Almanaque Raimundo Floriano
Fundado em 24.09.2016
(Cultural, sem fins comerciais, lucrativos ou financeiros)


Raimundo Floriano de Albuquerque e Silva, Editor deste Almanaque, também conhecido como Velho Fulô, Palhaço Seu Mundinho e Mundico Trazendowski, nascido em Balsas , Maranhão, a 3 de julho de 1936, Católico Apostólico Romano, Contador, Oficial da Reserva do Exército Brasileiro, Funcionário Público aposentado da Câmara dos Deputados, Titular da Cadeira nº 10 da Academia Passa Disco da Música Nordestina, cuja patrona é a cantora Elba Ramalho, Mestre e Fundador da Banda da Capital Federal, Pesquisador da MPB, especializado em Velha Guarda, Música Militar, Carnaval e Forró, Cardeal Fundador da Igreja Sertaneja, Pioneiro de Brasília, Xerife nos Mares do Caribe, Cordelista e Glosador, Amigo do Rio das Balsas, Inventor da Descida de Boia, em julho de 1952, Amigo da Fanfarra do 1° RCG, autor dos livros O Acordo PDS/PTB, coletânea de charges, Sinais de Revisão e Regras de Pontuação, normativo, Do Jumento ao Parlamento, com episódios da vida real, De Balsas para o Mundo, centrado na navegação fluvial Balsas/Oceano Atlântico, Pétalas do Rosa, saga da Família Albuquerque e Silva, Memorial Balsense, dedicado à história de sua terra natal, e Caindo na Gandaia, humorístico apimentado, é casado, tem quatro filhos, uma nora, dois genros e dois netos e reside em Brasília, Distrito Federal, desde dezembro de 1960.

Carlito Lima - Histórias do Velho Capita Friday, 10 de March de 2017

APOSENTADORIA
 


Aconteceu na sala de audiências do Fórum, ela apareceu acompanhada da delegada de mulheres. A negra Silvina surgiu com seu permanente e debochado sorriso. A delegada mandou a moça contar a surra que levou do companheiro, o servente de pedreiro Josualdo, que ali se encontrava para depor sobre sua violência intempestiva e seu ciúme incontrolável quando viu sua mulher brincando com a meninada da rua, na Chã da Jaqueira.

Josualdo arrastou-a pelo braço, entrou em casa esmurrando-a. Ele tinha um ciúme doentio pela singeleza e beleza silvestre de Silvina. Conheceram-se há três anos, quando Josualdo foi construir uma casa na praia do Pontal do Peba, foz do Rio São Francisco. Vieram morar na capital.

Como não teve infância, a maior paixão de Silvina era brincar com os meninos da rua. Por tudo isso, Josualdo tinha um doentio ciúme. Proibiu sua mulher de sair à rua e jogar com os meninos. A jovem ficava em casa acabrunhada, infeliz.

Certo tarde, debruçada na janela, assistia a meninada brincar de garrafão. Não resistiu, com sua habilidade atlética foi brincar junto aos moleques. Josualdo retornou mais cedo. Quando viu sua mulher jogando com a meninada, puxou-a com seus fortes braços. Irado esmurrou Silvina que sofria, não pela dor, mas pelo ódio em não poder com Josualdo, um touro de forte.

Foi essa a história contada no Fórum ao juiz na presença do promotor. Era o último caso da carreira do magistrado. Havia solicitado aposentadoria aos 68 anos. O último caso da sua vida como juiz.

Homem sério, correto e honesto, nosso juiz honrou a instituição. Bem casado há 40 anos, três filhos e três netos, viveu sempre para o lar. Em todo tempo de casado jamais prevaricou, fiel à esposa e a seus princípios.

Certa momento, a delegada pediu ao juiz e ao promotor para comprovarem in-loco os edemas, as sequelas da surra de Josualdo. Na sala contígua entraram apenas os quatro. A delegada pediu à Silvina mostrar as manchas no corpo. Num átimo, sem pudor e sem maldade, a negra puxou o zíper, deixou cair o vestido de chita. Deu-se uma comoção ao surgir o corpo moreno perfeito, coberto apenas por uma minúscula calcinha branca. Os seios duros e pontiagudos pareciam dois cuscuzes de chocolate. A lascívia exalada por Silvina deixou o promotor boquiaberto e o vestal juiz encantado. A delegada, percebendo o impacto, o arraso causado aos machos, mostrou os edemas e pediu que a deusa negra se vestisse.

Foi o último julgamento do Dr. juiz. Houve separação, estipulou-se uma quantia do salário de Josualdo como pensão.

O Doutor aposentou-se. Ficou sem trabalhar. Quando cansou do ócio foi ajudar na banca de advocacia de seu filho. Certa manhã de sol, nosso juiz aposentado descia de carro a ladeira do Farol.

De repente seu coração acelerou, reconheceu entre os meninos que vendiam frutas e legumes, a jovem Silvina vestida de short e uma blusa leve. Ela caminhava dengosamente em sua direção com quatro pacotes de feijão verde. Ao ver o juiz, Silvina pulou de alegria e saiu-lhe um grito espontâneo: “Doutor !”. Enfiou a cabeça dentro do carro, com um sorriso encantador e o decote mostrando os seios mais lindos que ele tinha visto em sua vida. Disse em voz clara, quase sussurrando: – “Doutor, sou muito agradecida pelo que fez. Naquele dia tive vontade de lhe dar um beijo, o senhor é um homem bonito. Se precisar de mim, dou o que o senhor quiser, é só pedir”. O Doutor emudeceu, engatou uma primeira, acelerou o carro, medo da tentação.

À noite, durante uma festa, o artista global e poeta, Chico de Assis recitou o belíssimo poema de Jorge de Lima, Nêga Fulô. Quando a voz de Chico cheia de sensualidade recitou os versos: “Essa Nêga Fulô… essa Nêga Fulô…”. Veio a imagem de Silvina, nua, na cabeça de nosso nobre e honrado juiz.

Decorrido algum tempo, o Doutor Juiz passou várias vezes pelo ponto de Silvina, sempre uma alegria quando ela o via. Até que tirou uma dúvida, perguntou-lhe a idade. “24 anos, mas pareço menos”, respondeu. O Doutor Juiz tem agora o que fazer na aposentadoria, pelo menos uma vez na semana, remoça seu corpo, sua alma, nos braços da sua Nêga Fulô.


Carlito Lima - Histórias do Velho Capita Saturday, 04 de March de 2017

CINCO HISTÓRIAS DE MÚSICAS DE CARNAVAL
 

José Luiz Calazans – O Jararaca – “Mamãe eu quero”

“TONGA DA MIRONGA DO CABULETÊ”

Durante a ditadura havia uma censura impertinente a certos compositores, entre eles Vinicius de Moraes. Sentindo a angústia do companheiro, Gesse, esposa baiana da época, o diverte, ensinando-lhe xingamentos em Nagô, entre eles “tonga da mironga do cabuletê”, que significa “o pêlo do cu da mãe”.

Com Toquinho, Vinícius compõe a canção com o mote anal, para apresentá-la num show no Teatro Castro Alves. Boa oportunidade de xingar os censores sem que eles compreendessem. O poeta ainda se divertia com tudo isso: “Garanto, no Departamento de Censura não tem um que saiba falar nagô”.

Abaixo, a letra da inspirada canção da dupla, Vinicius e Toquinho:


 

“Eu caio de bossa, eu sou quem eu sou
Eu saio da fossa, xingando em nagô
Você que ouve e não fala
Você que olha e não vê
Eu vou lhe dar uma pala,
Você vai ter que aprender
A tonga da mironga do cabuletê
A tonga da mironga do cabuletê”

* * *

“O MUNDO É UM MOINHO”

Cartola compôs uma das músicas mais bonitas do cancioneiro nacional quando percebeu sua filha caída na boemia desvairada.


 

“Ainda é cedo, amor, mal começaste a conhecer a vida
já anuncias a hora de partida, sem saber mesmo o rumo que irás tomar
Presta atenção, querida, embora eu saiba que estás resolvida
em cada esquina cai um pouco a tua vida,
em pouco tempo não serás mais o que és.
Ouça-me bem, amor, presta atenção, o mundo é um moinho
vai triturar teus sonhos tão mesquinhos, vai reduzir as ilusões a pó…”

* *   *

“MAMÃE EU QUERO”

Muita gente pensa que a música brasileira mais cantada no estrangeiro é Garota de Ipanema, na realidade é a música carnavalesca de Jararaca, Mamãe eu Quero. Jararaca, José Luiz Calazans, alagoano do Pilar, fazia a dupla mais conhecida nos anos 50, Jararaca e Ratinho. Certo dia Tom Jobim compôs com Jararaca essa beleza: “Ainda ontem eu vim de lá do Pilar… Ainda ontem eu vim de lá do Pilar…”. Que foi gravada por Djavan.

* * *

“TOURADAS DE MADRID.”

Na Copa do Mundo de 1950, quase 200 mil pessoas assistiam ao jogo Brasil x Espanha no Maracanã, todos cantando: “Eu fui às touradas em Madri. E quase não volto mais aqui. Pra ver Peri beijar Ceci. Eu conheci uma espanhola natural da Catalunha; Queria que eu tocasse castanhola e pegasse touro à unha. Caramba! Caracoles! Sou do samba, Não me amola. Pro Brasil eu vou fugir! Isto é conversa mole para boi dormir.”


 

Final de jogo um homem sentado na arquibancada chorava feito um menino, um senhor foi consolá-lo afinal o Brasil ganhou de 7 x 0 da Espanha. Ele olhou para cima esclareceu ao senhor: “Não é pelo jogo que estou chorando, é pela música, fui eu quem fiz.” Era o grande compositor Braguinha, emocionado com todo Maracanã cantando sua música, ainda hoje tocada em todos os bailes de carnaval.

* * *

“CARNAVAL ADIADO”

Em 1912 o herói, Barão do Rio Branco, faleceu dias antes do carnaval, as autoridades brasileiras, além de decretarem luto oficial, acharam que não era de bom tom que o povo saísse às ruas para brincar e cantar, adiaram o carnaval para o Sábado de Aleluia. Entretanto, os foliões preferiram divertir-se duas vezes, no carnaval e na aleluia, cantando uma musiquinha que dizia assim: “Com a morte do Barão/Tivemos dois carnavá/Ai que bom, ai que gostoso/Se morresse o marechá”. O marechal era o presidente Hermes da Fonseca.


Carlito Lima - Histórias do Velho Capita Friday, 24 de February de 2017

É CARNAVAL - TEM O BLOCO DA NÊGA FULÔ
 

Há 77 anos eu nascia num ensolarado carnaval. Aos cinco anos, fantasiado de pierrô com lança-perfume na mão, dancei no baile infantil da Fênix. Aos dez, moleque, acompanhava o carnaval de rua atrás dos blocos. Durante a juventude, depois do ano novo, aguardava o carnaval chegar acontecendo nas pré carnavalescas, Baile do Hawaii, Preto de Branco, o chiquérrimo Baile de Máscaras no Clube Fênix onde a bonita burguesia em fantasia ou smoking , caía no passo. Ao amanhecer, banho de mar na praia da Avenida.

Quinze dias antes do carnaval a COC, Comissão Organizadora do Carnaval, realizava toda noite na Rua do Comércio a Maratona Carnavalesca, além do corso, fila de carros rodeando o centro, em cada esquina uma orquestra tocava frevança. Caía no passo junto às moças virtuosas, soldados, empregadas, prostitutas, o povão se misturando na alegria do carnaval, sem diferenças, apenas sorrisos, remelexo do corpo, a alegria de traçar uma tesoura nos passos de um frevo.

 

 

Domingo anterior ao carnaval o animadíssimo Banho de Mar à Fantasia, desfile e concurso de troças, fantasias e bloco carnavalesco na Avenida da Paz. A turma de Rubens Camelo, Bráulio Leite, Pitão, Santa Rita, Alipão, os irmãos Moura, numa carroceria puxada a trator, fazia críticas à política, aos costumes, aos acontecimentos da época. Eles eram os arautos da animação, além de brincarem nas ruas, frequentavam clubes e biroscas da cidade.

