Almanaque Raimundo Floriano
(Cultural, sem fins comerciais, lucrativos ou financeiros)


Raimundo Floriano de Albuquerque e Silva, Editor deste Almanaque, também conhecido como Velho Fulô, Palhaço Seu Mundinho e Mundico Trazendowski, nascido em Balsas , Maranhão, a 3 de julho de 1936, Católico Apostólico Romano, Contador, Oficial da Reserva do Exército Brasileiro, Funcionário Público aposentado da Câmara dos Deputados, Titular da Cadeira nº 10 da Academia Passa Disco da Música Nordestina, cuja patrona é a cantora Elba Ramalho, Mestre e Fundador da Banda da Capital Federal, Pesquisador da MPB, especializado em Velha Guarda, Música Militar, Carnaval e Forró, Cardeal Fundador da Igreja Sertaneja, Pioneiro de Brasília, Xerife nos Mares do Caribe, Cordelista e Glosador, Amigo do Rio das Balsas, Inventor da Descida de Boia, em julho de 1952, Amigo da Fanfarra do 1° RCG, autor dos livros O Acordo PDS/PTB, coletânea de charges, Sinais de Revisão e Regras de Pontuação, normativo, Do Jumento ao Parlamento, com episódios da vida real, De Balsas para o Mundo, centrado na navegação fluvial Balsas/Oceano Atlântico, Pétalas do Rosa, saga da Família Albuquerque e Silva, Memorial Balsense, dedicado à história de sua terra natal, e Caindo na Gandaia, humorístico apimentado, é casado, tem quatro filhos, uma nora, um genro e dois netos e reside em Brasília, Distrito Federal, desde dezembro de 1960.

Coluna do Calixto - Onde Reminiscências, Viagens e Aventuras se Encontram sábado, 04 de junho de 2022

LONDRES, 2005 – PARTE I
LONDRES, 2005 – PARTE I
Robson José Calixto

 

                        É exatamente ali, naquele estirão urbano, que se podem aquilatar as relações políticas e, mesmo, carnais, do Governo britânico com o mundo árabe. É exatamente ali, entre as Estações de Metrô de Marble Arch e Edgware Road, que se podem captar os odores, os sabores, os olhares, as cores, os tons e os sons dos povos do Oriente Médio que encravaram moradas na Europa. É naquela reta urbana da cidade de Londres que se pode ter noção e amostra das tensões entre irmãos de fé, de lamento, de juras, de raízes expostas, de guerra.

 

                        É caminhando por ali, entre homens de mãos dadas; entre maridos acompanhados, em sequência, por suas esposas (a do dia à frente) e filhos; entre moças lindas com suas túnicas claras bordadas de ouro e que, estranhamente, às vezes, se tornam pedintes ao cair da tarde; entre senhoras com suas vestimentas marrons ou negras e olhares furtivos; entre londrinos que expõem suas tatuagens e “piercings” e que se movimentam rápido ou lotam cafés e restaurantes, que se podem captar as distinções dos costumes, da educação, da cultura, de duas civilizações que têm se chocado.

 

                        Lá naquela zona de contato mundial, onde são encontrados restaurantes libaneses fantásticos com suas mesinhas quadradas e pequenas, onde se podem pedir porções deliciosas e fartas de “Hommos”, “Moutabal” (“Baba Ghanouj”) e “Tabbouleh” ou, ainda, um churrasco misto com cebolas e tomates grelhados, tendo por baixo, sempre, uma cunha de pão árabe avermelhada por uma pimenta flamejante. Beber “Perrier”, deliciosos sucos de morango, chá de hortelã e nenhuma bebida alcoólica. Mas também se pode se ver, se achar, uma “dança do ventre” em atmosfera mais seletiva e obscura, enigmática. Ou ainda sentar numa cadeira de plástico à frente de sorveteria e se misturar com árabes mais antigos para degustar uma taça de sorvete em noite escaldante como aquelas de julho de 2004, quando se viam inglesas de biquíni caminhando pelas ruas, expondo as suas alvuras.

 

                        Dentro de suas lojas, como a Argos, lotadas por senhoras e crianças árabes comprando de tudo e onde, muitas vezes, ouve-se o português caminhando entre as seções, é que se aproximam as perspectivas consumistas ocidentais e orientais. Nessas lojas, onde um homem se aproxima e as compradoras árabes se afastam e escondem os olhos, verificam-se verdadeiros territórios neutros para o consumo e se entende a dimensão humana mais comum: gente.

