Almanaque Raimundo Floriano
(Cultural, sem fins comerciais, lucrativos ou financeiros)


Raimundo Floriano de Albuquerque e Silva, Editor deste Almanaque, também conhecido como Velho Fulô, Palhaço Seu Mundinho e Mundico Trazendowski, nascido em Balsas , Maranhão, a 3 de julho de 1936, Católico Apostólico Romano, Contador, Oficial da Reserva do Exército Brasileiro, Funcionário Público aposentado da Câmara dos Deputados, Titular da Cadeira nº 10 da Academia Passa Disco da Música Nordestina, cuja patrona é a cantora Elba Ramalho, Mestre e Fundador da Banda da Capital Federal, Pesquisador da MPB, especializado em Velha Guarda, Música Militar, Carnaval e Forró, Cardeal Fundador da Igreja Sertaneja, Pioneiro de Brasília, Xerife nos Mares do Caribe, Cordelista e Glosador, Amigo do Rio das Balsas, Inventor da Descida de Boia, em julho de 1952, Amigo da Fanfarra do 1° RCG, autor dos livros O Acordo PDS/PTB, coletânea de charges, Sinais de Revisão e Regras de Pontuação, normativo, Do Jumento ao Parlamento, com episódios da vida real, De Balsas para o Mundo, centrado na navegação fluvial Balsas/Oceano Atlântico, Pétalas do Rosa, saga da Família Albuquerque e Silva, Memorial Balsense, dedicado à história de sua terra natal, e Caindo na Gandaia, humorístico apimentado, é casado, tem quatro filhos, uma nora, um genro e dois netos e reside em Brasília, Distrito Federal, desde dezembro de 1960.

Festejos Religiosos sábado, 08 de outubro de 2016

SANTO ANTÔNIO, SEU FESTEJO E SEU HINO

SANTO ANTÔNIO, SEU FESTEJO E SEU HINO

Raimundo Floriano

 

Santo Antônio

 

                        Santo Antônio, Padroeiro de Balsas, minha terra natal, sertão sul-maranhense, tem seu Festejo no período que vai de 1º a 13 de junho. É ele o Santo mais popular do Brasil, venerado como Padroeiro dos Pobres e Santo Casamenteiro, com seu nome sempre invocado para se achar objetos perdidos.

 

                        Fernando Bulhões – nome de batismo – nasceu em Lisboa, Portugal, em 15 de agosto de 1195, numa família de muitas posses, e veio a falecer na cidade italiana de Pádua, no dia 13 de junho de 1231. Conhecido como Antônio de Pádua, pela morte, e Antônio de Lisboa, pelo nascimento, seria mais apropriado chamá-lo apenas de Antônio de Lisboa, assim como a cidade de Assis, na Itália, deu nome a São Francisco.

 

                        Aos 15 anos, entrou para um convento agostiniano, primeiro em Lisboa e depois em Coimbra, onde se ordenou. Em 1220, trocou o nome para Antônio, ao ingressar na Ordem Franciscana, esperando, a exemplo dos mártires, pregar aos sarracenos no Marrocos.

 

                        Após um ano de catequese em Marrocos, teve de deixá-lo, devido a uma enfermidade, e seguiu para a Itália. Indicado Professor de Teologia pelo próprio São Francisco de Assis, lecionou nas Universidades de Bolonha, Toulouse, Montpellier, Puy-en-Velay e Pádua, adquirindo grande renome como orador sacro em Portugal, no Sul da França e na Itália.

 

                        Ficaram célebres os sermões que proferiu em Forli, Provença, Languedoc e Paris. Em todos esses lugares, suas prédicas encontravam forte eco popular, pois lhe eram atribuídos feitos prodigiosos e milagres, o que contribuía para o crescimento de sua fama de santidade.

 

                        A saúde sempre precária levou-o a recolher-se ao convento de Arcella, perto de Pádua, onde escreveu uma série de sermões para domingos e dias santificados, alguns dos quais seriam reunidos e publicados entre 1895 e 1913.

 

                        Antônio faleceu, como foi dito, a 13 de junho de 1231, vítima de uma crise de hidropisia – acúmulo patológico de líquido seroso no tecido celular ou em cavidades do corpo. A 13 de maio de 1232, apenas 11 meses depois de sua morte, foi canonizado pelo Papa Gregório IX.

 

                        Sobre seu túmulo, em Pádua, foi construída a Basílica a ele dedicada.

 

                        A profundidade de seus textos doutrinários fez com que, em 1946, o Papa Pio XII o declarasse Doutor da Igreja. Mesmo com esse pomposo título, o monge franciscano conhecido como Santo Antônio de Pádua ou de Lisboa tem sido, ao longo dos séculos, objeto de grande devoção popular. Sua veneração é muito difundida nos países latinos, principalmente em Portugal e no Brasil.

