Almanaque Raimundo Floriano
(Cultural, sem fins comerciais, lucrativos ou financeiros)


Raimundo Floriano de Albuquerque e Silva, Editor deste Almanaque, também conhecido como Velho Fulô, Palhaço Seu Mundinho e Mundico Trazendowski, nascido em Balsas , Maranhão, a 3 de julho de 1936, Católico Apostólico Romano, Contador, Oficial da Reserva do Exército Brasileiro, Funcionário Público aposentado da Câmara dos Deputados, Titular da Cadeira nº 10 da Academia Passa Disco da Música Nordestina, cuja patrona é a cantora Elba Ramalho, Mestre e Fundador da Banda da Capital Federal, Pesquisador da MPB, especializado em Velha Guarda, Música Militar, Carnaval e Forró, Cardeal Fundador da Igreja Sertaneja, Pioneiro de Brasília, Xerife nos Mares do Caribe, Cordelista e Glosador, Amigo do Rio das Balsas, Inventor da Descida de Boia, em julho de 1952, Amigo da Fanfarra do 1° RCG, autor dos livros O Acordo PDS/PTB, coletânea de charges, Sinais de Revisão e Regras de Pontuação, normativo, Do Jumento ao Parlamento, com episódios da vida real, De Balsas para o Mundo, centrado na navegação fluvial Balsas/Oceano Atlântico, Pétalas do Rosa, saga da Família Albuquerque e Silva, Memorial Balsense, dedicado à história de sua terra natal, e Caindo na Gandaia, humorístico apimentado, é casado, tem quatro filhos, uma nora, um genro e dois netos e reside em Brasília, Distrito Federal, desde dezembro de 1960.

Choro, Chorões, Partituras e Áudios terça, 25 de outubro de 2016

MISTER SIX, O HEXADÁTILO DO CAVAQUINHO

MISTER SIX, O HEXADÁTILO DO CAVAQUINHO

Raimundo Floriano

 

Francisco de Assis Carvalho da Silva

(Mister Six) 

                        Hexadátilo, como vocês estão cansos de saber, é a pessoa que tem seis dedos. E Francisco de Assis Carvalho da Silva, os possuía em ambos as mãos e em ambos os pés, herança genética de uns antepassados indígenas. Ele gostava de ser chamado de Mister Six e tudo que fazia era relacionava a esse pseudônimo.

 

                        Mister Six transmitiu essa polidatilia para grande parte de sua prole. Dos quatro filhos que teve, apenas o mais velho não nasceu com os seis dedos. Os outros três herdaram a genética do pai. Ao todo, são 14 membros da família que têm essa diferenciação.

 

Filha de Six, orgulhosa da hexadatilia 

                        Aliás, ser hexa é o desejo que todos nós, os brasileiros, acalentamos desde a conquista do penta em 2002. Não querendo meter política pelo meio, mas já enfiando, não custa lembrar que, como também todos estão cansos de saber, a dupla Itamar/FHC ganhou duas Copas e foi vice noutra, enquanto que a dupla Lula/Dilma já perdeu três. Como o brasileiro nunca desiste, a família de Mister Six, desde 2006, torce para que concretizemos tão almejado sonho, igualando-nos a ela ao hexa com que a Natureza os presenteou:

 

 

                        Mister Six nasceu em São Luís do Maranhão, a 11 de dezembro de 1933, e faleceu em 1999, aos 66 anos de idade, aqui em Brasília, onde era pioneiro. Funcionário do Banco do Brasil e, formado em direito, exerceu a advocacia em seu escritório particular e dando assessoria a diversos órgãos governamentais.

 

                        Exímio tocador de cavaquinho, fez da música e da boemia seu estilo de vida. Cercado de grandes instrumentistas que o acompanhavam, era figura carimbada na noite brasiliense, nos inferninhos, nas boates, em bares, em clubes, em festas familiares, enfim, onde quer que o convidasse, sempre se apresentando graciosamente, pelo prazer de tocar, de alegrar a vida. Principalmente onde houvesse mulher e farta munição de boca: tira-gosto, uísque, cachaça, cerveja e outros mais.