 

Doce Osmalia, com água de rosas

Foto: Robson José Calixto

 

                        Profusão de cores marcando os contornos dos olhos, em especial lápis-lazulli e o negro de Kajal; de notas de cereja espalhadas pelos narguilés fumados nas portas dos restaurantes e bares, fumaças tão densas sobem pelo ar. Ali se encontram sabores doces (tâmaras e damascos secos, “Baklawa”), enigmáticos (“Osmalia”), salgados (pistache), amargos (pimentas verdes) e tenros (azeitonas pretas, carneiro, churrasco, azeite de gergelim). Profusão cosmopolita de cores de pele, de raças, de línguas, de gostos, de temperos, de olhares, de desconfianças, de vigilâncias, de espionagens enquanto se usam os computadores de Cybercafés, de controle televiso (CCTV), de pedágios.

 

                        E foi em um dos pontos daquele trecho urbano, que o mundo veio abaixo no dia 7 de julho de 2005. Não somente ali, em outros três locais de Londres o terror também atacou; um dia depois de toda comemoração pela cidade ter sido escolhida sede dos Jogos Olímpicos do ano de 2012.

 

7 de julho de 2005

 

                        Distante, um especialista em poluição marinha acorda em um dos quartos do Hotel Glória, na cidade do Rio de Janeiro. Liga a televisão a cabo que lhe despeja um montão de notícias de que ocorrera um ataque terrorista na cidade de Londres, gelando o seu coração e infligindo medo, porque dois dias depois estaria partindo para aquela cidade, para mais uma reunião da Organização Marítima Internacional - IMO. Muda para a CNN. Imagens. Sem Imagens. Notícias. Sem notícias. Falam na Al-Qaeda. Troca parte da roupa no banheiro, mas o ouvido se alonga e fica grudado na televisão. Tem que descer para tomar café, e o corpo quer permanecer no quarto. Sai do quarto e a mente quer permanecer em frente à televisão. Conversa com colegas que estavam participando do evento, muitos não sabiam das notícias e também ficam assustados.

 

                        A tarde prolongava-se, os minutos repartiam-se, dividiam-se e se vivia num intervalo infinitesimal eterno. De noite vasculha os canais e passa entender melhor o que ocorrera, de fato.

 

Imagem de uma das entradas da Estação de Metrô King´s Cross St. Pancras

Imagem: Google Earth. Acesso em 07 de outubro de 2016

 

                        A partir das 8h50 da manhã daquele dia – hora local de Londres -, em intervalos de 50 segundos, três bombas foram acionadas. A primeira explode num trem da Circle Line, entre as estações de Liverpool Street e Aldgate. A segunda em outro trem, também, da Circle Line, que acabara de deixar a Plataforma 4 da Estação de Edgware Road em direção a Paddington. A terceira em trem que percorria a linha de Piccadilly, entre King´s Cross St. Pancras e Russel Square. Vinte e nove minutos, inglesa e exatamente depois, o Código Âmbar de Alerta é declarado, indicando que todos os trens em serviço devem parar na próxima estação, com o desembarque de todos os passageiros. Os serviços do Metrô são suspensos. As linhas telefônicas da cidade ficam mudas, congestionadas por chamadas locais, nacionais e internacionais; as pessoas mapeavam seus parentes e amigos na busca de informações sobre os seus estados de vida.

 

Uma das entradas da Estação de Metrô Edgware Road

Foto: Robson José Calixto, em 2005

 

                        Um ônibus vermelho, de duplo-deck, ostentando o No. 30 na sua dianteira e no seu lado esquerdo uma propaganda de filme de terror, comuníssimo na cidade de Londres, passara mais cedo em King´s Cross. No seu retorno até a estação de Hackney Wick, deixa Marble Arch às 09h e para num ponto de ônibus em Euston às 09:35 h. Diversas pessoas – desorientadas, feridas, assustadas, desesperadas, lacrimosas –, que fugiam do Metrô embarcam, juntando-se aos outros passageiros já presentes. Doze minutos depois, na junção de Tavistock Square e Upper Woburn Place, uma bomba de cerca de 4,5 kg explode, arrancando a traseira e fazendo voar o teto do ônibus. Quem não morreu na explosão foi atingido por fragmentos que alcançaram, inclusive, os transeuntes. O Primeiro Ministro Tony Blair abandona o Encontro dos Líderes do G-8, que ocorria no Hotel Gleneagles, em Perthshire, Escócia, se dirigindo para Londres, na linha de frente dos atentados. O Presidente Luís Inácio da Silva estava participando do Encontro como convidado.

