murilo de Carvalho, até hoje o Exército Brasileiro não gosta de lembrar aquele fatídico episódio

Canudos foi destruída pela segunda vez na década de 1960, com a construção a represa de Cocorobó. Na época historiadores e intelectuais reagiram revoltados, alegando que um episódio triste e polêmico da nossa história estava sendo encoberto, apagado para sempre. Mais tarde, em 2013, uma grande seca esvaziou a represa e revelou o que sobrou daquela cidade. Muito se pesquisou, escreveu e foi publicado sobre Canudos. Desde o “Libello republicano acompanhado de comentários sobre a Campanha de Canudos”, publicado em 1899 por Cezar Zama sob o pseudônimo Wosley e republicado em 1989 pelo Centro de Estudos Baianos, da UFBA, que se constitui numa denúncia explícita a carnificina ocorrida em Canudos; passando por “Canudos: cartas para o Barão”, da historiadora Consuelo Novas Sampaio, publicado em 1999; o livro “O clarim e a oração: 100 anos de Os Sertões”, de Rinaldo de Fernandes, lançado em 2002; até o excelente estudo realizado em “A guerra total de Canudos”, de Frederico Pernambucano de Mello, em 2007.

O cinema também tem se empenhado em mostrar o conflito em documentários e filmes, como “Guerra de Canudos”, realizado por Sergio Resende em 1997. Neste exato momento, o cineasta português Miguel Gomes prepara uma adaptação de “Os Sertões”, que se chamará “Selvajaria”, para lançamento em 2020. Como se vê o episódio continua aguçando o interesse na busca de uma compreensão e um entendimento do que Canudos representa para a História do Brasil. Ariano Suassuna tinha razão quando disse que “quem não conhece Canudos não conhece o Brasil”.

 

 


José Domingos Brito - Memorial quinta, 01 de agosto de 2019

AS BRASILEIRAS: CLARICE LISPECTOR

 

AS BRASILEIRAS: Clarice Lispector

Clarice Lispector nasceu em Chechelnyk, Ucrânia, em 10/12/1920. Escritora e jornalista, veio para o Brasil com pouco mais de um ano e se dizia pernambucana. “Na Ucrânia nunca botei os pés, só andei no colo” . Aos sete anos já era uma leitora habitual; aos oito foi ao Teatro pela primeira vez e ficou encantada com a encenação. Escreveu uma peça – Pobre menina rica – que, infelizmente, se perdeu. Aos 10 anos passou a escrever contos e se animou em enviá-los ao suplemento infantil do “Diário de Pernambuco”. Não foram publicados porque não pareciam contos infantis; não continham fadas ou piratas; referiam-se mais a sensações.
 
 

No curso primário tomou gosto pela matemática e chegou a dar aulas aos filhos dos vizinhos com dificuldades na matéria. Em 1932 entrou no Ginásio Pernambucano e no ano seguinte “tomei posse da vontade de escrever”. Nesta época, um dos livros que lhe causou impacto foi O lobo da estepe, de Hermann Hesse. Tentou escrever um conto enorme, que devido ao tamanho, não chegou a ser concluído. Também lia muito, misturando tudo e escolhendo os livros pelos títulos. Lia livros de mocinhas e Dostoiévski ao mesmo tempo. Aos 8 anos sua mãe faleceu e aos 14 seu pai mudou-se com as 3 filhas para o Rio de Janeiro. Foram morar no bairro da Tijuca, onde concluiu o ginásio no Colégio Silvio Leite. Em 1937 entrou numa escola preparatória para a Faculdade de Direito e voltou a dar aulas particulares de matemática para ajudar no orçamento familiar. Em 1939 ingressou no curso de Direito ao mesmo tempo em que trabalhava num escritório de advocacia. Mas o interesse pelo Direito foi minguando enquanto aumentava o gosto pela Literatura.

Nessa época a família passou por novos perrengues com o Estado Novo, de Getúlio Vargas, o avanço da II Guerra Mundial e o antissemitismo imperando no Brasil. Clandestinamente, seu pai arrecadava fundos para os judeus na Palestina. Em maio de 1940 publicou seu primeiro conto – Triunfo – na revista “Pan”. Em agosto seu pai faleceu e ela foi morar com a família da irmã no Catete. Insatisfeita com o trabalho de escritório, passou a circular pelas redações de revistas oferecendo seus contos. Na revista “Vamos Ler!” encontrou o jornalista Raimundo Magalhães Jr., secretário do ministro da propaganda Lourival Fontes. Mostrou-lhe o texto e ele perguntou: “de quem você copiou isto?” Ao saber que ela havia escrito, decidiu publicar. Com este contato, teve acesso ao ministro e conseguiu um emprego de tradutora e repórter na Agência Nacional.

Aí conheceu Lucio Cardoso, por quem ficou enamorada, mas não foi correspondida, pois o rapaz era homossexual. Porém, a amizade progrediu e passou a integrar o círculo de jornalistas e intelectuais. Como repórter viajou pelo País e deixou textos publicados em diversas revistas e jornais. Em 1941 intensificou a publicação de matérias e contos, revelando uma tendência, onde os conflitos familiares e amorosos são realçados. O primeiro livro – Perto do coração selvagem– surgiu em 1942. O título foi sugerido por Lucio Cardoso e o crítico Álvaro Lins classificou-o como “o primeiro romance brasileiro dentro do espírito e da técnica de James Joyce e Virginia Woolf”. O livro causou certo furor no circuito literário; foi eleito o romance do ano pela Fundação Graça Aranha e suscitou comparações com Joyce, Sartre e Proust, causando estranheza na autora, que afirmou não ter lido nenhum destes autores.

Em 1943 obteve a naturalização e casou-se com o futuro diplomata Maury Gurgel Valente. No final do ano os dois formam-se em Direito, mas não foram colar grau. No ano seguinte o casal mudou-se para Belém, devido ao serviço do marido como vice-cônsul. Em julho de 1944, logo após a II Guerra Mundial, o casal foi transferido para Nápoles, onde passou a fazer trabalho comunitário junto às enfermeiras de um hospital norte-americano, auxiliando no tratamento dos feridos em guerra. Em fins de 1945 recebeu carta de Manuel Bandeira criticando sua poesia, fazendo com que ela queimasse todos seus poemas. Mais tarde Bandeira se desculpou e lamentou: “Até hoje tenho remorso do que disse a respeito dos versos que você me mostrou. Você interpretou mal as minhas palavras […] Faça versos, Clarice, e se lembre de mim”. Em 1946, foi publicado “O Lustre” e ela passou três meses no Rio de Janeiro para rever amigos e fazer outros. Conheceu Paulo Mendes Campos, com quem manteve um romance mais tarde, ao separar-se do marido.

De volta à Europa, o casal foi morar na Suíça, para onde o marido foi transferido. Enfrentando novas dificuldades de adaptação, passou a frequentar cinemas quase diariamente e a ler novos autores, como Ibsen, Theodore Dreiser, Jean Cocteau e Simone de Beauvoir. Nesse meio tempo, continua enviando contos para o jornal carioca “A manhã”. Em 1947 os dissabores com a vida diplomática e constantes mudanças levaram-na ao psicoterapeuta Uysses Girsoler. Mas o tratamento não prosseguiu devido a paixão que ele passou a sentir por ela. Em 1948 veio o primeiro filho, Pedro, e em 1953, o segundo Paulo. Ao entrar na adolescência, Pedro foi diagnosticado como esquizofrênico e abalou a estrutura familiar. Cansada da vida de eterna viajante, do ciúme do marido e querendo cuidar melhor do filho, separou-se em 1959 e voltou a morar no Rio de Janeiro com os dois filhos.

Retomou a carreira de escritora profissional com uma coluna “Correio feminino – Feira de Utilidades”, no “Correio da Manhã” sob o pseudônimo de Helen Palmer. No ano seguinte, assumiu a coluna “Só para mulheres”, do Diário da Noite, como ghost-writer da atriz Ilka Soares. Em 1966, foi dormir com um cigarro aceso e provocou um incêndio no quarto. Ficou mal durante três dias, quase teve a mão direita amputada e ficou hospitalizada por dois meses. Em 1975 participou do 1º Congresso de Bruxaria, em Cali, Colômbia, fez palestra sobre o conto “O ovo e a galinha” e foi bem recebida pelo público. Ao voltar ganhou fama como a grande bruxa da literatura brasileira. Otto Lara Resende falou: “não se trata de literatura, mas de bruxaria”. Seja o que for, o fato é que em seguida lançou mais um sucesso de crítica e público: A hora da estrela (1977), romance que veio a ser filmado.

Em fevereiro de 1977 deu uma entrevista na TV Cultura onde se apresentou de modo circunspecto, melancólica e muito séria. A conversa enveredou sobre o tema da morte e o entrevistador, sentindo o clima tenso, perguntou: “mas você não se renova a cada trabalho novo?” . A resposta exprimiu certo desencanto com vida: ““Bom, agora eu morri… Mas vamos ver se eu renasço de novo. Por enquanto eu estou morta… Estou falando do meu túmulo”. A entrevista pode ser vista clicando aqui. Em 9/12/1977 faleceu de verdade. Mas eis que surge o milagre: poucos anos depois, ela renasce como uma das escritoras mais importantes da literatura brasileira. Surgiram diversas biografias aqui e no exterior, obras póstumas, relançamentos, análises de suas obras, além de inúmeras dissertações e teses acadêmicas sobre sua obra. A Editora Rocco mantém até hoje um blog contendo toda sua obra e uma minuciosa cronologia biográfica: Editora Rocco


José Domingos Brito - Memorial segunda, 29 de julho de 2019

AS BRASILEIRAS: CAROLINA DE JESUS

 

 

AS BRASILEIRAS: Carolina de Jesus

Carolina Maria de Jesus nasceu em Sacramento, MG, em 14/3/1914. Escritora, compositora e poeta. Ficou conhecida por seu livro “Quarto de despejo: diário de uma favelada”, publicado em 1960, com a ajuda do jornalista Audálio Dantas. Filha ilegítima de um homem casado, vivia numa comunidade rural, onde a esposa de um rico fazendeiro decidiu bancar os estudos de algumas crianças negras. Ela passou a frequentar a escola, mas interrompeu o curso no 2º ano primário, quando aprendeu a ler e escrever.

 

Em 1937, com o falecimento da mãe, mudou-se para São Paulo e passou a trabalhar em diversos empregos subalternos. Seu estilo de mulher independente cativava algumas pessoas ao mesmo tempo que afastava outras. Trabalhou como faxineira, vendedora, auxiliar de enfermagem e até mesmo como artista de circo. Em meados de 1946 foi trabalhar como doméstica na casa de um médico – Dr. Euryclides Zerbini – que viria a ficar famoso com o primeiro transplante de coração realizado na América Latina. Nesta casa recebeu, além de bons tratos, permissão para ler os livros da biblioteca nas horas vagas. Em 1947 ficou grávida com um marinheiro português e perdeu o emprego. Sem condições de encontrar outro, foi obrigada a se instalar numa favela no bairro do Canindé, que se iniciava próximo ao centro da cidade.

Aí construiu seu próprio barraco, utilizando-se de madeira, lata, papelão que encontrava na rua. Catar papelão foi o serviço que encontrou para se manter. Em 1948 teve seu primeiro filho, João José. Depois vieram José Carlos e Vera Eunice, nascidos em 1949 e 1953, todos de pais diferentes. Por essa época encontrou alguns cadernos e passou a registrar poesias, músicas e um diário sobre o cotidiano da favela. Costumava bradar para os vizinhos que estava escrevendo sobre suas vidas naquele caderno, o que a colocava, de certo modo, numa posição superior e provocava intrigas. Assim, ela era discriminada também na favela. Passando por ali, numa reportagem que fazia para a revista “O Cruzeiro”, Audálio Dantas se interessou em ver os cadernos e percebeu no diário um texto contundente, que poderia ser publicado como livro.

Inicialmente publicou alguns trechos na própria revista e em seguida conseguiu a edição do livro pela Editora Francisco Alves, em 1960. A tiragem inicial de 10 mil exemplares esgotou em uma semana. A obra foi reeditada diversas vezes, vendeu mais de um milhão de exemplares, foi traduzida em 13 línguas e publicada em 40 países. Nos EUA ganhou uma edição de bolso da “New American Lybrary” e outra da “Penguin”, que vendeu mais de 300 mil exemplares. Conta-se que, pelo contrato original, a autora deveria ter recebido 150 mil dólares, mas não há indício algum que ela tenha recebido essa fortuna. Mas o que recebeu deu para comprar uma casa em Santana, bairro encostado ao Canindé.

Após o estrondoso sucesso editorial, publicou mais três livros, que tiveram pouca repercussão na mídia: Casa de Alvenaria (1961), Pedaços da Fome (1963) e Provérbios (1963). Em 1969 adquiriu uma propriedade em Parelheiros, onde passou a morar com os filhos, cultivar uma horta e viver como se estivesse no interior, mais próximo de suas origens. Aí veio a falecer em 13/2/1977. Sua filha tornou-se professora e contou numa entrevista que sua mãe gostaria de ter sido cantora e atriz. Deixou uma caixa contendo 58 cadernos, os quais foram organizados pela pesquisadora Raffaella Fernandez, chegando a compilar umas cinco mil páginas de textos, nos quais encontram-se 7 romances, 60 textos curtos e 100 poemas, além de 4 peças de teatro e 12 letras para marchas de carnaval. Até meados de 2018 foram publicados postumamente as obras: Diário de Bitita (1986), Meu estranho Diário (1996), Antologia Pessoal (1996), Onde estás felicidade (2014) e Meu sonho é escrever (2018).

Dos livros escritos sobre a autora, destacam-se Cinderela negra: a saga de Carolina Maria de Jesus (1994), de José Carlos Meihy e Robert Levine; Muito Bem, Carolina!: biografia de Carolina Maria de Jesus (2007), de Eliana Moura de Castro e Marília Novais de Mata Machado; Carolina Maria de Jesus: uma escritora improvável (2009), de Joel Rufino dos Santos; A Vida Escrita de Carolina Maria de Jesus (2014), de Elzira Divina Perpétua; Carolina (2016), álbum de história em quadrinhos com a biografia da autora, com texto de Silene Barbosa e desenhos de João Pinheiro; Carolina: uma biografia (2018) de Tom Farias.

Em 2014, como resultado do Projeto Vida por Escrito – Organização, classificação e preparação do inventário do arquivo de Carolina Maria de Jesus, contemplado com o Prêmio Funarte de Arte Negra, foi lançado o Portal Biobibliográfico de Carolina Maria de Jesus e, em 2015, foi lançado o livro Vida por Escrito – Guia do Acervo de Carolina Maria de Jesus, organizado por Sergio Barcellos. O projeto mapeou todo o material da escritora, que passou a ser custodiado por diversas instituições: Biblioteca Nacional, Instituto Moreira Salles, Museu Afro Brasil, Arquivo Público Municipal de Sacramento e Acervo de Escritores Mineiros. No métier acadêmico houve algumas polêmicas questionando sobre o caráter literário de sua obra. O crítico Ivan Cavalcanti Proença, por exemplo, chegou a afirmar que sua escrita não é literatura. Porém, a literatura se apresenta já no título do livro que lhe garantiu a fama e foi extraído do seu texto: “Eu denomino que a favela é o quarto de despejo de uma cidade. Nós, os pobres, somos os trastes velhos”.

Outras partes extraídas do mesmo livro: “Eu escrevia peças e apresentava aos diretores de circos. Eles respondiam-me: É pena você ser preta. Esquecendo eles que eu adoro minha pele negra, e o meu cabelo rustico […] Se é que existe reencarnação, eu quero voltar sempre preta. […] O branco é que diz que é superior. Mas que superioridade apresenta o branco? […] A natureza não seleciona ninguém”. Para contrapor essa discussão sobre o caráter literário da obra, Fernanda de Moura Cavalcante realizou o trabalho de conclusão de curso “A Literariedade da obra de Carolina de Jesus: um reconhecimento necessário”, apresentado no curso de História na PUC/SP, em 2017. No mesmo ano, a historiadora Elena Pajaro Peres ministrou cursos no Departamento de História da USP e na Universidade Federal do ABC sobre “Carolina de Jesus e sua literatura em movimento”.