 

                        Mister Six tinha um grupo seleto: violão de 7 cordas, violão de 6 cordas, bandolim, cavaquinho centro, cavaquinho solo – ele mesmo –, sanfona e pandeiro. Mas não era um grupo fechado. Admitia qualquer um que com ele quisesse tocar, com foi comigo e meu trombone.

 

                        Aconteceu em 1973. Maria Alcina acabara de ressuscitar Carmen Miranda, ao incluir em seu LP Maria Alcina, recém-lançado, dois sucessos da Pequena Notável: Alô, Alô, samba de André Filho, e Como “Vaes’ Você, marchinha de Ary Barroso. Foi tremendo sucesso no mundo gay, que organizou um desfile de travestis, na Boate Sereia, não mais existente, todos eles caracterizados de Carmen. Convidado para animar a festa, compareci, lá encontrando já em ação a turma do Mister Six, à qual me incorporei. Noite de esfuziante brilho, tanto dos trajes dos desfilantes, quanto do conjunto musical, modéstia à parte.

 

 

                        Em 1998, pouco antes de morrer, Mister Six me presenteou com esse livro, lançado naquele ano, cujo tema dominante e, segundo suas próprias palavras no autógrafo é “minhas lembranças orgíricas.”

 

                        Há muito, ele vinha cobrado pelos familiares e amigos para que escrevesse suas memórias. Mas só se dispôs a começar o trabalho porque quebrou o pé direito, numa leve topada no Aeroporto do Recife, quando retornava a Brasília, depois de uma batalha jurídica para a retomada da gerência de TV O Norte aos seus legítimos proprietários. Na convalescença, achou tempo para transformar-se em escritor.

 

                        São histórias hilariantes mesmo, nas quis se comprovam seu espírito seresteiro, boêmio e putanheiro. Vou contar-lhes duas.

 

A VISITA FRUSTRADA ÀS GENITORAS - Numa Semana Santa, Mister Six aproveitou para visitar Dona Neuza, sua mãe, em são Luís. Ao entrar no avião, encontrou seu amigo Manoel Lopes, o Manolo, funcionário da Câmara dos Deputados e exímio sapateador, que ia à Capital Ludovicense com o mesmo propósito. Ao chegarem lá, não havia parente algum para recebê-los. Resolveram pegar o mesmo táxi rumo à cidade. Já embarcados, perguntaram ao motorista se, no trajeto, havia algum local para molharem a goela. O motorista respondeu que, se eles gostavam de “casas de mulheres”, havia, bem perto, o Solar de Dona Neuza, com lindas moçoilas. Ao ouvir o nome de sua genitora, Mister Six aprovou no ato. Em lá chegando, foram fidalgamente recebidos pela Diretora do ambiente, que os acomodou, informando que as meninas estavam na praia, mas logo retornariam Enquanto esperavam, Mister Six pegou o cavaquinho, dando início a uma tocata regada a cerveja, uísque e tira-gosto, com o Manolo a sapatear. Por lá se hospedaram e por lá foram ficando. Com o retorno das meninas, a coisa esquentou. A temporada durou cerca de uma semana de choro, sapateado e raparigagem, após o que regressaram a Brasília, sem verem as respectivas genitoras, com as quais só falaram por telefone, após sua chegada na Capital Federal.

 