Foliões fantasiavam-se com bom humor, Fusco, Tarzan, concorriam aos prêmios. Eu e amigos ficávamos apreciando a passagem dos desfiles diante à Comissão Julgadora aguardando uma tradição, os Blocos de Frevo (Vulcão, Cavaleiros do Monte, Vou Botar Fora, Tudo ou Nada, Bomba Atômica, Pitanguinha Vai à Lua, Sai da Frente, entre outros). Depois do desfile, dirigiam-se à casa do Coronel Mário Lima, meu pai esperava com um “laco-paco” de maracujá, cerveja gelada e tira-gosto. Os músicos adoravam, tocavam quatro a cinco frevos, a moçada caía no passo no enorme terraço da casa onde nasci, um bloco de cada vez, iam se revezando. O domingo terminava tarde, minha casa entulhada de amigos, convidados, penetras, o povo. O último bloco desaparecia em Jaraguá ao anoitecer.

O carnaval começava na noite do Sábado de Zé Pereira. Brincava no corso em jipe, vestido de macacão e maizena na mão, meladeira herdada dos entrudos – primeiros carnavais no Brasil. Em toda esquina da Rua do Comércio uma orquestra de frevo animava o povão, dançando, cantando, amores surgindo, amores fugindo, amor de carnaval desaparece na fumaça. Quase meia-noite ao chegar em casa tomava um banho reativante rumo ao baile do Zé Pereira no Tênis Clube ou Iate. A orquestra tocava marchinhas românticas, sambas e frevos até o dia amanhecer.

Domingo por volta das 10 da manhã a moçada já fazia fila, matinal do Clube Fênix, o calor retumbava com a música quente no Ginásio de Esportes, os foliões alegres bebiam de mesa em mesa, lança-perfume no ar. Todos conhecidos como se fosse uma imensa família, as moças bonitas, barriguinha de fora, dançavam em cima das cadeiras ao som das grandes orquestras e bateria de Escola de Samba. À noite depois do corso, mais festa, mais baile. Inexoravelmente vinham a segunda e a terça-feira, “um pé pra frente, dois prá trás, é hoje só, amanha não tem mais”. “Oh! quarta-feira ingrata chega tão depressa só pra contrariar”. A Orquestra do Maestro Passinha dava as últimas voltas no salão, finalmente o sol nascendo se dirigia à praia arrastando os foliões, dançando o Vassourinha na areia branca, fria, terminava num mergulho coletivo no mar azul esverdeado.

Cansados, molhados, sentávamos num banco da avenida, de mãos dadas ou abraçados à namorada, ainda tínhamos fôlego de beijar, e cantar: “Acabou nosso carnaval, ninguém ouve cantar canções. Ninguém passa mais, brincando, feliz, e nos corações saudades e cinzas foi o que restou… “

SAUDOSISTA É QUEM VIVE DO PASSADO. VAMOS ALEGRAR A CIDADE. NO DOMINGO DE CARNAVAL 26 DE FEVEREIRO DE 2017, DESFILE DO “BLOCO DA NÊGA FULÔ” ÀS 15 HORAS PARTINDO DOS SETE COQUEIROS. BLOCO ABERTO, TODOS ESTÃO CONVIDADOS. APANHE A SUA FANTASIA, ALEGRE SEU OLHAR PROFUNDO, QUE A VIDA DURA SÓ UM DIA, LUZIA, E NÃO SE LEVA NADA DESSE MUNDO.


Carlito Lima - Histórias do Velho Capita Friday, 24 de February de 2017

ASSISTÊNCIA VIRTUAL



Alô Dirceu, não imagina onde estou“. Falou ao celular uma voz feminina, rouca de cigarro, sotaque carioca. Dirceu reconheceu de imediato. Surpreso respondeu. “Marília, você deve estar na praia de Ipanema tomando um belo chope“.

– Estou em Maceió, meu querido, à beira da piscina do belíssimo Hotel Jatiúca. Hoje pela manhã fui deixar uma amiga no aeroporto do Galeão, viajando à Maceió, uma semana numa excursão. Não resisti, telefonei para casa, dei uma desculpa boba, comprei a passagem no balcão, estou aqui, minha irresponsabilidade é do tamanho da vontade de conhecer meu amado Dirceu à cores e ao vivo.

Deu uma gostosa gargalhada enquanto ele sobre o impacto da surpresa pensava o que fazer. Desculpou-se, pediu para retornar a ligação em 30 minutos.

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Dirceu saiu da sala foi à varanda do escritório, acendeu um cigarro, puxou uma longa tragada, recordou rápido como tudo começou. Há 15 anos se rendeu à esposa e filhos comprou um computador, inevitável no mundo moderno. Hoje não pode viver sem um, seja no escritório, nos negócios, no lazer. Tem como distração conversar nas redes sociais, boa parte da noite dedica aos amigos virtuais.

Ano passado encontrou Marília numa sala de bate papo, deram-se bem, ela viúva, ele casado há mais de 30 anos, pareciam ter a mesma visão do mundo, o gosto convergente pelas letras, artes e história, passavam horas teclando, conversando, sessentões revolucionários, ainda querendo mudar o mundo. De um tempo para cá a afinidade aumentou, troca de confidências, fotografias, às vezes conversa ao telefone. Naquele momento deu-lhe uma vontade imensa de encontrá-la no hotel, entretanto, tem respeito e amor à esposa. Contar a verdade seria um problema maior, estava a definir a estratégia quando o celular tocou. “E aí, menino, a gente vai se ver?” – “Claro que sim, espere-me no hotel, são três e meia, às quatro e meia estarei aí” marcou Dirceu, cujo nome verdadeiro é Abelardo Silveira. “Espero aqui na piscina“, respondeu Marília, nome virtual de Carolina Paes Leme, ambos 65 anos.

Pontual, Abelardo entrou no hotel às 16:30 h. atravessou o hall, parou no terraço olhando devagar, os hóspedes curtindo a tarde de verão na piscina. De repente percebeu uma mulher sozinha de biquíni deitada numa cadeira, ao se aproximar, ela levantou-se sorrindo, bem perto se encararam, olhos nos olhos, naturalmente deram-se um abraço demorado, terno e sensual. Abelardo alegrou-se com o corpo e a beleza da amiga, coroa mais bonita e conservada não havia conhecido. Abraçando-a pelos ombros levou-a ao bar onde conversaram alegremente acompanhando bebidinha e salgadinho. Eram sete da noite quando Abelardo recebeu um telefonema da mulher perguntando se iria jantar, ele confirmou, não havia percebido o tempo passar. Olhou para Marília, disse enfático.

– Minha querida nunca lhe escondi meu casamento, estou num dilema, contar à minha mulher será bem pior, por isso peço-lhe, me aguarde, eu telefono amanhã às 9 da manhã. Espere.

Em casa Abelardo ficou matutando como dar assistência quatro dias à Marília, a coroa mais bonita do Brasil. Lembrou-se, havia um problema, uma pendenga a resolver no Recife. Comunicou à mulher, dia seguinte pela manhã viajava ao Recife. Dirceu apanhou Marília na entrada do hotel, dirigindo devagar, rumaram ao Litoral Norte alagoano, mostrou praias lindas de um azul exuberante, Ipioca, Paripueira, Japaratinga, Maragogi, entrou em Pernambuco. No Recife hospedaram-se na praia de Boa Viagem.

Ao ficarem juntos e a sós no apartamento, beijaram-se, amaram-se devagar com muito carinho e ternura, como pessoas maduras. No início da tarde Abelardo resolveu o problema no bairro do Recife Antigo. Ficaram por lá visitando os casarões coloniais. As ruas estreitas, antigas, encantavam o casal sessentão. Fizeram uma noitada de vinho e amor.

Dia seguinte retornaram à Maceió, via litoral, devagar, conversando, sem importar o passado ou futuro, sábios, idosos, sabem dar valor ao presente. O tempo é um relâmpago. Durante o restante dos dias, Dirceu fez estripulias, mas conseguiu dar assistência à Marília e não foi assistência virtual.


Carlito Lima - Histórias do Velho Capita Friday, 17 de February de 2017

NO FUNDO DO MAR



Rosana estudou em colégio de freira, foi carola de igreja na juventude, quase santa em sua maturidade. Usava vestidos de mangas cumpridas, xales nos ombros, encobria o jovem corpo, ninguém sabia o que havia por baixo daqueles panos. Sua mãe, viúva, lhe alertava, mulher depois dos 25 anos fica difícil arranjar marido, está na hora de namorar para casar, tente conseguir alguém que possa lhe sustentar.

Por meio de um deputado amigo, e amante, a mãe arranjou-lhe um emprego na Secretaria de Finanças. Nessa época Rosana conheceu, namorou, Jorginho, baixo, falante, advogado de uma empresa. Sem muito amor, depois de dois anos entre namoro e noivado casaram-se na Igreja dos Martírios, muitos parentes, amigos, lua-de-mel em Salvador. Rosana casou-se virgem, assim conservou-se durante o noivado graças ao respeito do noivo, se fosse da laia de certos indivíduos, aquele cabaço havia voado há muito tempo.

 

 

Jorginho ficou surpreso com o desempenho de Rosana na cama, fogosa que nem uma égua no cio, montou e se fez montada, ele voltou da lua-de-mel exausto. Ao retornar à vida normal ficou preocupado com sua ardente mulher, daria conta? Entretanto, Rosana continuou em vestidos longos, cinzentos, assexuados. Somente Jorginho no mundo conhecia verdadeiramente aquela loba cheia de furor na cama, na rua uma dama. Anos passaram, dois filhos crescidos, Rosana continuou do trabalho para missa, para casa. Tinha um tratamento respeitoso ao marido, excelente dona de casa. Só não abria mão de seu banho de mar aos domingos na praia da Pajuçara, defronte ao apartamento. Jorginho não gostava de praia, ela sozinha. Sempre com um maiô discreto.

Em certo momento, as coisas foram mudando, Rosana tornou-se mais alegre, havia felicidade explícita em seu sorriso, chamava Jorginho de meu amor, coisa nunca vista nos 20 anos de casados, seus vestidos encurtaram, colaram nas curvas do corpo, na praia era um biquíni, Rosana tornou-se outra mulher. O marido ficou com pulga, carrapato, piolho e o cão atrás da orelha, nunca vira uma transformação tão radical em uma pessoa. Ele passava o dia a matutar. O que estaria acontecendo? Será influência de alguma colega de repartição? Será que pirou? Deixou de acreditar nos santos? Está me galhando? Ao pensar nessa última pergunta, deu-lhe uma tristeza profunda, aquela depressão típica, exclusiva de corno. Não teve coragem de esclarecer tão delicado assunto com a esposa. Ficou sofrendo calado, sozinho, o pior sofrimento.

Certa manhã tomou decisão, foi ao centro da cidade, subiu no Edifício Breda, conversou com um detetive particular. Contou toda história a Audálio. Ele pediu-lhe uma foto da mulher e seu itinerário normal. Jorginho, contrariado, sentindo-se um traidor, deu-lhe as informações dos locais mais frequentados, inclusive o banho de mar aos domingos, um mergulho na praia da Pajuçara em frente ao seu edifício.

Audálio fez o trabalho, primeira semana sem algum fato concreto, nenhuma pista de traição. Continuou. Seguiu a mulher por toda cidade, nada de anormal, um mês, dois meses de investigação. Jorginho desistiu, era só uma transformação de mulher madura, medo de velhice prematura, como disse o psicólogo. Pagou a Audálio. O detetive ficou frustrado, uma desmoralização, nunca havia desistido, perdido um caso.

Audálio, sem cliente, por distração, continuou seguindo a mulher de Jorginho em todos os lugares, até que num belo domingo, percebeu Rosana entrar o mar, alugou uma bóia de um rapaz alto, espadaúdo, que a ajudava segurando a bóia, chegaram ao fundo até dar água no pescoço. O detetive tirou várias fotos de Rosana apegada ao moreno. Por baixo da bóia, ninguém percebia, discretamente tirava o biquíni, entrava em erupção na água tépida da Pajuçara. Em casa, Audálio revelou as fotos, eram contundentes, amor no fundo do mar, sentiu-se triunfante. Pensou no marido, era apenas mais um corno no mundo, estava feliz, não valia a pena, deu-se por vitorioso, rasgou as fotografias.


Carlito Lima - Histórias do Velho Capita Tuesday, 14 de February de 2017

LEMBRANÇAS DA ACADEMIA



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Academia Militar das Agulhas Negras

O tempo passa, o tempo voa, nesse final de ano serão comemorados 55 anos da formatura de minha turma da Academia Militar das Agulhas Negras – AMAN – 1961. Muitas histórias, lembranças, daquela época estão nítidas em minha mente, como se fosse ante ontem. Foram três anos de rígida formação militar, intelectual e física. Entretanto, a vida de cadete fora dos muros da Academia foi vivida com muita intensidade.