 


José Domingos Brito - Memorial quinta, 25 de julho de 2019

OS BRASILEIROS: JOAQUIM NABUCO

 

OS BRASILEIROS: Joaquim Nabuco

 

Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo nasceu no Recife, em 19/8/1849. Advogado, político, orador, memorialista e diplomata reconhecido como um dos maiores homens públicos do Brasil. Liderou a campanha Abolicionista, tendo nascido e criado no meio da aristocracia escravista. Viveu até os oito anos, com a madrinha no engenho Massangana. Em seguida mudou-se com os pais para o Rio de Janeiro, onde estudou no Colégio Pedro II. Em 1865, foi morar em São Paulo, onde fez os três primeiros anos do curso de Direito e concluiu no Recife, em 1870. Foi colega de Castro Alves, que lhe incutiu as bases de seu caráter literário e abolicionista. Aos 20 anos, ainda estudante, assumiu o caso de um escravo acusado de assassinato, defendendo-o perante o tribunal do júri de Recife.

Em 1873, durante uma viagem à Europa, manteve um relacionamento amoroso com a investidora financeira e filantropa Eufrásia Teixeira Leite, detentora de uma das maiores fortunas do mundo na época. Ela herdou, em 1872, uma fortuna equivalente a 5% do valor das exportações brasileiras. O romance durou até 1887 e dois anos depois, aos 38 anos, casou-se com Evelina Torres Soares Ribeiro. Foi adido de primeira classe na Embaixada de Londres e depois em Washington, de 1876 a 1879. Como era filho do Senador José Tomás Nabuco de Araújo e de Ana Benigna Barreto Nabuco de Araújo, estava destinado a ter uma atividade política. Porém se opunha aos interesses dos poderosos senhores de engenho, e isto dificultou sua entrada na vida política. Começou escrevendo artigos abolicionistas para diversas revistas.

Em 1878, com a volta ao poder do Partido Liberal, onde seu pai era influente, foi eleito deputado geral e lutou pela eleição direta, pela participação dos não católicos no Parlamento e, principalmente, pela abolição total da escravidão sem indenizações aos donos de escravos. Criou a Sociedade Anti-Escravidão Brasileira, escrevendo um manifesto; fundou o jornal “O Abolicionista”: e viajou pelo exterior para divulgar a causa e obter apoio. Teve o apoio imediato da Inglaterra, uma das nações que mais combatia a escravidão, que se constituía num empecilho à sua expansão industrial e comercial em todo o mundo. Porém, mesmo assim, não conseguiu demover o conservadorismo na política nacional e foi derrotado nas eleições seguintes. Foi morar em Londres, onde viveu entre 1882-1884, e escreveu O abolicionismo, livro em que aproveitou para expor suas ideias sobre a reforma agrária. Seu plano era perfeito: beneficiar os negros libertos com terras para viver e trabalhar. Se fosse implantado, hoje o Brasil estaria noutro patamar de desenvolvimento.

De volta ao Brasil foi novamente deputado, e continuou com sua campanha abolicionista escrevendo diversos livretos antiescravagistas. Noutra viagem à Londres, apresentou uma proposta na Associação de Direito Internacional e, em Roma, fez uma visita ao Papa Leão XIII, que chegou a lhe prometer uma encíclica em favor da abolição. Apesar das ideias progressistas, mantinha o ideal monarquista com receio da perda da unificação territorial, como ocorreu com a América espanhola desmembrada em 18 repúblicas. No entanto, o ideal republicano crescia a cada dia. Para defender a monarquia, apresentou, em 1885, um projeto de monarquia federativa, defendendo a descentralização do poder para dar mais autonomia às províncias. Tal estratégia visava atender os anseios republicanos sem abrir mão da monarquia. Ele não via contradição política neste posicionamento, pois admirava o sistema presidencialista dos EUA e a monarquia parlamentar inglesa. Deixou registrado seu apreço pela monarquia no livro Por que continuo a ser monarquista (1890).

Em 1888, com fim da escravidão, recebeu o título de visconde, mas recusou a comenda do governo imperial. Em seguida, com a proclamação da República, em 1889, passou a dedicar-se mais à vida de escritor memorialista. Nessa fase de espontâneo afastamento, viveu no Rio de Janeiro, exercendo a advocacia e fazendo jornalismo. Frequentava a redação da Revista Brasileira, onde estreitou relações e amizade com altas figuras da vida literária brasileira, Machado de Assis, José Veríssimo, Lúcio de Mendonça, de cujo convívio nasceria a Academia Brasileira de Letras. Ele foi o fundador da Cadeira nº 27 e secretário-geral até 1899 e de 1908 a 1910.

Nesse período publicou duas de suas obras mais importantes: Um estadista do Império (1897-1899), em 3 volumes, uma biografia de seu pai e relato da história do Brasil naquele período e Minha formação (1900), livro de memórias. Na época o Brasil ainda não tinha embaixadas em outros países; o que havia eram legações para discutir questões diplomáticas. Mas, com a República era preciso estreitar os laços com outras nações através de embaixadas. Em 1900, o Presidente Campos Sales conseguiu convencê-lo a aceitar o posto de enviado extraordinário e ministro plenipotenciário em missão especial em Londres, na questão do Brasil com a Inglaterra, a respeito dos limites da Guiana Inglesa. Em 1901, foi acreditado em missão ordinária, como embaixador do Brasil em Londres e, a partir de 1905, foi indicado pelo barão do Rio Branco, para assumir a primeira embaixada brasileira no exterior, em Washington, onde permaneceu até a morte. Ao lado de tantas atividades, vale acrescentar que, junto com Rui Barbosa, assumiu posição de destaque na luta pela liberdade religiosa no Brasil. Na época, a religião católica era oficial, fazendo do Brasil um Estado confessional. Ele defendia a separação entre Estado e Religião, bem como a laicidade do ensino público.

Em 1906, veio ao Rio de Janeiro para presidir a 3ª. Conferência Pan-Americana, em companhia do Secretário de Estado norte-americano Elihu Root. Ambos eram defensores do pan-americanismo, no sentido de uma ampla e efetiva aproximação continental. Foi muito prestigiado não apenas junto ao governo norte-americano, bem como ao povo e a comunidade acadêmica. Proferiu diversas palestras nas universidades sobre a cultura brasileira e foi um grande propagador dos Lusíadas, de Camões. Tais incursões na área literária lhe garantiram o grau de “doutor em letras” pela universidade de Yale. Quando faleceu, em Washington, em 17/1/1910, seu corpo foi reverenciado em solenidade excepcional, conforme fotos abaixo, e trasladado para o Brasil, no cruzador North Caroline. Do Rio de Janeiro foi transportado para o Recife, onde foi sepultado no Cemitério de Santo Amaro. As solenidades de sepultamento em Washington, Rio de Janeiro e Recife duraram em torno de um mês.

Após o falecimento, as homenagens são frequentes até agora. Em 1949 foi criada a Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ), vinculada ao Ministério da Educação, com o propósito de preservar seu legado histórico-cultural; na década de 1990, o Engenho Massangana, onde ele passou a infância, foi tombado pelo Patrimônio Histórico sob o nome de Parque Nacional da Abolição. Em seguida, a FUNDAJ criou em suas dependências o Centro Científico e Cultural Engenho Massangana (CCEM). Outras homenagens: na data de seu nascimento, 19 de agosto, comemora-se o Dia do historiador; a lei nº ei nº 11.946, de 15/6/2009, instituiu o ano de 2010 como “Ano Nacional Joaquim Nabuco”; em 2/6/2014, seu nome foi inscrito no “Livro dos Heróis da Pátria”, pela Lei nº 12.988; em 28/9/1915, seu nome passou a designar uma das praças públicas mais importantes do Recife, onde se encontra sua estátua.

Praça Joaquim Nabuco e sua estátua frente ao Restaurante Leite, o mais antigo do Brasil

Cenas do funeral de Joaquim Nabuco em Washington, em abril de 1910:

Na primeira foto: Chegada do ataúde, numa carreta de artilharia, à Igreja de São Mateus. Na segunda: O Presidente dos EUA, William H. Taft e a Sra Taft chegando à Igreja.

Na primeira foto: Os marinheiros do North Carolina formados em frente ao Palácio Monroe. Na segunda: As representações oficiais ao saírem do Palácio Monroe, onde ficou exposto o corpo de Joaquim Nabuco.


José Domingos Brito - Memorial segunda, 22 de julho de 2019

OS BRASILEIROS: MÁRIO SCHENBERG

 

 

OS BRASILEIROS: Mário Schenberg

Mário Schenberg nasceu no Recife, em 2/7/1914. Físico, crítico de arte, matemático. Professor, político e mecenas. Dizem que nasceu em 1916 visando entrar na escola mais cedo que o permitido. Entrou na Faculdade de Engenharia do Recife em 1931, e no 3º ano foi detectado pelo “radar” do prof. Luís Freire, notável instigador de talentos, que estimulou-o a se transferir para a Escola Politécnica, em São Paulo. Em 1935 formou-se em engenharia elétrica e, no ano seguinte, em matemática na recém fundada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras-FFCL. Neste período esteve em contato com os professores Giuseppe Occhialini, Giacomo Albanese, Luigi Fantappié e Gleb Wataghin, que o convida para a função de preparador de física geral e experimental na Escola Politécnica. Em 1937 tornou-se assistente de física teórica da FFCL.

 

A diversificação de interesses veio da infância, influenciada pelas viagens feitas com seus pais à Europa. Desde cedo mostrou notável capacidade para a matemática, encantando-se com a geometria, que teve forte influência nos trabalhos posteriores. O interesse pela política, e particularmente o marxismo, começou também na adolescência. Como pode uma pessoa ter se destacado em áreas tão distintas como a ciência, as artes e a política? Para saber sobre o “físico que estudava as artes com o olhar de cientista e pesquisava a física com a criatividade da arte”, uma historiadora realizou pesquisa de fôlego sobre sua produção na área científica e nas artes. A conclusão é que a arte surgiu primeiro em seu horizonte. “Quando o jovem Schenberg abriu seus horizontes para a geometria, era pela razão de o auxiliar na utilização de suas percepções visuais”, conforme assinalou Alecsandra M. Vieira em seu livro Schenberg: Crítica e Criação, publicado pela Edusp em 2014, na comemoração do centenário de seu nascimento.

Em 1939 partiu para a Europa, e passou uma temporada trabalhando no Instituto de Física da Universidade de Roma com o físico Enrico Fermi; em Zurique, com Wolfgang Pauli e em Paris com Frédéric Joliot-Curie no Collège de France. Em 1940, já de volta ao Brasil, obteve uma bolsa da Fundação Guggenheim para passar uma curta temporada nos EUA, junto ao astrofísico George Gamow. Aí fez uma de suas principais descobertas: o “Processo Urca”. Trata-se de um estudo para entender o colapso de estrelas supernovas. Outra de suas descobertas recebeu o nome de “Limite Schenberg-Chandrasekhar”, realizada num trabalho junto com o físico indiano Subrahmanyan Chandrasekhar. Schenberg calculou, em 1942, a massa que pode ter o núcleo de uma estrela em que não mais ocorram reações de fusão nuclear, mas que consiga suportar o peso das camadas mais externas. Para um núcleo de hélio, valores típicos desse limite são de 10% a 15% da massa da estrela. Devido a tais descobertas, Albert Einstein considerava-o um dos dez mais importantes cientistas de sua época. É considerado, ainda hoje, o maior físico teórico do Brasil.

Em 1944 já exercia a crítica de arte de modo regular, o que não impediu que dois anos depois fosse contratado para inaugurar a cadeira de Mecânica Racional e Celeste da FFCL, atual Instituto de Física da USP. Em seguida dirigiu por oito anos o Departamento de Física da Universidade de São Paulo-USP (1953-1961). Seu curriculum na área científica é extenso: Trabalhou com mecânica quântica, termodinâmica e astrofísica. Publicou mais de uma centena de trabalhos em física teórica, física experimental, astrofísica, mecânica estatística, relatividade geral, teoria quântica do campo, fundamentos de física etc. Foi membro do Institute for Advanced Studies de Princeton e do Observatório Astronômico de Yerkes. Em Bruxelas, trabalhou em raios cósmicos e mecânica estatística. Criou o Laboratório de Estado Sólido da USP. Instalou o primeiro computador da universidade, criando o curso de computação e presidiu a Sociedade Brasileira de Física de 1979 a 1981.

Em 1969 foi o único latino-americano convidado para um congresso internacional sobre física de altas energias, em Kioto, Japão. Neste mesmo ano foi aposentado compulsoriamente pelo Governo, através do Ato Institucional nº 5. Na área política seu envolvimento não foi menos intenso, sendo eleito duas vezes deputado estadual de São Paulo (1946 e 1962) pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB). Em 1947, sob a liderança do economista e empresário Caio Prado Júnior, a bancada aprovou o Artigo 123 da Constituição do Estado de São Paulo, instituindo os fundos de amparo à pesquisa no estado para impulsionar o desenvolvimento científico e tecnológico. Tal projeto levou à concepção da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo-FAPESP. Na Assembleia Legislativa foi um orador influente e mudou a orientação da bancada em diversas ocasiões. Devido ao seu posicionamento, foi cassado e preso mais de uma vez pela ditadura militar.

Após a aposentadoria ficou proibido de frequentar a USP e passou por um período de isolamento e cerceamento de qualquer atividade política ou social. Este período é compartilhado com sua amiga e conterrânea Clarice Lispector numa carta: “Desde 1970, minha situação geral se modificou bastante, em consequência do isolamento em que passei a viver, como resultado de minha aposentadoria e da impossibilidade de exercer a crítica de arte militante. Foi um desafio tremendo, mas creio que pude reagir de um modo criativo… Agora estou escrevendo um pequeno ensaio sobre a crise atual das artes plásticas, que talvez seja um ponto de partida para um ensaio mais longo”. Como crítico de arte mantinha grande interesse por artes plásticas, tendo convivido com artistas brasileiros como Di Cavalcanti, Lasar Segall, José Pancetti, Mário Gruber, Cândido Portinari, Antonio Bandeira, Carlos Scliar etc. e também estrangeiros, como Bruno Giorgi, Marc Chagall e Pablo Picasso.

Escreveu diversos artigos sobre artistas contemporâneos brasileiros como Alfredo Volpi, Lygia Clark e Hélio Oiticica etc. Era considerado um “mecenas das artes” não no sentido de financiar artistas, pois não era rico; e sim de aconselhá-los e acolhê-los em sua casa num período difícil da política brasileira. Foi casado com Julieta Bárbara Guerrini, ex-mulher de Oswald de Andrade, e com a artista plástica Lourdes Cedran. Teve uma única filha, a geneticista Ana Clara Guerrini Schenberg. Em 1979, com os direitos políticos reabilitados, voltou para a USP e lecionou alguns cursos. Recebeu o título de Professor Emérito em 1982 e, em 1984, foi homenageado com um Simpósio Internacional, no Instituto de Física, e a publicação de um número especial da “Revista Brasileira de Física”, na comemoração de seus 70 anos. Pouco depois os sintomas de uma doença degenerativa acentuaram-se e veio a falecer em 10/11/1990.

