Almanaque Raimundo Floriano
(Cultural, sem fins comerciais, lucrativos ou financeiros)


Raimundo Floriano de Albuquerque e Silva, Editor deste Almanaque, também conhecido como Velho Fulô, Palhaço Seu Mundinho e Mundico Trazendowski, nascido em Balsas , Maranhão, a 3 de julho de 1936, Católico Apostólico Romano, Contador, Oficial da Reserva do Exército Brasileiro, Funcionário Público aposentado da Câmara dos Deputados, Titular da Cadeira nº 10 da Academia Passa Disco da Música Nordestina, cuja patrona é a cantora Elba Ramalho, Mestre e Fundador da Banda da Capital Federal, Pesquisador da MPB, especializado em Velha Guarda, Música Militar, Carnaval e Forró, Cardeal Fundador da Igreja Sertaneja, Pioneiro de Brasília, Xerife nos Mares do Caribe, Cordelista e Glosador, Amigo do Rio das Balsas, Inventor da Descida de Boia, em julho de 1952, Amigo da Fanfarra do 1° RCG, autor dos livros O Acordo PDS/PTB, coletânea de charges, Sinais de Revisão e Regras de Pontuação, normativo, Do Jumento ao Parlamento, com episódios da vida real, De Balsas para o Mundo, centrado na navegação fluvial Balsas/Oceano Atlântico, Pétalas do Rosa, saga da Família Albuquerque e Silva, Memorial Balsense, dedicado à história de sua terra natal, e Caindo na Gandaia, humorístico apimentado, é casado, tem quatro filhos, uma nora, um genro e dois netos e reside em Brasília, Distrito Federal, desde dezembro de 1960.

De Balsas Para o Mundo segunda, 03 de abril de 2017

CÔRTES, MEU AMIGO, ESPELHO E GURU

CÔRTES, MEU AMIGO, ESPELHO E GURU

Raimundo Floriano 

 

Sebastião Corrêa Côrtes - Acervo Cândida Corrêa Côrtes

 

            Aquele 15 de julho de 2008 ficará para sempre marcado na minha mente como uma data da qual jamais gostaria de recordar.

 

            Cheguei em casa, vindo da hidroterapia, mais ou menos às 9 horas de manhã e, como de hábito, comecei a leitura diária do jornal Correio Braziliense. Ao abrir o caderno Cidades, o susto e a quase incontida comoção: morrera, na noite anterior, Sebastião Corrêa Côrtes, e o sepultamento se daria às 11 horas.

 

            Larguei o jornal e fui para o computador, tentando colocar na tela tudo aquilo que esse homem foi para mim, numa espécie de válvula de escape. Minha intenção era apenas extravasar a forte emoção que de mim se apoderara, mostrando o que escrevera ao meu irmão José, o Carioquinha, que, por certo, compareceria aos funerais. Com o texto no bolso, redigido em menos de uma hora, dirigi-me à Capela 6 do Campo da Esperança.

 

            Junto ao ataúde, os oradores se sucediam. Em dado momento, sem que isso tivesse planejado, num gesto impulsivo, e insofreável, acerquei-me do féretro, solicitei e obtive de Dona Maria, a viúva, permissão para ler o texto a seguir.

 

            Conhecemo-nos na Câmara dos Deputados, onde exercíamos o cargo de Auxiliar Legislativo, ele nomeado em 1964 e eu, em 1967, e isso era só o que tínhamos em comum. Não éramos farinha do mesmo saco. Ele estava a duzentos mil anos-luz acima de mim, na cultura e no saber: foi o homem mais inteligente, culto e sábio que conheci em toda a minha vida.

 

            Antes de entrar para a Câmara, ele era professor universitário e servidor do IBGE em Goiânia, de onde foi requisitado, em 1959, para trabalhar no Palácio do Planalto, com tarefa altamente honrosa: redigir discursos a serem pronunciados pelo Presidente da República, começando com Juscelino Kubitschek e, em seguida, Jânio Quadros, João Goulart e Marechal Castelo Branco.

 

            Mais tarde, ingressou no Poder Legislativo, mediante a aprovação em concurso público de âmbito nacional, no qual obteve o primeiro lugar. Aliás, esta era a sua maior diversão naqueles tempos pioneiros: inscrever-se em concursos apenas para obter a primeira colocação!

 

            Sua última missão na Câmara foi a de coordenar toda a Assessoria Legislativa.

 

            Nossa amizade no trabalho era formal. Construímos relacionamento mais chegado após nossa aposentadoria, principalmente porque eu, com fumaças de escriba, vivia socorrendo-me da sua experiência para orientar-me na cultura, de um modo geral, e na Língua Portuguesa, em particular. Côrtes era filólogo, latinista, poliglota e helenista. Claro está que muito eu tinha a aprender com ele.

 

            Sua versatilidade era impressionante. Não só redigia em Latim, língua da qual foi professor no Seminário de Brasília, como falava Latim. Outra: uma vez, pegamos juntos o elevador lá no Venâncio 2.000. No meio da estrada, entrou o empresário Lindberg Aziz Cury, e aí a coisa não prestou não! Os dois danaram-se a conversar em Árabe, deixando-me boquiaberto e por demais maravilhado com a erudição do amigo.