Certa noite gelada de inverno, resolvemos ir à boate Casablanca, éramos sete cadetes bebendo no Bar Zé Carioca em Resende. Ao chegarmos chamávamos atenção, cabeças raspadas, rapazes cheios de saúde, fazíamos furor entre as mulheres do famoso cabaré. Alguns tinham namoradas no lupanar. Nos anos dourados, românticos, prostitutas se apaixonavam.

O conjunto tocava música lenta, salão cheio, pares dançando, se divertindo. De repente um colega, bêbado, tirou para dançar a acompanhante de um caminhoneiro. Depois de áspera discussão, o forte caminhoneiro acertou um murro, o cadete caiu ao chão. Ânimos exaltados, começou uma briga generalizada no salão do cabaré, eu nunca tinha visto luta igual, só em cinema. Murro de um lado, de outro, cadeiras se arrebentando nas costas, nos braços, copos voando. Cadetes x Caminhoneiros. Já havia um bom tempo de briga quando colegas gritaram: “A patrulha da Academia chegou, vamos fugir pelo campo moçada! ” Corremos em direção ao mato, cada um por si no meio do matagal até chegarmos a algum destino.

Ao pular uma janela no fundo do salão senti forte pancada, quebraram uma cadeira em minha cabeça, desmaie. Um colega veio em meu socorro, acordou-me, arrastou-me pelo ombro para o mato. Nesse momento, a Patrulha já havia prendido dois cadetes. Na marcha de retirada noturna pelo matagal fui levado no ombro do colega. A dor aumentando, o sangue não estancava, continuava sangrando. Pedi ao amigo me deixar, preferia apresentar-me à patrulha. De qualquer modo, o ferimento iria me denunciar. Alguns colegas conseguiram se evadir, embrenhando-se matagal a dentro.

O colega improvisou uma atadura com minha camisa apertando o ferimento, tentando estancar o sangue, a cabeça doía. Retornei ao cabaré, fui devidamente preso pela patrulha e escoltado à enfermaria da AMAN, costuraram 20 pontos na cabeça. Eu e mais dois colegas amanhecemos o domingo na prisão da Academia.

Dias depois do acontecimento, cantou no Boletim Interno, transcrito de minhas alterações (assentamentos).

“Punição – Cadete de Infantaria Carlos Roberto Peixoto Lima – Por ter frequentado ambiente não compatível com a situação de cadete, por ter ingerido bebida alcoólica, por ter participado de uma briga contra civis, infringido o R/4, Regulação Disciplinar do Exército, fica preso por 15 dias. Permanece no comportamento bom. Punição de caráter repressivo.”

A prisão em si foi fácil, pouco tempo, afinal, havia dois companheiros fazendo companhia. A cadeia era um cubículo bem arrumado junto ao Corpo da Guarda. Todos os dias saíamos para assistir aulas, educação física e instrução militar. O problema foi a sindicância para apurar os fatos e quem mais participou da briga. O capitão encarregado era encrenqueiro, chato e prepotente. Fez pressão, marcação constante para que eu delatasse os companheiros fugitivos. Todo tarde me convocava para depor; deixava-me numa cadeira por mais de duas horas esperando. O capitão me ameaçava se não delatasse os companheiros seria desligado da AMAN, se delatasse, conseguiria aliviar a punição. Tentou métodos psicológicos, me convencendo ser para o próprio bem de meus amigos, mereciam punição, era uma maneira de educar. O capitão aplicava uma simples tortura mental. Entretanto, jamais delatar era ponto pétreo do nosso código de honra, não escrito, respeitado.

Entre os cadetes havia destaque, os atletas das equipes de futebol, voleibol, atletismo, natação, entre outros, eram os mais destacados. Depois os “cu de ferro”, boas notas, os que estavam sempre entre os primeiros na classificação. Os cadetes levavam uma vida simples, austera, de muito estudo e disciplina, de repente aparecia um fato isolado, caso da briga, fiquei famoso.

Certo domingo escalaram-me de serviço de cabo das baias no Curso de Infantaria, função, fiscalizar a limpeza das baias e dos animais (a Infantaria ainda tinha burro e cavalos). O sargento de dia era um cadete do terceiro ano. Passei o domingo conversando com o colega, lamentou ser pobre, vida difícil, filho de alfaiate. Por conta desse domingo de conversa houve maior aproximação entre nós; quando o via no pátio ou no cinema, depois do jantar, conversávamos bastante. Tornou-se meu amigo.

Fiquei pasmado, admirado, incrédulo quando, em 1969, li uma notícia nos jornais que certo capitão Carlos Lamarca tinha roubado armas e munições no quartel de São Paulo e partido para a guerrilha. Lamarca era o cadete, companheiro de serviço naquele domingo frio da Academia Militar das Agulhas Negras.


Carlito Lima - Histórias do Velho Capita Friday, 10 de February de 2017

O GRANDE ÍDOLO



Eram dois irmão chamados Zé, Zé Miguel e Zé Gabriel, para diferençar chamavam o menor de Zé Pequeno, o apelido pegou, sem cerimônia, assim ficou conhecido. Tornou-se comerciante de material de construção, solteirão convicto, chegado às mulheres da vida, nunca namorou. Certo dia apareceu na casa de sua mãe, uma prima vinda do Rio de Janeiro, Zulmira, havia passado dos 30. Zé Pequeno ficou encantado com a vistosa loura, roupa decotada, divertida, sem meias palavras, dizia o que vinha na cabeça, tetas exuberantes, sorriso desavergonhado. Suas conversas escandalizavam a família e amigos. A maldade humana especulava a profissão de Zulmira no Rio de Janeiro.

 

 

Entretanto, o coração tem razões que própria razão desconhece. Zé Pequeno ficou encantado, apaixonado, pela prima. Não adiantaram os fuxicos, as previsões dos amigos. Zé Pequeno respondia, sabia o que queria. Terminou casando-se com a bela Zulmira. Os amigos, os desocupados, previram um belo par de chifres. Com três meses de casados telefonaram para Zé Pequeno, sua distinta esposa estava com um jovem num motel perto da rodoviária. Zé pegou-a em flagrante saindo do motel. Não houve acordo, acabou o casamento. Foi a crônica do chifre anunciado

Zé Pequeno gostou de ser casado, disse para si mesmo, jamais com mulher bonita, casaria novamente com mulher feia. Certo dia entrou na sua loja, Eulália, colega de infância, estrábica, sem muitos predicados da beleza feminina. Logo Zé Pequeno casou novamente, sem medo de levar ponta.

Os anos se passaram, os dois se deram bem, cada qual no seu canto sem se intrometer na seara do outro. Eulália tem uma butique de moda, ganha para seu sustento, é boa e servil esposa. Entretanto, tem duas manias incuráveis, ciúme doentio do Zé Pequeno e neura constante da violência urbana. Ela lê tudo nos jornais sobre assalto, assassinato, sequestro. É sua conversa predileta. Sabe todas as histórias contadas no rádio, televisão. Eulália ama o alarmismo da imprensa, faz bem à sua mente, alimenta-se de fatos tenebrosos. Exagera as histórias, terminando com a frase. “Ninguém suporta mais tanta violência!”

Numa bela tarde de sábado, Eulália foi a uma palestra sobre violência urbana, não poderia perder. O conferencista expôs sua teoria. A maioria dos crimes estão na faixa entre 14 e 26 anos, são traficantes, eles se matam por pontos de venda drogas. De repente o palestrante perguntou à plateia quantas vezes alguém tinha sido assaltado ou quantas pessoas conheciam que foram assaltadas. Apenas duas mulheres levantaram o braço. Eulália pensou, tentou relembrar algum assalto com amigo, nada. Retornou para casa decepcionada, não conhecia um parente, um amigo que foi assaltado, frustrante .

Nessa mesma tarde, Zé Pequeno telefonou para uma amiga moradora do Trapiche, cafetina das melhores meninas de programas da cidade. Apanhou a garota, bonita, alta. Levou-a para um motel. Tarde agradável, alguns uísques, até que na hora do banho ele escorregou, caiu de costa, nuca no chão, abriu-lhe a cabeça, o sangue jorrou.

Foi dirigindo ao Pronto Socorro, levou alguns pontos na cabeça. Zé começou a pensar o que dizer em casa. Teve uma ideia, uma mentira bem encaixada e registrada. Dirigiu-se à Delegacia de Plantão, abriu um Boletim de Ocorrência. Contou o assalto. Quando abriu o carro estacionado, dois rapazes armados mandaram ele dirigir rumo ao Litoral Norte, ao chegar na praia de Ipioca, mandaram parar. Deram-lhe uma coronhada, ele desmaiou. Levaram o dinheiro da carteira, o celular e o lep-top, ainda bem que deixaram o carro e ele, vivo.

Ao contar a história do assalto em casa, veio uma áurea de felicidade e alegria dentro de Eulália, ela não conteve o sorriso de satisfação. Ouviu atentamente a história do marido. Deu-lhe uma íntima satisfação. Contou exagerando a história para toda vizinhança, como Zé Pequeno foi assaltado. Há mais de um mês é seu único assunto. O assalto ao Zé acabou a frustração de Eulália. Zé Pequeno agora é seu grande ídolo.


Carlito Lima - Histórias do Velho Capita Monday, 06 de February de 2017

O INFORMANTE

 

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Bar do Chope

No início ele veio se achegando entre os frequentadores do Bar do Chope, Rua do Livramento. Ninguém sabia de onde Etelvino tinha vindo com aquele ar de malandro carioca, puxando de uma perna. Diariamente no início da tarde ele aparecia com um jornal embaixo do braço, mancando, cumprimentava os habitués do Bar do Chope, abria o jornal e danava-se a ler. Era jornal da semana anterior, mas impressionava por ser jornal de grande circulação no sul do país, O Globo, Folha de São Paulo, Jornal do Brasil.

Com o tempo Etelvino conseguiu plantar informações que o deixou muito respeitado entre os desocupados e boêmios de plantão. Certa vez conversando com um bêbado, ele insinuou ser informante do S.N.I. e das Forças Armadas. No início dos anos 70, auge da ditadura, isso era nitroglicerina pura, como diria depois de alguns anos um nosso Presidente.

Histórias cheias de mistério, invencionices, cada vez mais circulavam no bar. Uns diziam que Etelvino mancava consequência da explosão de uma granada na luta armada contra comunistas, outros afirmavam com certeza, ele era coronel da Aeronáutica, mancava devido à queda de um avião. Todas as histórias convergiam ele ser um araponga em busca de informações, gente importante naqueles anos. Deviam tomar cuidado, não falar sobre política na frente da autoridade. Meter o pau no presidente Médici, nem pensar. Era cadeia certa.

Etelvino alimentava o mistério sobre sua situação, às vezes exagerava em opiniões e histórias. Já fazia parte da roda de desocupados. Quando ele chegava, os companheiros perguntavam pelas novidades. Ele sério colocava o indelével jornal na mesa, entrelaçava os dedos das mãos e iniciava suas invencionices em tom confidencial, carregando no sotaque carioca.

– Ontem jantei com o coronel comandante do 20º BC no quartel do Exército, infelizmente não posso revelar detalhes, entretanto, digo uma coisa meus amigos, aqui para nós, não vão dizer que fui eu que falei, confio em vocês. É que lá pelo Amazonas para as bandas do Rio Aragarças e Araguaia está havendo maior guerra. Os guerrilheiros comunistas treinados em Cuba, China e Moscou, estão lutando contra os pára-quedistas do Exército. A coisa está preta, muitos mortos e feridos dos dois lados.

Os colegas de copo ficavam admirados. Essas notícias eram proibidas de serem publicadas em jornais, o que dava uma maior credibilidade ao Coronel Etelvino, como os desocupados já o chamavam. Era coronel para cá, coronel para lá.

Etelvino tinha uma boa fonte de informação. Seu sobrinho, sargento da S/2 secção de informações do 20º BC, passava-lhe algumas notícias por alto, o tio insistia. Depois ele desenvolvia a história com fanfarronice no Bar do Chope.

Certo dia ele estava lendo O Globo da semana anterior, enquanto 10 a 12 estudantes bebiam e conversavam junto à sua mesa. Ele ficou escutando a conversa, maior atenção. Logo depois Etelvino se juntou aos amigos numa mesa mais ao canto e começou sua história da tarde. Os bêbados ficaram emocionados em verem os personagens bem perto, ao vivo.