Publicou centenas de artigos científicos, os quais foram compilados por Amélia Império Hamburger no livro Obras Científicas de Mario Schenberg – pioneiro da Física Teórica e Matemática, vol 1, editado pela Edusp em 2009, obra contemplada com o Prêmio Jabuti em 2010. O vol. 2 foi lançado em 2013. Tal compilação resultou em mais de 1400 páginas de contribuição efetiva à ciência no Brasil. Em 2014, sua ex-aluna Dina Lida Kinoshita fez um apurado balanço de sua atividade política, e lançou a biografia: Mario Schenberg: o cientista e o político. Com isso foi preenchida uma importante lacuna na história dos ilustres políticos brasileiros. Como professor reuniu uma quantidade expressiva de alunos, para os quais deixou um recado: “E como já estou no fim de minha carreira, há um conselho que dou a vocês: não tenham medo. Porque se tiverem medo, nunca poderão criar nada de original. É preciso que não tenham medo de dizer alguma coisa que possa ser considerada como um erro. Porque tudo que é novo aparece aos olhos antigos como coisa errada. É sempre nessa violação do que é considerado certo que nasce o novo e há a criação.”

 


José Domingos Brito - Memorial domingo, 21 de julho de 2019

AS BRASILEIRAS: EUFRÁSIA TEIXEIRA LEITE

 

AS BRASILEIRAS: Eufrásia Teixeira Leite

 

Eufrásia Teixeira Leite nasceu em Vassouras, RJ, em 1850. Investidora financeira, filantropa e feminista quando nem se cogitava o surgimento dessa palavra. Filha caçula de Joaquim José Teixeira e Ana Esméria Correia e Castro, neta paterna do Barão de Itambé, neta materna do Barão de Campo Belo, sobrinha do Barão de Vassouras e sobrinha-neta do Barão de Aiuroca. Estudou na escola de moças de Madame Grivet, em Vassouras e, além do ensino básico, aprendeu boas maneiras, falar o francês e a tocar piano. Digna representante da aristocracia brasileira do Segundo Império.

 

Com a morte dos pais, em 1872, ela e sua irmã passaram a administrar a herança, uma fortuna de 767:937$876 réis (767 contos, novecentos e trinta e sete mil, oitocentos e setenta e seis réis). Na época equivalia a 5% das exportações brasileiras e dava para comprar 1.850 quilos de ouro. No ano seguinte, com a morte da avó, a baronesa de Campo Belo, foram acrescidos mais 106:848$886 (106 contos, oitocentos e quarenta e oito mil e oitocentos e oitenta e seis réis) na forma de títulos e escravos, que logo foram vendidos. Era grande amiga da Princesa Isabel e não queria saber de escravos em suas propriedades. A irmã faleceu em 1899 e ela teve que administrar o patrimônio sozinha.

Antes disso, a cultura do café em Vassouras entrou em crise, devido ao esgotamento do solo, mas os bens das irmãs não se restringiam as fazendas de café. As irmãs possuíam apólices de títulos da dívida pública, ações do Banco do Brasil, depósitos bancários, títulos de crédito de pessoas, uma casa no Rio de Janeiro e uma grande propriedade urbana em Vassouras, atualmente conhecida como Chácara da Hera. Jovens e solteiras, venderam as ações, os títulos e a casa do Rio de Janeiro, cobraram créditos, alforriaram os escravos, fecharam a casa da chácara, deixando dois empregados incumbidos de sua conservação, e partiram, em 1873, para residir em Paris.

Na viagem, conheceu no navio o diplomata Joaquim Nabuco e iniciaram um namoro que durou 14 anos. Não progrediu devido, talvez, ao fato dele não aceitar a total independência de uma mulher numa época excessivamente patriarcal. Mas ela deixou marcas indeléveis em seu coração. Uma de suas frases, que deixou à posteridade: “O coração após certo momento da vida é qual palimpsesto; nada se pode escrever nele sem primeiro raspar o texto da época anterior” certamente refere-se àquele namoro. Foi a história de um grande amor, tendo a maior parte passada na Europa e nas cartas trocadas. Conta-se que as cartas que recebeu dele foram enterradas junto com ela em seu túmulo. Já as que ela enviou, estão guardadas no Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, no Recife. Dois anos após a última carta, em 1889, ele se casou com Evelina Torres Soares Ribeiro. Ela jamais se casou.

Em Paris, instalou-se num “hotel particulier”, próximo ao Arco do Triunfo e passou a conviver com elite social parisiense, integrando o círculo das amizades próximas a Princesa Isabel. Herdou o espírito empresarial da família e era dotada de um apurado talento na área financeira. Em pouco tempo multiplicou seu capital no mercado financeiro. Comprou ações das empresas que produziam as novas tecnologias da segunda Revolução Industrial, como indústrias extrativistas e de transformação, companhias ferroviárias, bancos etc. Dizem que foi a primeira mulher a entrar na Bolsa de Valores de Paris. No Brasil comprou ações do Banco do Brasil, Banco do Comércio e Indústria de São Paulo, Banco Mercantil do Rio de Janeiro, Companhia América Fabril, Companhia de Fiação e Tecidos Aliança, Companhia Tecelagem de Seda Ítalo-Brasileira, Companhia Antártica Paulista, Viação Fluminense, Companhia Docas de Santos e das primeiras companhias ferroviárias que se instalavam aqui. Entre 1874 e 1928 veio somente duas vezes ao Brasil

Retornou definitivamente, aos 78 anos, e passou a viver reclusa na Chácara da Hera. Sua reclusão ficou acentuada quando comprou a chácara do Dr. Calvet, ao lado da sua, apenas para manter-se longe dos vizinhos. Viveu seus últimos anos no Rio de Janeiro, num apartamento em Copacabana, cercada de empregados fiéis, excêntrica e solitária, onde faleceu em 1930. Sem descendentes nem ascendentes, seu primeiro testamento legava toda a fortuna para o Instituto das Missionárias do Sagrado Coração de Jesus, que mantinha diversos estabelecimentos escolares no Brasil, e Santa Casa de Misericórdia de Vassouras. Um segundo testamento, feito às vésperas de sua morte, legou praticamente toda sua fortuna para obras de caridade, a serem realizadas por instituições da cidade de Vassouras.

Após uma grande disputa judicial movida pela família alegando uma suposta insanidade física e mental, o processo seguiu até 1937, quando um decreto presidencial – determinando que seriam herdeiros apenas os parentes colaterais até segundo grau – impediu parte dos herdeiros deserdados de terem acesso àquela fortuna. Em agosto do mesmo ano, os herdeiros deserdados tentaram reabrir o processo judicial de impugnação do testamento, o que veio a causar um tumulto na cidade. A população de Vassouras revoltou-se, fechou o comércio, cercou o fórum durante as audiências e ameaçou os advogados. O juiz chamou a polícia, mas o delegado disse que os policiais tinham saído da cidade. Os advogados tiveram que fugir pelos fundos do fórum. Assim, os principais beneficiários da herança foram a Santa Casa de Misericórdia de Vassouras e o Instituto das Missionárias do Sagrado Coração entre outras instituições. Valores menores foram legados para a Fundação Osvaldo Cruz, alguns primos e empregados domésticos. Dinheiro em espécie foi destinado aos pobres e mendigos da cidade.

O testamento tem várias exigências que vieram prejudicar sua finalidade, devido a fatos posteriores imprevisíveis. Todos os bens foram legados sob cláusulas de inalienabilidade e da insubrogabilidade que deviam protegê-los. Os valores obtidos com as vendas das ações foram aplicados em apólices do Tesouro Nacional, cujos juros deveriam financiar as instituições criadas. Entretanto, a hiperinflação brasileira destruiu o valor original das apólices do Tesouro. Como resultado, a Santa Casa e o Hospital Eufrásia Teixeira Leite passaram e ainda passam por séria crise financeira. Uma das cláusulas do testamento estabelece “conservar a Chácara da Hera com tudo que nela existisse no mesmo estado de conservação, não podendo ocupar ou permitir que fosse ocupada por outros”.

Devido a esta cláusula, a residência foi preservada, tornando-se hoje o “Museu Casa da Hera”, considerado o melhor exemplo preservado de habitação urbana de famílias ricas do vale do Paraíba do Sul no século XIX. O museu encontra-se aberto ao público e constitui-se num dos principais pontos turísticos da cidade. Em 2010 a história dessa mulher foi contada na forma de um romance escrito por Claudia Lage; Mundos de Eufrásia, publicado pela Record. Ainda não li o romance, mas creio que sua vida se encontra entre aquelas onde a realidade supera a ficção. Mais tarde, Ana Maria Machado publicou seu décimo romance enfocando o relacionamento de Eufrásia com Joaquim Nabuco: Um mapa todo seu (2015). Assim, fica constatado que a vida da “Dama dos diamantes negros” não cabe numa simples biografia.


José Domingos Brito - Memorial sexta, 19 de julho de 2019

OS BRASILEIROS: PAULO VANZOLINI

 

Paulo Emílio Vanzolini nasceu em São Paulo, em 25/4/1924. Cientista (zoólogo) e compositor (sambista) dos mais renomados nas duas áreas. Uma combinação peculiar, inusitada e, talvez, única no mundo, se considerarmos o talento e suas contribuições em tão distintas atividades. Seu nome consta em 15 denominações científicas de répteis e anfíbios. Compôs clássicos da música popular brasileira, como Ronda, Volta por cima, Juízo final, Praça Clóvis, Na boca da noite entre outras. Nunca gostou de ir à escola e já confessou que em toda sua vida de estudante “para ser mais sincero, nos quatro anos de primário, cinco de ginásio, dois de pré-médico, seis de medicina e três de Harvard, nunca assisti às aulas com gosto”. Já pensou, se gostasse!

Mesmo assim, impulsionado pelos subornos com presentes dados pelo pai, o engenheiro e professor da Escola Politécnica da USP, Carlos Alberto Vanzolini, concluiu o curso primário no Colégio Rio Branco e o ginásio em escola pública. Se entrasse aí com uma boa colocação, ganharia uma bicicleta. Ganhou e, aos 10 anos, no primeiro passeio, foi até o Instituto Butantan. Ficou apaixonado pelos bichos e alí decidiu o que queria ser quando crescesse. Aos 14 anos, conseguiu um estágio no Instituto Biológico e deu início a profissão de zoólogo. Não queria ser médico, mas o amigo de seu pai, André Dreyfus, criador da genética no Brasil, disse-lhe: “Olhe, se você quiser fazer zoologia de vertebrados, vá para a Faculdade de Medicina onde vai estudar anatomia, histologia, embriologia e fisiologia num curso básico de primeiro nível. O resto você rola com a barriga”.

Em 1942 ingressou na Faculdade de Medicina da USP. Na mesma época sua vida tomou um caminho que não indicava, de modo algum, o futuro cientista. Passou a frequentar as rodas boêmias com os amigos universitários e compor os primeiros sambas. Dois anos após, deixou a casa dos pais, mudou-se para um apartamento no Prédio Martinelli e foi trabalhar com o primo, Henrique Lobo, na Rádio América, num programa comandado por Cacilda Becker. Pouco depois foi convocado para o Exército, interrompeu os estudos, retomou o curso de medicina após dois anos, foi lecionar no Colégio Bandeirantes e começou a trabalhar no Museu de Zoologia. Como se vê, o artista surgiu primeiro que o cientista, que tomou um impulso logo em seguida. Em 1947 foi diplomado médico e, no ano seguinte, casou-se com Ilse, secretária da Reitoria da USP. Mais um ano e o casal embarca para os EUA, onde concluiu o doutorado em Zoologia pela Universidade de Harvard.

Uma vez pronto o cientista, é hora de dar vazão ao artista. Começando pela poesia e por insistência do amigo Geraldo Vidigal, publicou o livro Lira de Paulo Vanzolini, em 1951, pelo Clube de Poesia, reduto boêmio e literário de São Paulo. No mesmo ano compôs o samba-canção Ronda, considerado sua obra-prima musical, que veio a ser gravada, por acaso, em 1953, por Inezita Barroso. Ele e a esposa eram amigos da cantora e acompanharam-na até a o estúdio da RCA Vitor, para realizar sua primeira gravação: “Marvada pinga”. Como ela não tinha escolhido outra música para o lado B do disco de 78 rpm, optou por Ronda naquele instante. O estrondoso sucesso do lado A deixou a samba-canção na penumbra e só veio a ficar conhecido, de fato, e fazer sucesso anos depois na voz da cantora Márcia. Em 1953 foi trabalhar na TV Record, produzindo programas musicais, como o de Araci de Almeida. Fez amizade com muitos cantores e compositores, entre eles Adoniran Barbosa, bom de papo e copo. Os dois planejaram uma parceria musical que nunca aconteceu. Quase sempre compunha sozinho, mas chegou a formar parceria com Toquinho em meados dos anos 1960, pouco antes dele se juntar a Vinicius de Moraes. Frequentador assíduo da casa dos Buarque de Holanda, quando esta família residia no bairro de Pinheiros, foi um dos primeiros a conhecer o compositor Chico Buarque ainda jovem, quando compôs Pedro Pedreiro. Ouviu o samba, observou a letra e exclamou, dirigindo-se à Sergio, seu pai: “Esse menino é um gênio!”.

Em 1963 foi nomeado diretor do Museu de Zoologia e lançou outro grande sucesso: Volta por cima, gravado por Noite Ilustrada. A música já era conhecida nas boates paulistanas como “o samba do Vanzolini”. Ficou tão conhecida e caiu no gosto do público de tal modo, que a expressão “dar a volta por cima” passou a ser utilizada por todos como “superar uma situação difícil”. Em fins de 1967, Luís Carlos Paraná, compositor e dono da boate “Jogral”, e Marcus Pereira, publicitário e depois dono de uma gravadora, resolveram produzir seu primeiro LP com suas músicas inéditas, conhecidas apenas pelos amigos: “Paulo Vanzolini: onze sambas e uma capoeira”, interpretadas por diversos cantores, entre os quais Chico Buarque. “Jogral” era um celeiro de sambistas em São Paulo, tendo lançado grandes nomes, como Jorge Ben e Martinho da Vila. Como se não bastasse, foi também cantor. Em 1981, o Estúdio Eldorado lançou o LP “Paulo Vanzolini por ele mesmo”

Até aqui tudo bem, mas cadê o cientista? Bem, não é à toa que seu nome denomina 15 espécies de bichos. Ralou bastante para merecer tais homenagens. Além disso, ajudou na criação da FAPESP-Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, em 1962, na condição de membro do Conselho Superior. Enquanto diretor do Museu de Zoologia, aumentou a coleção de répteis de 1,2 mil para 230 mil exemplares. Em termos científicos p.p. dito, adaptou a “Teoria dos Refúgios” a partir de um trabalho em conjunto com o prof. Aziz Ab’Saber e com o norte-americano Ernest Williams. “Refúgio” foi o nome dado ao fenômeno detectado nas suas expedições pela Amazônia, quando o clima chega ao extremo de liquidar com uma formação vegetal, reduzindo-a a pequenas porções. Assim formam-se espaços vazios no meio da mata fechada. Quando se aposentou em 1993, continuou trabalhando no Museu de Zoologia até pouco antes de falecer. Recusou-se a deixar o trabalho: “É a única coisa de que gosto, a única coisa que sei fazer”. Só parou em 28/4/2013, quando veio a falecer.

As “Escolas de Samba” foram as primeiras a homenageá-lo ainda em vida. A “Mocidade Independente de Padre Miguel” desfilou em 1985 com o tema “Ziriguidum 2001, um carnaval nas estrelas” sobre um imaginário corso de sambistas no espaço sideral, e Vanzolini estava lá. Foi enredo da “Mocidade Alegre”, em 1988, onde foi exaltada sua dupla personalidade de cientista e poeta do samba. Em 2005, foi a vez da “Vai-Vai”, com o enredo “Eu também sou imortal” discorrendo sobre sua atuação no samba e na boêmia de São Paulo. Em 2013, quando soube de seu falecimento, a “Mocidade Alegre”, anunciou seu enredo para o carnaval de 2014, com um tema referente aos 90 anos do boêmio paulista. Foi premiado pela Fundação Guggenheim, em Nova Iorque (2008); condecorado com a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico e promovido a Grande Oficial da Ordem do Ipiranga (2010). Em março de 2013, recebeu o Prêmio APCA-Associação Paulista de Críticos de Arte, pelo conjunto da obra. Sua vida foi retratada no cinema em três documentários, dirigidos por Ricardo Dias. Dois sobre o zoólogo e um sobre o sambista: Um homem de moral, lançado em 2009 no 13º Cine Pernambuco.