 

                        Sua instituição como Padroeiro de Balsas deu-se com a chegada àquela região do baiano Antônio Jacobina, no final do Século XIX, considerado o verdadeiro fundador da cidade, que, por ser devoto de Santo Antônio, ali construiu sua primeira capela, dando início aos festejos anuais, aos quais acorriam moradores das redondezas, surgindo daí o povoamento com o nome de Vila Nova, depois mais conhecido como Santo Antônio de Balsas.

 

Igreja Matriz de Santo Antônio de Balsas

 

                        Muito se tem escrito sobre as festas religiosas de nosso sertão. Escolhi um poema do saudoso conterrâneo Sileimann Kalil Botelho, falecido a 24.4.13, aos 86 anos de idade, em Sobradinho (DF), como símbolo dessa nossa literatura:

 

FESTAS DE JUNHO

 

Na minha terra, tempo de menino,

Junho era festa pelo mês inteiro.

Sem importar se noite ou sol a pino,

Trezena a Santo Antônio vindo primeiro.

 

 Treze dias de festa ao peregrino

E milagroso Santo Padroeiro;

Moças solteiras, quase em desatino,

Pedindo noivos ao casamenteiro.

 

Depois vinha o São João das bandeirolas:

Multicores balões subiam ao espaço

Simbolizando sonhos e esperanças.

E enamorados jovens e moçoilas

Soltavam fogos com desembaraço,

Iam às quadrilhas, se entreter nas danças.

 

Depois vinha o São João dos Caipiras,

Das fogueiras brilhantes, das Quadrilhas

Onde todos dançavam com fervor,

As tradições das gentes dos Timbiras,

Os doces, os petiscos-maravilhas,

Incontrastáveis relações de amor.

 

A TRADIÇÃO DO FESTEJO DE SANTO ANTÔNIO

 

                        Saí de Balsas no dia 5 de fevereiro de 1949, para estudar em Floriano, aos 12 anos de idade, e as lembranças do Festejo de Santo Antônio, que guardo ainda bem vivas, indeléveis no coração, remontam-se, hoje, ao período de minha venturosa infância balsense.

 

                        Padre Clóvis era o Vigário da Paróquia e, no Festejo, era auxiliado pelas mãos laboriosas de senhoras mães de família, algumas delas que ora menciono: Tia Antônia Albuquerque, Naninha Soares, Febrônia Tourinho, Zefinha Rocha, Naninha Cansanção, Ceci Florentino, Laura Rocha, Luzia Félix, Sindá Borba, Eva Solino, Milu Fonseca, Dolores Lima, Esperança Souza, Maria Luísa Solino, Petronilha Matos, Jesus Reis, Munduca Noleto, Alzira Barbosa, Emília Câmara, Justina Pires. Madrinha Ritinha, mulher de meu Tio Cazuza, sempre provia a mesa dos leilões com pratos de sua refinada culinária. Dona Maria Bezerra, minha saudosa mãe, entregava-se de corpo e alma à operosidade da festa, fazendo guloseimas, angariando joias e donativos, isto é, trabalhando dia e noite sem descanso. Esse fervor e essa dedicação transmitiram-se, mais tarde, para a Maria Alice, minha irmã, e, posteriormente, para a Isaurinha, sua filha.

 

                        O Festejo de nosso Padroeiro era esperado por toda a população urbana e rural, e os sertanejos de fora aproveitavam-no para levarem seus produtos, ansiosamente esperados, destacando-se frutas raras na cidade, como abacate, jaca e tangerina. Havia também as delícias vindas dos engenhos: garapa, rapadura, batida, tijolo, alfenim.

 

                        Os botequins, todos de palha, armados em frente à Igreja Matriz, exibiam, além das frutas da época, miudezas em geral, como cintos, linhas de pesca, sapatos, chapéus, utensílios domésticos, lanternas, bijuterias, espelhos e bugigangas diversas.

 

                        Em adição aos itens já citados, os botequineiros vendiam comidas e bebidas, destacando-se a gengibirra – produto regional –, conhaque e cachaça, muita cachaça. Cerveja, só nos raros botequins que possuíam geladeira a querosene. Não fazia diferença se a bebida fosse quente ou fria. No Festejo, Balsas transformava-se no maior exportador brasileiro de garrafas vazias.

 

                        Havia, também, vários tipos de jogo, como o do bicho, na roleta, e o do caipira, este bancado pelo Cadete, simpático e popular cidadão conterrâneo, que apregoava:

 

                        – Olha o jogo do caipira, quem mais bota, menos tira!