– Estão vendo aqueles estudantes, são todos comunistas, fichados. Aquele magro é o Eduardo Bomfim, o galego é o Ronaldo Lessa, o outro mais gordinho chama-se Jurandir Bóia, ainda tem o Ênio Lins, o Aldo Rebelo e o José Rocha. Estão bebendo e tramando subversão. Serão presos nesses próximos dias.

Os vadios ficavam na maior excitação. Ele sabe de tudo! Que cara bem informado. Admiravam e se orgulhavam da amizade do Informante.

Até que certa tarde quando a “galera” puxava um chope ouviu-se um tiro, dois tiros, vários tiros. Maior correria na Rua do Livramento, gente se abaixando, outros se deitando. Foi Ivanildo Omena, irmão do famoso Cabo Henrique, havia assassinado, descarregando o revólver no seu inimigo Paulo Calheiros no meio da multidão em frente à Igreja do Livramento.

Quando acabaram os tiros, serenou a gritaria, corpos no chão, os bêbados gritaram, “Coronel prenda o assassino”. Só encontraram o grande ídolo algum tempo depois, encolhido embaixo de uma mesa por trás da mureta. Ao responder a um colega que exigia sua interferência naquele brutal assassinato, ele balbuciou, gaguejando, tremendo, ainda acocorado:

– Não… não.. não sou co..coronel não!!!

Ao correr para o banheiro Etelvino não pode esconder a calça melada, cagou-se de tanto medo. Depois desse dia nunca mais o carioca Etelvino, o informante, apareceu no Bar do Chope, nem no Centro da cidade.

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Carlito Lima - Histórias do Velho Capita Friday, 03 de February de 2017

A MULHER DA CAPA PRETA

Aristides cursava a Academia Militar das Agulhas Negras, quando vinha de férias gostava de andar fardado com o uniforme militar. Orgulhava-se de ser cadete e adorava exibir-se. Fazia sucesso entre as garotas.

Durante as férias houve uma festa de 15 anos muito badalada na sociedade alagoana. O pai da moça, um empresário que por sua ousadia de homem de negócios tinha ficado rico, muito rico, morva numa manção na praia de Pajuçara.


 

Os jovens dançavam no imenso salão iluminado por vistosos lustres. Aristides havia recebido um convite formal, como era época de chuva, além de fardado levou a pelerine – capa longa, azul escuro, usada como integrante do uniforme do cadete, cobre os ombros e a parte superior do corpo, tem fendas abertas para os braços.

Quando a orquestra iniciou a tocar “Blue Moon”, Aristides avistou uma bela moça no canto da sala olhando em sua direção. Num impulso irresistível levantou-se em direção à bela moça que vestia o único vestido preto naquela festa. Aproximou-se, antes de convidá-la para dançar, ela abriu os braços dizendo que estava esperando o convite. Juntaram seus corpos rodopiando o salão com um abraço bem apertado. Os dois se olhavam como se uma paixão momentânea houvesse surgido.

Certo momento ele perguntou por seu nome. Rita, respondeu a moça. Ele juntou seu corpo ao do jovem, e assim ficaram dançando, mudos, afastavam-se algumas vezes para olhar um ao outro. Caso de paixão fulminante. Dançaram, conversaram. Certa momento, Rita lhe falou, devia ir para casa, tinha que chegar antes da meia-noite. Ele ofereceu-se para levá-la. Na saída chovia muito, chuva intensa, Aristides ofereceu, cobriu sua companheira com a pelerine protegendo-a do aguaceiro, correram em direção ao abrigo de ônibus.

Subiram no ônibus quase vazio. Sentados no banco conversaram como se conhecessem há muitos anos. Ao passar pela Avenida da Paz, Aristides puxou o rosto de Rita, deu um beijo ardente, sentiu seus lábios frio. De repente percebeu que ela chorava.

Perto da praça da Faculdade de Medicina Rita tocou a campainha, o ônibus parou, eles desceram. Ela pediu para não acompanhá-la, morava perto, no dia seguinte devolveria a capa preta, aliás, a pelerine azul escuro. Marcaram na praça.

Aristides, cuidadoso ficou olhando até ela desaparecer na esquina, na escuridão da rua, no oitão do Cemitério Nossa Senhora da Piedade.

Rita não saiu de seu pensamento durante o dia. Quando o relógio bateu sete horas da noite Aristides estava na praça da Faculdade. Ficou a olhar os passantes em busca de um vulto parecido com sua amada. Deu voltas no quarteirão, passou dezenas de vezes na rua em que ela desapareceu. Perguntou a algumas pessoas se conhecia Rita. Até que uma moça assustou-se quando indagada, informou que ela havia morado naquela casa, apontando para um bangalô.

Aristides bateu na porta. Apareceu uma senhora com aparência triste. Tomou um susto quando o rapaz perguntou se ali morava Rita.

A velha mulher perguntou quem era o rapaz. Ele disse ser amigo de Rita, havia conhecido ontem, marcaram para se encontrar naquela noite na praça.

Aristides arrepiou-se, quando a triste senhora respondeu, no dia anterior fez um ano de sua morte num desastre de carro.

Tentando ficar calmo, Aristides contou o encontro da festa. Inclusive. havia deixado com Rita sua pelerine, devido a chuva.

Resolveram ir ao cemitério. Entraram pela alameda principal até a capela, aconteciam dois velórios noturnos, famílias choravam seus mortos. Desviaram para direita onde estava a sepultura de Rita. Ao aproximar-se, perceberam, a pelerine, a capa preta, cobria o túmulo de Rita. Emocionados abraçaram-se chorando. Ficaram no cemitério até a meia-noite quando os portões se fecharam. Aristides não quis levar a pelerine.

Há muito tempo que moradores do Prado e do Trapiche juram ter visto, ainda vêem, nas noites de lua nova, uma bela mulher, pálida, circulando vestida em uma elegante capa preta.

O Coronel Aristides há 42 anos ininterruptos vem a Maceió, tem uma obrigação, rezar no túmulo de Rita.

Em homenagem a mais famosa mulher do bairro, um grupo de foliões do Prado, comandado pelo agitador cultural Marcos Catende formou um bloco, deu o nome de “Bloco da Mulher da Capa Preta”. Todo carnaval desfila pelas ruas do bairro, com um boneco gigante, uma bela mulher vestida e coberta por uma longa capa preta.


Carlito Lima - Histórias do Velho Capita Monday, 30 de January de 2017

CÍRCULO DE GIZ EM BERLIM

 

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Em pedaços do Muro de Berlim conservado, o desenho da foto do beijo histórico

entre Brejnev (Rússia) e Honecker (Alemanha Oriental).

Abaixo, este colunista e esposa imitam os dois líderes comunistas

 

Desenhando no chão um círculo de giz ao redor de um peru ele sente dificuldade em ultrapassar a linha do círculo, torna-se prisioneiro, a área marcada do círculo é seu mundo, a percepção de liberdade do peru limita-se ao círculo de giz desenhado no chão. A vida é bem parecida, nos impõe vários círculos de giz desde que nascemos, às vezes procuramos sair do círculo ou nos acomodamos com os limites. O problema é que sempre existirá um outro círculo nos cerceando a liberdade, às vezes a felicidade.

Durante a juventude descobri na leitura e nas viagens a melhor maneira de transpor o círculo de giz. Consegui abrir caminhos, enxergar novos horizontes, conhecer cidades, outros povos, outras culturas, com a leitura e o espírito aventureiro. Hoje, setentão e muitas viagens no costado, continuo com o gosto de aventura, de viagem, conhecer outros palcos da história da humanidade. Nos últimos dias realizei um sonho viajando, visitei parte do Leste Europeu, países alinhados à União das Repúblicas Socialista Soviética após 2ª Guerra Mundial, separados do Oeste Europeu pela imaginária, não tanto, Cortina de Ferro, naquela época.

Hitler derrotado, os aliados vencedores iniciaram a repartição do “saque” em territórios campos de batalhas. Assim foi deflagrada no cenário mundial a Guerra Fria ( guerra política, sem armas), a Alemanha e o mundo foi dividido entre os vencedores, o lado Oeste liderado pelas nações liberais capitalistas, USA, Inglaterra e França e as nações da parte Leste ficaram na órbita da União Soviética. Stalin o consolidador do regime comunista implantou nas fronteiras da Europa uma linha divisória marcante, muros de concretos, fortificações militares, arames farpados, fossos fundos impedindo qualquer tipo de transposição de tropas, equipamentos e armas de guerra e outros obstáculos delimitando fronteiras, evitando qualquer “contaminação” dos países liberais, capitalistas.

Foi quando o primeiro-ministro britânico Winston Churchill, denunciou, “uma cortina de ferro desceu sobre a Europa”, acusando a União Soviética de uma ferrenha divisão político-ideológica entre os regime comunista e o sistema liberal capitalista.

A URSS, aliada na 2ª Guerra Mundial contra o Nazismo, tornou-se inimiga da coligação anglo – saxâ, defensora dos valores da sociedade ocidental contemporânea. A Cortina de Ferro foi o mais implacável círculo de giz da história contemporânea.

Em 1961, auge da Guerra Fria, depois da Revolução Cubana de cunho socialista intensificaram-se as defesas dos Blocos quase surgindo uma Terceira Guerra Mundial, foi preciso a União Soviética retirar os mísseis com ogivas nucleares de Cuba, bem na porta dos USA. Nessa época foi construído pela União Soviética o Muro de Berlim, dividindo a cidade de Berlim entre os setores comunista e capitalista, a expressão “cortina de ferro” foi consolidada na imprensa e opinião pública. Era o mais novo círculo de giz ou de concreto, implantado pelo regime soviético na Europa dividida.

A Guerra Fria entre os dois sistemas políticos, determinou um apartamento econômico, social, cultural entre as nações. Em Berlim no muro intransponível muitos habitantes da parte oriental foram mortos ao tentarem transpô-lo, era o isolamento ideológico para não contaminar o regime socialista com os bens de consumo do capitalismo liberal. O Muro de Berlim, círculo de giz bem delineado na bela capital da Alemanha, dividiu famílias, casais, amigos.

A Cortina de Ferro finalmente acabou-se depois do povo demolir o Muro de Berlim em 1989 e da queda dos vários regimes comunistas que dominavam o leste europeu, revolta e descontentamento com a falência da retórica socialista, em especial no campo econômico. Durante esse período vários países tentaram liberta-se do jugo soviético, como a Hungria em 1956, A Primavera de Praga em 1968, todos os movimentos esmagados pelas tropas soviéticas.

Passei esses últimos dias conhecendo os países do Leste Europeu, grata surpresa, beleza urbana, economia pujante. Ainda restam pedaços conservados do Muro de Berlim, fiz documentário fotográfico do desenho famoso, o presidente russo Brejnev beijando Honecker presidente da Alemanha Oriental. O Muro de Berlim foi o último círculo de giz concreto de uma época insana contemporânea da humanidade.

Para completar a série de círculos, visitei na Alemanha a marcante vergonha da humanidade, o Campo de Concentração de Sachsenhausen onde os nazista exterminavam o povo judeu e não ariano.

Nada melhor que uma viagem, conhecendo mais o mundo se conhece mais nossa aldeia. Relaxei, desliguei-me completamente até do mais novo círculo de giz inventado pela modernidade, o Face book.


Carlito Lima - Histórias do Velho Capita Friday, 27 de January de 2017

SONHANDO COM GERUSA



Quando José Júlio nasceu, seu pai, Coronel Maurício, dono de terras a perder de vista no sertão, atendeu ao pedido da esposa, Dona Virgínia, bonita e vaidosa, não quis amamentar o filho, medo dos seios caírem, contratou uma ama de leite. Julinho, bebê bonito, rosado, sorriso permanente nos lábios, chorava ao sentir fome. Ele não gostou do leite da primeira ama de leite, uma “velha” que dava de mamar ao seu 13º filho. O jeito foi apelar para Gerusa, bela negra da fazenda, acabava de parir dois meninos gêmeos, dois mestiços, nome do pai não revelado. Entretanto, alguns sagazes perceberam a semelhança dos gêmeos, a começar pelos olhos azuis holandeses do coronel Maurício. Negra descendente de rainha africana, alta, porte elegante, seios pontiagudos, beleza, dureza, pedindo para serem abocanhados. Assim fez José Júlio quando Gerusa ofereceu os seios. Julinho mamava muito, quando lhe tiravam a ama de leite, ele chorava, chorava, só acalmava quando chupava os seios da negra. Mamou sem leite até aos 10 anos de idade, parou porque Gerusa foi sequestrada pelo namorado pistoleiro e se escafederam para bandas de São Paulo.  O menino entristeceu, chorou muitas noites seguidas, sonhava mamando Gerusa.