No seu legado encontram-se, também, uma valiosa contribuição à ciência no livro An annoted bibliography of the land and fresh-water reptiles of South America (1758-1975), em dois volumes, lançado em 1975-77 pelo Museu de Zoologia. Outro legado substancial foi a doação de sua biblioteca com mais de 25 mil livros ao Museu, em 2008. Uma de suas últimas aparições no palco, se deu no Rio de Janeiro em 2003, quando foi lançada sua antologia de 52 sambas numa caixa com quatro CD’s: “Acerto de contas”. As músicas tiveram como intérpretes quase todos seus amigos mais próximos: Paulinho da Viola, Chico Buarque, Elton Medeiros, Carlinhos Vergueiro etc. Na ocasião, seu amigo Ricardo Cravo Albin, elaborou uma série de quatro programas radiofônicos, transmitidos pela Rádio MEC para todo o Brasil, além de uma longa entrevista. Numa de suas últimas entrevistas, foi-lhe perguntado que conselho daria aos novos cientistas. Sua resposta foi concisa: “O primeiro conselho é que não sigam os conselhos de ninguém e que se apliquem e façam bem feito e com amor o seu serviço”.

 


José Domingos Brito - Memorial quinta, 18 de julho de 2019

AS BRASILEIRAS: BÁRBARA DE ALENCAR

 

AS BRASILEIRAS: Bárbara de Alencar

Bárbara Pereira de Alencar nasceu em Exu, em 11/2/1760. Bem antes de ser avó do romancista José de Alencar, foi uma destacada ativista que participou da Revolução Pernambucana de 1817 e da Confederação do Equador, em 1824. Nestes embates, contou a ajuda de três de seus cinco filhos: José Martiniano de Pereira Alencar, Carlos de Alencar e Tristão Gonçalves. O primeiro era padre, político e jornalista, e foi o pai do romancista José de Alencar.

Ainda adolescente, mudou-se para a vila do Crato, onde se estabeleceu e tornou-se matriarca de uma família que se notabilizou no Ceará, numa época onde a mulher se restringia a criar filhos e o patriarcado se impunha de modo rigoroso. Casou, aos 22 anos, com o comerciante português José Gonçalves dos Santos. Ela própria fez o pedido de casamento e providenciou uma fuga, diante da reprovação feita pelos pais. Tornou-se revolucionária a partir das ideias emanadas pelo Seminário de Olinda, um foco de idealistas influenciados pela Revolução Francesa, por onde passaram dois de seus filhos.

No Crato, constituiu em sua casa o núcleo do movimento revolucionário, em meados de 1815, que se organizava em Pernambuco. “Dona Bárbara sempre foi considerada a cabeça pensante. Ela tinha a política nas veias e, na articulação, era a referência do grupo”, afirma o escritor Roberto Gaspar, autor do livro Bárbara de Alencar, a Guerreira do Brasil. Quando estourou a Revolução Pernambucana, em 1817, Ela junto com seu filho José Martiniano (futuro pai do romancista), durante a missa dominical, proclamou a república tal como se fizera no Recife. As tropas da coroa portuguesa foram enviadas para conter a revolta, prenderam todos e foram enviados em lombos de jumento para Fortaleza sob o sol escaldante, e levaram um mês num percurso de 500 km.

Uma vez presa, obrigaram-na a fazer uma peregrinação pelos calabouços de Fortaleza, Recife e Salvador. Em 1821 foi libertada, mas não se intimidou nem abandonou o sonho de ver o Brasil livre do jugo português. Em 1824 o movimento revolucionário “Confederação do Equador”, liderado por Frei Caneca, no Recife se espalhou pelo Nordeste e encontrou-a junto aos filhos pronta para a nova revolta. Carlos de Alencar e Tristão Gonçalves morreram em combate; José Martiniano se tornaria senador em 1832.

O sobrenome Alencar foi perseguido pelo poder constituído durante muitos anos após a Confederação do Equador. Algumas pessoas com este sobrenome, mesmo sem participação na vida política, acabaram virando mártires. Conta-se que pelo menos 13 parentes, por consanguinidade e afinidade, foram assassinadas. Quando seu filho José Martiniano foi eleito Senador do Império, em 1832, Dom Pedro II vetou seu nome. Mesmo já tendo sido Ministro da Justiça, o Imperador temia o sangue revolucionário que corria nas veias da Família Alencar.

Desse modo, ela tornou-se a primeira revolucionária e primeira presa politica da História do Brasil. Não deixa de ser paradoxal o fato de até hoje, quando o feminismo avança no País, pouco se divulga seus feitos como heroína da História brasileira. Falecida em 18/8/1832, apenas no Ceará seu nome é reconhecido e ainda lembrado no imaginário popular. Luiz Gonzaga, também nascido em Exu, nos seus shows na região do Cariri, gostava de saudar “Dona Bárbara de Alencar”. A cela, onde ela ficou encarcerada, na Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, no centro da cidade, ainda é muito visitada por estudantes e turistas

O escritor Gylmar Chaves, que pesquisa sua vida há 15 anos e pretende lançar sua biografia romanceada, diz que não encontrou menção alguma do seu famoso neto, José de Alencar, à sua avó. Isto se deve, talvez, ao fato dele ter se tornado um defensor do regime monárquico durante o período de D. Pedro II. Não obstante o “esquecimento” do neto, seu nome vem sendo lembrado e comemorado até hoje. A partir de 11 de fevereiro de 2005, O Centro Cultural que leva seu nome outorga à três mulheres a “Medalha Bárbara de Alencar”, uma respeitável condecoração. O Centro Administrativo do Governo do Ceará é batizado com seu nome. Uma estátua da heroína foi erguida na Praça Medianeira, em Fortaleza.

Em 1980, o poeta Caetano Ximenes de Aragão lançou o livro-poema Romanceiro de Bárbara, publicado pela Secretaria de Cultura do Ceará. Sua biografia, “Bárbara de Alencar”, escrita por Ariadne Araújo, foi lançada em 2002 pela Edições Demócrito Rocha e encontra-se na 3ª edição. Seu nome passou a denominar alguns logradouros em Fortaleza; seu túmulo ainda está em processo de tombamento; e seu reconhecimento como heroína nacional ocorreu agora há pouco, em 22 de dezembro de 2014, pela Lei 13.056, com o nome inscrito no “Livro dos Heróis da Pátria, depositado no Panteão da Pátria, em Brasília. Só está faltando os historiadores se darem conta de sua importância na História do Brasil e passarem a incluir seu nome nos manuais didáticos de história.

 


José Domingos Brito - Memorial quarta, 17 de julho de 2019

OS BRASILEIROS: MARECHAL RONDON

 

OS BRASILEIROS: Marechal Rondon

 

Cândido Mariano da Silva Rondon nasceu em 5/5/1865, em Santo Antonio de Leverger, MT. Militar, sertanista, indigenista e um dos “fundadores” do Brasil. Descendente dos índios Terena, Bororo e Guará, ficou órfão de pai e mãe bem cedo e foi criado pelo avô e um tio, em Cuiabá, a partir de 1873. Aos 16 anos foi morar no Rio de Janeiro com a finalidade de ingressar na Escola Militar. Em seguida alistou-se 3º Regimento de Artilharia a Cavalo e depois, já promovido a Alferes, entrou na recém-criada Escola Superior de Guerra, em 1888.

 

Ainda estudante, participou dos movimentos abolicionista e republicano e ingressou no movimento positivista através de seu professor Benjamin Constant. Bacharel em Ciências Físicas e Naturais, em 1890, foi logo promovido a segundo-tenente e, três dias depois, a primeiro-tenente por sua atuação na Proclamação da República, no instante em que o Marechal Deodoro da Fonseca foi promovido a generalíssimo e Benjamin Constant a general. No mesmo ano foi nomeado chefe do Distrito Telegráfico do Mato Grosso e designado para a Comissão de construção da linha telegráfica ligando Mato Grosso a Goiás. Tem inicio sua carreira de desbravador dos sertões, pacificador de índios e expansionista das fronteiras do Brasil através de linhas telegráficas.

Nos anos seguintes até 1907, contatou os índios bororós, tornou-se membro da Igreja Positivista, no Rio de Janeiro e foi nomeado chefe da Comissão de Linhas Telegráficas Estratégicas do Mato Grosso e Amazonas, incumbido de construir a linha telegráfica ente Cuiabá e Porto Velho. Pouco depois fez as ligações telegráficas de Cuiabá e Corumbá com o Paraguai e Bolívia. Enquanto desbravava os sertões, nasceu sua primeira filha, Maria de Molina, no Rio de Janeiro. Mas ele só a viu 18 meses depois. Em 1910 organizou e passou a dirigir o SPI-Serviço de Proteção aos Índios, No ano seguinte pacificou os índios Botocudos, no Vale do Rio Doce, seguido pela pacificação dos índios Kaingangs, de São Paulo (1912). Neste ano foi promovido a coronel de engenharia.

De maio de 1913 a maio de 1914, realizou mais uma expedição para explorar a região amazônica, em conjunto com uma comitiva integrada pelo ex-presidente dos EUA Theodore Roosevelt. Nessa viagem, denominada “Expedição Científica Rondon-Roosevelt”, foi atingido por uma flecha envenenada dos índios Nhambiquaras. Foi salvo pela bandoleira de couro de sua espingarda e ordenou aos soldados que não reagissem e batessem em retirada. Seu trabalho com a pacificação dos índios e a criação do SPI, evitou um genocídio do índios, o que lhe valeu a indicação para o Prêmio Nobel da Paz por Albert Einstein e referendado pelo Explorer’s Club de Nova Iorque, em 1957. Serviu, também, de inspiração para a viagem que Claude Lévi Strauss realizou na Amazônia, retratada no livro Tristes Trópicos. Por essa época estava sendo construída a ferrovia Madeira-Mamoré, que, junto com o desbravamento e integração telegráfica, ajudaram a ocupar a região do atual estado de Rondônia, cujo nome é uma das justas homenagens que recebeu.

Em 1914, a Comissão Rondon construiu 372 km de linhas e mais cinco estações telegráficas: Pimenta Bueno, Presidente Hermes, Presidente Pena (depois Vila de Rondônia e atual Ji-Paraná), Jaru e Ariquemes, na área do atual estado de Rondônia. Pouco depois pacificou os índios Xokleng, de Santa Catarina e recebeu da Sociedade Geográfica Americana a “Medalha Centenário de David Livingstone” e teve seu nome gravado em ouro no Livro da entidade, como o explorador que penetrou mais profundamente em terras tropicais. Em 1919 foi nomeado Diretor de Engenharia do Exército, cargo ocupado até 1924. Três anos depois, inspecionou toda a fronteira brasileira desde as Guianas até a Argentina. É dele a expressão “Do Oiapoque ao Chuí”. Foi o mais importante registrador de etnias indígenas do Brasil, pois falava várias línguas indígenas, além de outros tradutores que levava em suas expedições.

A “Revolução de 1930”, que levou Getúlio Vargas ao poder, não recebeu seu apoio. Para evitar perseguições ao SPI, demitiu-se de sua direção e concluiu sua terceira e última inspeção das fronteiras internacionais. Nesse meio tempo foi preso em Porto Alegre pelo capitão Góes Monteiro, devido a incompatibilidades com o Governo Vargas, mas logo foi solto. Em 1938 promoveu a paz entre a Colômbia e Peru, que disputavam o território de Leticia, fincada na Amazônia, fronteira do Brasil com aqueles dois países. No ano seguinte, apaziguado com o novo governo, retomou a direção do SPI. Mais tarde manifestou apoio ao Governo Vargas: “por este conduzir a bandeira política e administrativa da Marcha para o Oeste, visando ao alargamento do povoamento do sertão”. A pacificação dos índios Xavantes foi seu último trabalho como pacificador, concluído em 1946. No ano seguinte recebeu o aporte de outro entusiasta na defesa dos índios, que o ajudou na criação de um local exclusivo e de proteção destas etnias.

Em 1947 Darcy Ribeiro ingressou no SPI e passa a ajudá-lo na criação do Parque Nacional do Xingu, em 1952. Em seguida, Darcy fundou o Museu Nacional do Índio, sob sua inspiração direta. Aos 89 anos, através de um Ato do Congresso Nacional, foi promovido a Marechal honorário do Exército. Em 1956 o Território Federal do Guaporé foi alterado para Rondônia em sua homenagem. De volta ao Rio de Janeiro, veio a falecer em 19/1/1958. São inúmeras a homenagens que lhe foram prestadas, além dos nomes de estado, cidades, bairros e logradouros públicos. 5 de maio, dia de seu nascimento, foi declarado Dia Nacional das Comunicações. Em 1967 foi criado o “Projeto Rondon” levando os estudantes universitários brasileiros a conhecer melhor os confins do Brasil, fato que veio confirmar seu caráter de desbravador do Brasil. Em 1/7/2015, seu nome foi inscrito em letras de aço no “Livro de Heróis da Pátria”. Agora há poucos dias, em maio de 2019, o jornalista norte-americano Larry Rohter, chefe do escritório do “The New York Times”, no Rio de Janeiro, de 1999 a 2007, publicou “Rondon, uma biografia”, que poderia ser intitulada como “a biografia”. São 584 páginas, onde a vida de Rondon é esmiuçada, reescrevendo seu papel de explorador brasileiro na etnografia mundial. Tem razão o dito que “santo de casa não faz milagre”. Foi preciso o olhar de um estrangeiro para revelar aos brasileiros a amplitude do legado de Rondon para o país e para os povos indígenas. Para o autor, só o racismo do Hemisfério Norte explica o fato de Rondon não figurar lado a lado com outros exploradores no panteão mundial. “Quase todos os grandes são de origem europeia ou americana, altos, brancos e louros”, conforme declarou à revista Veja em 1/5/2019.

Em seu sepultamento com honras de chefe de Estado, Darcy Ribeiro foi convidado a discursar: “Quero aqui recordar os quatro princípios de Rondon: 1º Morrer, se preciso for, matar, nunca no contato com os indígenas; 2º Respeito às tribos indígenas como povos independentes que, apesar de sua rusticidade e por motivo dela mesma, têm o direito de ser eles próprios, de viver suas vidas, de professar suas crenças e de evoluir, segundo o ritmo de que sejam capazes, sem estarem sujeitos a compulsões de qualquer ordem e em nome de quaisquer princípios; 3º Garantir aos índios a posse das terras que habitam e são necessárias à sua sobrevivência. 4º assegurar aos índios a proteção direta do Estado, não como um ato de caridade ou de favor, mas como um direito que lhes assiste por sua incapacidade de competir com a sociedade dotada de tecnologia infinitamente superior que se instalou sobre seu território. (…) Graças aos esforços de Rondon, sobrevive hoje no Brasil uma centena de milhares de índios que não existiriam sem seu amparo. Aqui estamos para dizer-vos que nada nos fará desanimar do propósito de dedicar o melhor de nossas energias para a realização dos vossos princípios. Nenhum de nós, ninguém, pode substituir-vos. Mas, talvez mil reunidos sob o patrocínio do vosso nome possam tornar menos gritante o grande vazio criado com a vossa morte”.

 

 

 


José Domingos Brito - Memorial segunda, 15 de julho de 2019

AS BRASILEIRAS: CARMEN MIRANDA

 

AS BRASILEIRAS: Carmen Miranda

Maria do Carmo Miranda da Cunha nasceu em Marco de Carnaveses, Portugal, em 9/2/1909, Cantora e atriz intérprete de si mesma, devido a fama alcançada com seu estilo pessoal incorporado ao artístico. No Brasil ficou conhecida com a “pequena notável” e nos EUA como a “explosão brasileira” (“The Brazilian Bombshell”), no momento em que o Brasil surgia no Mundo. Chegou ao Rio de Janeiro com 10 meses de idade e foi morar na Travessa do Comércio, onde a mãe montou uma pensão. O pai era barbeiro e seis anos depois mudaram-se para a Lapa, reduto boêmio da metrópole que surgia. Trabalhou numa chapelaria e gostava e cantarolar no serviço. Por isto foi despedida e passou a cantar pra valer com seu “chapéu” escandalosamente brasileiro.