 

                        Na barba-de-são-severino, certo tipo de pescaria, com um molho de linhas, cada qual amarrada a objetos de pequeno valor, mas, no meio deles, um grande prêmio. O jogador pagava e escolhia a ponta da linha para puxar. Ganhava aquilo que tivesse a sina de arrastar. O marreteiro anunciava:

 

                        – Aqui é a barba-de-são-severino, jogam homens, mulheres e meninos e o povo aviciado. O homem que apanha da mulher, não vai dar parte ao delegado!

 

                        Ladeando a Matriz de Santo Antônio, as duas barracas da Paróquia, de madeira e tecido, nas quais eram oferecidas comidas típicas, saladas de fruta, café, chocolate, bolos da região, cerveja, refrigerante e refresco, que nós chamávamos de “gelado”. A renda maior, toda revertida para a Matriz, provinha dos leilões e da venda de votos para a Rainha da Festa. Luiz da Iaiá era o mais competente leiloeiro, apregoando as joias na força do gogó.

 

                        Nas madrugadas do primeiro e do último dia do Festejo, eram realizadas, no patamar da Matriz, as alvoradas festivas, com muito foguete, tendo a música a cargo do Martinho Mendes e Seu Conjunto. No mesmo molde, diariamente, ao meio-dia, depois do Terço, realizava-se a retreta.

 

                        A Missa era celebrada apenas no dia 1º, aos domingos e no dia 13 de junho, Dia do Padroeiro, e final do Festejo, quando a população se esmerava no trajar – “quebrar a tigela”, se vestindo roupa nova –, para louvar em grande estilo o Santo de sua devoção. Ao cair da noite do dia 13, saía a Procissão pelas ruas da cidade, com o andor do Padroeiro seguindo à frente, ladeado por duas colunas: à direita, os homens; à esquerda, as mulheres. A seguir, rezava-se a última trezena, depois da qual se dava a última quermesse, com a coroação da Rainha do Festejo.

 

                        Em 1999, decorridos 50 anos, voltei a assistir ao Festejo de Santo Antônio. Quanta coisa mudara!

 

                        A barraca era uma só. Acabara-se a disputa para ver qual a mais rendosa e também qual elegeria a Rainha. Os botecos, à frente da Matriz, agora num espaço denominado Iraque, esmeravam-se apenas na venda de cerveja e refrigerantes. As tendas dos camelôs substituíram os botequins com produtos sertanejos. O leilão e toda a animação da quermesse estavam sob a batuta do criativo Likuta, com seu serviço de som, preferido por sua habilidade no trato, versatilidade e simpatia. Eram os sinais evidentes do progresso, marcado pelas novidades advindas com o passar do tempo.

 

                        Algo não mudou. A religiosidade do povo balsense permanece forte, decidida, incondicional. E isso pode ser confirmado na Procissão do dia 13. Na última vez em que dela participei, calculei uma multidão de devotos que ultrapassava a casa dos dez mil!

 

                        E outro aspecto permanece igualmente imutável: a retreta ao meio-dia, na hora do Terço. A cargo do Mestre Riba e sua turma, essa retreta me leva como num passe de mágica a minha infância distante, o que me faz dela participar todos os dias, quando por lá me encontro. Em que pese a insensibilidade dos tempos modernos, é uma tradição que não pode se acabar.

 

                        Tenho praticado minha devoção a Santo Antônio com pequenos gestos, no intuito de cada vez mais divulgar seu santo nome sempre que me surge a oportunidade. Em frente à Igreja Matriz, lancei os quatro mais conhecidos de meus livros: Do Jumento ao Parlamento, na noite de 12 de junho de 2003, e De Balsas para o Mundo, Memorial Balsense e Caindo na Gandaia, na noite de 12 de junho de 2010.

 

                        A gravação do Hino de Santo Antônio, composição de Eleutério Rezende, a duas vozes, acompanhadas por instrumentos de sopro e bateria, num andamento vibrante, como deve ser todo hino de louvor, era um sonho que acalentei por muitos anos e só em 2013 consegui realizar. Eis a letra e a partitura, esta elaborada pela Professora Silvana Teixeira, residente em Brasília:

 

 

                        Aqui, a letra em sua íntegra:

 

 

                        A gravação ficou a cargo dos cantores brasilienses Mércia Cairis e Felipe Rodrigues, do Estúdio Verbo Vivo:

 

Mércia Cairis e Felipe Rodrigues

 

                        E, fechando com chave de ouro esse preito a Santo Antônio, produzi também, com o apoio técnico do amigo Jorge Rocha, meu Assessor Performático, um vídeo, ao qual vocês poderão assistir, clicando neste link:

 

 

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