Almanaque Raimundo Floriano
(Cultural, sem fins comerciais, lucrativos ou financeiros)


Raimundo Floriano de Albuquerque e Silva, Editor deste Almanaque, também conhecido como Velho Fulô, Palhaço Seu Mundinho e Mundico Trazendowski, nascido em Balsas , Maranhão, a 3 de julho de 1936, Católico Apostólico Romano, Contador, Oficial da Reserva do Exército Brasileiro, Funcionário Público aposentado da Câmara dos Deputados, Titular da Cadeira nº 10 da Academia Passa Disco da Música Nordestina, cuja patrona é a cantora Elba Ramalho, Mestre e Fundador da Banda da Capital Federal, Pesquisador da MPB, especializado em Velha Guarda, Música Militar, Carnaval e Forró, Cardeal Fundador da Igreja Sertaneja, Pioneiro de Brasília, Xerife nos Mares do Caribe, Cordelista e Glosador, Amigo do Rio das Balsas, Inventor da Descida de Boia, em julho de 1952, Amigo da Fanfarra do 1° RCG, autor dos livros O Acordo PDS/PTB, coletânea de charges, Sinais de Revisão e Regras de Pontuação, normativo, Do Jumento ao Parlamento, com episódios da vida real, De Balsas para o Mundo, centrado na navegação fluvial Balsas/Oceano Atlântico, Pétalas do Rosa, saga da Família Albuquerque e Silva, Memorial Balsense, dedicado à história de sua terra natal, e Caindo na Gandaia, humorístico apimentado, é casado, tem quatro filhos, uma nora, um genro e dois netos e reside em Brasília, Distrito Federal, desde dezembro de 1960.

Arthur Azevedo domingo, 20 de novembro de 2016

QUESTÃO DE HONRA - CONTO DO MARANHENSE ARTHUR AZEVEDO

QUESTÃO DE HONRA

Arthur Azevedo

 

                        Eram sete horas da manhã. Braga Lopes, sentado numa deliciosa chaise-longue, brunia as unhas e contemplava, pela janela do gabinete, o Pão de Açúcar, que por um belo efeito de luz, parecia de madrepérola.

                        Angélica entrou no gabinete, e bateu de leve no ombro do marido.

                        — Preciso de quinhentos mil-réis.

                        — Já?

                        — Já.

                        Por única resposta, Braga Lopes apontou para uma carta aberta sobre a secretária de pau-rosa.

                        Angélica leu: o senhorio reclamava, em termos violentos, não sei quantos meses atrasados do aluguel do prédio nobre.

                        A moça encolheu os ombros, saiu arrebatadamente e mandou atrelar. Fez ligeira, mas elegante toilette de passeio, e, calçando as luvas de pele da Suécia, recomendou ao engravatado copeiro que não a esperasse para almoçar.

                        O marido ouviu rodar o coupé e chegou à janela. Acompanhou com a vista o trajeto do carro em quase toda a curva da praia de Botafogo, até que o viu desaparecer na rua Marquês de Abrantes.

                        — Aonde irá ela arranjar quinhentos mil-réis a esta hora? – Pensou, e, sentando-se e novo, recomeçou a sua ocupação predileta – brunir as unhas.

                        Ao entrar no coupé, Angélica dissera ao boleeiro:

                        — Vamos à baronesa.

                        A baronesa ainda estava no leito. Angélica foi introduzida no dormitório.

                        — Preciso e quinhentos mil-réis.

                        — Já?

                        — Já.

                        — Impossível, minha amiga; o barão está em Petrópolis.

                        — Petrópolis em junho!

                        — Foi a negócio e não a passeio. O dinheiro está com ele, bem sabes. Sinto não te poder servir nesse momento, como noutras ocasiões o tenho feito. Não é a primeira vez que tu...

                        — Bem... desculpe... adeus, baronesa.

                        Angélica a sair, e o barão a entrar.

                        — Oh! Madame Braga Lopes! A que feliz acaso devemos tão matinal visita?

                        — Não tinha ido para Petrópolis, barão?

                        — Petrópolis em junho! Jamais de la vie! Seria ridículo! Saí muito cedo por necessidade e só contava estar de volta ao meio-dia. Esteve com a baronesa?

                        — Sim, senhor barão; passe bem.

                        E Angélica, mordendo os beiços de raiva, entrou rapidamente no coupé, cuja portinhola o barão abriu pressuroso com a mão esquerda, enquanto a direita fazia o chapéu descrever uma pequena reta, muito graciosa, à inglesa. O boleeiro voltou-se para receber as ordens da patroa.

                        — Vamos às Guedes.

                        O barão fechou a portinhola, e o carro pôs-se em movimento. As Guedes eram três irmãs solteironas. Moravam na rua do Conde, perto do Catumbi.