 

Junção de Tavistock Square e Upper Woburn Place

Imagem: Google Earth. Acesso em 07 de outubro de 2016

 

                        O especialista rola na cama. Diversas perguntas lhe atravessam os pensamentos, e o seu cérebro sente a presença de uma insônia prevista. A solidão do quarto do hotel filtra respostas acobertadas, permitindo concentrar-se em verdades mais duras. Por que os atentados aconteceram? Por que Londres? E por que a estação de Edgware Road, dentro do bairro árabe? Lembra de outros atentados ocorridos em Nova York, Washington, Madri. Poderia estar em um daqueles trens ou no ônibus que explodiu e assustou a cidade de Londres pela violência e pelas cenas de horror vivenciadas.

 

                        O terror. A essência do terror é a repercussão do medo. Medo da morte. Reação ao desconhecido. Consciência da nossa mortalidade. Compaixão íntima à nossa humanidade tantas vezes esquecida. Futuro comum, todavia não igualizado, pois dependente de crenças, valores culturais e visões de mundo. Assim a dicotomia Ocidente-Oriente nem sempre possibilita a distinção entre o que é mais pecaminoso e o que é mais glorioso. Para alguns estudiosos, os autores de atos terroristas esperam sempre criar um senso generalizado de ansiedade e de medo, de forma que as pessoas se tornem aterrorizadas e imobilizadas, incapazes de resposta coerente aos perigos que confrontam. O terror impõe um mal-estar, uma dada tensão, devido à sensibilidade ao perigo iminente e amplia a incerteza da vida. No entanto, comunidades mais aguerridas, como a francesa ou a americana, se recusam a agir assim, buscando voltar à rotina o mais rápido possível.

 

                        O terror serve, também, como no caso da Espanha, para influir em eleições e derrubar governos, como o fez ao de José María Aznar, em 11 de março de 2004. Impede acordos de paz, reinflama situações problemáticas e, finalmente, gera mais terror.

 

                        O especialista recordou as palavras das Brigadas de Abu Hafs al-Masri, no ataque a Madri em 2004, descrito pelo jornal a Folha, em 2004: “Cumprimos nossa promessa conseguimos nos infiltrar no coração da Europa e atingir um dos principais pilares da aliança dos cruzados... Agora, colocamos os pingos nos is. Nós, das Brigadas de Abu Hafs al Masri, não sentimos pena dos civis. É legitimo que eles matem nossas crianças, nossas mulheres, nossos idosos, nossos jovens no Afeganistão, no Iraque, na Palestina e na Caxemira, enquanto para nós é pecado matá-los. Deus Todo Poderosos diz que devemos agredir quem nos agride... Os povos dos aliados aos Estados Unidos devem forçar seus governos a pôr fim nessa aliança em guerra contra o terrorismo, que significa uma guerra contra o Islã. Se pararem a guerra, pararemos a nossa”.

 

                        Na escuridão do quarto e distante da rua, os pensamentos do especialista continuam a formular hipóteses. Seu coração continua a não decodificar, muito bem, o que acontecera em Londres. Edgware... Edgware... Concorda com o escritor Paz (2005) que as bombas serviram, igualmente, como um alerta à comunidade mulçumana de Londres, ecoando sobre todo o mundo árabe. “De que lado vocês estão? Definam-se! Estão se sentindo muito seguros porque se estabeleceram no Ocidente? Se sentem protegidos pela distância? Têm uma vida boa? São muçulmanos, mas não se sentem comprometidos com a causa da Jihad? Se perderam as suas raízes profundas, se não se sentem fervorosamente vinculados à derrota dos cruzados, então serão também tragados pelo turbilhão de nossa vingança. Não serão mais nossos.” Esses questionamentos comungam-se e parecem construir um cenário coerente.

 

                        Esse chacoalhar talvez explique o porquê de ingleses de origem árabe, posteriormente, se associassem ao grupo Estado Islâmico e viessem cometer atos de terror abomináveis.

 

Fim da Parte I

 

(Este texto não é ficção, mas baseado em fatos reais, sendo parte do Livro Terror & Poder Marítimo, de Robson José Calixto, registrado na Biblioteca Nacional.)


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