Assim, imprimiu uma identidade ao Brasil, que permanece até agora: alegria esfuziante, cordialidade, musicalidade, exotismo. O “Movimento Tropicalista” confirmou o estilo brasileiro na voz de Caetano Veloso: “Viva a bossa, tá, tá, Carmen Miranda, tá, tá, tá tá!”. Nesse meio tempo tivemos Juscelino, um “presidente bossa nova”. “Bossa” é uma palavra existente apenas no Brasil, saudades daquela época. “Saudade” é outra palavra existente apenas no idioma português.

Os primeiros estudos se deram na escola de freiras Santa Tereza, onde demonstrou seu talento no coral da escola. Aos 14 anos trabalhou numa loja de gravatas, e depois como aprendiz de chapeleira na “Maison La Femme Chic”, de Madame Boss.

Aos 19 anos foi apresentada pelo deputado baiano Aníbal Duarte ao compositor Josué de Barros, que passou a promovê-la em teatros e clubes. Logo veio o primeiro disco, gravado em 1929 pela RCA Victor, com as músicas “Dona Balbina e “Triste Jandaia”. No ano seguinte alcançou o sucesso com a marcha de carnaval “Pra você gostar de mim” (”Taí”), composição de Joubert de Carvalho, que levou-a ao estrelato. O disco vendeu 35 mil cópias, sendo aclamada a maior cantora do País. Foi a primeira artista a assinar um contrato de trabalho com uma emissora de rádio no País, a Rádio Mayrink Veiga. Pouco depois já era reconhecida como uma das principais cantoras no âmbito internacional. Em 1936 transferiu-se para a Rádio Tupi afim de alavancar a carreira, que chegou às telas do cinema.

No mesmo ano estrelou no filme “Alô, alô carnaval”, onde ela e a irmã Aurora interpretam as “Cantoras do rádio”, sucesso imediato em todo o País. Ainda em 1936 passaram a integrar o elenco do Cassino da Urca, os palcos do Rio de Janeiro e de Buenos Aires. Em 1939 Dorival Caymmi compôs “O que é que a baiana tem?” No mesmo instante virou produto de exportação brasileira Uma música feita sob medida para ela cantar, dançar e mostrar o traje da baiana, que virou artigo de exportação para os EUA. No mesmo ano, Lee Shubert, produtor da Broadway, ofereceu-lhe um contrato de oito semanas para se apresentar no programa “The Streets of Paris”, em Boston. O contrato não foi assinado de imediato porque ela fazia questão de levar seu grupo, o Bando da Lua, junto; enquanto o produtor estava interessado apenas nela. O impasse foi resolvido com a intervenção de Alzira Vargas, filha do presidente, que garantiu o embarque de todos em 4/5/1939, às vésperas da II Guerra Mundial

Vê-se aí o interesse do Governo Vargas em divulgar a imagem e identidade cultural do País no exterior e para isso garantiu o suporte que fosse necessário. Assim tem início uma próspera carreira internacional. No ano seguinte, fez sua estreia no cinema estadunidense, com o filme “Serenata tropical”, contracenando com Dom Ameche e Betty Grable. Os norte-americanos ficaram encantados e em poucos meses ela foi eleita a 3ª personalidade mais popular dos EUA. Em 5/3/1940 foi convidada junto com seu grupo numa apresentação para o presidente Franklin Roosevelt, num banquete na Casa Branca. Chegou a ser a artista mais bem paga de Hollywood. Foi destaque principal na boate “Copacabana Night Club”, aberto em 1940, onde os norte-americanos ficavam extasiados com seu charme e exuberância.

A partir daí até 1953 atuou em 14 filmes em Hollywood e esteve nos mais importantes programas de rádio, TV e teatros dos EUA. Tornou-se a primeira sul-americana a ter uma estrela na Calçada da Fama e a primeira latino-americana a imprimir suas mãos e pés no pátio do Grauman’s Chinese Theatre, em 1941. Após viver tantos anos nos EUA, não só falava bem inglês como não tinha sotaque estrangeiro. Mas os produtores de shows insistiam para que ela se apresentasse com o dito sotaque. Desse modo é que a pessoa acabou sendo suplantada pelo mito que representava. Em tais condições restou pouco espaço à mudança que ela própria naturalmente poderia ter conseguido, noutras condições, como intérprete e enquanto indivíduo. Em 1947 casou-se com o norte-americano David Sebastian, produtor de cinema, que também foi seu desastrado empresário.

Os biógrafos apontam o casamento como o início do comprometimento de sua saúde, quando passou a beber junto com o marido alcoólatra, além de usar barbitúricos para dar conta de uma extenuante agenda de shows e compromissos. Em 1954 retornou ao Brasil e fez um tratamento de desintoxicação no Rio de Janeiro. Após breve melhora retornou aos EUA, mas seguiu dependente dos remédios. Para complicar a saúde, passou a sentir depressão. Em 4 de agosto de 1955, ao participar de uma gravação para o programa do comediante “Jimmy Durante Show”, sentiu um ligeiro mal-estar enquanto dançava. Ao voltar para casa ainda jantou, cantou e encantou alguns amigos. Foi dormir cedo nesta noite e não acordou. Na madrugada de 5/8/1955 faleceu devido a um alegado ataque cardíaco fulminante. Foi encontrada pela manhã sem vida com apenas 46 anos.

Na Califórnia foi realizado um velório reservado antes do corpo ser transladado para o Rio de Janeiro. Mais de 500 mil pessoas acompanharam seu funeral até o Cemitério São João Batista. No ano seguinte foi criado oficialmente o Museu Carmen Miranda, no Parque do Flamengo, contendo mais de três mil itens. Em 1995 recebeu o título póstumo de Grande-Oficial da Ordem do Infante Dom Henrique, outorgado pelo presidente de Portugal. No mesmo ano sua memória foi resgatada através do premiado documentário “Banana is my business”, dirigido por Helena Solberg. Recebeu inúmeras homenagens, aqui e nos EUA, e diversas biografias, dentre as quais destaca-se a realizada por Ruy Castro, publicada em 2005: Carmen: uma biografia – A vida de Carmen Miranda, a brasileira mais famosa do século XX. Em 2007, a BBC produziu o documentário Carmen Miranda: Beneath the Tutti Frutti Heat, uma excepcional videobiografia. No centenário de seu nascimento, em 2009, a Academia Brasileira de Letras prestou-lhe homenagem declarando-a “Patrimônio da Cultura Brasileira”.

 


José Domingos Brito - Memorial quinta, 11 de julho de 2019

OS BRASILEIROS: VILLA-LOBOS

 

 

OS BRASILEIROS: Villa-Lobos

Heitor Villa-Lobos nasceu no Rio de Janeiro, em 5/3/1887. Músico e maestro, considerado o expoente da música clássica brasileira e um dos maiores compositores do mundo, na opinião de Alejo Carpentier, escritor e músico cubano. A data de seu nascimento é celebrada como “Dia Nacional da Música Clássica”. Filho Noêmia Monteiro Villa-Lobos e Raul Villa-Lobos, músico amador e funcionário da Biblioteca Nacional, recebeu do pai instrução musical e uma viola adaptada para iniciação aos estudos de violoncelo.

Aos 12 anos, com o falecimento do pai, a família passou por alguns perrengues e ele foi obrigado a ganhar a vida tocando em teatros, bares e bailes ao mesmo tempo em que manifestava interesse pela musicalidade dos “chorões”, que imperava no Rio de Janeiro. Frequentou a conhecida loja “O Cavaquinho de Ouro”, que reunia o grupo de chorões. Nesse contexto, desenvolveu-se também no violão, na época, um instrumento musical de malandro. Desde cedo, curioso e inquieto, passou a viajar pelo interior do País com o intuito de conhecer o universo musical brasileiro. Em 1913 casou-se com a pianista Lucila Guimarães e conquistou o reconhecimento artístico em âmbito nacional. Em 1922 teve atuação destacada na Semana de Arte Moderna, em São Paulo, apresentando-se nos três dias com três diferentes apresentações. O Teatro Municipal de São Paulo foi o primeiro palco erudito a receber suas obras.

Em 1923 fez sua primeira viagem para a Europa, subsidiado pelo governo, onde passou um ano aprimorando sua performance. Em 1924 retornou ao velho continente, sob patrocínio do milionário carioca Carlos Guinle, dono do Hotel Copacabana Palace, e passou mais um tempo em contato com os grandes compositores mundiais. De volta ao Brasil, em 1930, realizou uma turnê por 66 cidades e uma “Cruzada do Canto Orfeônico” no Rio de Janeiro. No ano seguinte quis voltar a Europa, mas a “Revolução de 30”, impediu a retirada de dinheiro do País, impedindo-o de viajar. Forçado a permanecer no Brasil, passou a organizar concertos em algumas cidades e compor músicas educativas e patrióticas, com apoio governamental.

A aproximação com o novo governo garantiu-lhe o cargo de diretor da SEMA-Superintendência de Educação Musical e Artística, criado pelo decreto-lei nº 3.763, de 1932, através do Departamento de Educação, comandado por Anísio Teixeira. Permaneceu no cargo até 1945, período no qual foi instituído o ensino obrigatório de música e canto orfeônico nas escolas. Nesta condição produzia arranjos musicais diversos e compôs diversas peças consideradas propagandísticas, de cunho nacionalista, Vale ressaltar que a série “Bachianas Brasileiras”, iniciada naqueles anos, é considerada uma notável exceção. Em 1936, desfez o casamento e passou a namorar sua aluna Arminda Neves d’Almeida. Após o decreto de 10/11/1937, que estabeleceu a ditadura de Vargas ou “Estado Novo”, continuou produzindo obras patrióticas de apelo popular. O “Dia da Independência”, em 7 de setembro de 1939 contou com um coral de 30 mil crianças cantando o hino nacional e outras peças musicais. Dois anos depois, publicou A Música Nacionalista no Governo Getúlio Vargas, onde defende a nação como uma entidade sagrada, e seus símbolos (a bandeira e o próprio hino nacional) como invioláveis.

Era uma personalidade destacada no meio cultural e chegou a ficar famoso no meio popular através de uma aparição no filme da Disney Alô amigos (1940), ao lado do próprio Walt Disney. Nessa época dirigiu um comitê que tinha como tarefa estabelecer uma versão definitiva para o hino nacional brasileiro. Sua atuação resulta na criação do Conservatório Nacional de Canto Orfeônico, inaugurado em 1942. Na celebração do 7 de setembro de 1943, compôs o ballet “Dança da terra” e um hino invocando a defesa da pátria, logo após o Brasil ter declarado guerra contra a Alemanha nazista. Sua apego na busca de uma música genuinamente brasileira se expressa de modo claro: “Quando procurei formar a minha cultura, guiado pelo meu próprio instinto e tirocínio, verifiquei que só poderia chegar a uma conclusão de saber consciente, pesquisando, estudando obras que, à primeira vista, nada tinham de musicais. Assim, o meu primeiro livro foi o mapa do Brasil. O Brasil que eu palmilhei, cidade por cidade, estado por estado, floresta por floresta, perscrutando a alma de uma terra.”

Dentre as cerca de mil composições do maestro, destacam-se: Cantilena, (Bachiana nº 5), O trenzinho caipira, Uirapuru, A Floresta do Amazonas, Descobrimento do Brasil, Choros nº 1 5, entre tantas outras. Seu legado musical não se restringe a música brasileira. Seus “12 Estudos”, reconhecidos como a maior obra para violão composta no século XX, revolucionou o repertório internacional do instrumento, até então restrito aos tradicionais espanhóis e a herança barroca do antigo alaúde. Dedicados a Segóvia, que passou a tocá-los (entre outras obras do maestro) no mundo inteiro, Os “12 estudos”, compostos entre 1924 e 1929, transformaram-se numa espécie de ‘Bíblia’ dos violonistas modernos, destacando-se por sua dificuldade, beleza, desafio, e brasilidade.

Em 1944 aceitou o convite do maestro Werner Jansen e iniciou uma turnê pelos Estados Unidos. No ano seguinte retornou ao Brasil e fundou a Academia Brasileira de Música, da qual foi eleito presidente. Em seguida empreendeu uma série de viagens pela américas, Europa e Israel, dirigiu concertos e gravou boa parte de sua obra. Em 1948 fez uma operação extirpando o câncer e casou-se com sua ex-aluna Arminda, que ficou encarregada de divulgar sua monumental obra, após sua morte em 17/11/1959. No dia seguinte o jornal “New York Times” dedicou-lhe um editorial na forma de necrológio e ano seguinte, o governo brasileiro criou o Museu Villa-Lobos no Rio de Janeiro. O maestro recebeu muitas homenagens em vida e mais ainda após sua morte, dando nomes a inúmeros logradouros e instituições. Foi retratado em diversas biografias e obras da musicologia: “Villa-Lobos, uma interpretação” (1961) do crítico Andrade Muricy; “Villa-Lobos, o homem e a obra”, uma alentada biografia traduzida em diversas línguas, do musicólogo Vasco Mariz; “Heitor Villa-Lobos: the life and works, 1887–1959”, do musicólogo finlandês Eero Tarasti.

Foi retratado também em filmes: “Bachianas Brasileiras: meu nome É Villa-Lobos” (1979), “O Mandarim”(1995) e “Villa-Lobos: uma vida de paixão” (2000). Em 1986 teve sua efígie impressa nas cédulas de quinhentos cruzados. No cinquentenário de seu falecimento (2009) foi organizado o “Seminário Internacional – Villa Lobos”, no MASP, com duração de 5 dias, onde foram apresentadas palestras, mesas redonda, avaliações, concertos etc. sobre o maestro. Foi um homem que tinha plena consciência de sua importância no cenário cultural do País, reveladas em frases como: “Eu não uso o folclore, eu sou o folclore” ou “Eu não estou aqui pra aprender, mas sim para mostrar o que eu até então construí”. Pouco antes falecer lamentou-se com um amigo: “É triste a gente morrer, ter alguns dias de vida e séculos de música na cabeça! Você sabe que eu tenho séculos de musica na minha cabeça?”.

 

 

 


José Domingos Brito - Memorial quarta, 03 de julho de 2019

AS BRASILEIRAS: CECÍLIA MEIRELES

 

AS BRASILEIRAS: Cecília Meireles

 

Cecília Benevides de Carvalho Meireles nasceu em 7/11/1901, no Rio de Janeiro. Jornalista, professora, pintora e essencialmente poeta. Foi a primeira mulher a se destacar na literatura brasileira. Orfã de pai e mãe, foi criada pela avó materna e após o curso primário na Escola Estácio de Sá, recebeu de Olavo Bilac uma medalha de ouro por ter feito o curso com “distinção e louvor”. Era uma criança bonita de olhos azuis-esverdeados. Passou a infância muito sozinha, pois a avó cuidava para que não fosse brincar na rua. A solidão e o silêncio, segundo ela mesma, foram positivos para sua carreira de poeta.

Em 1917 formou-se professora na Escola Normal do Distrito Federal, e passou a exercer o magistério nas escolas oficias do Rio Janeiro. Aos 18 anos publicou seu primeiro livro com 17 sonetos: Espectros e foi influenciada pelo Movimento Simbolista. Nesta época participou da “Revista Festa”, de um grupo católico, conservador. Vem daí sua visão espiritualista presente em suas obras. Casou-se em 1922 com o artista plástico português Fernando Correia Dias, um dos introdutores de uma nova estética no modernismo português, com quem teve três filhas: Maria Elvira, Maria Matilde e Maria Fernanda, que se tornou uma famosa atriz de telenovela. Mais tarde, numa viagem à Portugal, o marido apresentou-a à alguns intelectuais e artistas e ela se interessou em conhecer pessoalmente o poeta Fernando Pessoa. Marcaram local e hora do encontro, mas o poeta não compareceu alegando num bilhete que, consultando seu horóscopo, viu que aquele dia não era bom para um encontro de dois poetas. Pediu desculpas no bilhete e deixou-lhe um exemplar autografado de seu livro Mensagem.

