Almanaque Raimundo Floriano
(Cultural, sem fins comerciais, lucrativos ou financeiros)


Raimundo Floriano de Albuquerque e Silva, Editor deste Almanaque, também conhecido como Velho Fulô, Palhaço Seu Mundinho e Mundico Trazendowski, nascido em Balsas , Maranhão, a 3 de julho de 1936, Católico Apostólico Romano, Contador, Oficial da Reserva do Exército Brasileiro, Funcionário Público aposentado da Câmara dos Deputados, Titular da Cadeira nº 10 da Academia Passa Disco da Música Nordestina, cuja patrona é a cantora Elba Ramalho, Mestre e Fundador da Banda da Capital Federal, Pesquisador da MPB, especializado em Velha Guarda, Música Militar, Carnaval e Forró, Cardeal Fundador da Igreja Sertaneja, Pioneiro de Brasília, Xerife nos Mares do Caribe, Cordelista e Glosador, Amigo do Rio das Balsas, Inventor da Descida de Boia, em julho de 1952, Amigo da Fanfarra do 1° RCG, autor dos livros O Acordo PDS/PTB, coletânea de charges, Sinais de Revisão e Regras de Pontuação, normativo, Do Jumento ao Parlamento, com episódios da vida real, De Balsas para o Mundo, centrado na navegação fluvial Balsas/Oceano Atlântico, Pétalas do Rosa, saga da Família Albuquerque e Silva, Memorial Balsense, dedicado à história de sua terra natal, e Caindo na Gandaia, humorístico apimentado, é casado, tem quatro filhos, uma nora, um genro e dois netos e reside em Brasília, Distrito Federal, desde dezembro de 1960.

Arthur Azevedo domingo, 15 de julho de 2018

MAL POR MAL

 

MAL POR MAL

Arthur Azevedo

 

 

Há bons maridos que se tornam maus porque as mulheres não são boas.

 

O Sebastião está ou esteve nesse caso: tão apoquentado se viu pela cara-metade, que, um belo dia, resolveu procurar na rua os carinhos que não encontrava no lar doméstico.

 

Não foi preciso procurar muito. O acaso fê-lo encontrar na Avenida Central, diante de um cinematógrafo-anúncio, uma bela morena que lhe deu volta ao miolo e lhe tirou noites de sono.

 

Se D. Flaviana, a mulher do Sebastião, fosse meiga e condescendente, e não tivesse tão mau gênio, está visto que ele não se deixaria prender nos braços de outra; mas deixou-se prender – e preso ficou ao ponto de arranjar uma casinha lá para os lados da Cidade Nova, onde esconderam – a morena e ele – o seu delicioso pecado.

 

E tão bem escondidinho estava que ninguém sabia de nada, exceção feita de Sepúlveda, o melhor amigo de Sebastião.

 

E o Sepúlveda não podia ser mais obsequioso. Como percebeu que a felicidade do amigo estava naquele derivativo, ele próprio se encarregou de alugar a casinha e mobiliá-la. A sua obsequiosidade foi ao ponto de arranjar para a porta da rua uma fechadura que se abria com a mesma chave da fechadura conjugal. De modo que o Sebastião não tinha necessidade de andar com duas chaves, o que seria perigoso.

 D. Flaviana, se fosse mais observadora, teria notado que de certo tempo em diante o Sebastião começou a sofrer resignado todas as suas impertinências. O pobre diabo dizia consigo: – "Lá tenho a Mirandolina para consolar-me." – Mirandolina era o nome da morena.

 

Entretanto, o Sebastião não ficava nenhuma noite fora de casa. Passava algumas horas com a Mirandolina, mas, à hora conveniente, lá ia para casa.

 

Uma noite destas, encontrou D. Flaviana acordada e disposta a brigar. Ela andava já com suas desconfianças de que o marido tinha contrabando lá fora, e entendeu que naquela noite deveria pôr tudo em pratos limpos. Recebeu o pobre homem com duas pedras na mão.

 

– Onde esteve o senhor até estas horas?

– Não tenho que lhe dar satisfações!

–Quero saber onde o senhor esteve! Olhe que eu perco a cabeça!

– Pois perca, mas, antes disso, deixe-me ir embora!

– Que leve a breca! – Disse consigo.

 

Mas era tarde, muito tarde, e o Sebastião precisava dormir. Lembrou-se de ir para um hotel, mas refletiu:

 

– Para quê, se tenho Mirandolina? Ela não conta comigo! Vai ter um alegrão com a minha volta!

 

E lá foi para a casa da Mirandolina.

 

Meteu a chave no trinco, abriu a porta sem rumor, e entrou devagarinho no quarto dela, que ressonava.

 

Aproximou-se e viu, surpreso, que um homem dormia ao lado de Mirandolina. Deu toda a força ao bico do gás, e reconheceu que esse homem era o Sepúlveda, o seu melhor amigo.

 

Este levantou-se estremunhado.

 

– Fica onde estás! A casa é tua deste momento em diante! Disse-lhe o Sebastião.

 

E o mísero saiu, e voltou para o lado da mulher legítima, que encontrou chorosa e quase submissa.

 

– No final das contas, pensou ele, mal por mal, antes a obrigação que a devoção.

 


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