A MERDIFICAÇÃO DA CABELEIRA DO MAESTRO - O astro é o exímio violinista Ricardo Wagner, famoso por sua imensa prole legal, acrescida de outros descendentes oriundos de aventuras extraconjugais, pelo que era reconhecido com raparigueiro juramentado. Estando Mister Six hospedado no antigo Empire Hotel, no Rio de Janeiro, recebeu ele visita do amigo violinista no último andar, onde funcionava um requintado restaurante de comidas baianas. O virtuoso chegou acompanhado de uma de suas concubinas, linda gauchinha descendente de italianos chamada Sofia. No almoço, caruru, efó, vatapá, moqueca de siri mole, bobó de camarão, etc., tudo com leite de coco de dendê, bem apimentado e regado a vinho branco. Terminado o ágpe, Ricardo pediu a Mister Six a chave do apartamento para uma rápida incursão sentimental, sendo imediatamente atendido pelo amigo, que ali ficou esperando a volta dos pombinhos. De repente, quem lhe aparece é o mensageiro do hotel, comunicando que o músico devia estar com algum problema, pois acabara de fazer estranha encomenda: seis vidros de xampu, condicionadores de teores diversos, dois pentes finos, três vidros de sabonete líquido, além de meia dúzia de tolhas de rosto. Diante do inusitado, Mister Six rumou para o apartamento, sendo interceptado pela garota Sofia, que descreveu a ocorrência: estando os dois em prefeita coalizão amorosa, resolveram apelar para um posicionamento invertido, cognominado soixante-et-neuf, quando ela, por cima, se sentiu, repentinamente, mal da barriga, explodindo, sem querer, um violento jato de merda, com perfume de dendê, sobre a cabeleira do parceiro que, em defesa, empurrou suas nádegas para a frente, ocasionando um segundo jato, ainda mais forte sobre seus olhos. E ao pobre maestro, cego e merdificado, só restou correr para o banheiro, em busca de assepsia geral.

 

                        Esta, por ter acontecido muito comigo durante meu tempo útil de trombonista, merece transcrição.

 

 

                        “Até hoje, por incrível que pareça, os músicos são discriminados, porque a maioria pensa que eles, não obstante exercerem essa magnífica profissão, exibem-se não como meio de vida, porém como divertimento. Dentro desse equivocado entendimento, vêm sendo explorados, principalmente os instrumentistas, pela distorcida demanda do mercado. Do mesmo modo, com raríssimas exceções, também são considerados de nível social inferior.

 

                        “Vários de nossos artistas ligados ao gênero chorístico, entre os quais pessoas de alto gabarito em outras atividades, foram convidados para uma recepção numa mansão do Lago Sul, bairro elegante, onde reside a classe alta de Brasília. 

                        “Formamos, então, uma pequena caravana, e partimos, juntos, para o endereço indicado. Éramos, mais ou menos, dez cavalheiros, cada qual empunhando seu instrumento. 

                        “Ao tocarmos a campainha, no interfone, a dona da casa perguntou quem éramos. 

                        “– Somos os músicos! – eu respondi displicentemente. 

                        “Vejam o que ela disse: 

                        “– Está bem! Um momentinho! Vou mandar abrir a entrada de serviço! 

                        “Em fila indiana, já combinados, atendemos à recomendação. 

                        “Na sala principal, cumprimentamos todos os convidados e os donos da casa, saindo pela imponente porta social, sem dizermos absolutamente mais nada. 

                        “A festa, simplesmente, em respeito a nós mesmo, ficou sem música.”

 

                        Mister Six, além desse divertidíssimo livro, deixou-nos este maravilhoso CD, verdadeira raridade, não encontrada no mercado fonográfico, para marcar sua passagem entre nós, secundado por seu excelente grupo de amigos chorões:

 

 

                        Como amostra da arte de Mister Six e seu cavaquinho, escolhi o chorinho Rossinando, composição sua em homenagem ao bandolinista recifense Rossini Ferreira, produtor do CD       que, com ele, aparece na capa. Vamos ouvi-lo:

 

 

 

 

 

 

 


domingo, 11 de fevereiro de 2018 as 09:07:20

Antenor Albuquerque
disse:

Mestre Raimundo Floriano de Albuquerque e Silva, prestas um grande serviço a cultura e a história contemporânea popular brasileira. Acabo de tornar-me seu súdito e fã. Um forte abraço. ( Antenor Albuquerque - Campinas Sp)


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domingo, 11 de fevereiro de 2018 as 09:06:54

Raimundo Floriano
disse:

Meu Caro Antenor, parente por afinidade, Obrigado! Continue prestigiando nosso Almanaque. Um abraço!


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