A vida do casal não foi fácil devido aos preconceitos da época, que prejudicaram o artista plástico e a professora, que mantinha uma coluna no Diário de Notícias sobre educação. No inicio de 1922, quando ocorria a Semana de Arte Moderna, em São Paulo, com a qual não teve contato, escreveu poemas para um novo livro publicado no ano seguinte: Nunca mais… Poema dos poemas, com ilustrações do marido. Preocupada com a qualidade do ensino e a escassez de livros didáticos, escreveu um livro para escolas primárias, e publicou-o em 1924: Criança, Meu Amor. O livrinho foi adotado pela Diretoria Geral da Instrução Pública do Distrito Federal, dirigido por Anísio Teixeira, e aprovado pelo Conselho Superior de Ensino dos estados de Minas Gerais e Pernambuco, onde o livro foi amplamente divulgado.

Em 1925 publicou Baladas para El Rei contendo poemas, que os críticos caracterizaram como representante do “simbolismo-tardio” e outros como O espírito vitorioso (1929), Saudação à menina de Portugal (1930), Batuque, samba e macumba (1933), enquanto lecionava. Seu apego a educação e a literatura infantil motivou-a a fundar, em 1934 a primeira biblioteca infantil do Brasil. Dois anos após, seu marido, sofrendo de forte depressão, cometeu suicídio, fazendo com que ela passasse um período sem escrever e dedicando-se apenas ao magistério. Em 1936 foi nomeada para a recém fundada Universidade do Distrito Federal (atual UFRJ). Passado o período de luto, publicou, em 1939, o livro Viagem, considerado um marco de maturidade e individualidade em sua obra, com o qual recebeu o Prêmio de Poesia Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras.

Em 1940 realizou uma viagem pela Europa e EUA, onde lecionou literatura e cultura brasileira na Universidade do Texas e Lisboa, e proferiu uma série de conferências sobre estes temas. Essa retomada da vida culminou com o segundo casamento com o engenheiro Heitor Gillo. Em 1942, tornou-se sócia honorária do Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro, e empreendeu viagens pela Ásia e África sempre proferindo conferências sobre literatura, educação e folclore brasileiro. Em seguida dedicou-se a várias viagens aos Estados Unidos, Europa, Ásia e África; sempre proferindo conferências sobre Literatura, Educação e Folclore.

Em 1953, lançou sua coletânea de poemas mais conhecida, Romanceiro da Inconfidência, uma obra em que, segundo os críticos, Tiradentes surge “como um avatar de Cristo e sofrendo o sacrifício do bode expiatório, ele se torna num redentor do Brasil, que abriria a nova era da liberdade”. A obra “construiu um mosaico em que se cristalizaram vibrações captadas na terceira margem da memória coletiva” creditando à poeta a “consolidação de uma teia de mitos suscetíveis de fortalecer o sentimento da identidade nacional”. Mais tarde, a obra serviu como base para o filme Os inconfidentes (1972), dirigido por Joaquim Pedro de Andrade. Sua poesia é caracterizada por imagens sugestivas, sobretudo as de forte apelo sensorial, reflexiva, de fundo filosófico. Isto pode ser visto, digo, ouvido nos poemas “Canteiros” e “Motivo”, musicados pelo cantor Fagner.

Além de poesia, escreveu também em prosa, dedicando-se a assuntos pedagógicos e folclóricos. Produziu também prosa lírica, com temas versando sobre sua infância, suas viagens e crônicas circunstanciais. Algumas de suas obras em prosa: Giroflê, Giroflá (1956), Escolha seu Sonho (1964), seu último livro. Faleceu em 9/11/1964 e deixou muitos livros na gaveta, os quais foram publicados postumamente: O menino atrasado (1966), Flor de Poemas(1972), Flores e Canções (1979), sem contar as obras completas: Poesias Completas (1973), Obra em Prosa (1998 em 6 Volumes), Crônicas de educação (2001 em 5 volumes) e Poesia Completa, edição do centenário (2001 em 2 volumes), organizada por Antônio Carlos Secchin. No ano seguinte ao seu falecimento, recebeu uma homenagem póstuma da Academia Brasileira de Letras: o Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto de sua obra, num total de 54 livros.

Em 1989 foi homenageada pelo Banco Central do Brasil, tendo seu retrato estampado na cédula de cem cruzados novos. A fragilidade da moeda brasileira aposentou a cédula, mas seu nome continua denominando escolas, bibliotecas e logradouros públicos no Brasil e no exterior, como nas Ilhas dos Açores, numa escola da freguesia de Fajã de Cima, ou numa biblioteca de Valparaiso, no Chile. Para aquilatar sua poesia, temos a avaliação do crítico Paulo Rónai:

“Considero o lirismo de Cecília Meireles o mais elevado da moderna poesia de língua portuguesa. Nenhum outro poeta iguala o seu desprendimento, a sua fluidez, o seu poder transfigurador, a sua simplicidade e seu preciosismo, porque Cecília, só ela, se acerca da nossa poesia primitiva e do nosso lirismo espontâneo… A poesia de Cecília Meireles é uma das mais puras, belas e válidas manifestações da literatura contemporânea”.

 


José Domingos Brito - Memorial segunda, 01 de julho de 2019

AS BRASILEIRAS: NAIR DE TEFFÉ

 

 

AS BRASILEIRAS: Nair de Teffé

Nair de Teffé Hermes da Fonseca nasceu em Petrópolis, RJ, em 10/6/1886. Pintora, cantora, atriz, pianista, primeira-dama e mais conhecida como a primeira cartunista mulher do mundo. Foi também a personalidade mais destacada da belle époque brasileira. Filha do Barão de Teffé (Antônio Luís von Hoonholtz) e de Maria Luísa Dodsworth. Uma legítima representante da aristocracia imperial brasileira. Com um ano de idade, mudou-se para a França, onde concluiu os primeiros estudos nas melhores escolas de Paris e Nice, incluindo um curso de pintura com Madame Lavrut. Era considerada uma menina prodígio, mimada pelo pai e pelos irmãos. Na França descobriu seu talento para o desenho e aos nove anos produziu a primeira caricatura, que lhe valeu 8 horas de castigo num quarto escuro. Desenhou o “retrato” da freira professora, de nariz comprido, Ao ser descoberta pela madre superiora, recebeu o castigo e um estímulo para seguir a profissão de caricaturista. Se recebeu tamanho castigo foi porque o desenho saiu muito bom.

 

Retornou ao Brasil em 1906 e inicia a carreira de caricaturista desenhando personalidades da alta sociedade carioca, as quais são expostas em conhecidas lojas do Rio de Janeiro: Casa David e Chapelaria Watson. Em julho de 1909 publicou seu primeiro trabalho (“A artista Rejane”) na revista “Fon-Fon”. No ano seguinte publicou na mesma revista “A Galeria de Elegâncias”, as famosas da época. Ainda em 1910 publicou a série “Galeria das Damas Aristocratas”, em cores, na revista “Careta”. Em seguida vieram as personalidades masculinas – “Galeria dos Smarts” – publicada na Gazeta de Notícias. Além destas, teve suas caricaturas publicadas nas revistas “O Binóculo”, “O Ken”, “O Malho” e no jornal “Gazeta de Petrópolis”. Tinha um traço ágil e sabia transmitir bem o caráter das pessoas.

Na França seus trabalhos apareceram nas revistas “Fantasie”, “Femina”, “Excelsior” e “Le Rire” . Em junho de 1912 realizou uma exposição individual no salão do “Jornal do Comércio”, onde reuniu duzentas caricaturas. A exposição foi inaugurada pelo Presidente da República, seu namorado e futuro marido, marechal Hermes da Fonseca. Ao casar-se, em dezembro de 1913, não pode mais conciliar as funções de caricaturista e primeira-dama. Foi militante feminista quando ainda nem se pensava nisso, com um comportamento avançado para a época. Lançou no Brasil a moda de calças compridas para mulheres, permitindo-lhe montar cavalo como os homens. Promovia saraus no Palácio do Catete (residência presidencial), que ficaram famosos por introduzir o violão nos salões da alta sociedade. Em sua paixão por música popular, reunia amigos para recitais de modinhas. Noutras ocasiões, frequentava o “Bar do Jeremias”, reduto de boêmios e intelectuais.

Era realmente uma primeira-dama diferenciada em todos os aspectos. É inexplicável o fato do cinema brasileiro não se interessar em fazer uma vídeo-biografia dessa mulher. Aliás, seu casamento em Petrópolis foi filmado e exibido em São Paulo, Curitiba e Rio Grande, mas encontra-se desaparecido. Num dos saraus, fez o lançamento do “maxixe” Corta Jaca, composto por sua amiga Chiquinha Gonzaga, no Palácio do Governo. O evento foi considerado um acinte, uma quebra de protocolo e causou um escândalo na sociedade carioca, ao ponto do senador Rui Barbosa proferir um discurso de protesto no Senado Federal, em 7/11/1914, pela promoção de músicas cujas origens estavam nas danças lascivas e vulgares da época. No mesmo ano, último de governo do marido, fez uma travessura por ocasião de uma reunião ministerial: desenhou na roda de seu vestido de gala as caricaturas de todos os Ministros da República.

Dois anos após o fim do mandato presidencial, mudou-se de novo para a França. Lá realizou algumas exposições, publicou charges no livro de crônicas de Otto Prazeres (Petrópolis, a encantadora), publicou na “Revista da Semana” 30 “cabeças” de ilustres brasileiros e fez algumas caricaturas para a revista “Fon-Fon”. Voltou para o Brasil por volta de 1921 e participou da Semana de Arte Moderna, em 1922. Após a morte do marido, em 1923, foi retomando a vida sem abrir mão de suas opiniões avançadas. No ano seguinte deu uma entrevista e aproveitou para protestar; e o fez lançando as bases do movimento feminista, que surgiria anos depois: “Por que permitir que os homens continuem a atrapalhar a vida econômica do sexo frágil… disputando-lhe os empregos e os cargos ao alcance de suas forças e capacidades?”

Decidiu voltar a morar em Petrópolis e foi eleita, em 1928, presidente da Academia de Ciências e Letras, que extinguiu em 1929 e fundou em seu lugar a Academia Petropolitana de Letras, a qual presidiu até 1932. Já era integrante da Academia Fluminense de Letras. Com o falecimento do pai, retornou ao Rio de Janeiro, em 1932, e com a herança recebida adquiriu um terreno, onde construiu o Cinema Rian (anagrama de Nair), na Avenida Atlântica. Pretendia incentivar a arte cinematográfica, mas teve dificuldades para administrar o empreendimento. Os problemas financeiros, inclusive com o “jogo-do-bicho”, que apreciava, levaram-na vender o cinema em 1946. Conta-se que o vício no jogo levou-a a perder, também, a ilha Francisca, em Angra dos Reis, uma herança deixada pelo marido.

Sua situação econômica foi se agravando, e com o pouco que restou, comprou uma casa em Niterói e passou a levar uma vida reclusa com os três filhos adotados. Em 1959 foi “redescoberta”, aos 73 anos, por Herman Lima, (autor da História da caricatura no Brasil), que incentivou-a a refazer alguns desenhos para incluir em seu livro. Em seguida voltou a fazer caricaturas de várias personalidades da vida política e por um breve período retomou a vida profissional, porém com alguns percalços. A pensão deixada pelo marido não dava para custear as despesas e em 1970 quase foi despejada de sua moradia. Neste ano, por decisão do presidente Médici, conseguiu um reajuste na pensão, fato que levou-a fazer elogios ao general-ditador. Fato, também, que gerou críticas dos intelectuais de esquerda, que não compreenderam sua situação econômica.

Em 1979 esteve em São Paulo, onde foi homenageada no II Salão de Humor e Quadrinhos, promovido pela Universidade Mackenzie. No início da década de 1980 a saúde deu sinais de alerta e no ano seguinte teve uma infecção pulmonar agravada por insuficiência cardíaca. Em 10/6/1981, no dia em que completou 95 anos, faleceu e foi sepultada junto ao marido. Em 1982 os cartunistas Jal e Gualberto, entre outros, criaram o “Centro Artístico Rian” com o objetivo de dar apoio legal, jurídico e operacional na luta pela valorização do artista gráfico. Sua atribulada vida foi contada na biografia realizada por Antonio Edmilson Martins Rodrigues: Nair de Teffé: vidas cruzadas, publicada pela editora da Fundação Getúlio Vargas, em 2002.

 

 

 


José Domingos Brito - Memorial domingo, 30 de junho de 2019

ANDRÉ REBOUÇAS

 

 

OS BRASILEIROS: André Rebouças

 

André Pinto Rebouças nasceu em 13/1/1838, em Cachoeira, Bahia. Engenheiro, abolicionista e inventor. Seu pai, Antônio Pereira Rebouças era advogado, deputado e conselheiro de Dom Pedro II. Ao lado de Machado de Assis, Cruz e Souza, José do Patrocínio, foi um dos representantes da pequena classe média negra em ascensão no 2º Reinado. Em 1842, a família mudou-se para o Rio de Janeiro, onde concluiu os primeiros estudos e ingressou no curso de engenharia da Escola Militar, junto com  o irmão Antônio, em 1854. Após formados são promovidos a primeiro-tenente, em 1858.

Em 1861, recebem uma bolsa de estudos e viajam à Europa para aprofundar os estudos de engenharia em ferrovias, portos e transporte marítimo, na França e na Inglaterra. De volta ao Brasil, em novembro de 1862, foram trabalhar no aperfeiçoamento dos portos e fortificações brasileiras. Em 1864 André alistou-se no Exército e foi para a Guerra do Paraguai na condição de engenheiro militar. Na ocasião desenvolveu um torpedo, que foi utilizado com sucesso durante as batalhas. Devido a problemas de saúde, teve que retornar ao Rio de Janeiro antes do fim da guerra. Foi nomeado Diretor das Docas da Alfândega em 1866 e permaneceu até 1871 trabalhando em diversos projetos para novos portos: João Pessoa, São Luís, Maranhão, Recife e Salvador. Junto com o irmão Antônio, apresentou à Corte o projeto de construção da estrada de ferro ligando Curitiba ao litoral, na cidade de Antonina. Na execução do projeto, o trajeto foi alterado para o porto de Paranaguá. Até hoje essa obra impressiona pela ousadia de sua concepção.

Demitido do cargo por motivos políticos, embarcou de novo, em 1872, para a Europa e Estados Unidos, onde sofreu preconceito de cor: foi impedido de se hospedar em alguns hotéis, entrar em restaurantes, assistir operas em teatros etc. Reagiu ao seu modo, discreto, e anotando em seu diário, que manteve durante toda a vida. Na viagem pela Europa, se empenhou na obtenção de recursos para auxiliar Carlos Gomes, autor da ópera O Guarani. De volta ao Rio de Janeiro, passou a evitar o convívio social na Corte e intensificou a publicação de artigos na imprensa. Contratado pela Escola Politécnica, dividiu suas atividades entre lecionar e batalhar pela abolição da escravatura junto com Joaquim Nabuco e outros intelectuais. Participou da criação da Sociedade Brasileira contra a Escravidão, Sociedade Abolicionista e a Sociedade Central de Imigração.