                        Angélica esperou por elas durante quarenta minutos. Empregou todo esse tempo a passear de um lado para o outro, muito contrariada por se ver ali, numa rua tão burguesa, naquela velha sala sem tapeçarias, nem reposteiros, nem bibelôs, fastidiosa com sua esmagadora mobília de jacarandá e os seus venerandos castiçais de prata, resguardados em monstruosas mangas de vidro. Numa velhíssima tela, o pai das Guedes, pintado a óleo, muito sério, inteiramente barbeado, de óculos, o pescoço escondido numa abundante gravata de cinco voltar, as mangas da casaca muito apertadas, as mãos a emergirem das rendas dos manguitos, olhava fixamente para Angélica, e parecia dizer-lhe:

                        — Que vens aqui fazer? Não arranjas nada!

                        Afinal, apareceram as Guedes. Entraram as três ao mesmo tempo, com pequeninos gritos de surpresa alegre, fazendo um gasto enorme de beijos, abraços, pancadinhas de amor e frases candongueiras: – Mas que milagre é este? Por isso é que o dia está tão bonito! Vou mandar repicar os sinos!

                        — Sente-se, dona Angélica.

                        — Não; a demora é pequena. Vinha pedir-lhes um grande obséquio. Preciso de quinhentos mil-réis.

                        As Guedes entreolharam-se estupefatas.

                        A recusa foi categórica e formal. Não podiam naquela ocasião dispor nem de quinhentos réis, quanto mais de quinhentos mil-réis. A “pouca vergonha” de 13 de Maio deixara-as quase na miséria. Se não possuíssem aquela “humilde choupana” e mais dois sobrados na rua dos Pescadores, estariam reduzidas à miséria. Angélica saiu despeitadíssima; entretanto, não desanimou. O passivo e solícito cocheiro levou-a ainda à presença de seis amigas ricas, e todas lhe disseram não! Em toda parte, a mísera encontrava esse monossílabo terrível!

***

                        Ao meio-dia, humilhada, indisposta, em jejum, com os nervos excitados por aquela violenta caçada, por aquele perseguir uma quantia miserável, que lhe fugia das mãos obstinadamente, a pobre Angélica teve um gesto expressivo e supremo de resolução e coragem.

 

                        Alguns minutos depois, o coupé deixava-a no largo de S. Francisco. Ela tomou a pé a rua do Rosário, atravessou a da Quitanda, dobrou a da Alfândega, e, sobressaltada, palpitante, com    muito medo de que a vissem, entrou precipitadamente num casarão de dois andares.

                        No corredor, hesitou alguns segundos, antes de subir; mas, enchendo-se de ânimo, galgou ligeiramente as escadas até o segundo andar. Abriram-lhe logo a porta, e ela, trêmula, ofegante, com as mãos muito frias, sem poder proferir uma palavra, caiu nos braços de um homem, que a recebeu com um beijo, e lhe disse:

                        — Estava escrito que mais dia menos dia a senhora se compadeceria dos meus tormentos...

                        — O que me traz à sua casa é uma questão de honra; conto com sua discrição e seu cavalheirismo. Preciso de...

                        Angélica envergonhou-se de se vender por tão pouco, e quadruplicou a quantia:

                        — Preciso de dous contos de réis.

                        — Já?

                        — Já.

***

                        O relógio da Candelária batia duas horas, quando madame Braga Lopes, perfeitamente almoçada, desceu as escadas da casa da rua da Alfândega. Pode ser que o arrependimento aparecesse mais tarde; naquele momento ela era toda satisfação e triunfo.

                        A gentil pecadora entrou radiante na rua do Ouvidor, e foi ter ao Palais-Royal.

                        — Ainda aí está? – Perguntou a um dos caixeiros da loja com receio de que mais uma vez lhe dissessem não.

                        — Ainda, e às suas ordens.

                        — Bom – acrescentou ela, depois de um prolongado suspiro – aqui estão os quinhentos mil-réis. Mande-lo à casa.

***

                        — Com efeito! – Exclamou Braga Lopes quando Angélica lhe apareceu às três horas. – Com efeito! Passaste o dia inteiro na rua!...

                        — Sim, vê lá se achas que uma mulher, que só tem brilhantes falsos e joias de pechisbeque, possa facilmente arranjar quinhentos mil-réis...

                        — Mas para que precisavas tu desse dinheiro? – Perguntou indiferentemente o extraordinário marido.

                        — Uma questão de honra, meu amigo. Imagina que me apaixonei por um vestido que vi ontem na vitrine do Palais-Royal; imagina que a Laurita Lobo queria por força ficar com ele; imagina que o dono da loja declarou que o entregaria à primeira das duas que lhe levasse quinhentos mil-réis!...

                        — Ah! Bom! Assim, sim –, obtemperou Braga Lopes, que recomeçou fleumaticamente a sua ocupação predileta — brunir unhas.

(Do livro Contos Fora da Moda)

 


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