 

 

José Júlio desenvolveu o corpo rapidamente, parrudo e espadaúdo, diziam ser consequência do leite abissínio da rainha negra. Seu pai o flagrou farejando as empregadas. Ao completar 13 anos, o coronel deu-lhe um presente, levou-o à zona em Arapiraca. José Júlio foi desvirginado por uma rapariga, Pafinha. Depois a reencontrou nos cabarés de Jaraguá.

Ao completar 32 anos, José Júlio, solteiro convicto, um dos maiores boêmios da cidade, anunciou em casa, estava a fim de casar com a nova namorada, Matilda, filha do Coronel Genuíno, dono das terras de São José da Tapera. Ótima notícia para família, quatro meses depois noivou. No dia do noivado seus pais lhe deram de presente uma casa, ou melhor, depositaram na sua conta bancaria o que hoje valeria R$ 450.000,00, para que comprasse a casa. A festa de noivado virou a noite. O casamento era de gosto das duas famílias.

Dia seguinte pela manhã, José Júlio foi ao Banco, nunca tinha visto tanto dinheiro na vida, todo seu, presentão. Filho único. De repente ele surpreendeu-se com a entrada majestosa de uma mulher, a Deusa não andava, desfilava, dirigiu-se ao caixa, todos olhavam seu generoso decote. José Júlio extasiado com aquela aparição, a mulher mais bonita, mais atraente, que já vira em sua vida. Ficou surpreso quando ela o olhou fixamente. Esperou a Deusa na calçada do Banco. Ao aparecer ele se apresentou, José Júlio Nogueira, fazendeiro, advogado. Ela sorriu, perguntou onde tomava uma cerveja nessa cidade. Julinho a levou para uma gostosa barraca de praia, conversaram e beberam toda tarde. Ela, artista de teatro, encenou uma peça no Teatro Deodoro, final da turnê estava voltando para o Rio de Janeiro, onde morava. Terminaram dormindo no Hotel Atlântico. Dia seguinte ela viajou, deixou-o enlouquecido com a noitada de amor; não saiam de sua cabeça os dois seios, duas taças, iguaiszinhos aos de Gerusa, sendo brancos.

José Júlio inventou uma viagem ao Rio. Não retornou, amou Leonor durante cinco meses, duas semanas e dois dias, até acabar o dinheiro da compra da casa. Sem a grana, ele não mais servia para a famosa artista carioca. Julinho caiu em si, escreveu duas cartas pedindo perdão, uma para os pais, outra para noiva.

Algumas semanas depois do retorno, perdoaram o vexame, José Júlio conseguiu reatar o noivado. Certa noite passeava no calçadão de mãos dadas com Matilda. Propositalmente o Coronel Genuíno esbarrou com eles, foi avisando, “Vamos marcar a data do casamento”. Em cinco meses Julinho casava-se na Catedral Metropolitana. As aventuras no Rio de Janeiro ficaram inesquecíveis. José Júlio hoje é um homem pacato, entretanto, seu coração ainda bate forte ao ver passar um belo rabo de saia. Nunca deixou de sonhar mamando Gerusa.


Carlito Lima - Histórias do Velho Capita Thursday, 26 de January de 2017

CONTOS DOS BOSQUES DE VIENA



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Este colunista e a bela garçonete em Bratislava

Logo após a 2ª Guerra Mundial a Europa foi repartida, a parte Leste ficou em mãos da União Soviética onde Stalin implantou o regime comunista, a parte Oeste os americanos tomaram conta. A União Soviética foi aliada contra o nazismo alemão tornou-se inimiga depois da 2ª Grande Guerra, na época foi iniciada outra guerra, política, sem canhões, chamaram de Guerra Fria. Os USA de um lado, a União Soviética do outro, sempre querendo exibirem suas supremacias. Os Estados Unidos distribuíam seus filmes ao mundo mostrando o estilo de vida, o “way of life”, onde tudo corria às mil maravilhas, as mulheres eram plásticas, recatadas e do lar. Nos anos 50 inventaram o concurso Miss Universo, onde representantes de vários países concorriam ao certame mundial da beleza. O Brasil sempre mandava a sua. Em 1954 a Miss Brasil ficou em segundo lugar, a bela e gostosíssima baiana Marta Rocha perdeu por duas polegadas a mais no traseiro, esses jurados…Os países socialistas não concorriam a essa invenção burguesa.

Viajando recentemente pelo Leste Europeu, ex-países comunistas, hoje convictos capitalistas, deslumbrei-me com a beleza das checas, das húngaras, das eslavas. Conclui, se essas mulheres entrassem em qualquer concurso de beleza, ganhariam, são as mulheres mais bonitas do mundo. Por isso o tráfico de mulheres é intenso sequestrando adolescentes eslavas. Depois do petróleo, hoje, o tráfico de belas mulheres é o segundo maior negócio do mundo e as meninas do Leste Europeu são as mercadorias mais valiosas.

Deixando o devaneio ao lado, voltemos à viagem, saímos de Praga num ônibus confortável, sempre assistidos regiamente por Tereza e Pauline Rezende, organizadoras, logo chegamos à capital da Eslováquia a belíssima Bratislava. A cidade tem dois mil anos de história, remonta à época dos celtas, fez parte do Império Romano e ao longo dos séculos atraiu famílias reais, presenciou a coroação de 19 reis e rainhas do império húngaro. A beleza, a cultura, a história e o charme de Bratislava foram danificadas na 2ª Guerra Mundial. Durante os anos vivendo sob o jugo de Moscou se esqueceram do passado lendário da cidade. Recentemente, a cidade passou por uma grande reconstrução, um despertar cultural. Os turistas estão redescobrindo a charmosa cidade velha, os tesouros góticos da cidade, os restaurantes elegantes, os cafés.

A música em Bratislava está vinculada à vida musical vienense. Notáveis compositores frequentaram a cidade, Mozart, Haydn, Liszt, Bartók e Beethoven que interpretou sua Missa Solemnis pela primeira vez em Bratislava.

Almocei um gostoso goulash servido pela garçonete mais bonita do mundo. Mais algumas voltas na cidade partimos para Viena, a exuberante capital austríaca.
ANSCHLUSS- palavra alemã significa anexação. É utilizada em História para referir-se à anexação político-militar da Áustria por parte da Alemanha em 1938. Logo depois houve um plebiscito, onde 95% dos austríacos votaram a favor da anexação, a Alemanha ganhou a Áustria sem precisar invadir, sem morrer um soldado, o país se considerava alemão. Depois da 2ª Guerra, na divisão entre os vencedores, a Áustria ficou sob domínio americano.

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Este colunista tomando vinho no Café Mozart, Viena, 5°, onde o compositor tomava porres homéricos

Viena, a capital, é reconhecida pela ONU como a cidade de melhor qualidade de vida do mundo. Segurança pública altamente eficiente, serviços públicos excelentes, educação de alta qualidade e diversidade de opções culturais e lazer para população de todas as categorias sociais.

Viena é uma cidade de exuberantes palácios, museus, catedrais e igrejas carregados de história, de largas avenidas repletas de elegantes cafés e restaurantes. Historicamente foi e continua sendo o centro de música erudita, da música clássica, berço e moradia de extraordinários artistas, Franz Schubert, Beethoven, Strauss, Mozart. Entre as grandes figuras vienenses estão, Sigmund Freud, o famoso psicanalista, a imperatriz Isabel Amélia Eugênia, conhecida como Sissi da Áustria. Em 1956 realizaram o filme, Sissi a Imperatriz, com Romy Schneider, produção cinematográfica austríaca de maior sucesso no mundo, depois mais 2 filmes em continuação.

Durante uma noite tivemos o privilégio de ouvir na Ópera de Viena um empolgante, elegante (direito à champanhe no intervalo) e inesquecível concerto, me enlevou a alma, trouxe-me recordações da distante infância quando ouvia na Rádio Difusora de Alagoas o programa “Sonho de Valsa”, naquela época me deliciavam as valsas de Strauss, principalmente, a preferida, “Contos dos Bosques de Viena”. Era a valsa que ouvia naquele momento, naquele local, mais chique impossível.


Carlito Lima - Histórias do Velho Capita Tuesday, 24 de January de 2017

BUDAPESTE, CIDADE PARA VIVER UM GRANDE AMOR

 

Hungria, esse país povoou minha imaginação na juventude. Entre meus divertimentos, aos 12 anos, eu possuía uma amada coleção de selos. Tia Zezé Peixoto trabalhava nos Correios me trazia selos descolados, caídos das cartas. Certa vez me presenteou um pacote, 24 selos coloridos, belíssimos, neles escrito Magyar Posta, Correio da Hungria. Tornaram-se a preciosidade da coleção, eu mostrava a todo mundo, maior orgulho aqueles selos de um país distante e misterioso.

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Seleção da Hungria 1954

Em 1954 acompanhei por rádios e jornais a Copa do Mundo de Futebol na Suíça. A Hungria era a melhor seleção daquela Copa, inigualável, ganhava dos países mais fracos de 10 x 0 para cima, eliminou o Brasil nas quartas de finais 4 x 2. Numa das maiores injustiças do futebol, esse time perdeu a final em Berna para a Alemanha, campeã, 3 x 2 de virada. O Honved time base da seleção húngara possuía os melhores jogadores do mundo, inesquecíveis, Puskas, Kocsis, Czibor, Grosics. Destaques na história do futebol. Coloquei as fotos desses jogadores na parede de uma puxada no quintal de minha casa onde eu estudava durante a tarde. Tornei-me fã do Honved, de Puskas.

Durante a Segunda Guerra Mundial a Alemanha invadiu a Hungria. Isolaram os judeus em Budapeste, construíram uma muralha dentro da cidade formando um gueto. Segundo dados do Holocausto, 380.000 judeus húngaros foram mortos nos Campos de Concentração durante a ocupação. Ao terminar a 2ª Guerra os nazistas fugiram da Hungria dando lugar ao vencedor, o Exército de ocupação russo. Azar da população húngara. Saiu Hitler entrou Stalin instalando o regime comunista colocando mais um país na órbita soviética.

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Revolução Húngara 1956 – o povo em armas contra o jugo soviético

Em 1956 eu era cadete da Escola Militar de Fortaleza, tomei conhecimento pelos jornais da Revolução na Hungria. Fiquei interessado, quis entender, acompanhei a revolução do país de Puskas, ele era major do exército húngaro.

A Revolução da Hungria se iniciou no começo de 1956, uma manifestação organizada por estudantes e intelectuais húngaros contra as condições de vida e contra o governo do Partido Comunista, pretendendo adoção de algumas medidas democráticas no país. Cerca de 200 mil pessoas participaram da manifestação entre estudantes, operários e soldados. Os manifestantes derrubaram a estátua de Stalin, agentes da repressão passaram para o lado dos manifestantes. Conselhos revolucionários foram criados em Budapeste e outras cidades para organizar a população. O clima de guerra civil cresceu no país. Os governantes tentaram chegar a um acordo com Moscou. Entretanto, em novembro de 1956 tanques do Exército Vermelho entraram em Budapeste reprimindo brutalmente manifestações. Mais de 20 mil húngaros mortos, contra pouco mais de 700 soldados soviéticos. Era o fim da Revolução Húngara.

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Ponte das Correntes, separa Buda e Peste

Agora nesse bendito 2016, há alguns dias, com 76 anos nos costados, conheci esse país que habitou meus devaneios de juventude. Ao entrar em Budapeste encantei-me, fiquei fascinado com a beleza da cidade, extrapolou a expectativa. De um lado do Rio Danúbio fica Peste, suntuosos edifícios do antigo império austro-húngaro, imponente o edifício do Parlamento de fachadas e agulhas góticas. Em Peste concentram-se museus, galerias, igrejas, óperas. É a zona de compras da cidade, modernos shoppings instalados em palácios do Século XVIII. Atravessando a Ponte das Corrente, guarnecida por leões de pedra, fica Buda, morada dos ricos, onde se localizam castelos, a deslumbrante Igreja de São Matias e muitas construções medievais da cidade.

O Rio Danúbio divide Buda e Peste, inspirou Strauss compor a valsa, talvez a mais conhecida, “Danúbio Azul”. Durante uma noite após um show folclórico, navegamos num luxuoso barco onde avistamos toda cidade iluminada. As noitadas acontecem em modernos clubes ou em navios abandonados à margem do rio. Existem banhos turcos (a maioria também ocupa antigos palácios), unissex. Muito interessante. As belas húngaras costumam rejuvenescer nesses banhos turnos, às vezes nuas. Espetáculo à parte.