Seu envolvimento com a abolição não é apenas intelectual. Em 1883 foi eleito tesoureiro da Confederação Abolicionista, destacando-se como financiador e orientador da campanha no Rio de Janeiro. Com visão progressista, contrapunha-se a todos os tipos de escravidão e lutava contra a “reescravização do imigrante pelos donos da terra”. Dentre os abolicionistas, foi o que mais anteviu as profundas implicações da eliminação da mão-de-obra escrava. Em suas palavras: “escravidão não está no nome e sim no fato de usufruir do trabalho de miseráveis sem pagar salário ou pagando apenas o estrito necessário para não morrer de fome… Aviltar e minimizar o salário é reescravizar”.

Defendeu a emancipação e regeneração do escravo através da aquisição da terra. A transformação da agricultura brasileira deveria se dar com uma reforma agrária contemplando os negros libertos. Seu pensamento dirigia-se ao dia seguinte, quando os escravos fossem libertos e se mantivessem tão pobres e sem direitos como sertanejos. Tais ideias foram expostas em seu livro Agricultura nacional, estudos econômicos: propaganda abolicionista e democrática. Caso suas propostas prosperassem, a distribuição da riqueza e o problema racial no Brasil estariam noutro patamar. Seriam dois grandes problemas abatidos simultaneamente. Tinha prestigio junto a Dom Pedro II e a Princesa Isabel, dos quais desfrutava uma amizade pessoal. No último ano do império, recebeu do imperador diversos encargos e participou ativamente dos acontecimentos políticos do País.

No grande baile imperial, na Ilha Fiscal, em 9/11/1889, às vésperas da Proclamação da República, foi recusado por uma dama convidada para dançar. Observando o constrangimento não só dos dois, mas de toda a Corte Imperial, D. Pedro II pediu à Princesa Isabel para intervir. A mulher que assinou a Lei Áurea não podia deixar aquilo barato. Saiu altiva pelo meio do salão sob o olhar estarrecido da plateia e pegou o “Negão” pra dançar. Por que nenhum cineasta brasileiro se interessa em filmar estas cenas? O registro curioso de dois grandes nomes da História em situações excepcionais. No momento discute-se ardorosamente se Machado de Assis era mais negro do que se apresenta nas fotos. Uma briga danada pela posse do ilustre escritor, quando se sabe conforme dito no inicio, que Machado era parte da classe média negra em ascensão. Não entendo esse “cabo de guerra” com Machado, quando temos André Rebouças no panteão, totalmente esquecido. Mas isto é tema de outro ensaio. Retomemos com os fatos finais da vida do nosso Memorável.

Com a instauração da República, manteve-se fiel à monarquia e seguiu junto com a família real no “Paquete Alagoas” no exílio com destino à Europa. Viveu dois anos em Lisboa, onde atuou como correspondente do jornal “The Times”, de Londres e colaborador da “Gazeta de Portugal”. Em seguida transferiu-se para a França e passou a viver em Cannes até a morte de Dom Pedro II, em 1891. No ano seguinte, aceitou convite para trabalhar em Luanda e passou a colaborar com alguns países africanos. Em meados de 1893 foi viver em Funchal, na Ilha da Madeira, até 9/5/1898, quando foi encontrado morto no mar em frente a sua casa. As homenagens e o reconhecimento público dirigidos à ele e seu irmão Antônio tem se proliferado em diversos estados brasileiros, tais como a grande avenida em São Paulo, o túnel no Rio de Janeiro e a cidade de Rebouças, no Paraná. A mais recente ocorreu em 2015, com seu nome dado ao Navio André Rebouças.

Deixou alguns livros publicados não apenas sobre o abolicionismo: A sêcca do norte, publicado pela Editora do Povo, em 1877, hoje considerado raríssimo, e outros republicados tais como Propaganda abolicionista e democrática; Diário da Guerra do Paraguai; Reforma e utopia no contexto do segundo império, que podem ser encontrados em sebos e antiquários. Sua vida e obra têm sido expostas na bibliografia referente ao 2º Império, além de algumas biografias: O quinto século: André Rebouças e a construção do Brasil, de Maria Alice Rezende de Carvalho (Ed. Revan, 1998); André Rebouças: um engenheiro do Império, de Alexandro Dantas Trindade.(Ed. Hucitec, 2011) e Da abolição da escravatura à abolição da miséria: a vida e as ideias de André Rebouças, de Andréa Santos Pessanha (Ed. Quartet, 2005).

 


José Domingos Brito - Memorial quinta, 27 de junho de 2019

AS BRASILEIRAS: ZUZU ANGEL

 

AS BRASILEIRAS: Zuzu Angel

 

Zuleika Angel Jones nasceu em Curvelo, MG, em 5/6/1921. Estilista e pioneira na história da moda brasileira. Ainda criança foi morar em Belo Horizonte, e começou a costurar e criar modelos de roupas para as primas e amigas. Na juventude foi morar em Salvador, BA, onde as cores e a cultura contribuíram para a definição do estilo de suas criações, onde prevalecem as cores e motivos tropicais.

 

Em 1947 fixou residência no Rio de Janeiro e, 10 anos depois, abriu sua pequena loja em Ipanema. Com um estilo próprio e linguagem pessoal, em suas peças reinava uma misturas de tecidos, cores e estampas de animais ou temas regionalistas e folclóricos. Era uma inovadora, mas não tinha a pretensão de se tornar sofisticada costurando só para a elite carioca; seu ideal era vestir a mulher comum. Costumava dizer: “Eu sou a moda brasileira”. Por aqui ninguém duvidou disso e no exterior seu estilo agradou, por exemplo, Kim Novak, Joan Crawford e Lisa Minelli, que tornaram-se suas clientes. Seu estilo pessoal agradou também o estadunidense Norman Angel Jones, com que se casou em 1943, e teve três filhos: Stuart (1945), Ana Cristina (1948) e Hildegard (1949)

O casal separou-se em 1960 e sua carreira como estilista decolou na década seguinte atingindo o mercado internacional. Além de costurar, desenhava e pintava suas roupas. O anjo, de seu sobrenome, passou a ser uma das marcas registradas de suas criações. Foi ela quem trouxe para o Brasil e popularizou no universo da moda nacional o termo “fashion designer”. Em seu primeiro desfile em Nova Iorque, em 1970, lançou a coleção internacional “Dateline Collection” na sofisticada loja “Bergdorf Goodman”, ao som de músicas folclóricas brasileiras. Seus modelos fizeram sucesso também em Londres e participou de desfiles com os costureiros Valentine e Yves Saint Laurent. Pouco depois suas roupas passaram a ser vendidas em lojas de renome internacional, como Saks, Lord & Taylor, Henry Bendell e Neiman Marcus.

Nos “anos de chumbo” da ditadura brasileira, seu filho, jovem estudante de economia, passou a integrar o MR-8, um grupo guerrilheiro que combatia a ditadura militar. Em 14/4/1971 foi preso, torturado e assassinado na madrugada do mesmo dia no Centro de Informações da Aeronáutica. O governo continuou espalhando cartazes como “Procurado” enquanto a imprensa e as autoridades davam-no como “desaparecido”. Daí em diante, Zuzu passou a procurá-lo e a cobrar o Governo pela recuperação do corpo de seu filho. A cobrança chegou a envolver os EUA, país de seu ex-marido e pai de Stuart. Utilizando-se dos recursos de estilista, criou uma coleção estampada com manchas vermelhas, pássaros engaiolados e motivos bélicos. O anjo, ferido e amordaçado em suas estampas, tornou-se também o símbolo do filho.

Em setembro do mesmo ano, realizou um desfile-protesto no consulado do Brasil em Nova York. Os jornais internacionais deram a notícia em manchetes: o canadense The Montreal Star estampou: “Designer de moda pede pelo filho desaparecido”; o Chicago Tribune detalhou: “A mensagem política de Zuzu está nas suas roupas”. Realmente, ela utilizou as “armas” que dispunha na luta para encontrar o corpo do filho. Em maio de 1973 procurou o general Ernesto Geisel pedindo ajuda na localização do corpo do filho. Apelou a diversos políticos e celebridades para que ajudassem a encontrar o corpo. Durante a visita do secretário de estado dos EUA, Henry Kissinger, ao Brasil em 1976, chegou a furar o bloqueio da segurança para entregar-lhe um dossiê com os fatos sobre a morte do filho, também portador da nacionalidade americana.

Um ano antes já havia feito a mesma coisa, entregando um dossiê à esposa do general Mark Clark, comandante das tropas aliadas no front italiano durante a II Guerra Mundial, que estava em visita ao Brasil. O caso também chegou ao Senado dos EUA através de um discurso do senador Edward Kennedy, a quem Zuzu fez chegar a denúncia da morte do filho. Seu desespero e destemor beirava a temeridade. Certa vez tomou da mão de uma aeromoça o microfone de bordo para anunciar aos passageiros “que desceriam no Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro, Brasil, país onde se torturavam e matavam jovens estudantes”. A luta para recuperar o corpo do filho chegou a um ponto onde sua segurança pessoal passou a ser ameaçada. Quando diziam que ela era uma pessoa corajosa, ela retrucava: “Eu não tenho coragem, coragem tinha meu filho. Eu tenho legitimidade.”

Em princípios de abril de 1976, ela deixou na casa de Chico Buarque de Holanda, um bilhete que deveria ser publicado caso algo lhe acontecesse: “Se eu aparecer morta, por acidente ou outro meio, terá sido obra dos assassinos do meu amado filho”. Em 14/4/1976, no mesmo dia em que a morte do filho completou 5 anos, ela dirigia um Karman Guia, que derrapou na saída do Túnel Dois Irmãos, saiu da pista, chocou-se contra a mureta de proteção, caiu na estrada abaixo e morreu instantaneamente. O “acidente” só foi elucidado em 1998, quando a Comissão Especial Sobre Mortos e Desaparecidos Políticos julgou o caso e reconheceu o regime militar como responsável pela morte da estilista. Segundo depoimentos, ela foi jogada para fora da pista por um carro pilotado por agentes da repressão. Em 2013, a WikiLeaks vazou um documento secreto do governo norte-americano datado de 10/5/1976, comentando a morte de Zuzu e mostrando preocupação com o fato e sua repercussão no Brasil e no exterior. O documento ressaltava que a hipótese de ter havido “jogo sujo” por parte das forças de segurança não é estranha nem pode ser descartada.

Zuzu foi homenageada em livros, música, filme e com seu nome no Túnel, onde morreu. Chico Buarque compôs a música Angélica, em 1977, falando de seu martírio; em 1988 José Louzeiro publicou sua biografia romanceada Em carne viva; em 1993, sua filha, a jornalista Hildegard Angel, criou o Instituto Zuzu Angel de Moda, no Rio de Janeiro; em 2006, o cineasta Sérgio Rezende dirigiu Zuzu Angel, filme retratando sua vida e a busca do corpo de seu filho. Ao completar 50 anos da morte de Stuart Angel, em 1/4/2014, o espaço Itaú Cultural, de São Paulo, apresentou a mostra “Ocupação Zuzu”, onde foi apresentado um filme feito pela rede norte-americana NBC. Trata-se do filme, encontrado anos depois, sobre aquele desfile realizado em 1971, no Consulado do Brasil, em Nova Iorque, que deu inicio a peregrinação de Zuzu Angel. Para fechar as homenagens com chave de ouro, temos seu nome inscrito em letras de aço no “Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria”, em 12/4/2017.

 


José Domingos Brito - Memorial terça, 25 de junho de 2019

OS BRASILEIROS: DELMIRO GOUVEIA

 

OS BRASILEIROS: Delmiro Gouveia

 

Delmiro Augusto da Cruz Gouveia nasceu em Ipu, Ceará, em 5/6/1863. Pioneiro da industrialização no País com o aproveitamento do potencial hidrelétrico. Seu pai faleceu na Guerra do Paraguai e, ainda criança, mudou-se com a família para Goiana (PE) e em seguida para Recife, onde a mãe veio a se casar com o advogado Meira Matos, que virou seu padrasto e patrão. Com a morte da mãe, começou a trabalhar, aos 15 anos, como cobrador da Brazilian Street Railways Company, chamada

OS BRASILEIROS: Delmiro Gouveia

 

Delmiro Augusto da Cruz Gouveia nasceu em Ipu, Ceará, em 5/6/1863. Pioneiro da industrialização no País com o aproveitamento do potencial hidrelétrico. Seu pai faleceu na Guerra do Paraguai e, ainda criança, mudou-se com a família para Goiana (PE) e em seguida para Recife, onde a mãe veio a se casar com o advogado Meira Matos, que virou seu padrasto e patrão. Com a morte da mãe, começou a trabalhar, aos 15 anos, como cobrador da Brazilian Street Railways Company, chamada “maxambomba”, o primeiro trem urbano do país. Foi sendo promovido até chegar a chefe da Estação de Caxangá.

Dotado de espírito empreendedor, foi se aventurar pelo interior do Estado como caixeiro-viajante, em 1881. Dois anos depois, casou-se com a filha do tabelião de Pesqueira e voltou para o Recife. Viu no comércio de peles de cabras e ovelhas um bom negócio e, a partir de 1883, passou a viajar pelas cidades do interior, obtendo grande sucesso neste negócio. Três anos após, estabeleceu-se no ramo de couros e passou a trabalhar, comissionado, junto ao imigrante sueco Herman Theodor Lundgren, que viria a ser o fundador das Casas Pernambucanas. Em 1889 foi trabalhar no curtume do americano John Sanford, com matriz na Filadélfia. Em 1892 assumiu a gerência da filial brasileira, aprendeu a falar inglês, passou um tempo na matriz e na volta adquiriu as instalações do escritório da empresa que faliu. Em 1896 criou sua própria empresa, a Delmiro Gouveia & Cia. e foi contratando os melhores funcionários das empresas concorrentes.

Em 1898, decidiu alavancar o empreendimento e instalou um “mercado modelo” no terreno comprado do Derby Club, no Recife. Uma enorme área com 264 boxes com balcão de mármore e mandou erguer um palacete para sua residência. Em 1899 inaugurou o “Derby”, um grande centro comercial e de lazer com mercado, hotel de luxo, cassino, parque de diversões e loteamento residencial. Uma inovação no comércio, vista hoje como o primeiro “shopping center” do país. Na época, o poder político em Pernambuco estava com Rosa e Silva, vice-presidente da República. Inovador, agressivo no mercado e desligado dos políticos dominantes, Delmiro era visto como uma ameaça aos grandes usineiros. Jovem, rico, e uma tumultuada vida amorosa, era alvo constante de fofocas, escândalos e denúncias na imprensa, mantendo-o em constante evidência.

Tudo isso era agravado pela oposição que fazia ao poderoso grupo político liderado por Rosa e Silva. Assim, suas mercadorias eram constantemente apreendidas e de vez em quando recebia ameaças de morte. Em janeiro de 1900, o mercado foi incendiado supostamente a mando de Rosa e Silva, com quem ele foi tomar satisfações. Por ter agredido o vice-presidente, foi preso. Mas foi solto no dia seguinte através de um “habeas corpus”. Sua esposa abandonou-o, retornando à casa dos pais, e ele volta ao comércio de couro, abrindo nova empresa, a Iona & Krause. Em setembro de 1902, apaixonou-se por uma jovem menor de idade, propõe uma fuga e se escondem na Usina Beltrão. A jovem, de 16 anos, era filha do governador de Pernambuco, nascida fora do casamento. No mês seguinte a jovem é resgatada e ele fugiu num vapor em direção a Penedo (AL).

Em 1903 instalou-se em Pedra, um lugarejo perdido no sertão, mas de localização estratégica para os negócios que pretendia instalar. A cidade, localizada na Microrregião alagoana do Sertão do São Francisco, é uma divisa com três estados: Pernambuco, Sergipe e Bahia. Ali comprou uma fazenda às margens da Ferrovia Paulo Afonso e começou a construir uma grande empresa com currais, açude e prédios para o curtume. Pouco depois mandou buscar a jovem que havia sido raptada – Carmélia Eulina do Amaral Gusmão – com quem teve três filhos. Sua empresa prosperou e em pouco tempo transforma-se num grande entreposto comercial de peles de bode e carneiro. Em seguida passou a explorar o potencial energético da Cachoeira de Paulo Afonso. Em dois anos construiu uma Usina Hidrelétrica com potência de 1.500 HP, inaugurada em 1913. No ano seguinte fundou a “Companhia Agro Fabril Mercantil” a primeira fábrica na América do Sul a fabricar linhas de costura e fios para malharia. A I Guerra Mundial (1914) impediu a chegada dos produtos ingleses e garantiu a conquista desse mercado. Em pouco tempo a fábrica estava exportando para o Peru e Chile. Construiu uma vila operária, abriu estradas e os funcionários recebiam vários benefícios. A “Fábrica de Linhas Estrela” e a cidade que ele construiu eram modelos para a época. Em 1943 a cidade passou a se chamar Delmiro Gouveia.