 

            Gozei da honra de tê-lo como revisor do meu livro, Do Jumento ao Parlamento, e mereci dele a deferência de dedicar-me, na festa dos meus 70 anos, discurso laudatório onde enumerou, em adjetivos iniciados com cada letra do alfabeto, atributos que julgava inerentes à minha pessoa. Só faltaram o k, o w e o y, mas isso já era querer de mais.

 

            Era crítico severo, irônico e impiedoso, razão pela qual seus ensinamentos jamais foram esquecidos. Certa feita, ao ler vastíssimo texto que submeti à sua apreciação, lascou-me na cara:

 

            – Raimundo, seu estilo é o que eu classifico como suinismo!

            – E o que isso significa?

            – Você escreve muito a palavra um, sem necessidade. Os suínos é que passam o dia todo falando um-um-um-um. Corrija-se nisso. Por exemplo, tire esse monte de um que tem neste texto, e o sentido em nada se alterará.

 

            Dali pra frente, passei a policiar-me, para nunca mais cair na porcaria.

 

            Côrtes enfrentou seriíssimos problemas cardíacos no final de sua existência. Foram AVCs, enfartes e outras cardiopatias que, apesar de graves e invasivas, não lhe tiraram a sapiência e a vontade de viver. Lutou bravamente. Fomos colegas de malhação na Academia RECOR, onde eu me refazia de uma vascularização, e ele procurava recuperar os movimentos tolhidos pelo primeiro derrame. Na hidroterapia, batalhou com ardor nos seus últimos dias. E isso não o impedia de compartilhar seus conhecimentos com todos os que a ele recorriam. Constantemente, era solicitada sua presença no Senado ou na Câmara, para auxiliar parlamentares na redação de pronunciamentos e demais proposições legislativas.

 

            Há cerca de dois meses, vali-me de sua ajuda pela última vez. Eu andava encucado com a análise sintática da primeira frase do Hino Nacional Brasileiro e, tentando ilustrar-me, consultei vários estudiosos. Nenhum me deu resposta satisfatória. Vejamos o caso. Originalmente, a oração assim aparece: “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas/De um povo heróico o brado retumbante. Na ordem direta, temos: “As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heróico”. Onde as margens plácidas é o sujeito, ouviram é o predicado, o brado retumbante é o objeto direto, e de um povo heróico é o adjunto adverbial. Mas adjunto adverbial de quê? Ninguém atinava. Liguei para o Côrtes, ele, disparou na bucha: “De origem!”. Bom, agora, que ele matou a charada, todo mundo vai dizer que sabia a solução.

 

            Hoje é um dia triste para mim. Neste momento, o corpo desse grande amigo se encontra à espera das últimas homenagens que lhe serão prestadas, antes de baixar ao túmulo. E eu, nestas despretensiosas linhas, quero deixar patenteada a grande admiração que lhe devotei no nosso labutar e expressar meu profundo sentimento de pesar pela perda que ora se nos é imposta pelo Destino.

 

            Que Deus o tenha!

 

            Nesse meu pequeno panegírico, faltaram alguns importantes dados referentes à sua formação intelectual, falha que agora procuro sanar.

 

            Côrtes nasceu em Patrocínio (MG), a 15.04.1924. Ainda menino, tornou-se seminarista, mas, depois de alguns anos, ao descobrir não ter vocação para o celibato, ingressou na vida secular e foi um importante membro da Igreja Católica. Assessorou a CNBB, elaborando, corrigindo e revisando documentos e textos em Latim a serem enviados para o Vaticano.

 

            Conquistou a maior parte de sua magnífica escolaridade em Goiânia (GO), onde, no tempo de estudante, para se sustentar, lecionava Português, Francês, Filosofia e Direito.

 

            Graduou-se em Filosofia, Teologia, Direito, Matemática e Estatística. Cursou a Escola Superior de Guerra, com pós-graduação em Segurança Nacional.

 

            Além do Latim e do Árabe, era fluente em vários outros idiomas como o Inglês, o Espanhol, o Italiano, o Francês, o Esperanto, o Grego e o Japonês. Sabia de cor o Dicionário e a Gramática Latina. Tinha o dom do sotaque e se passava por francês entre os franceses.

 

            Com Dona Maria, teve os filhos Marcelo, Cláudio, Diomar e Tarcísio.

 

            Quando foi aprovado, em primeiro lugar, no vestibular de Direito, em Goiânia, na década de 50, escreveu para Dona Candinha, sua mãe, a carta que adiante transcrevo.

 

“Mamãe,

 

Já fiz o Curso Primário, o Ginasial, o Clássico, o Curso de Filosofia e Teologia, Matemática e Estatística, e agora vou fazer o Curso de Direito. Já andei a pé, a cavalo, de trem, de ônibus, de navio e de avião; contemplei serras, vales, planícies, planaltos, praias, vilas e cidades, mas tudo isso somado não vale uma fraçãozinha sequer do que a senhora vale para mim. Sou-lhe agradecido pelas noites que a senhora não dormiu, pelo leite com que me alimentou e pela fé que implantou em meu peito. E hoje, alvo de homenagens pela aprovação no vestibular, eu me lembrei de seu empenho em me manter no Seminário, dos adobes de barro que fazia, das roupas usadas que conseguia para mim. Essa lembrança me fez ver que a vitória não é minha e sim da senhora.

 

Sebastião”

 

            Pois é, naquela época tão distante, Côrtes não imaginava a grandiosidade que lhe era reservada no Mundo das Letras!

 


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