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Memorial dos Sapatos

Certa manhã, perambulamos, cinco casais, pela exuberante Budapeste, conhecendo, descobrindo à pé aquela fascinante cidade. A certa altura Dr. Catão nos instigou a procurarmos o Memorial dos Sapatos construído em 2005 por dois artistas, eles fixaram à margem do Danúbio alguns sapatos de bronze simbolizando um triste fato; num dia de inverno um grupo de judeus foi levado pelos nazistas à margem do Danúbio onde foram obrigados a tirar seus sapatos (valiosos durante a guerra) e saltar dentro do rio gelado.

Não se pode esconder, nem esquecer as atrocidades das guerras. Contudo, a beleza da cidade é imorredoura, inebriante, Budapeste, cidade para viver um grande amor, retornarei, em lua de mel, quando completar 50 anos de casado.


Carlito Lima - Histórias do Velho Capita Monday, 23 de January de 2017

LISBOA, VELHA CIDADE



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Lisboa à noite

Última escala da viagem, descemos em Lisboa direto de Praga, saímos do Leste Europeu encantados com a beleza das cidades, dos prédios, dos castelos, das igrejas, principalmente das mulheres. As eslavas são as mais bonitas do mundo.

Portugal é nosso pai, talvez avô, às vezes nos desentendemos, entretanto, nos amamos há 516 anos, desde o descobrimento. Vivemos juntos, fizemos história juntos. Sinto-me em casa quando estou em Lisboa.

Nosso país tem tamanho continental graças aos portugueses, os bandeirantes gananciosos em busca de ouro, prata e diamantes desbravaram o Oeste brasileiro, esqueceram o Tratado de Tordesilhas assinado entre Espanha e Portugal em que dividia as terras descobertas. Pelo Tratado, o Brasil português, seria bem menor. Uma linha imaginária passando na região de Belém do Pará e Laguna em Santa Catarina, separava o lado Leste para Portugal e Oeste para Espanha. Entretanto bravos portugueses misturados com nativos, índios, resolveram conquistar o Oeste com as Entradas e Bandeiras, e o Brasil tornou-se esse imenso país, anos depois as Forças Armadas brasileiras ocuparam, marcaram, mantiveram a linha de fronteira do Brasil com os países hispânicos da América do Sul.

Os portugueses não tiveram problemas em se miscigenar com índios e negros formando uma raça de mulatos e cafuzos. A colonização do Brasil teve acertos e erros. Mesmo dividido em capitânias hereditárias, os portugueses conseguiram unificar formando apenas um país, ao contrário da América do Sul Espanhola, dividida em nove países.

Entretanto a colonização brasileira teve um preço, muito ouro, prata, altíssimos impostos, foram diretos para família real viver nababescamente como viviam os reis e a corte.

Em 1755, aconteceu na cidade de Lisboa uma das maiores tragédias urbanas da humanidade. Um grande terremoto seguido por tsunami deixou milhares de mortos. Casas, igrejas, praças destruídas. A devastação da cidade, foi quase total. A restauração foi trabalhosa, dispendiosa, demorada, modificaram o traçado das ruas. Praticamente reconstruíram nova cidade.

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Naquela época o Marquês de Pombal, nobre diplomata e estadista português. Secretário de Estado durante o reinado de D. José I (1750-1777), figura controversa e carismática da História Portuguesa, mandava mais que o Rei, resolveu o problema da reconstrução de Lisboa aumentando os impostos e levando toda a riqueza possível do Brasil. A reconstrução de Lisboa foi feita com o suor e riqueza dos brasileiros. São coisas de colonizador e colonizado, o povo português nada teve com o saque aos cofres brasileiros.

Lisboa, fim da viagem de um bom grupo alegre organizado por Tereza e Pauline Rezende. No Rossio comi um divino ensopado de perdiz. Passeios e compras na Rua da Prata, Rua do Ouro. Fascinante a pitoresca cidade, antigos bondes elétricos trafegam em ruas estreitas e em largas avenidas modernas. O antigo junto ao novo sofisticado. Nas noitadas as casas, restaurante, cheios, ouvindo belos fados. Tivemos o privilégio de almoçar o melhor bacalhau de Portugal na Laurentina, com direito à sobremesa bem portuguesa, a baba de camelo.

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Este colunista com amigos portugueses, Maria e Fernando na Casa do Brasil de Lisboa

Na última noite, devido a gentileza da amiga, Maria Xavier, funcionária do Ministério da Cultura de Portugal, tive a honra em proferir uma palestra seguida de noitada de autógrafos, para minha surpresa, todos os livros vendidos. Uma alegria imensa ser entrevistado pelo competente jornalista João Morales, o mediador preparou a projeção de fotos de várias fases do Brasil nos últimos 50 anos, assunto da palestra e debate, conversamos mais de hora e meia na Casa do Brasil de Lisboa, no Bairro Alto. Auditório cheio, fiquei emocionado com o carinho dos amigos e dos amigos dos amigos que apareceram.

E como ninguém é de ferro nos despedimos de Lisboa com um bacalhau na boemia do Bairro Alto. Lisboa sempre a sorrir, tão formosa, e no vestir sempre airosa, o branco véu da saudade. Até a próxima, minha querida cidade, cheia de encanto e beleza.


Carlito Lima - Histórias do Velho Capita Friday, 20 de January de 2017

HISTÓRIAS E LENDAS DO VELHO CHICO



Este colunista entre dois canoeiros contadores de lendas e histórias do Velho Chico

 

Ontem fui a Penedo, cidade histórica belíssima à beira do Rio São Francisco, ao entrar no Centro Histórico, emocionei-me, senti 400 anos me espionando, cada rua estreita enladeirada é um pedaço do Brasil colonial. Igrejas suntuosas e casarões fascinantes fizeram valer as duas horas de viagem a convite dos diretores da Pataxó Tour.

Navegamos o Velho Chico de canoa, almoçamos, pitu, peixe, camarão. O divino pirão deixou-me o estômago cheio. Enquanto os empresários acertavam-se, fiquei a conversar, puxando histórias e lendas dos dois velhos canoeiros. Com convicção da verdade, contaram-me algumas histórias, lendas, faço o repasse.

A MOEDA – No percurso do Rio São Francisco, existem três capelas encravadas em pequenas ilhas ao longo do rio, os canoeiros às vezes param, descem, rezam, continuam a viagem. Certa vez desceu uma família, rezaram à Nossa Senhora. Um dos filhos, 10 anos, achou uma moeda no chão da igreja, abaixou-se, colocou-a no bolso. Terminada a reza, o canoeiro e família continuaram a navegação. De repente o Rio São Francisco saiu da calmaria, começou a levantar ondas, balançando a canoa cada vez mais, uma onda veio tão forte que inclinou a canoa, vários balaios de frutas caíram n’água. O canoeiro gritou: Valha-me Nossa Senhora. Ouviu baixinho no pé do ouvido, devolva o que é de Nossa Senhora ao Rio. Desesperado, ele perguntou se alguém pegou algum objeto da Igreja. O menino tirou a moeda do bolso mostrou ao pai, achou no chão da Igreja. Valha-me Nossa Senhora, jogue a moeda no rio, menino. O pivete lançou a moeda, afundou na água. Naquele momento as ondas começaram a baixar, a canoa tomou prumo, continuou a navegação, o rio tranquilo.

A BANDA – No Baixo São Francisco, entre Paulo Afonso e a Foz, existe uma intensa navegação comercial transportando frutas, açúcar, coco, enfim, artigos de primeira necessidade. As vezes o navegador passa três a quatro dias embarcados vendendo mercadorias nas cidades ribeirinhas.. Durante o percurso apresentam-se vários locais apropriados para passar a noite, pequenas praias. Perto da cidade de Traipu existe um local aconchegante, facilitando atracação, bem próprio para passar a noite. Porém, os mais antigos canoeiros evitam aquele lugar por medo do que possa acontecer nas madrugadas. Há muitos anos, a Banda Filarmônica de Traipu viajou à Penedo, onde haveria um concerto musical. A Filarmônica tocava música clássica, dobrado , música de carnaval. A estrada de barro não ajudava, o velho ônibus em alta velocidade virou, alguns músicos morreram. Para não haver choradeira na cidade o prefeito mandou enterrar os músicos perto do local onde morreram. Quem dorme naquela praia é acordado pela madrugada, maior barulho, se ouve uma banda tocando dobrado bem alto, cada vez mais intenso, ninguém aguenta tanto barulho, foge, retorna ao Rio São Francisco. Um canoeiro conhecido ficou surdo para o resto da vida.

ILHA DA FITINHA – Um comerciante de coco, viúvo, tinha apenas uma filha, educou-a internada em Aracaju, dizia, minha filha só casa com homem rico. Acontece que o amor é traiçoeiro, Rosinha, a filha, apaixonou-se por um jovem canoeiro. Quando o pai, Coroné Antônio dos Cocos, soube do namoro, expulsou o rapaz da Ilha, proibindo colocar o pé em sua propriedade. Rosinha passou 36 dias e 35 noites chorando. No dia que seu pai viajou para comercializar coco em Pão de Açúcar, Rosinha parou de chorar, mandou recado, o canoeiro Zé Dantas veio depressa, namoraram dentro d’água escondidos no manguezal. Combinaram, quando o velho viajava, Rosinha colocava uma fitinha amarela no coqueiro comprido que entrava pelo rio por cima do manguezal. Assim foi feito, os dois encontraram-se várias vezes durante as viagens do Coroné. Certo manhã Rosinha não parou de vomitar, o pai levou-a ao médico. Estava grávida. O Coroné armou maior confusão, passou cinco dias falando sem parar, quando calou-se, de repente, achou melhor casar Rosinha com o canoeiro. O casamento foi feito às pressas na Ilha, apenas alguns convidados , vergonha na família. Quando nasceu o primeiro filho, deram o nome de Antônio José, o avô ficou caducando o neto, mais 12 filhos vieram, todos com nome de Antônio. Antônio José, Antônia Maria, Maria Antônia, Antônio Luiz, Antônio Carlos…Quem navegar Velho Chico pra bandas de Piaçabuçu, vai conhecer uma ilha cheia de coqueiros viçosos, manguezais exuberantes, é a Ilha da Fitinha.

Entrou pela perna do pinto, saiu pela perna do pato, seu Rei mandou dizer, que contasse mais quatro.


Carlito Lima - Histórias do Velho Capita Wednesday, 18 de January de 2017

UFC NO CAMPO SANTO

 

Naquela manhã, dia de finados, Norminha tirou o carro da garage, distraída, pensava no marido e como foi traída. Pela primeira vez retornava ao cemitério desde os acontecimentos no enterro, afinal passaram 18 anos juntos. Fernandinha, a filha de 14 anos, perguntou se ia encontrar a Adélia, filha do pai com a outra mulher.

– Deus me livre, nunca mais em minha vida quero ver aquela desgraçada, vadia, sirigaita, enfeitiçou o finado seu pai, ainda fez essa filha. É sua irmã, por parte de pai, apenas. Não quero e você está proibida de fazer amizade com essa moça.

Mal sabia Norminha, as duas estudavam em colégios do CEPA, são amigas desde que descobriram serem meio irmãs, filhas do Peixotinho, funcionário exemplar da Rede Ferroviária. Norminha rumou para ao cemitério, Fernanda ao lado, calada, a mãe em devaneios.

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Fernando Lyra Peixoto, ainda jovem, conseguiu um emprego na Rede Ferroviária com um deputado amigo da família, assíduo e trabalhador, todos os chefes gostavam daquele servidor, gentil. Sempre arranjavam uma maneira de uma função gratificada. Peixotinho não reclamava o salário de funcionário, tinha outra viração, emprestar dinheiro, um pequeno agiota, controlado, morava com a mãe viúva. Adolescente descobriu uma das coisas mais importante em sua vida, sexo e mulher. Carinha de santo, sonso que só o cão, uma lábia de encantar mulheres, vivia atrás das empregadas na vizinhança, os amigos o apelidaram maldosamente, Rei das Peniqueiras.