O poderio econômico da empresa – em 1916 tinha 2000 funcionários e produzia mais de 500 mil carretéis de linha por dia – chamou a atenção do conglomerado inglês Machine Cotton, que tentou por todos os meios comprar a fábrica. Por motivos políticos e questões de terras, entrou em conflito também com vários coronéis da região. Em 10/10/1917 ele estava em frente ao seu chalé, quando foi assassinado com três tiros disparados por pistoleiros. O assassinato é atribuído pela maioria de seus biógrafos aos coronéis José Rodrigues de Lima (de Piranhas) e José Gomes de Lima (de Jatobá), os quais entraram em conflito com ele por motivos políticos e econômicos. Nunca se descobriu quem foram os reais mandantes do assassinato, mas houve quem incluísse no rol dos suspeitos os diretores da Machine Cotton. Os herdeiros não resistiram e foram pressionados a vender a fábrica à empresa inglesa, detentora na América Latina da marca “Linhas Corrente”. Ato contínuo, os ingleses destruíram os prédios da fábrica e lançaram as máquinas e equipamentos no Rio São Francisco, livrando-se da incômoda concorrência.

Devido ao seu ímpeto empreendedor, inovações e conquistas na área econômica e industrial, tornou-se um mito na história do Brasil. No centenário de seu nascimento, em 1963, foram realizados eventos em algumas capitais e homenagens no Congresso Nacional. Em 1977, estreou a peça O Coronel dos Coronéis, escrita por Maurício Segall, No ano seguinte, o cineasta Geraldo Sarno realizou o documentário Delmiro Gouveia: O Homem e a Terra, que, sete anos depois, foi transformado no filme Coronel Delmiro Gouveia. Sua trajetória já foi contada em diversos livros biográficos e de ficção. Foi o primeiro industrial brasileiro com forte caráter nacionalista, que enfrentou o “imperialismo econômico”, conforme seu depoimento publicado no livro de Olympio Menezes: Itinerário de Delmiro Gouveia. Recife, IJNPS/MEC, 1963. p. 134. “Nossa Fábrica ocupa 2.000 operários brasileiros e nossa linha é fabricada com matéria prima exclusivamente nacional. Esperamos que o público não deixará de comprar a nossa linha, de superior qualidade, para dar preferência a mercadoria estrangeira ou com rótulo aparente de nacional. Se não fosse a linha “Estrela” o preço de um carretel estaria por 500 réis ou mais; o público deve o benefício do barateamento deste artigo de primeira necessidade, à nossa indústria”.

Em 1993, a Federação das Indústrias de Pernambuco, o “Diário de Pernambuco”, a FUNDAJ e o BANDEPE instituíram o “Prêmio Delmiro Gouveia de Vanguarda Industrial”, destinado a distinguir anualmente “as indústrias que se destacarem pela adoção de inovações nas áreas de qualidade, relações trabalhistas, gestão empresarial e interação com a comunidade”.

 


José Domingos Brito - Memorial segunda, 24 de junho de 2019

OS BRASILEIROS: ZEFERINO VAZ

 

 

OS BRASILEIROS: Zeferino Vaz

 

Zeferino Vaz nasceu em São Paulo, em 27/5/1908. Médico, professor e fundador da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP), da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e reitor da Universidade de Brasília (UnB). Os primeiros estudos se deram no Liceu Coração de Jesus. Poderia ter sido um grande ator, pois atuou no teatro do colégio, ao lado de Rodolfo Mayer, em várias peças e também no cinema. Perdemos um ator e ganhamos um reitor. Uma troca da qual não podemos  reclamar.

 

Em 1926 ingressou na Faculdade de Medicina de São Paulo e, logo, tornou-se monitor da cadeira de parasitologia. Em seguida foi estagiário no Instituto Biológico de São Paulo, onde foi nomeado assistente, em 1930, e fundou, junto com Clemente Pereira, a seção de parasitologia animal. Formou-se médico em 1931 e foi assistente do professor André Dreyfuss na cadeira de histologia e embriologia da recém fundada Escola Paulista de Medicina, atual UNIFESP-Universidade Federal de São Paulo. Em 1932 participou ativamente da Revolução Constitucionalista, deflagrada em São Paulo. Aprofundou os estudos em sua especialidade e pouco depois foi lecionar Zoologia e Parasitologia na Escola de Medicina Veterinária da USP, onde foi diretor entre 1936-1947 e 1951-1964.

Em 1947 coordenou a Comissão criada para implantar uma faculdade de medicina no interior de São Paulo. Quatro anos após organizar o currículo e planejar a instalação numa antiga fazenda de café, foi criada a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. No discurso de posse como diretor, em 1951, deixou claro suas intenções: “Minha gente, vim criar uma Faculdade de Medicina. Mas não vim criar uma Faculdade de Medicina qualquer. Vou fazer daqui o melhor Centro de Educação Médica e de pesquisas científicas, no campo da medicina, do Hemisfério Sul”. Hoje a FMRP é o maior centro de formação de médicos em nível de pós-graduação do País. Em 1963, foi secretário estadual de Saúde Pública. De 1964 a 1965 foi o primeiro presidente do Conselho de Educação do Estado de São Paulo.

Logo após o Golpe Militar de 1964, foi nomeado reitor da Universidade de Brasília-UnB em substituição a Anísio Teixeira, cassado pelos militares. Fez o que pode para manter a estrutura inovadora da UnB, realizando inclusive gestões bem-sucedidas para libertar os professores que haviam sido presos durante a invasão do campus universitário por tropas da Polícia Militar e do Exército, em 9/4/1964. Apesar das limitações de verbas e das demissões de 13 professores e instrutores, o trabalho de implantação da UnB prosseguiu, segundo ele mesmo, com o intuito de “salvar a universidade da destruição”. Nessa lida, chegou a impedir o afastamento de indivíduos de alta qualificação, como Oscar Niemeyer e Almir Azevedo, acusados de subversão. Em certa ocasião foi chamado de “o reitor de direita que protegia as esquerdas”. Em 1965 pediu demissão do cargo devido ao impasse gerado pela contratação do professor Ernâni Maria Fiori, pensador católico gaúcho demitido da Universidade de Porto Alegre e aposentado com base no Ato Institucional nº 1 (9/4/1964). Foi substituído na reitoria da UnB por Laerte Ramos de Carvalho, mas continuou integrando o Conselho Diretor da Fundação Universidade de Brasília.

Em seguida, retornou a São Paulo com a missão de fundar a primeira universidade no interior do estado, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Nomeado reitor em 1966, lutou para reunir alguns dos melhores cientistas brasileiros para formar uma instituição de pesquisa sólida e respeitada, tornando a Unicamp uma das mais produtivas e respeitadas instituições de pesquisa da América. Sua filosofia de trabalho era simples até no modo de se expressar: “para funcionar uma universidade precisava primeiro de homens, segundo de homens, terceiro de homens, depois bibliotecas, depois equipamento e, finalmente, edifícios”. Assim, preocupou-se primeiramente com a contratação de pessoas capazes intelectualmente e com experiência pedagógica. Convidou cientistas e brasileiros que atuavam nos EUA e na Europa, e trouxe também professores estrangeiros.

Em 1979 a Unicamp já contava com um quadro de expressivos cientistas e pesquisadores de nível internacional: César Lattes, Gleb Wataghin, Vital Brasil, Rogério Cerqueira Leite, Giuseppe Cilento, André Tosello entre outros. No movimento de reivindicação das liberdades democráticas, mostrou-se favorável ao ressurgimento do movimento estudantil, lutou pela autonomia universitária e buscou a integração entre a universidade e a comunidade local. Manifestou-se favorável à reintegração dos professores e cientistas aposentados pelo Ato Institucional nº 5, sugerindo a imediata revisão de seus casos. Porém, com o acirramento dos movimentos políticos, foi contra a reivindicação do movimento estudantil de retorno à legalidade da UNE-União Nacional dos Estudantes, afirmando que a entidade teria sua atuação desviada para questões alheias aos interesses universitários.

Ocupou diversos cargos públicos e civis, tais como membro do Conselho Federal de Educação, Conselho Curador da Fundação SEADE, Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Academia de Letras de Ribeirão Preto, Associação Paulista de Medicina, Associação Médica Brasileira, Sociedade de Biologia de São Paulo e da American Society of Parasitologists. Foi também assessor para assuntos de educação e saúde do Grupo de Assessoria e Participação (GAP) do governo de São Paulo. Na vida acadêmica participou de vários congressos científicos, destacando-se como convidado da IV Conferência Internacional de Educação em Washington.

Além do seu legado como empreendedor de sólidas instituições, deixou publicado 65 trabalhos de investigação científica no campo da parasitologia (helmintologia) em revistas americanas, inglesas, francesas e brasileiras. Em 1978 deu-se por encerrada a implantação da Unicamp e a administração pro tempore de seu fundador e reitor, que se aposentou compulsoriamente aos 70 anos e passou a presidir a Fundação de Desenvolvimento da Unicamp (Funcamp). Em 1980 a saúde deu sinais de alerta e foi vitimado por um aneurisma de aorta, vindo a falecer em 9/2/1981. Entre as tantas homenagens que amealhou, seu nome foi dado ao Campus da Unicamp e ao trecho da Rodovia SP-332. A Unicamp concede, anualmente, o “Prêmio de Reconhecimento Zeferino Vaz” a docentes ativos que atuam em regime de dedicação exclusiva e que tenham se destacado nas suas funções de docência e pesquisa.

 


José Domingos Brito - Memorial domingo, 23 de junho de 2019

AS BRASILEIRAS: MARIA QUITÉRIA

 

 

AS BRASILEIRAS: Maria Quitéria

 

Maria Quitéria de Jesus Medeiros nasceu em 27/7/1792, em São José das Itapororocas, atual Feira de Santana, BA. Militar e heroína na luta pelo reconhecimento da independência do Brasil. Filha do fazendeiro português Gonçalo Alves de Almeida e Joana Maria de Jesus, perdeu a mãe aos 10 anos e assumiu o comando da casa. O pai casou novamente,  e ela não se deu bem com a madrasta, que não admitia seu comportamento independente. Não frequentou escolas, mas dominava a montaria, caçava e manejava armas de fogo.

Estava noiva, prestes a casar, entre 1821 e 1822, quando teve início na Bahia o movimento contra o domínio português. Em janeiro de 1822, a Coroa enviou as tropas portuguesas, sob o comando de Inácio Madeira de Melo. No confronto, os portugueses cometeram barbaridades, como a invasão do Convento da Lapa, onde ocorreu o martírio da freira Joana Angélica. O fato veio acirrar o ânimo da população, levando o Conselho Interino do Governo da Bahia a convocar voluntários. Maria Quitéria quis se alistar, pediu permissão ao pai, mas teve o pedido negado. Com a apoio da irmã e do cunhado, cortou o cabelo, vestiu roupas masculinas e se alistou com o nome Medeiros no “Batalhão dos Voluntários do Príncipe Dom Pedro”. 15 dias depois o pai foi buscá-la, mas o major José Antônio da Silva Castro (avô do poeta Castro Alves) defendeu-a e não permitiu seu desligamento da tropa, devido a sua disciplina militar e facilidade no manejar de armas. Seguiu com o Batalhão, agora com um saiote à escocesa acrescido ao seu uniforme, para vários combates.

Participou das batalhas na da Ilha da Maré, da Pituba, da Barra do Paraguaçu e de Itapuã. Dom Pedro enviou à Salvador o general Pierre Labatut, para organizar o combate, no qual ela teve atuação destacada. Em 2/7/1823, quando terminou a “Guerra da Independência”, com a entrada do Exército Brasileiro em Salvador, a cabocla Maria Quitéria, já promovida a cadete, foi saudada e homenageada pela população. Lembremos que esta guerra durou de 1821 a 1823 e que o dia 2 de julho de 1823 ainda hoje é a data magna da Bahia, feriado em comemoração a consolidação da independência do Brasil.

Em 20 de agosto do mesmo ano, foi condecorada, no Rio de Janeiro, com a “Ordem Imperial do Cruzeiro do Sul”, numa audiência especial quando recebeu a medalha das mãos do próprio Imperador Dom Pedro I, com o discurso: “Querendo conceder a D. Maria Quitéria de Jesus o distintivo que assinala os serviços militares que com denodo raro, entre as mais do seu sexo, prestara à causa da Independência deste Império, na porfiosa restauração da Capital da Bahia, hei de permitir-lhe o uso da insígnia de Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro”. Além da comenda, foi promovida a Alferes (2ª tenente), posto em que ficou reformada. Voltou à Salvador com uma carta do imperador dirigida à seu pai, pedindo que ela fosse perdoada pela fuga de casa para lutar pelo Brasil.

A escritora e pintora inglesa Maria Graham, que viveu três anos no Brasil, estava presente nesta cerimônia e ficou tão impressionada com sua figura que desenhou seu retrato, o único que temos de Maria Quitéria. Além disso, escreveu no seu livro Journal of a Voyage (Londres, 1824), que “Maria de Jesus é iletrada, mas viva. Tem inteligência clara e percepção aguda. Penso que, se a educassem, ela se tornaria uma personalidade notável. Nada se observa de masculino nos seus modos, antes os possui gentis e amáveis”. Foi a partir daí que a nossa heroína passou a ser conhecida e valorizada entre nós. Por incrível que pareça, ainda hoje os brasileiros mantém o costume de só reconhecerem suas personalidades quando são divulgadas no exterior.

Pouco depois casou com um antigo namorado, o lavrador Gabriel Pereira de Brito, com quem teve uma filha. Em 1835 ficou viúva e mudou-se para Feira de Santana para tentar receber parte da herança do pai, falecido no ano anterior. Desistiu do inventário, devido a morosidade da justiça e foi morar com a filha em Salvador. Faleceu em 21/8/1853, aos 61 anos, quase cega e total anonimato. Encontra-se sepultada na Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento, no bairro de Nazaré em Salvador. Foi a primeira mulher brasileira a assentar praça numa unidade militar do Exército. 120 anos depois, em 1943, durante a 2ª Guerra Mundial, as mulheres passaram a ter existência oficial naquela instituição.

Em 1953, Os Correios estamparam um selo comemorativo do centenário de seu falecimento. Em 1996 foi-lhe atribuído o título de patronesse do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro. Sua imagem está exposta em todos os quartéis do Brasil. As câmaras municipais de Salvador e Feira de Santana instituíram a Comenda Maria Quitéria. Em sua cidade foi-lhe erguido um monumento no cruzamento da Av. Maria Quitéria com a Av. Getúlio Vargas, além de nomear o Paço Municipal. Seu retrato mais conhecido é uma pintura de corpo inteiro, pintado por Domenico Failutti, que atualmente integra o acervo do Museu Paulista, em São Paulo. A pintura foi baseada no retrato publicado no livro de Maria Graham.

Sua vida foi descrita em diversos livros de história do Brasil e em algumas biografias: Maria Quitéria: A Joana d`Darc brasileira (2014), de Mônica Buonfiglio; Maria Quitéria (2008), de Miriam Mambrini e A incrível Maria Quitéria (1977), de João Francisco de Lima. Sua vida e feitos vêm sendo comparados ao da mártir francesa Joana d’Arc, que também teve uma destacada vida militar.

 


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