Guardou seu dinheirinho ganho na repartição, tinha casa, comida e roupa lavada. Por acaso investiu na agiotagem, um amigo desesperado pediu-lhe emprestado, pagou-lhe com juro de 10%, Peixotinho gostou, tornou-se agiota, investia também em apartamentos pequenos, o aluguel aumentava sua renda. Solteiro, gostava mesmo de uma garota de programa, teve poucas namoradas. Certo dia percebeu, os amigos de infância estavam casados. Aos 30 anos resolveu se casar, namorou e casou-se com Norminha, três anos depois apareceu sua filha, Fernandinha. Homem sério, todos admiravam, Norminha não cansava de se orgulhar, pelo Peixotinho botava a mão no fogo.

Certo dia amanheceu com a garganta inflamada, ao tomar algumas injeções na farmácia, conheceu a enfermeira, Ana, bonita morena, mãe solteira, vivia com o filho e o pai no bairro do Jacintinho. Trabalhava muito em hospital e dava plantão em farmácias fazendo curativos, aplicando injeções para sustentar a casa. Peixotinho empolgado com a sensualidade da jovem, retornou à farmácia paquerando abertamente Aninha. Sua insistência e lábia conseguiram levá-la a um motel. A partir daí teve encontros semanais com a carinhosa enfermeira, preenchendo parte de sua vida amorosa. Aninha engravidou quase ao mesmo tempo que Norminha, as duas filhas nasceram com diferença de um mês. Ana não fazia questão em ser a “outra”, afinal Peixoto ajudava muito, até cedeu um de seus apartamentos para moradia de Ana, o pai e os filhos. Peixoto conseguiu guardar esse segredo durante 15 anos. Certa manhã, na repartição, sentado, de repente veio-lhe suor frio, dor aguda no peito, a dor aumentou, caiu a cabeça para frente no birô, infarto fulminante. Morreu feito um passarinho.

Dia seguinte no enterro Norminha percebeu uma morena junto à filha adolescente, as duas chorando no caixão, quis saber quem eram aquelas intrusas. Everaldo, amigo, confidente de Peixotinho, contou-lhe a verdade. Norminha partiu desesperada, puxou Aninha e a filha do caixão, chamando-a de vadia, deu tapa na cara, alguns amigos intervieram botando paz no enterro. Depois de alguns meses, as duas, encontraram-se em audiência, brigando pela herança de Peixotinho. O “come quieto” deixou onze apartamentos pequenos.

Naquele dia de finado finalmente Norminha chegou ao Campo Santo, uma orquestra tocava as Bachianas de Villa Lobos enchendo o ambiente de saudades. Cemitério lotado, Norminha e Fernandinha dirigiram-se ao túmulo de Peixotinho, ao ver, ao longe, Aninha e filha ajoelhadas colocando flores no túmulo do marido, a viúva partiu em disparada, na velocidade que vinha rodou a bolsa na cara da “outra”, atordoada, levou murro na cara, ao cair revidou puxando o cabelo de Norminha. Atracaram-se no chão xingando-se mutuamente de vadia e puta. Ninguém teve coragem de apartar a briga, as duas rolaram, puxaram cabelo, deram tapas, jogaram areia, por mais de cinco minutos. Precisou dois policiais para terminar o briga. Perante o Delegado as duas tiveram que explicar para não ser enquadradas em perturbação da ordem pública. Uma coisa ficou clara, o UFC do Campo Santo ainda terá mais rounds.


Carlito Lima - Histórias do Velho Capita Saturday, 14 de January de 2017

O PEQUENO PRÍNCIPE NEGRO

Ninguém sabe de onde veio, nem ele. A mãe o abandonou na Praça do Centenário quando Cícero não havia completado oito anos, negrinho, chamava atenção sua figura bonita. Olhos pretos, vivos, cabelos crespos. Sozinho no mundo, ficou a vagar pela cidade grande.

O menino enjeitado, triste e assustado, perambulou durante dias pelas ruas de Maceió, dormindo sob marquise, em praças, faminto, até que encontrou um bando de meninos abandonados. Foi uma alegria tornarem-se amigos, entrosou-se com esses menores que faziam ponto no centro da cidade, Praça Deodoro e arredores. Sobreviviam de esmola, do que achavam no lixo, de roubos fortuitos, até pequenos assaltos. Assim viveu Cicinho por anos nas ruas da cidade, abandonado pela sociedade, pelos governos, sem escola, sem casa, sem documentos, duas vezes preso por vagabundagem. Sua família eram os colegas de rua, de cola e de cruz.

 

 

Num dia de festa, o Brasil havia vencido um jogo da Copa do Mundo, enquanto a cidade comemorava, Cicinho procurava comida num container no bairro chique da Jatiúca, lixo de qualidade.

Alzira, moradora de um prédio, da janela reparou a cena, comoveu-se, teve pena do adolescente catador, alheio à festa. Agradou-lhe a silhueta daquele jovem moreno, cabelos crespos cumpridos, vestes maltrapilhas, capa velha surrada, parecia o Pequeno Príncipe Mendigo. De repente, ao acaso, ele olhou para a coroa, cumprimentou-a sorrindo. Ela respondeu-lhe outro sorriso. Com a mão direita aberta Alzira deu um sinal para ele esperar, desceu levando um bolo de chocolate na mão, ao aproximar, sentiu uma forte empatia, um afeto maternal pelo jovem. Cicinho recebeu o bolo, dividiu com amigos, comeram sentados no chão. A partir daquela dia, algumas vezes na semana, o jovem cheira-cola aparecia em frente ao edifício, a coroa lhe dava o que comer em um saco de papel pardo.

Alzira havia completado 41 anos no dia que conheceu Cicinho, dizia para si mesma, ser um presente de Deus. Mulher sofrida no amor, foi casada, sem filhos, por onze anos com um médico, abandonou-a por uma aluna da Faculdade. Um trauma para Alzira, quarentona bonita, vistosa, charmosa. Desde sua decepção amorosa, trancou-se para o mundo, mora sozinha, evitou namoro, sexo e amigas. Funcionária pública, o trabalho ajuda sua existência

Sentia-se abandonada igual ao jovem catador de lixo, ele veio preencher uma carência afetiva, alegrava-se ao dar-lhe parte de sua comida, depois presenteou-lhe camisa, roupa. Com o passar do tempo deu-lhe trabalho, mandou o barbeiro dar-lhe um trato, tornou-se uma espécie de secretário para limpeza da casa, do carro, fazer compras e outros afazeres. Cicinho toda manhã dava plantão em frente ao prédio de Alzira, à tarde caía no mundo junto aos companheiros. Certo dia ela convidou-o a morar no quarto de empregada, almoçava com a cozinheira.

Alzira ficou apegada ao adolescente, durante a noite ensinava a ler, a escrever e contas aritméticas. Deu sorte, conseguiu matricular o jovem no Colégio Marista onde os Irmãos têm cursos gratuitos para os necessitados.

Cicinho é calado, casmurro por natureza. Alzira descobriu, em conversa, seu sonho, uma prancha de surf. No natal ela presenteou-lhe uma prancha, o jovem feliz da vida, danou-se a surfar na praia de Cruz das Almas. Nunca abandonou os amigos, quando ia ao surf marcava com os companheiros cheira-cola, eles pegando carona na prancha. Quando podia, arranjava comida para sua turma. Cicinho tem consciência que a sorte passou em sua vida. É generoso e solidário, embora o sentimento de injustiça e desigualdade social seja forte em suas convicções.

Tornou-se um forte e belo rapaz, espadaúdo, típico surfista. Atualmente estuda para vestibular de Direito, quer ser um bom advogado e criar uma casa de abrigo a menores moradores de rua, seus sonhos fizeram feliz Dona Alzira, como ele a chama.

Cicinho deixou a dependência de empregada, dorme em quarto próprio. Mostra sua gratidão, tem verdadeiro afeto e carinho por sua protetora que mudou sua vida, lhe deu o que um jovem precisa, um lar, afeto e estudo. Está aprendendo a dirigir, carro prometido se passar no vestibular. Para Alzira é como se fosse um filho, aliás, mais que um filho.

Nas refeições divide a mesa com seu protegido. Segundo línguas ferinas, sem provas, invencionice de quem não têm o que fazer, durante parte da noite, divide também a cama forrada de lençol de linho e travesseiros de marcela. Alzira anda na maior felicidade, apenas um problema, administrar o ciúme das paqueras que dão em cima de seu belo Pequeno Príncipe Negro.


Carlito Lima - Histórias do Velho Capita Friday, 13 de January de 2017

A AFILHADA

Dr. Romero chegou cedo ao escritório, algumas pessoas o esperavam na sala. Cumprimentou-as, ao mesmo tempo deu um olhar fotográfico, entrou na sala, sentou-se no birô, iniciou a leitura da correspondência. Logo chamou Nena, perguntou os assuntos daquela manhã, a secretária explicou cada caso, a filha de Adamastor veio pegar o cheque mensal 

Romero lembrou o amigo de infância, Adamastor, o melhor ponta esquerda do time de futebol da praia. Naquela época, adolescentes, a juventude aceitava melhor as diferenças, com mais honestidade, valia mais quem sabia jogar mais, quem trepava mais rápido num coqueiro e sabia fugir correndo do vigia. Adamastor, um atleta nato, desde o futebol na praia até mergulhar da cumeeira do trapiche avançado mar adentro. Tornou-se o melhor amigo de Romero, andavam sempre juntos caçando lagartixa com atiradeira, mergulhavam e pescavam à beira mar, pegavam caranguejo goiamum e outras brincadeira inventada por aqueles jovens adolescentes, na puberdade, se descobrindo, se possuindo dentro do mar, em intenção às moças de maiô deitadas na areia alva da praia.

O tempo que tudo desfaz, separou a amizade de infância. Raras vezes eles se viam, embora fossem compadres, Romero era padrinho de uma de suas filhas. Anos depois Adamastor procurou o amigo, estava morrendo, pediu ajuda, não deixar a família desamparada. Há dois anos Romero mensalmente dá um cheque de R$ 500,00 à família, um dos filhos vem buscá-lo no início de cada mês. Ele não conhecia essa filha à sua espera, ela entrou no escritório.

– “Você parece com o Adamastor, sente-se por favor” recebeu em pé. A jovem puxou a cadeira confortável sentou-se elegante, cruzou as pernas, sorriu.

-“Meu pai falava muito no senhor, muitas histórias ele contou, uma juventude alegre e livre na praia. Eu sou Clarissa, sua afilhada.”

– “Não me diga que prazer, ter uma afilhada bonita, não é para todo mundo”. Disse Romero rendendo-se ao encanto da morena. “Clarissa, minha afilhada, o que você faz na vida? Adamastor foi meu grande amigo de infância, gostaria de saber se posso ajudar em alguma coisa a mais?”

-“Doutor Romero na verdade eu trabalhava numa loja do Shopping, a empresa passando por dificuldades, fiquei desempregada, ainda bem que moro com mamãe.”


– “Faça o seguinte, traga seu currículo, deixe com minha secretária, vou ver o que posso fazer.” Levantou-se deu-lhe o cheque, ficou olhando a filha de Adamastor se retirar. Pensou, uma bela mulher!

Duas semanas depois Clarissa trabalhava no escritório, auxiliando Nena. A convivência entre o padrinho e a afilhada foi se estreitando, Romero tinha maior carinho pela filha do amigo, às vezes iam lanchar numa sorveteria perto do escritório, conversavam bastante, ele sorria com o bom humor da afilhada. Entretanto, ao olhar as pernas da jovem esquentava o sangue na veia, tentava se policiar. Certo vez, final do expediente ele dirigia rumo à sua casa, avistou Clarissa no ponto de ônibus, ofereceu carona. Ela abriu a porta do carro, sentou-se como uma princesa, no primeiro sinal vermelho o carro parou, ele olhou nos olhos de Clarissa, no verde arrancou, deixou-a em frente de sua casa, na despedida em vez de beijinho na face, aconteceu o primeiro beijo na boa, ficou só no beijo, ela desceu rápida.

Dia seguinte Clarissa estava encabulada, mal encarou o padrinho. Ele a chamou, disse que o beijo foi uma coisa natural, afinal ela é uma mulher atraente. Pediu a Clarissa fazer alguns pagamentos, ela saiu à pé, o banco era perto. De repente, Romero encheu-se de desejo, desceu à garagem, conseguiu alcançá-la , parou o carro. Passarem uma tarde inesquecível num motel luxuoso.

Romero adorou a aventura, toda semana repetiam a tarde maravilhosa, por muito tempo. Na virada desse ano, durante o réveillon na praia, um italiano conheceu Clarissa, conversaram, tomaram champanhe, celebraram com fogos a entrada do ano novo, dormiram juntos no hotel. Paolo apaixonou-se pela morenice, pela sensualidade daquela jovem, embarcou para Itália quatro dias depois, levou Clarissa, a jovem está em Gênova. Na véspera da viagem a afilhada explicou ao padrinho o inesperado acontecido, o italiano apaixonou-se, prometeu o mundo à ela. Romero chocou-se. Teve enorme depressão, a tristeza aumenta quando pensa, talvez nunca mais veja sua querida afilhada.

 


Carlito Lima - Histórias do Velho Capita Thursday, 12 de January de 2017

DE MÃOZINHAS DADAS

Maria Lúcia acordou-se com leve dor de cabeça, amargo na boca, havia bebido na noite anterior. Ainda deitada desligou o ar condicionado. Veio-lhe a imagem, detalhes da tarde de amor, Marcelo, terno, carinhoso, ao mesmo tempo selvagem, deixou-a em êxtase duas vezes, quase desmaia. Jamais pensou ficar apaixonada por um homem mais velho, poderia ser seu pai. Lucinha não tinha algum sentimento de culpa, não importava aquela situação camuflada, pouquíssimos amigos sabiam do caso. Sem problema ou preconceito em amar um homem mais velho e casado. Bem melhor que Julião, ex marido, Marcelo usava a experiência, sabia mexer nos pontos sensíveis de uma mulher, devagar, sem pressa, ficava a explorar sua anatomia, enquanto Julião um desastre na cama, apesar do belo corpo jovem, bebia muito, cheirava; na hora do amor pensava apenas em satisfazer-se. Maria Lúcia aguentou apenas dois anos de casada, não tinha saudade daquela época. Hoje, uma mulher livre, fazia o que queria, até um caso de amor com um homem maduro. Na véspera, depois da estonteante tarde de amor, Maria Lúcia saiu com um grupo de amigos na balada noturna, dançou e bebeu até quae amanhecer o dia

Saiu do devaneio ao olhar o relógio, 11:30 h, levantou-se, abriu a cortina, dia ensolarado, luminosa manhã. O mar de um verde esmeralda misturava um azul turquesa em suas águas, pequenas marolas. Contemplando do alto da janela deu-lhe uma sensação de bem estar, amava sua cidade, sua praia, a vida é bela.

Na sala encontrou os pais, a irmã mais nova.

– “Lucinha querida, a noitada foi boa, sua cara de ressaca não nega.” Entregou a irmã.

– “Foi ótima, saí com as amigas, eu posso, sou adulta, independente, dona do meu nariz”.

Conversavam enquanto Maria Lúcia preparava um lanche na cozinha. O celular tocou, era Dudu. Toda mulher bonita, gostosa, separada, tem um amigo homossexual.

Eduardo não parece homo, não dá para notar sua opção sexual até ele abrir a boca. Lucinha atendeu.

– “Diga Duduzinho querido! Como está vossa excelência?”

– “Estou à toa na vida, quero saber da programação nesse belo sábado, que tal nos encontramos numa barraca de praia, para um bom chope? Depois seja o que Deus quiser. Esse dia ensoralado é um convite para desmantelo.

– “Fechado, uma hora na Barraca Pedra Virada, tem sempre amigos curtindo uma cervejinha”.

A mãe ouvindo a conversa, não perdeu oportunidade para um conselho e um puxão de orelha.

– “Lucinha, você já vai sair? Daqui a pouco fica falada, não arranja outro marido. Esse Dudu parece, mas não é homem, cuidado com a vida. Quero que você se divirta, com juízo.”

– “Minha mãe essa vida é curta, ou eu me divirto ou tenho juízo, os dois são incompatíveis”. Deu uma gargalhada.

Maria Lúcia deu partida no carro rumo ao encontro, tomou a Avenida Beira Mar. De repente, sinal vermelho, ela freou, ficou na espera, ao olhar de lado teve um susto. Seu amado Marcelo entrava num restaurante de mãos dadas com a esposa. Deu-lhe uma sensação de mal estar, acabou-se a alegria, veio-lhe um profundo ciúme do fundo da alma. Precisou uma buzinada para acordá-la ao abrir sinal verde, acelerou o carro, mais adiante parou no acostamento, colocou a cabeça entre as mãos por cima do volante, chorou de raiva e pena de si mesma. Ao se recuperar retomou a Avenida Beira Mar.

Dudu esperava sentado, camisa vermelha, bem penteado, moço bonito, elegante, copo de cerveja na mão, peixinho frito na outra, ao vê-la fez sinal. Lucinha achegou-se devagar, sentou-se, chorou discretamente, queria tomar um porre, contou ao amigo o encontro inesperado com o amado Marcelo.

– “Você diz não ter preconceito, aceita esse amor proibido. Faz análise, tem cabeça boa, não entendo esse choque, esse chilique ao ver Marcelo e a esposa.” Provocou-a Dudu.

– “De mãozinhas dadas! De mãozinhas dadas não dá para aguentar!”


Carlito Lima - Histórias do Velho Capita Friday, 06 de January de 2017

A MANICURE

– Depois de velho, você ficou relaxado, coisa feia! Não corta o cabelo, unhas grandes, vou contratar manicure. Se eu morrer você vai virar lobisomem. Vivia reclamando Dona Sílvia aos ouvidos de Fonseca.

Certo sábado, pela manhã, a campanhia do apartamento tocou, uma morena sorridente se apresentou, Aparecida, manicure. Dona Sílvia tirou o marido da leitura dos jornais na varanda, hora de fazer as unhas, ele levantou-se, mais para livrar-se da insistente mulher. Sentou-se na poltrona, cumprimentou a manicure, acionou o controle remoto da televisão. Colocou os pés numa bacia de água quente para amolecer as unhas. Dona Sílvia deixou o marido entregue à manicure, foi às compras, sábado é dia de Shopping, encontro de amigas, só retrnaria na hora do almoço.

 

Durante o cortar das unhas de mão, Aparecida alisava a de Fonseca com suavidade, ele sentiu uma sensação gostosa, carícia no toque de mãos, olhou para manicure com curiosidade, ficou inquieto ao perceber o generoso decote da manicure, seios duros, empinados, há tempo não excitava-se com uma mulher. Puxou conversa.

– Menina você é a boa manicure, sabe cortar com suavidade, onde aprendeu essa delicadeza?

– Eu precisava de uma profissão, ganhar dinheiro, sustentar minha filha, uma vizinha me ensinou, hoje tenho bons fregueses, não paro de cortar unhas, os clientes gostam. Ser manicure foi muito bom para mim. Ganho meu sustento.

– E seu marido, pai de sua filha, não lhe ajuda?

– Marido não, meu vizinho, namorei com ele, me emprenhou ainda menina, eu tinha 15 anos. Danou-se para o Rio de Janeiro, sonhava ser cantor de rádio e televisão, canta bem. Há mais de cinco anos não tenho notícias dele, soube que é traficante no morro. Por isso vivo com minha mãe.

Conversaram muito, Aparecida contou sua vida severina, comum na periferia do Nordeste. Ao terminar, ele olhou os pés, as mãos, admirou as unhas simetricamente cortadas, perfeitas. Perguntou o preço do serviço, pagou R$ 35,00, cinco a mais do valor pedido. A morena agradeceu, guardou o material. Fonseca ficou encantado ao perceber o corpo da morena dentro do vestido azul claro, quase transparente. Aparecida despediu-se perguntando quando retornava. Venha no próximo sábado, disse com entusiasmo admirando o rebolado da manicure em direção à porta.

Na hora do almoço Dona Sílvia inspecionou as mãos, os pés, do marido, aprovou, perguntou se havia gostado da manicure, Fonseca resmungou, fez-se indiferente, entretanto, a jovem não saía da cabeça.

Dois meses Fonseca alimentou-se de fantasia, sonhava com a morena acariciando seus pés. Ficava feliz desde sexta-feira. Em conversas enquanto cortava unhas, tornaram-se amigos, íntimos, certa vez ela confessou ter sido garota de programa, não gostou. Num sábado cheio de sol, ao pagar a manicure, Fonseca encorajou-se, alisou-lhe o pescoço, o colo, deu-lhe um beijo na testa. Ela reclamou baixinho, “não Seu Fonseca, não…” Ele a trouxe num abraço apertado, beijou-lhe a boca. No apartamento da Ponta Verde, embalado pela carícia do vento Nordeste, em cima do tapete comprado na Capadócia fizeram amor pela primeira vez.

Dona Sílvia ao chegar notou a cara de felicidade do marido tomando uma cervejinha, cantando na varanda, achando o mar e a vida bonita. Convidou a mulher para almoçar, variar de comida, de tempero, foram à Barraca Pedra Virada na orla da Ponta Verde, encontraram amigos, passaram uma tarde maravilhosa conversando, uísque de combustível. Ao chegar em casa amaram-se como nunca mais tinham amado. Dona Sílvia, antes de adormecer, conseguiu perguntar, o que deu em você hoje?

Fonseca, homem decente, conversou sério com a manicure, não ficava bem fazer amor dentro de sua casa, era falta de respeito. Marcou, estabeleceu com Aparecida, encontram-se uma vez por semana para deliciosa tarde de amor, com ajutório. Fonseca está sentindo-se mais jovem, cabelo cortado, camisa da moda. Nunca mais Dona Sílvia reclamou o relaxamento do marido.

 


Carlito Lima - Histórias do Velho Capita Thursday, 05 de January de 2017

DESEJOS DE ANO NOVO

 

Nesse final de ano recebi um presente, o livro, “SE FOR PRA CHORAR QUE SEJA DE ALEGRIA” de meu querido amigo Ignácio Loyola Brandão, jornalista, ator, o

escritor brasileiro mais lido no país e no estrangeiro.

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Uma dedicatória gentil, generosa, deixou-me emocionado, “Para o grande Carlito, que me deu o título deste livro, com a amizade de sempre”. No final do livro cheio de histórias e crônicas fascinantes, Ignácio explica o título.

“Final de ano é também momento de desejar boas-festas. Mas todas as frases, todos os cartões, tudo foi esgotado, virou clichê, lugar-comum, banalidade. Estava no computador buscando alguma originalidade, porque é o que esperam de mim. Aí travei! De repente, meu amigo Carlito Lima, de Marechal Deodoro, cidadezinha vizinha a Maceió, me salvou. Carlito organiza um dos menores e mais amados festivais de literatura do Brasil, FLIMAR (Festa Literária de Marechal Deodoro), pequeno, mas com nomes de primeiro time e muito companheirismo. Pois repasso aos leitores os desejos de Carlito. Vejam que delícia. Podem usar.

Alguns desejos para o próximo ano novo.

Se existir guerra, que seja de travesseiro.

Se for pra prender, que seja o cabelo.

Se existir fome, que seja de amor.

Se for pra atirar, que seja o pau no gato-t-ó-tó.

Se for pra atacar, que seja pela pontas.

Se for pra enganar, que seja o estômago.

Se for pra armar, que arme um circo.

Se for pra chorar, que seja de alegria.

Se for pra assaltar, que seja a geladeira.

Se for para mentir, que seja a idade.

Se for para algemar, que se algeme na cama.

Se for pra roubar, que seja um beijo.

Se for pra afogar, que afogue o ganso.

Se for pra perder, que seja o medo.

Se for pra brigar que briguem as aranhas.

Se for pra doer, que doa a saudade.

Se for pra cair, que caia na gandaia.

Se for pra morrer, que morra de amores.

Se for pra tomar, que tome um vinho.

Se for pra queimar, que queime um fumo.

Se for pra garfar, que garfe um macarrone.

Se for pra enforcar, que enforque a aula.

Se for pra ser feliz, que seja o tempo todo.

Não vacilei (continua Ignácio) copiei e enviei para vários amigos, inclusive ao Chico Buarque, devia uma mensagem a ele. Meia hora depois veio a resposta.
Adendo para adictos:

Se for pra cheirar, que seja a flor.

Se for pra fumar, que seja a cobra.

Se for pra picar, que seja a mula.

Obs. de Ignácio. – Pensando nas novas gerações, esclareço: “a cobra está fumando” era a expressão que os soldados brasileiros, chamados de pracinhas, que lutavam na Europa na última Grande Guerra, usavam ao atacar o inimigo.”

Assim Ignácio Loyola Brandão encerra seu novo livro, encantador. Aproveito para enviar aos amigos, novamente, esses desejos de ano novo, em meu nome, em nome do Loyola e do meu novo parceiro, Chico Buarque. Um ótimo 2017.


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